Uma pesquisa coordenada pela Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) demonstrou como mais que dobrar a produtividade do tambaqui criado em tanques-rede. Cientistas do projeto Monotamba obtiveram um ganho de peso de 1,7 kg em apenas dez meses, uma taxa 2,04 vezes superior ao resultado padrão da atividade, que é de cerca de 1 kg em doze meses. O avanço pode revolucionar a cadeia produtiva deste peixe nativo, o mais produzido no Brasil.
O segredo do sucesso combinou duas estratégias principais: o uso de populações apenas de fêmeas, que naturalmente crescem mais. E um rigoroso condicionamento alimentar desde a fase de recria. As fêmeas receberam o hormônio estradiol por seis semanas e se acostumaram a comer apenas ração em um Sistema de Recirculação de Água (RAS) indoor.
“O treinamento alimentar fez com que os peixes fossem treinados a comer ração mais cedo, tornando-os muito mais ávidos pela comida”, explicou a pesquisadora Flávia Tavares, líder do projeto. Esse condicionamento fez uma diferença crucial quando os animais foram transferidos para os tanques-rede no Lago de Palmas. Com o apetite aguçado, os tambaquis atingiram a marca de 1 kg em aproximadamente seis meses e meio, um tempo muito próximo ao alcançado pela tilápia, espécie dominante no mercado.
Melhorar a produção de tambaqui em tanque-rede é uma prioridade para a pesquisa, pois oferece uma forma eficiente e ambientalmente responsável de cultivo. A técnica pode impulsionar a inclusão socioprodutiva de piscicultores familiares, especialmente em regiões ribeirinhas, ao facilitar o acesso a mercados locais e reduzir custos de logística.
Foto: Siglia Souza/Embrapa
Os resultados zootécnicos são promissores, mas a equipe agora busca consolidar um pacote tecnológico completo para a espécie, algo que já existe para a tilápia. “Precisamos calcular os indicadores econômicos para ver se o tempo em sistema indoor compensa o custo para o produtor”, pondera Tavares. Outro foco é testar densidades de povoamento ainda maiores, potencialmente elevando para 50 kg/m³.
O potencial do tambaqui no Brasil
O tambaqui lidera a produção de peixes nativos no país. Dados do IBGE de 2023 mostram uma produção de 113,6 mil toneladas, que movimentou mais de R$ 1,2 bilhão. Rondônia, Roraima e Maranhão foram os maiores produtores. Apesar dos números expressivos, o potencial brasileiro, especialmente na Região Norte, é ainda maior.
Iniciativas como o Monotamba e o projeto BRS Aqua, que já havia reduzido o tempo para atingir 1 kg para nove meses, representam passos importantes. “Estamos avançando… Teremos espécies melhoradas e edição genômica. Tem tudo para dar certo, é um baita potencial que o tambaqui tem”, conclui a pesquisadora da Embrapa, traçando um futuro otimista para a cadeia produtiva desta espécie genuinamente brasileira.
O Espírito Santo recupera sua força na produção de peixes cultivados. O estado alcançou 7,1 mil toneladas em 2024, volume 73% superior ao registrado em 2017, quando a produção atingiu seu ponto mais baixo com 3,73 mil toneladas. A tilápia concentra praticamente toda a atividade aquícola estadual. A espécie responde por 99,46% da produção capixaba e registrou 7,03 mil toneladas em 2024. Os demais peixes representam menos de 1% do volume total.
O setor movimentou R$ 68,4 milhões em 2024, mais que o dobro dos R$ 26,3 milhões contabilizados em 2020. Os números demonstram não apenas a recuperação quantitativa, mas também o ganho de valor agregado na atividade.
A aquicultura capixaba atravessou um período de oscilações entre 2014 e 2020. A partir de 2021, o setor retomou trajetória consistente de crescimento, apoiado em modernização tecnológica e organização produtiva.
Linhares concentra quase metade da produção estadual
Três municípios concentram a maior parte da tilapicultura capixaba. Linhares lidera o ranking com 3,2 mil toneladas, equivalente a 45,5% do total estadual. Domingos Martins ocupa a segunda posição com 1,4 mil toneladas (20,05%), seguido por Marechal Floriano com 550 toneladas (7,82%).
Guarapari, Muniz Freire e Alegre também expandem seus sistemas produtivos. Esses municípios investem em tecnologias adaptadas às condições locais e ampliam sua participação no setor.
O crescimento recente reflete a capacidade do setor em incorporar inovações. Os produtores capixabas adotam melhoria genética, sistemas de aeração, alimentação balanceada e protocolos rigorosos de controle sanitário.
A tilapicultura capixaba conquista espaço no mercado pela regularidade do produto. A espécie atende tanto o varejo quanto a indústria, setores que demandam qualidade consistente e fornecimento estável.
Estado aposta na atividade como vetor de desenvolvimento
O secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, destaca o papel estratégico da tilápia. “O Estado vive um ciclo de crescimento sustentado, fruto dos investimentos em tecnologia, qualificação e organização produtiva. Esse resultado representa mais renda para as famílias rurais, diversificação econômica e segurança alimentar para a população”, afirma Bergoli.
A tilapicultura se consolida como uma das atividades mais promissoras do agronegócio capixaba. O setor combina geração de renda no campo, diversificação da economia regional e oferta de proteína de qualidade para a população.
A 30 quilômetros de Diamantino, no assentamento Caité, uma história de dedicação e amor à terra se renova a cada safra. O Sítio São José celebra três décadas de atividades mantendo viva a tradição da agricultura familiar em Mato Grosso, agora com um diferencial: a combinação entre o conhecimento ancestral e as novas tecnologias de produção sustentável.
José Lemes, agricultor de quase 70 anos, lidera a propriedade de 33 hectares ao lado da esposa Creuza da Silva, do filho caçula José Lemos da Silva Filho e da nora Francielly Rodrigues. Dos 33 hectares totais, nove são destinados à produção diversificada de hortaliças, frutíferas, mel e piscicultura.
A rotina no Sítio São José começa cedo e reflete o compromisso da família com a qualidade dos alimentos produzidos. José Lemes, que começou a trabalhar na roça aos sete anos seguindo o ensinamento passado de pai para filho, hoje prepara a transição do comando para a nova geração.
Uma decisão estratégica mudou os rumos da propriedade nos últimos anos. José Lemes deixou de comercializar produtos em mercados convencionais para participar de programas governamentais de fornecimento de alimentos às escolas públicas.
A mudança trouxe estabilidade financeira e melhor qualidade de vida para a família. O agricultor avalia positivamente a parceria com o poder público e destaca o reconhecimento que a agricultura familiar recebe atualmente em Mato Grosso.
O produtor ressalta que o apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Agricultura Familiar (Seaf) e da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), representa um incentivo fundamental para quem trabalha no campo.
Nova geração traz inovação e empreendedorismo rural
José Lemos da Silva Filho enxerga como privilégio trabalhar ao lado do pai e contribuir para a expansão dos negócios da família. Após experiências em outras fazendas, o jovem agricultor encontrou no Sítio São José o espaço ideal para implementar suas ideias.
Família Lemes. Foto: Samuel Janke/Seaf
Os planos incluem fortalecer a piscicultura e a policultura, expandir a fruticultura e desenvolver o turismo rural na propriedade. A intenção é atrair visitantes interessados em conhecer o sistema de produção consorciada e as práticas de convivência harmônica com a natureza adotadas pela família.
Liderança feminina fortalece associação de agricultores
Francielly Rodrigues, de 24 anos, representa o protagonismo feminino na agricultura familiar de Mato Grosso. Além de atuar diretamente na produção do sítio, ela é presidente da Associação de Agricultura Familiar Sustentável de Policultura Ceiba, que reúne 32 famílias produtoras.
A jovem assumiu a liderança da associação após conhecer a comunidade do assentamento e reconhece o peso da responsabilidade. Mesmo ciente dos desafios enfrentados pelas mulheres no campo, Francielly demonstra confiança no potencial feminino para transformar a realidade rural.
Segundo a presidente da associação, as políticas públicas implementadas pela Seaf em Diamantino fortalecem não apenas a agricultura familiar tradicional, mas também ampliam oportunidades para indígenas e quilombolas em todo o estado de Mato Grosso.
Agricultura familiar sustentável como modelo de desenvolvimento
O Sítio São José exemplifica como tradição e inovação podem caminhar juntas no campo. A experiência acumulada por José Lemes ao longo de décadas se complementa com o entusiasmo empreendedor do filho e a capacidade de liderança da nora.
Esse ciclo de produção sustentável reforça a identidade do assentamento Caité e comprova que, quando famílias trabalham com amor e propósito, a agricultura produz resultados econômicos, sociais e ambientais positivos para toda a comunidade rural.
A história da família Lemes demonstra que a agricultura familiar em Mato Grosso tem potencial para crescer de forma sustentável, gerando renda, preservando tradições e inspirando novas gerações a permanecerem no campo com qualidade de vida.
Um avanço científico promete revolucionar a nutrição animal na piscicultura brasileira. Pesquisas realizadas pela Embrapa Meio Ambiente, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), demonstram que as farinhas das folhas de amoreira e ora-pro-nóbis são poderosos ingredientes para reforçar a imunidade de peixes e reduzir a dependência de proteínas de origem animal, como a farinha de peixe e o farelo de soja.
Os estudos, conduzidos com as espécies pacu e tilápia-do-Nilo, mostram que a inclusão moderada dessas farinhas nas rações resulta em melhor digestibilidade, fortalecimento do sistema imunológico e baixo impacto ambiental, pavimentando o caminho para uma aquicultura mais sustentável e competitiva.
Imunidade reforçada e alta sobrevivência contra doenças
Além do excelente perfil nutricional, os pesquisadores testaram o efeito prático das farinhas na saúde dos animais. Pacus e tilápias alimentados com rações contendo 6% de farinha de amoreira e 32% de ora-pro-nóbis apresentaram uma resposta imunológica superior e maior resistência à bactéria Aeromonas hydrophila, uma das principais causas de perdas na piscicultura mundial.
Os resultados foram expressivos: a taxa de sobrevivência dos pacus desafiados pela bactéria chegou a 100%, enquanto as tilápias do grupo alimentado com a dieta vegetal atingiram 66,7% de sobrevida. “Os peixes também mostraram parâmetros sanguíneos mais equilibrados, redução de estresse e boa condição corporal, indicativos de saúde e nutrição adequada”, explicou Márcia Ishikawa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.
Vantagens nutricionais, econômicas e ambientais
De acordo com a doutoranda Patrícia da Silva Dias, autora dos testes, a farinha de ora-pro-nóbis se destacou pela alta digestibilidade de proteína (64,9%). Enquanto a farinha de amoreira teve melhor aproveitamento de lipídios (76,7%). Ambas mantiveram níveis adequados de energia e aminoácidos essenciais.
“Essas duas plantas oferecem uma alternativa local e econômica para a formulação de rações. Reduzindo a dependência da farinha de peixe e/ou do farelo de soja”, destacou Dias.
A segurança ambiental das farinhas foi atestada em ensaios ecotoxicológicos, sendo classificadas como “praticamente não tóxicas” para organismos aquáticos. Isso segundo padrões da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA).
Futuro sustentável para a piscicultura
Para o professor Fábio Meurer, co-orientador do trabalho, o cultivo da amoreira e do ora-pro-nóbis em pequenas propriedades pode reduzir custos e fortalecer a produção familiar, aproveitando insumos locais.
A inclusão moderada dessas farinhas nas rações comerciais representa, portanto, um marco. “É um avanço na busca por uma piscicultura mais competitiva, sustentável e menos dependente de insumos químicos”, afirma o pesquisador Julio Queiroz, membro da equipe. A descoberta não apenas melhora a saúde dos peixes. Mas também consolida um modelo de produção mais alinhado com as demandas ambientais e econômicas do Brasil.
O mundo acordou em 2024 para uma realidade que vinha se consolidando nas últimas duas décadas. Dados da FAO confirmaram: o Vietnã ultrapassou a marca de 1,75 milhão de toneladas anuais de pangasius e agora figura entre os maiores produtores de peixes cultivados do planeta. Enquanto países como Noruega e Chile dominam manchetes com salmão, o Vietnã construiu silenciosamente um império baseado no peixe-gato de água doce.
A história começa nos anos 2000, quando autoridades vietnamitas decidiram apostar todas as fichas na aquicultura industrial. A estratégia funcionou além das expectativas. Hoje, o setor movimenta bilhões de dólares em exportações e abastece mais de 80 países, do Oriente Médio à América Latina.
O peixe que virou fenômeno global
Conhecido no Brasil como panga, o pangasius conquistou mercados por três motivos simples: carne branca, sabor neutro e preço acessível. Restaurantes, escolas e hospitais ao redor do mundo descobriram nele uma alternativa econômica para cardápios variados.
Mas o segredo vietnamita vai muito além da espécie escolhida. O país desenvolveu uma cadeia verticalizada que controla cada etapa, desde a seleção genética dos reprodutores até o embarque dos filés congelados rumo aos portos internacionais. Empresas gerenciam fábricas de ração, laboratórios de larvicultura, fazendas de engorda e frigoríficos com padrões industriais.
O ciclo produtivo impressiona. Em apenas sete a nove meses, alevinos se transformam em peixes adultos prontos para abate. O rendimento após filetagem supera 40%, número que poucas espécies conseguem alcançar. Com manejo adequado, os viveiros atingem densidades elevadas sem comprometer qualidade — algo viabilizado por sensores de oxigênio dissolvido e protocolos sanitários rigorosos.
Três pilares sustentam o império do panga
Analistas internacionais apontam fatores decisivos para o domínio vietnamita. Primeiro: custo de produção imbatível. O pangasius sai mais barato que tilápia, salmão e até camarões cultivados. Segundo: oferta constante durante o ano todo, sem interrupções sazonais. Terceiro: padronização industrial, com filés uniformes que facilitam logística e distribuição.
A geografia ajudou. Temperatura estável e grande disponibilidade hídrica criaram condições perfeitas para produção contínua. Viveiros operam em regime quase ininterrupto, alimentando uma cadeia que emprega centenas de milhares de pessoas formalmente — número que explode quando somamos agricultores familiares, transportadores e pequenos prestadores de serviço.
Comunidades rurais que antes dependiam de agricultura de subsistência encontraram no pangasius uma saída da pobreza. O governo vietnamita destaca esse impacto social como um dos maiores legados da expansão aquícola.
Brasil na mira: a polêmica da tilápia vietnamita
A expansão vietnamita não para no pangasius. Recentemente, o país asiático começou a mirar o mercado brasileiro com outro produto: tilápia. A movimentação gerou reação imediata da Peixe BR, entidade que representa os piscicultores nacionais.
O Brasil é um dos maiores produtores de tilápia da América Latina, com uma cadeia consolidada que emprega milhares de famílias e movimenta bilhões de reais anualmente. A entrada de tilápia vietnamita no mercado brasileiro acendeu um sinal de alerta no setor.
“A indústria nacional de tilápia investiu pesado em tecnologia, sustentabilidade e geração de empregos locais”, argumentam representantes da Peixe BR. “Permitir importação massiva de um país com custos de produção artificialmente baixos pode comprometer toda essa cadeia.”
A entidade defende que o governo brasileiro adote medidas para proteger a produção nacional. Entre os argumentos, destacam diferenças significativas em legislação trabalhista, normas ambientais e subsídios governamentais que criam condições desiguais de competição.
O debate ganha força num momento em que o Vietnã busca diversificar destinos de exportação. Com capacidade industrial instalada e logística azeitada, o país asiático vê no Brasil uma oportunidade de expandir presença na América do Sul — movimento que preocupa produtores locais de tilápia.
Enquanto isso, consumidores brasileiros continuam comprando panga vietnamita em supermercados e restaurantes, muitas vezes sem saber a origem do produto. A possível chegada da tilápia asiática adiciona mais um capítulo a essa história de disputa comercial entre produção local e importação em larga escala.
Pressão externa impulsiona inovações ambientais
Como toda produção intensiva, a criação vietnamita enfrentou críticas. Organizações internacionais questionaram manejo de água, destino de efluentes e origem das rações utilizadas. A resposta veio na forma de investimentos pesados.
Nos últimos anos, grandes produtores implementaram depuradores biológicos, viveiros de sedimentação e sistemas de recirculação parcial. Fórmulas de ração reduziram dependência de farinha de peixe — ponto sensível no debate sobre sustentabilidade global.
Relatórios recentes mostram que grupos líderes já operam em conformidade com normas de mercados exigentes como Europa e Estados Unidos. A pressão externa, que poderia ter freado o crescimento, acabou impulsionando eficiência e reduzindo custos por hectare.
Projeções apontam para 2 milhões de toneladas
O Ministério da Agricultura do Vietnã projeta ultrapassar 2 milhões de toneladas anuais nos próximos anos. Novos sistemas automatizados de engorda e viveiros mais profundos permitem densidades maiores sem comprometer bem-estar animal.
Enquanto o pescado cultivado ganha espaço como alternativa à pesca extrativa, países que dominam essa tecnologia ocupam posição estratégica no cenário alimentar global. O Vietnã, com estrutura consolidada e mão de obra especializada, pode disputar espaço com gigantes como China, Índia e Indonésia.
O pangasius deixou de ser apenas um peixe comum do Sudeste Asiático. Hoje protagoniza uma cadeia globalizada, moldada por engenharia hídrica, manejo intensivo e logística internacional de alta eficiência. A ascensão vietnamita prova que a aquicultura moderna não é mais complemento da pesca tradicional, é um dos motores mais importantes da economia alimentar do século XXI.
E com a possível chegada da tilápia vietnamita ao Brasil, essa história está longe de terminar. O próximo capítulo promete debates acalorados entre defesa da produção nacional e abertura comercial. Uma disputa que vai além de números e envolve empregos, sustentabilidade e soberania alimentar.
As novas tarifas de importação que os Estados Unidos impuseram aos produtos da piscicultura brasileira provocaram um tombo nas exportações do setor. No terceiro trimestre de 2025, a receita com as vendas externas encolheu 28% na comparação com o mesmo período de 2024. Em volume, a queda foi de 26%, segundo o Informativo de Comércio Exterior da Piscicultura, publicado pela Embrapa Pesca e Aquicultura em parceria com a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR).
Diego Vargas / Seapa MG
O período de julho a setembro registrou os piores resultados do ano, com o Brasil exportando pouco menos de 3.000 toneladas de peixe. Os números mensais mostram uma queda acentuada logo após o início da tarifa em agosto. As exportações, que foram de 1.390 toneladas (US$ 5,7 milhões) em julho, despencaram para pouco mais de 800 toneladas (US$ 3,9 milhões) em agosto e chegaram a menos de 780 toneladas (US$ 3,7 milhões) em setembro.
Queda é mais acentuada no principal mercado
O impacto foi ainda mais severo nos Estados Unidos, principal destino da piscicultura brasileira, onde as vendas caíram 32%. A tilápia responde por 99% dessas exportações. Manoel Pedroza, pesquisador da Embrapa e responsável pelo relatório, explica que especialistas esperavam uma queda maior, mas algumas empresas mantiveram parte das vendas mediante negociações com importadores norte-americanos.
“No entanto, alguns exportadores afirmam não ser possível manter essas negociações no longo prazo. Caso o ‘tarifaço’ continue, é provável que haja uma redução maior nas vendas no último trimestre de 2025”, contextualiza Pedroza. A tarifa sobre o pescado brasileiro saltou de 10% para 50%.
Concorrência interna e busca por novos mercados
Além do desafio externo, o setor também enfrenta uma ameaça interna. O relatório destaca a importação de filé de tilápia do Vietnã, que totalizou US$ 195 mil e 48 toneladas. Parte desse produto chegou ao Brasil ao preço de R$ 16,70/kg, valor bem inferior aos R$ 31,00 praticados pelo filé de tilápia nacional.
Enquanto isso, a busca por mercados alternativos esbarra em dificuldades. “Os exportadores tentam buscar novos mercados, mas isso leva tempo. É difícil encontrar outros países que absorvam o mesmo volume de tilápia que era exportado para os Estados Unidos, principalmente considerando que o mercado europeu continua fechado para o pescado do Brasil”, projeta Manoel Pedroza. O futuro do setor, portanto, depende diretamente da manutenção ou revogação das tarifas norte-americanas.
A piscicultura brasileira ganha força com a ampliação dos laços comerciais entre Brasil e países da América Latina. O setor registra retomada rápida dos preços e aposta na integração regional para ampliar a competitividade e a presença do pescado brasileiro no mercado internacional.
Foto: Divulgação – Portal.Gov
Durante a Seafood, maior evento dedicado à comercialização de pescado na América Latina, o presidente da Peixe BR, Francisco Medeiros, destacou a relevância de fortalecer as trocas comerciais dentro da região para superar as barreiras atuais. No painel “Novos tempos, novas rotas: os caminhos do pescado na América Latina”, realizado em 22 de outubro em São Paulo, Medeiros lembrou que a América Latina concentra importantes produtores, principalmente de salmão e tilápia.
Medeiros ressaltou que, apesar do Brasil ser o terceiro maior comprador de salmão chileno, ainda enfrenta dificuldades para exportar filé de tilápia ao Chile. “Precisamos construir parcerias sólidas com países latino-americanos que dependem de importação da China,” afirmou. Ele também destacou que o Chile levou tempo para inserir o salmão no mercado brasileiro e que esse exemplo mostra que a integração regional é possível e promissora.
O presidente da Peixe BR qualificou as barreiras tarifárias atuais como obstáculos políticos, mas enfatizou que a cadeia produtiva manteve a resiliência diante das dificuldades. Medeiros anunciou a recuperação dos preços da tilápia no mercado interno. Que após queda no primeiro semestre, reverteu a tendência em apenas 37 dias, com cinco semanas consecutivas de alta.
Para ele, o momento é de otimismo e consolidação: “As empresas entendem que a exportação é uma estratégia sustentável a médio e longo prazo. O setor se adapta e demonstra sua força, consolidando um cenário positivo para o pescado brasileiro.”
Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) descobriram que cápsulas de alho (Allium sativum) vendidas em farmácias combatem com eficácia parasitas que atacam alevinos de pirarucu (Arapaima gigas). A solução natural e acessível pode reduzir perdas na produção, melhorar o bem-estar animal e diminuir o uso de produtos químicos no setor.
O estudo, publicado na revista científica Veterinary Parasitology, demonstrou que as cápsulas de alho reduziram significativamente a presença de dois inimigos comuns dos alevinos: os protozoários tricodinídeos e o verme das brânquias Dawestrema cycloancistrium. Esses parasitas causam mortalidade em larga escala nos criadouros de pirarucu, uma das espécies mais cultivadas no Brasil.
A pesquisadora Patricia Oliveira Maciel Honda, da Embrapa, coordenou a pesquisa em parceria com a Universidade Federal do Tocantins (UFT) e a Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) financiou o projeto.
Parasitas ameaçam criações e causam morte de cardumes inteiros
Os tricodinídeos são protozoários unicelulares, enquanto as monogeneas constituem um tipo de helminto conhecido como verme das brânquias. Ambos os parasitas infectam comumente as brânquias e o corpo de alevinos de pirarucu e podem levar cardumes inteiros à morte.
Os pesquisadores utilizaram diversas concentrações de alho no tratamento: 2,5 mg, 5 mg, 7,5 mg e 10 mg por litro. Eles expuseram os peixes durante quatro dias em banhos estáticos. No combate às monogeneas, as doses mais baixas promoveram uma redução de 33,5% a 42,9% sem causar nenhum tipo de toxicidade nos peixes.
“A intensidade de D. cycloancistrium nas brânquias apresentou redução significativa nos peixes tratados em comparação ao controle (animais que não receberam tratamento), mas não observamos diferenças entre as concentrações testadas, indicando que as menores doses são eficazes”, destaca a pesquisadora.
No caso dos tricodinídeos, o experimento alcançou uma eficácia de 77% para a dosagem de 5 mg/L em quatro dias de tratamento, com redução dos protozoários nas brânquias.
As cápsulas de alho de farmácia apresentam duas versões: 1.000 mg e 500 mg. A partir dessas apresentações, os pesquisadores testaram diferentes doses. “Colocamos, por exemplo, duas cápsulas de 1.000 mg e uma cápsula de 500 mg em um litro de água, e fomos medindo para obter as concentrações de teste. Dessa forma, chegamos à dose de 2,5 mg por litro”, detalha Maciel.
Metodologia comprova morte de parasitas sem afetar os peixes
Os pesquisadores deixaram os peixes naturalmente infectados em aquários com água e alho por 96 horas. Após esse período, a equipe coletou o sangue dos alevinos e raspou o muco dos animais para verificar os protozoários mortos. Os cientistas também verificaram as monogeneas presentes nas brânquias.
“Para quantificar os protozoários tricodinídeos no muco que morreram após a exposição ao alho, utilizamos um corante que penetra nas células mortas. Então, levamos a amostra de muco ao microscópio e contamos as células de coloração azul, indicadora da morte do organismo”, explica a cientista da Embrapa.
Os pesquisadores constataram que nas três maiores dosagens (5 mg/litro, 7,5 mg/litro e 10 mg/litro) uma quantidade maior de tricodinas morreu em comparação ao grupo controle. Para monogeneas, todas as concentrações utilizadas, desde a menor (2,5 mg/litro) até 10 mg/litro, provocaram uma redução significativa na carga de parasitos em relação ao grupo de controle.
“Não observamos mortalidade ou alterações comportamentais dos alevinos de pirarucu durante o experimento. Os resultados sugerem que o alho pode constituir uma alternativa fitoterápica promissora para o manejo de ectoparasitas na piscicultura, particularmente na concentração de 5,0 mg/L por quatro dias de exposição”, sublinha a pesquisadora. Ela conta que, embora o alho apresente efeito imunoestimulante, a equipe não identificou esse benefício nos peixes analisados.
Momento ideal para aplicar o tratamento
A pesquisadora lembra que os produtores não induzem a reprodução do pirarucu. Os alevinos são coletados em viveiros após a reprodução natural do casal, o que favorece que os alevinos carreguem parasitos – geralmente os ectoparasitos monogeneas, os tricodinídeos e os parasitos internos nematóides.
O momento ideal para aplicar o tratamento com alho ocorre durante o treinamento alimentar dos pirarucus, quando os produtores colocam os alevinos em caixas d’água ou estruturas similares para ensiná-los a comer ração. Nesse momento, os produtores devem observar se os peixes apresentam alguma sintomatologia ou sinal clínico da doença, tais como inapetência, flashing (comportamento de raspar-se nas laterais do tanque, como se coçasse), apatia ou isolamento do grupo.
Pirarucu no tanque – Foto: Eliane Tie Oba Yoshioka/Embrapa
As brânquias podem ficar pálidas porque o peixe desenvolve anemia. As monogeneas se alimentam de sangue e células epiteliais do hospedeiro. Os animais também podem apresentar melanose, um escurecimento da pele.
“Quando identificamos peixes nesse estado, o ideal é descartá-los e tratar o lote restante de modo profilático, porque quando o animal apresenta esses sinais clínicos, dificilmente tem cura”, alerta a pesquisadora.
Diagnóstico precoce aumenta chances de sucesso
É possível confirmar a presença dos parasitos em exames de microscópio ótico, e o ideal é realizar o diagnóstico precoce. Uma vez que os produtores identificam os parasitos, devem iniciar o tratamento com alho durante o treinamento alimentar.
Segundo a médica veterinária, outro momento adequado para realizar o tratamento com alho ocorre quando os produtores recolhem os alevinos dos viveiros para transportá-los. Geralmente os peixes vêm do viveiro com alguma carga parasitária. “Esse tipo de manejo geralmente estressa o peixe, diminuindo seu sistema imunológico. Nesse período de aclimatação e preparação para o transporte também seria indicado usar o alho de forma profilática”, diz ela.
“O óleo de alho demonstrou eficácia no controle desses parasitos, com destaque para a concentração de 5,0 mg/L, que também não induziu toxicidade significativa”, afirma. No entanto, os pesquisadores precisam conduzir mais estudos para compreender melhor seu uso a campo. Maciel defende mais pesquisas nessa área e maior disponibilidade de produtos aprovados para a aquicultura, com a respectiva avaliação de custos.
A Embrapa está aberta a parcerias com indústrias para desenvolver esse e outros fitoterápicos para a aquicultura. Empresas interessadas podem entrar em contato pelo e-mail: [email protected].
Sal de cozinha também apresenta eficácia comprovada
Segundo Patrícia Maciel, embora nenhuma pesquisa específica tenha avaliado a eficácia do uso do sal e do alho conjuntamente no tratamento de parasitos na aquicultura, ela coordenou um estudo anterior publicado no Journal of Fish Diseases que comprovou a eficácia do cloreto de sódio no combate do parasita monogenea Dawestrema cycloancistrium no pirarucu.
A pesquisa contou com parceria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e financiamento do Sebrae.
Na ocasião, a equipe testou o sal e o triclorfon, um produto químico muito utilizado em pisciculturas. Os testes avaliaram banhos curtos e longos.
Os banhos longos duraram 24 horas de exposição, com 10 g de sal por litro. A equipe aplicou dois banhos com intervalo de 24 horas, totalizando três dias de tratamento.
Já nos banhos curtos, os peixes ficaram numa solução de 12 g de sal por litro durante quatro horas de banho, uma vez por dia durante quatro dias.
Os pesquisadores testaram o triclorfon com a mesma posologia, ou seja, mesma forma de administração, mudando apenas a dose para 5 mg do quimioterápico por litro.
“A nossa pesquisa constatou que a eficácia do sal atingiu 91% nos banhos curtos. Nos banhos longos alcançou 99%, porém ocorreu maior mortandade de peixes. Já para o triclorfon a eficácia foi de 84% para os banhos curtos e de 97% para os banhos longos, também com maior mortalidade”, explica ela. “Nós concluímos que o banho longo não é indicado para o peixe que está muito parasitado. Pois o animal está debilitado e não resiste ao tratamento”, conclui a pesquisadora.
Óleos essenciais amazônicos também combatem parasitas em tambaquis
O uso de fitoterápicos na aquicultura tem sido amplamente estudado como alternativa para o controle de ectoparasitas em peixes.
Pesquisa recente da Embrapa Amapá revelou que óleos essenciais extraídos de plantas amazônicas combatem com eficácia parasitas que atacam as brânquias (monogeneas) do tambaqui (Colossoma macropomum), espécie nativa mais cultivada no Brasil. A pesquisa aponta para uma alternativa natural ao uso de quimioterápicos, abrindo novas perspectivas para práticas mais sustentáveis na piscicultura brasileira.
O trabalho analisou óleos essenciais de três espécies do gênero Piper: P. callosum, P. hispidum e P. marginatum. Os dois primeiros apresentaram resultados positivos na redução da infestação por vermes monogeneas, responsáveis por comprometer a saúde dos peixes. Já o terceiro não demonstrou a mesma efetividade no tratamento.
O pesquisador Marcos Tavares Dias, da Embrapa Amapá, coordenou a investigação em colaboração com a Universidade Federal do Amapá (Unifap) e a Embrapa Amazônia Ocidental (AM). O estudo contou com financiamento do CNPq, por meio do Edital Universal.
Uma nova tecnologia promete revolucionar a aquicultura brasileira. O sistema de bioflocos (BFT) desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente em parceria com a Itaipu Binacional demonstrou ser capaz de produzir tilápia com uso mínimo de água e redução significativa do impacto ambiental.
O estudo, realizado durante 70 dias em tanques experimentais, comprovou que a técnica utiliza apenas 135 litros de água por quilo de peixe produzido — uma economia expressiva em comparação aos métodos tradicionais.
Durante o período experimental, foram produzidos quase 5 mil alevinos de tilápia em cada tanque circular de 4,2 m³, mantendo alta densidade de 395 peixes por metro cúbico. Os resultados impressionaram os pesquisadores.
“Alcançamos taxa de sobrevivência de 98%, peso médio final de 20,4 gramas e conversão alimentar aparente de apenas 1,05. Isso significa que apenas 1,05 kg de ração foram necessários para produzir 1 kg de peixe”, explica Tainara Blatt, técnica agrícola da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu.
Segundo a especialista, a eficiência está relacionada ao consumo do floco microbiano, que funciona como alimento complementar rico em proteínas e bactérias probióticas.
Redução drástica na liberação de poluentes
Um dos principais destaques da pesquisa foi a redução na carga de nutrientes lançada no ambiente. O sistema BFT reteve 45,4% do nitrogênio, 46,3% do fósforo e 29,7% do carbono fornecidos pela ração.
Biometria de alevinos de tilápia – Foto: Tainara Blatt/Embrapa
“Ao fim do ciclo, a carga residual por tonelada de peixe foi de 10,24 kg de fósforo, 46,63 kg de nitrogênio e 442,47 kg de carbono. Nos sistemas tradicionais, como tanques-rede, esses valores podem chegar a 18,25 kg de fósforo, 77,50 kg de nitrogênio e 700 kg de carbono”, compara Hamilton Hisano, pesquisador da Embrapa.
Como funciona o sistema de bioflocos
A eficiência do BFT se deve à reciclagem de nutrientes pela ação de microrganismos que formam os bioflocos. Os técnicos monitoram continuamente a água dos tanques e controlam com rigor a temperatura, o oxigênio dissolvido, os sólidos suspensos e os nutrientes.
O equilíbrio do sistema é mantido pela adição de açúcar como fonte de carbono, preservando a proporção carbono:nitrogênio em 12:1. Essa estratégia favorece o crescimento bacteriano em detrimento de algas.
Como sistema fechado, o BFT oferece maior controle sobre a produção e os resíduos gerados, reduzindo o risco de escape de espécies e contaminação ambiental.
Desafio energético precisa ser superado
Apesar dos benefícios ambientais, André Watanabe e Celso Buglione, da Itaipu Binacional, identificaram um ponto crítico: o elevado consumo energético, estimado em 114,6 megajoules por quilo de peixe produzido.
“A necessidade de aeração contínua exige muita energia. Para ampliar a adoção do BFT, é urgente investir em fontes renováveis e aprimorar a eficiência dos equipamentos”, afirmam os especialistas.
Outro diferencial é o reaproveitamento dos resíduos sólidos removidos do sistema. Com potencial para serem transformados em fertilizantes ou ingredientes para ração, esses subprodutos podem agregar valor e contribuir para a economia circular.
Solução ideal para regiões com escassez de água
A baixa necessidade de renovação hídrica posiciona o BFT como alternativa estratégica para o semiárido e áreas periurbanas com uso restrito da água. O sistema também amplia a biossegurança e potencializa a produção em regiões urbanas.
O pesquisador colaborador do projeto, Alex Cardoso, destaca que o grupo pode futuramente incorporar ferramentas como a análise do ciclo de vida e o cálculo da pegada de carbono para mensurar com mais precisão os impactos ambientais.
Produtores aprovam tecnologia na prática
Durante o International Fish Congress & Fish Expo Brasil 2025, mais de 30 participantes entre produtores, técnicos e estudantes conheceram a tecnologia em funcionamento na vitrine tecnológica instalada na usina de Itaipu.
Valério Angelozi, produtor participante, demonstrou entusiasmo. “As técnicas de manejo de água são fundamentais para o bem-estar dos peixes e evitam perdas. O sistema reutiliza a água e promove sustentabilidade. Já penso em construir uma unidade experimental na minha propriedade”, revela.
Flávio Cesar Urizzi, da SJ Fish, que já produz tilápia em sistema BFT, confirmou que os pontos críticos da pesquisa coincidem com a vivência dos produtores. “A densidade adequada de peixes por metro cúbico é determinante para viabilizar financeiramente os projetos. O sistema se destaca por manter alimento sempre disponível, resultando em peixes mais fortes e de maior qualidade”, afirma.
Os pesquisadores concluem que o sistema BFT oferece uma solução tecnicamente viável e ambientalmente mais segura para a intensificação da aquicultura. Seu uso racional de recursos naturais e a capacidade de reter nutrientes o posicionam como alternativa estratégica frente às pressões por segurança alimentar e preservação dos ecossistemas.
O trabalho com bioflocos na Embrapa Meio Ambiente começou em 2013 e ganhou novo impulso com a parceria da Itaipu Binacional. O estudo atual é uma continuidade de pesquisas iniciadas há três anos que já haviam comprovado vantagens dessa tecnologia.
O Brasil ocupa a quarta posição no ranking mundial de produção de tilápia, segundo a Associação Brasileira de Piscicultura. A espécie representa 63,5% de toda a produção nacional de peixes cultivados e conquista cada vez mais espaço no mercado brasileiro.
O cultivo comercial de tilápias ganhou força no Nordeste durante a década de 90. O Ceará lidera o consumo da espécie na região, beneficiado pela produção natural nos reservatórios públicos estaduais. O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) realiza o povoamento desses reservatórios.
“A primeira tilápia que trouxemos para nossa região veio do Sudeste do país, mas ela não crescia muito e nem era produtiva”, conta Pedro Eymard, chefe do Centro de Pesquisas em Aquicultura Rodolpho von Ihering. Em 2002, Eymard e o engenheiro de pesca José Ilton Moura viajaram até a Tailândia, onde passaram 18 dias em treinamento com técnicos japoneses e tailandeses. “Trouxemos de lá a tilápia nilótica com um material genético mais preservado e que cresce bem mais que as outras”, explica.
A tilápia apresenta sabor suave, cor branca, ausência de odor forte e baixo teor de gordura. O peixe contém alta quantidade de proteínas e mínima presença de carboidratos, características que o tornam aliado de quem busca ganhar massa magra e perder peso.
A espécie também fornece vitaminas A, B e D, além de minerais como cálcio, ferro e zinco. Esses nutrientes melhoram a saúde de dentes e ossos, ajudam a prevenir doenças cardiovasculares, oferecem ação antioxidante e regeneram músculos e tecidos.
O peixe possui ainda ácido DHA, um ácido graxo tipo ômega-3 que beneficia a saúde cerebral e protege contra a ação degenerativa de radicais livres. A tilápia também facilita a digestão, previne inflamações e combate a prisão de ventre.
Pele de tilápia revoluciona tratamento de queimaduras
Em 2015, médicos e pesquisadores cearenses descobriram que a pele da tilápia funciona como curativo para queimaduras de 2º e 3º graus. O tratamento acelera o processo de cicatrização e diminui a dor dos pacientes.
“A grande vantagem da pele da tilápia, em relação ao tratamento convencional da rede pública brasileira, é que essa pele adere ao leito da ferida, evitando contaminação do meio externo para a lesão”, explica o médico Edmar Maciel Lima Júnior, coordenador geral da pesquisa. “Isso impede que o paciente perca líquido e fique desidratado. Com a pele, os profissionais também evitam as trocas diárias de curativo que são extremamente dolorosas pro paciente.”
O material passa por um processo de preparo e esterilização com enzimas. “A pele é desidratada, embalada a vácuo e radiada em São Paulo, em um aparelho gama cobalto”, detalha Edmar. Após os testes, o produto fica pronto para uso na pesquisa e possui validade de dois anos e meio.
Paciente relata recuperação completa sem cicatrizes
O caseiro Pedro Silva vivenciou os benefícios do tratamento há cerca de sete anos. Ele sofreu uma queimadura grave na perna esquerda durante um acidente doméstico. “Eu estava preparando a janta, escutei um barulho de gás saindo no botijão e fui olhar, daí começou a sair fogo”, relembra.
Pedro recebeu atendimento hospitalar e conheceu o médico Edmar, que aplicou as peles de tilápia na região afetada. “Fui pra casa e me recuperei totalmente. Hoje não tenho nenhuma sequela e nem cicatriz”, comemora.
O coordenador da pesquisa revela que a pele de tilápia liofilizada apresenta sucesso em diversos tratamentos. “Funciona em queimaduras e feridas em animais, já usamos na odontologia para lesões de cavidade oral e obtivemos sucesso total na ginecologia, na reconstrução de pacientes que nascem sem vagina, além de várias outras áreas que já estudamos”, enumera Edmar.
A tilápia comprova que seus benefícios vão muito além do valor nutricional, estabelecendo-se como uma solução inovadora na medicina brasileira.