O Jardim Botânico de São Paulo recebe a exposição “Povos Originários”, que destaca a diversidade cultural indígena no Brasil e na Amazônia. A mostra reúne mais de 800 peças originais e abre ao público neste domingo (19), Dia dos Povos Originários, com entrada gratuita para visitantes do parque.
O acervo apresenta artefatos de mais de 100 povos indígenas e revela aspectos do cotidiano, da espiritualidade e da organização social dessas comunidades. A exposição também inclui peças com até 11 mil anos, organizadas em espaços que percorrem desde as culturas originárias até os impactos da colonização europeia.
Entre os destaques, a mostra exibe objetos pessoais do Marechal Cândido Rondon, conhecido por sua atuação na defesa dos povos indígenas e por fundar o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que antecedeu a Funai. O público encontra cartas com conteúdo humanitário e itens de uso cotidiano, como perneira militar, isqueiro e capacete.
Outro ponto de atenção é a luva ritual de formigas tucandeiras, utilizada pelo povo Sateré-Mawé em ritos de passagem. Durante a cerimônia, jovens inserem as mãos em luvas com formigas de ferrão venenoso, em um teste de resistência e maturidade.
A exposição também apresenta uma borduna cerimonial do povo Rikbaktsá, ornamentada com penas e cabelos naturais, símbolo de liderança e autoridade dentro da comunidade.
A expografia utiliza iluminação em tons quentes para valorizar texturas e cores dos materiais naturais, reforçando a experiência imersiva do visitante.
As peças pertencem ao acervo do Instituto Cultural Soto. A visitação ocorre diariamente, das 9h às 17h, no Jardim Botânico de São Paulo.
Serviço
Foto: Divulgação Zoo São Paulo
Jardim Botânico: ingresso antecipado por R$ 19,90; no dia, R$ 39,90
Zoológico de São Paulo: antecipado por R$ 59,90; no dia, R$ 119,90
Simba Safari: antecipado por R$ 59,90; no dia, R$ 119,90
Combo com cinco atrações (Zoo SP, Jardim Botânico, Simba Safari, Mundo Dino e Acqua Zoo): de R$ 379,50 por R$ 129,90 antecipado; no dia, R$ 149,90
Imagine um rio na Amazônia onde a água borbulha, o vapor sobe entre as árvores e qualquer animal que caia dentro é cozinhado de dentro para fora em questão de minutos. Parece fantasia. Mas o Shanay-timpishka, como o chamam os povos indígenas da região, existe de verdade. E por séculos, a ciência descartou sua existência como lenda.
Foi preciso um geocientista teimoso, histórias de infância e uma revelação inesperada de uma tia para que o mundo científico finalmente prestasse atenção. O que Andrés Ruzo encontrou quando adentrou a selva peruana não era apenas um rio quente. Era um sistema geotérmico único no planeta, um ecossistema de extremos, um local sagrado e, ao mesmo tempo, um laboratório natural que pode mudar o que entendemos sobre a resiliência da vida.
Pelas altas temperaturas, o rio traz consequências drásticas para a floresta tropical ao redor (Foto: Riley Fortier)
Um mito que durou séculos
A história do Shanay-timpishka começa muito antes da ciência se interessar por ele. Os Incas já conheciam o rio. Conquistadores espanhóis mencionaram sua existência em relatos do século XVI. Mas a ciência moderna os ignorou, e por um bom motivo: a lógica geológica dizia que era impossível.
Rios termais desse porte aparecem quase sempre perto de vulcões ativos. Na bacia amazônica, não há vulcões. Logo, um rio fervente ali dentro era considerado uma impossibilidade, não um objeto de estudo. O ceticismo era a resposta padrão quando Ruzo levantava o assunto entre colegas.
O que quebrou esse impasse foi simples. Ao compartilhar sua frustração com a família, sua tia o surpreendeu com uma afirmação direta: ela já havia nadado no rio. Essa confirmação, vinda de alguém de confiança, foi suficiente para transformar a dúvida em expedição. Ruzo organizou a viagem, adentrou a floresta guiado pela tia e encontrou o que a ciência havia negado durante décadas: colunas de vapor subindo entre as árvores e um rio com temperatura média de 86 °C.
Como um rio ferve sem vulcão?
Essa é a pergunta que ainda intriga os pesquisadores. Sem a presença de atividade vulcânica nas proximidades, de onde vem tanto calor?
A hipótese mais consolidada aponta para um sistema geotérmico alimentado por falhas geológicas profundas. A água, possivelmente originada do degelo dos glaciares nos Andes, infiltra-se pelas fissuras da crosta terrestre. A grandes profundidades, o calor natural do interior do planeta a superaquece. Então, essa água pressurizada sobe rapidamente pela mesma rede de fraturas e emerge como fontes termais que alimentam o leito do rio.
Há um detalhe que sustenta essa teoria: a pureza da água. Se ela passasse muito tempo no subsolo, ficaria saturada de minerais. A ausência dessa contaminação sugere que o percurso é rápido, quase uma “via expressa” geológica. Calor sem rastro, como se a Terra aquecesse a água sem querer guardá-la.
O que torna o Shanay-timpishka ainda mais raro é que esse processo acontece na Amazônia, longe de qualquer zona vulcânica reconhecida. Trata-se, portanto, de uma anomalia dentro de uma anomalia.
A Yacumama e o saber que a ciência só agora entende
Para a comunidade Asháninka, o rio nunca foi um mistério. Era presença, poder e origem. A tradição indígena fala da Yacumama, a “Mãe das Águas”, um espírito de serpente gigante que habita o rio e dá à luz tanto as águas quentes quanto as frias. A nascente, onde uma rocha assume a forma da cabeça de uma serpente, é o ponto mais sagrado do território.
Esse mito, que à primeira vista parece apenas narrativa, funciona como um modelo preciso do fenômeno observável. Ele codifica o processo hidrológico em linguagem simbólica e o transmite de geração em geração, preservando o conhecimento sobre o rio muito antes de qualquer expedição científica. Um xamã local guarda e protege o local, e a comunidade usa as águas no cotidiano: para cozinhar, limpar e em práticas medicinais.
O rio, nesse sentido, é simultaneamente fenômeno geológico e patrimônio cultural vivo. Ignorar um desses aspectos significa entender apenas metade da história.
Vida extrema e o aviso climático que ninguém esperava
O Shanay-timpishka não é apenas letal. É também lar. Nas suas águas, prosperam organismos extremófilos, micróbios que não apenas toleram temperaturas que matariam qualquer mamífero, mas que dependem delas para sobreviver. Pesquisadores já identificaram novas espécies entre esses organismos, cujas enzimas têm potencial enorme para aplicações em biotecnologia e medicina.
Mas há outro dado que merece atenção, especialmente para quem trabalha com terra, clima e produção. A vegetação nas margens do rio oferece um retrato perturbador do que o aquecimento global pode fazer com a Amazônia. Quanto mais próxima das águas quentes, mais empobrecida é a diversidade de plantas. A floresta, nesse gradiente térmico, mostra exatamente como reage ao calor extremo: ela encolhe, se simplifica e perde biodiversidade.
É um laboratório natural que antecipa cenários que os modelos climáticos já projetam para décadas à frente. E está funcionando agora, no meio da selva peruana, sem precisar de nenhum experimento controlado.
Uma maravilha ameaçada pela pressão que vem de fora
O Shanay-timpishka enfrenta ameaças concretas. O desmatamento avança. A mineração ilegal se expande. E a pressão agrícola sobre os biomas amazônicos não dá sinais de recuo. São forças que não respeitam fronteiras culturais nem geológicas.
O “Boiling River Project”, iniciativa liderada por Ruzo, tenta unir ciência moderna e conhecimento ancestral para garantir a preservação do rio e da floresta ao redor. Não é uma causa abstrata. É a tentativa de manter vivo um lugar que, se destruído, leva consigo informações sobre a vida no planeta que talvez não possamos recuperar de outra forma.
A história do Shanay-timpishka nos lembra que a Amazônia ainda guarda fenômenos que desafiam o que sabemos. E nos pergunta, sem muita gentileza, se vamos entender isso antes ou depois de perder o que resta.
A produção sustentável de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares da Amazônia Legal ganha um reforço de R$ 80 milhões do Fundo Amazônia. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) lançaram, nesta terça-feira (3), um edital público para selecionar os projetos que receberão os investimentos.
A iniciativa integra o projeto “Florestas e Comunidades: Amazônia Viva” e tem como objetivo principal superar os principais obstáculos que historicamente limitam a geração de renda na região. Os recursos financiarão soluções para gargalos em logística, beneficiamento, armazenamento, adequação sanitária e, principalmente, no acesso a mercados para produtos da sociobiodiversidade.
Como funciona o edital e quem pode participar
Cooperativas, associações e organizações da sociedade civil da Amazônia Legal já podem apresentar suas propostas. O edital priorizará projetos com maior número de beneficiários, protagonismo feminino, participação de jovens e atuação em cadeias produtivas como açaí, castanha-do-Brasil, babaçu, mel e pesca artesanal.
Os valores dos apoios variam entre R$ 500 mil e R$ 2,5 milhões por projeto, com previsão de selecionar pelo menos 32 propostas. Os recursos podem custear desde assistência técnica e obras civis até a aquisição de máquinas, equipamentos e a realização de consultorias especializadas.
Foco na infraestrutura e geração de renda
Líderes das instituições envolvidas destacam que o investimento vai direto para a ponta da cadeia produtiva. “Esse apoio do Fundo Amazônia chega à ponta, fortalecendo quem produz de forma sustentável. Ao ampliar o acesso a infraestrutura e mercados, criamos condições reais para geração de renda, redução das desigualdades e manutenção da floresta em pé”, afirmou Aloizio Mercadante, presidente do BNDES.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, reforçou a conexão entre economia e conservação. “Fortalecer as atividades produtivas dessas populações significa valorizar os saberes locais e proteger a floresta”.
Conexão com políticas públicas
Além do mercado privado, os projetos deverão fortalecer a participação das comunidades em programas públicos de abastecimento, como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar).
O lançamento do edital ocorreu em um webinar transmitido pelas instituições. A íntegra do documento e todas as regras para participação já estão disponíveis para consulta pública.
O Ibama autorizou a captura e comercialização legal do pirarucu (Arapaima gigas) na Terra Indígena Vale do Javari, localizada no extremo oeste do Amazonas. A decisão beneficia diretamente comunidades indígenas que vivem em uma das regiões mais isoladas da Amazônia.
Quatro entidades receberam autorização para realizar o manejo sustentável do peixe. São elas: Associação dos Produtores Rurais e Preservadores da Comunidade São Rafael; Associação Marubo do Médio Curuçá; Cooperativa de Preservação Etnoambiental Autônoma dos Kanamaris da Aldeia São Luiz; e Organização Geral dos Mayuruna. A prefeitura de Atalaia do Norte apoiou o processo.
As autorizações contemplam vários territórios e aldeias da região. No Rio Itacoaí, no Complexo Lacustre de São Rafael, a captura está liberada para 154 unidades do pirarucu. No Médio Javari e Médio Curuçá, que inclui aldeias como São Sebastião e Nova Página, a cota é de 90 peixes. Para o Médio Javari – Kanamari, o limite autorizado é de 191 unidades. E no Rio Pardo, Baixo e Médio Rio Curuçá, e Médio Javari, as aldeias Nova Esperança, Bela Vista e outras podem capturar 216 pirarucus em 51 lagos.
Ao todo, o Ibama autorizou a captura de 649 pirarucus, com peso estimado em 51,9 toneladas. Esse manejo sustentável pode gerar até R$ 415 mil para as comunidades indígenas. Além da carne, as comunidades podem explorar comercialmente o couro, a carcaça e as vísceras do peixe.
Essa atividade tem base legal sólida. O manejo do pirarucu obedece a normas como a Instrução Normativa nº 34/2004, que determina tamanho mínimo e período de defeso reprodutivo, e outras regulações estaduais e federais. O peixe está listado no Anexo II da Convenção CITES, o que limita o comércio internacional e reforça a proteção da espécie.
A iniciativa fortalece a conservação da biodiversidade e oferece uma fonte sustentável de renda para as comunidades indígenas do Vale do Javari. Comprar pirarucu legal e manejado de forma sustentável ajuda a preservar a floresta e apoia diretamente quem vive e protege a Amazônia.