Tag: pirarucu

  • Governo vai pagar 5 mil pescadores por preservar o pirarucu

    Governo vai pagar 5 mil pescadores por preservar o pirarucu

    O Governo Federal anunciou nesta quinta-feira (26), em Manaus, o Pagamento por Serviços Ambientais do Pirarucu (PSA Pirarucu), programa que vai remunerar mais de 5 mil pescadores e manejadores da Amazônia pelo trabalho de conservação da maior espécie de peixe de água doce do mundo. A iniciativa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, prevê a mobilização de R$ 15 milhões ao longo de dois anos.

    Foto: Talita Oliveira/Instituto Mamirauá

    O programa deve beneficiar mais de 40 organizações comunitárias que atuam em 41 áreas protegidas, cobrindo uma área superior a 20 milhões de hectares na bacia amazônica. O lançamento contou com a presença da ministra Marina Silva e de representantes do Instituto Mamirauá, referência nacional em manejo participativo de recursos pesqueiros.

    25 anos de trabalho reconhecidos

    Para a coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, Ana Cláudia Gonçalves, que integrou a mesa de lançamento ao lado da ministra, o momento é histórico. “Aqueles 42 manejadores que começaram este trabalho junto com a equipe do Programa de Pesca: 25 anos depois, saímos de um cenário de escassez da espécie para um cenário de superpopulação do pirarucu nos territórios onde o manejo ocorre”, afirmou.

    Os números confirmam o impacto do modelo. Desde 1999, o manejo participativo nas áreas da Reserva Mamirauá resultou em um aumento de aproximadamente 620% no estoque natural do pirarucu. Resultado que transformou a metodologia em referência replicada em boa parte da bacia amazônica e em países vizinhos.

    Como funciona o manejo comunitário

    Criado em 1998 para conter o declínio agudo do pescado na região, o Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá envolve as comunidades em todas as etapas do processo. Vigilância dos ambientes aquáticos, definição de regras de uso, monitoramento dos estoques, pesca e comercialização. A cota anual de pesca é calculada com base em contagens populacionais. E permite a retirada de até 30% dos indivíduos adultos, preservando ao menos 70% para garantir a reprodução da espécie.

    Na Reserva Mamirauá, a pesca é a principal fonte de proteína e uma das maiores fontes de renda das populações ribeirinhas. E foi a atividade produtiva que mais ampliou sua participação na renda doméstica ao longo de uma década, segundo dados de pesquisa.

    PSA Pirarucu: conservação que gera renda

    Com o PSA Pirarucu, o governo federal passa a reconhecer financeiramente o serviço ambiental prestado por essas comunidades. Que ao manejar o pirarucu de forma sustentável, contribuem diretamente para a conservação dos ecossistemas amazônicos. O programa integra o Projeto Floresta+ Amazônia e marca um passo concreto na valorização do conhecimento tradicional como ferramenta de política ambiental.

    Pedro Canizio Oliveira da Silva, representante da Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu da Região de Mamirauá (Femapam), também participou da mesa de lançamento, simbolizando a presença das comunidades no centro das decisões sobre o futuro da Amazônia.

  • Ibama inclui pirarucu em lista de espécies invasoras e preocupa setor produtivo

    Ibama inclui pirarucu em lista de espécies invasoras e preocupa setor produtivo

    O Ibama classificou o pirarucu (Arapaima gigas) como espécie exótica invasora fora de sua área natural, decisão que provocou forte reação do setor de piscicultura no país. A medida foi oficializada pela Instrução Normativa nº 7/2026, publicada recentemente. E levantou preocupações sobre insegurança jurídica, impactos nos investimentos e falta de diálogo com a cadeia produtiva.

    O novo enquadramento surpreendeu produtores e entidades representativas, já que o tema ainda estava em discussão na Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio). O setor questiona a falta de alinhamento institucional e o processo de decisão adotado pelo Ibama, que pode afetar diretamente o ambiente de negócios da piscicultura.

    Reconhecido como uma das espécies de maior potencial econômico da aquicultura nacional, o pirarucu já é cultivado em diversos estados. E impulsiona a geração de emprego e renda no interior do país. A nova classificação, entretanto, ameaça o planejamento produtivo, a expansão das atividades e a segurança jurídica dos empreendimentos do setor.

    O presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, afirmou que a medida traz contradições e insegurança ao setor. “A decisão causa grande preocupação, principalmente pela ausência de diálogo sobre um tema tão sensível. O pirarucu é estratégico para a piscicultura brasileira e tem forte potencial para o desenvolvimento regional”, destacou.

    Políticas públicas

    Medeiros também apontou o paradoxo nas políticas públicas sobre o tema. “Há poucos anos, o governo incentivava a produção de pirarucu como alternativa sustentável para a aquicultura. Agora, a nova norma pode restringir sua utilização e criar um precedente perigoso”, reforçou.

    Diante da repercussão, a Peixe BR defende a revisão imediata da Instrução Normativa nº 7/2026. E pede maior articulação entre os órgãos públicos e o Ministério da Pesca e Aquicultura. Para a entidade, garantir previsibilidade e estabilidade regulatória é essencial para preservar os investimentos e o crescimento da piscicultura nacional.

  • Comunidades ribeirinhas recebem cartilha sobre conservação do pirarucu

    Comunidades ribeirinhas recebem cartilha sobre conservação do pirarucu

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) distribuiu 700 cartilhas que apresentam os resultados do Programa de Manejo Sustentável de Pirarucu para as comunidades participantes no Estado do Amazonas. O material reúne dados e experiências acumuladas desde 1999, quando o programa teve início.

    A publicação, elaborada pela Coordenação de Uso Sustentável da Fauna e da Biodiversidade (Cofap), detalha a formação, a importância e os resultados do manejo a partir das experiências da Superintendência do Ibama no Amazonas, que monitora e apoia as iniciativas. As cartilhas chegaram às secretarias municipais de educação para abastecer as escolas envolvidas nos projetos de educação ambiental, fortalecendo a participação comunitária.

    O manejo do pirarucu (Arapaima gigas) se consolidou no Amazonas como um processo exemplar de gestão compartilhada dos recursos naturais. Os lagos destinados ao manejo estão localizados em unidades de conservação federais e estaduais, terras indígenas e áreas de acordo de pesca, beneficiando diretamente as comunidades ribeirinhas.

    A iniciativa gera impacto positivo tanto na conservação da espécie quanto na melhoria da economia local. As comunidades conseguem evitar invasões de pescadores irregulares aos ambientes aquáticos e proteger a biodiversidade da região Amazônica.

    Em 2025, o Ibama implementou o Programa Arapaima por meio da Portaria nº 22/2025. Com a medida, o instituto busca incentivar e avaliar a viabilidade de expandir a iniciativa para outros estados da bacia hidrográfica do rio Amazonas. Reconhecendo o potencial dessas regiões para a conservação e o uso responsável da espécie.

  • Cápsulas de alho mostram eficácia no combate a parasitas do pirarucu

    Cápsulas de alho mostram eficácia no combate a parasitas do pirarucu

    Uma alternativa natural e acessível pode transformar o manejo sanitário na piscicultura brasileira. Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) comprovaram que cápsulas de alho (Allium sativum), vendidas em farmácias, reduzem significativamente a infestação de parasitas em alevinos de pirarucu (Arapaima gigas), peixe símbolo da Amazônia e altamente valorizado no mercado.

    O estudo foi publicado na revista Veterinary Parasitology. E revelou que o tratamento diminuiu a presença de protozoários tricodinídeos e do verme das brânquias Dawestrema cycloancistrium, causadores de alta mortalidade em criadouros. A pesquisa indica que o uso das cápsulas pode complementar o tratamento com sal de cozinha, prática comum entre piscicultores.

    Resultados promissores e metodologia

    A equipe da Embrapa, liderada pela pesquisadora Patricia Oliveira Maciel Honda, conduziu os experimentos em parceria com a Universidade Federal do Tocantins (UFT) e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), com apoio do Sebrae.

    Os pesquisadores aplicaram diferentes concentrações do composto (2,5 mg, 5 mg, 7,5 mg e 10 mg por litro) em banhos estáticos de quatro dias. As doses mais baixas já foram eficazes, sem causar toxicidade nos peixes. A concentração de 5 mg/L alcançou 77% de eficácia contra protozoários e até 42,9% de redução nas infestações por vermes das brânquias.

    Patrícia Maciel manejando pirarucu – Foto: Siglia Souza/Embrapa

    “Nossos resultados mostram que pequenas dosagens já controlam os parasitas de forma segura”, destacou Honda. “As cápsulas de alho podem se tornar uma alternativa fitoterápica prática e sustentável para a piscicultura.”

    Aplicação em campo e momento ideal

    O tratamento é mais indicado durante o treinamento alimentar dos alevinos, fase em que os peixes são colocados em tanques ou caixas d’água para se adaptarem à ração. Nesse período, os produtores podem identificar sintomas de infecção, como apatia, falta de apetite e o comportamento de “raspagem” nas paredes do tanque, sinais típicos de infestação por parasitas.

    Honda recomenda o uso do alho também durante a preparação para transporte dos alevinos, quando os peixes enfrentam maior estresse e redução da imunidade. “O tratamento profilático ajuda a prevenir surtos parasitários e reduz perdas econômicas”, orienta a pesquisadora.

    Complemento sustentável ao uso do sal

    Embora não haja estudo combinando alho e sal, a pesquisadora já havia conduzido pesquisas que demonstraram a eficácia do cloreto de sódio no controle de Dawestrema cycloancistrium. “O sal atingiu até 99% de eficiência em banhos longos, mas com maior mortalidade dos peixes. Já o alho oferece bons resultados com menor risco”, compara Honda.

    A Embrapa está aberta a parcerias com o setor privado para desenvolver fitoterápicos voltados à aquicultura, buscando novas soluções sustentáveis e economicamente viáveis. Empresas interessadas podem entrar em contato pelo e-mail [email protected].

    Outros estudos da Embrapa reforçam o potencial dos compostos naturais no controle de doenças em peixes. Uma pesquisa da Embrapa Amapá demonstrou que óleos essenciais de plantas amazônicas, como o Piper callosum e o Piper hispidum, reduzem a infestação de vermes das brânquias no tambaqui (Colossoma macropomum), ampliando as perspectivas para o uso de fitoterápicos no manejo sustentável da piscicultura brasileira.

  • Pescaria: pirarucu gigante surpreende família no ES

    Pescaria: pirarucu gigante surpreende família no ES

    Durante um passeio de barco na tarde de sábado (10), uma família teve uma experiência surpreendente na Lagoa do Aguiar, em Linhares, no litoral norte capixaba. Marcella Ferreira fisgou um pirarucu de 65 quilos e 1,56 metro de comprimento. Um feito considerado excepcional pela pescadora, que utilizava equipamento inadequado para o tamanho do peixe.

    https://www.instagram.com/agazetaes/reel/DTYXNZJD8CG/

    Marcella relatou à reportagem de A Gazeta do ES que a família navegava pela lagoa apenas para mostrar o local aos tios e à mãe, que aproveitam as férias na região. A intenção inicial não incluía pescaria profissional.

    Empolgado com o passeio, um dos tios lançou seu molinete na água. Marcella decidiu acompanhar a brincadeira, mas utilizou apenas uma vara com carretilha leve. O equipamento costuma ficar guardado no barco e serve para peixes de até cinco quilos.

    Pescadora confundiu peixe gigante com tronco de árvore

    Poucos minutos após lançar a linha, Marcella sentiu uma forte resistência. “Achei que minha vara tinha prendido em um toco. Quando dei três puxadas mais fortes, ele pulou e não acreditei no que vi”, descreveu a pescadora.

    Reprodução: Redes Sociais/Arquivo pessoal

    Ricardo Ferreira, marido de Marcella, ajudou no processo de captura do peixe. O casal reconhece que as chances de sucesso eram mínimas. “Na verdade, não teria como pegar esse peixe da forma que foi pego, foi um milagre”, afirmou Marcella.

    Pirarucu figura entre maiores peixes de água doce do Brasil

    O pirarucu (Arapaima gigas) é um dos maiores peixes de água doce do mundo e pode alcançar até 3 metros de comprimento e 200 quilos. A espécie habita bacias amazônicas, mas populações também ocorrem em lagoas e represas de outras regiões do Brasil, incluindo o Espírito Santo.

    Reprodução: Redes Sociais/Arquivo pessoal

    A Lagoa do Aguiar, localizada em Linhares, é conhecida pela diversidade de peixes e atrai pescadores esportivos de diferentes partes do país. O local integra a região da foz do Rio Doce, importante área de preservação ambiental capixaba.

  • Brasil mapeia DNA do pirarucu para fortalecer bioeconomia amazônica

    Brasil mapeia DNA do pirarucu para fortalecer bioeconomia amazônica

    O consórcio Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB) coloca o pirarucu entre as 80 espécies que terão genomas de referência publicados no Banco de Referências Genômicas de Espécies Brasileiras (GenRefBR). A plataforma, lançada durante a COP30, disponibiliza gratuitamente dados essenciais para conservação e desenvolvimento econômico sustentável.

    O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Tecnológico Vale (ITV) lideram a parceria. O projeto prevê produzir mil genomas populacionais e 1,6 mil códigos de barras de DNA até 2027, com investimento de R$ 110 milhões.

    “O mundo não está preparado para ter um país do sul global produzindo pesquisa sobre genômica na escala que estamos fazendo”, avalia Alexandre Aleixo, coordenador do consórcio GBB pelo ITV.

    Pirarucu movimenta milhões e ganha reforço científico

    O maior peixe de água doce da Amazônia, o pirarucu (Arapaima gigas), já enfrentou risco de extinção. Hoje, o manejo comunitário recuperou as populações e transformou a espécie em símbolo da bioeconomia ribeirinha. Em 2023, 42 comunidades do Médio Juruá (AM) movimentaram R$ 4,3 milhões com o manejo sustentável do peixe.

    O sequenciamento genômico promete adicionar novos capítulos a essa história de sucesso. Os pesquisadores desenvolvem ferramentas de rastreabilidade para criar certificados de origem e proteger populações estratégicas.

    “Embora vários trabalhos já tenham tentado fazer isso, nenhum deles levou tão a fundo a questão da genômica quanto o GBB está fazendo”, afirma Valdenor Magalhães, mestre em Biologia de Água Doce pelo Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA) e consultor do GBB desde 2024.

    Certificação genética diferencia produto e aumenta valor

    Magalhães, que manejou pirarucu por anos, explica como o sequenciamento genômico beneficia as comunidades ribeirinhas. “A partir do momento que você tem um sistema de rastreabilidade, você consegue diferenciar qual peixe que é de manejo, qual é pescado ilegalmente, qual peixe que é advindo da piscicultura e consequentemente estabelecer categorias de valoração para esse produto”.

    pirarucu
    Foto: Luciano Candisani

    O Fórum Mundial da Bioeconomia projeta que o setor movimente US$ 30 trilhões até 2050, representando um terço da economia global. Atualmente, a bioeconomia gera US$ 4 trilhões mundialmente.

    Brasil lidera protagonismo científico em genômica da biodiversidade

    O GBB reúne mais de 300 pesquisadores de instituições nacionais e internacionais, incluindo Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade de Oxford e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

    “É a primeira vez que um órgão ambiental ligado ao governo federal participa como cogestor de um consórcio de genômica”, destaca Amely Martins, analista ambiental e coordenadora do GBB pelo ICMBio. Ela ressalta a inovação não apenas na magnitude das metas, mas principalmente na aplicação direta das tecnologias para conservação da biodiversidade.

    O consórcio supera barreiras históricas que forçavam pesquisadores brasileiros a realizar estudos no exterior. Custos elevados, dificuldades logísticas no transporte de amostras e falta de equipamentos avançados impediam o país de estudar sua própria biodiversidade.

    Além do pirarucu, o GBB destaca o mapeamento de 136 abelhas sem ferrão da Amazônia e a finalização do genoma do açaí. O consórcio seleciona espécies com potencial bioeconômico, espécies ameaçadas de extinção e espécies invasoras que ameaçam a biodiversidade nativa.

    DNA ambiental revoluciona monitoramento da biodiversidade

    O GBB utiliza DNA Metabarcoding (eDNA), técnica que identifica múltiplas espécies com uma única amostra de fragmentos de DNA coletados da água, solo ou ar. Células de pele, muco, fezes, saliva e organismos mortos revelam todos os vertebrados, invertebrados e microrganismos que passaram por uma área.

    A técnica oferece uma “fotografia” do ambiente sem capturar indivíduos vivos. Pesquisadores detectam espécies invasoras, avaliam mudanças na biodiversidade após incêndios e analisam a dieta das espécies. Os resultados saem em semanas, enquanto métodos tradicionais levam meses ou anos.

    O eDNA funciona como códigos de barras de supermercado, mas reconhece espécies com precisão no lugar de identificar preços. O Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Monitora) do ICMBio já realiza testes com a tecnologia como protocolo avançado de monitoramento.

    “Os dados podem orientar políticas públicas, garantir cadeias produtivas mais seguras e proteger espécies que correm risco real de desaparecer”, afirma Guilherme Oliveira, Diretor Científico do ITV Desenvolvimento Sustentável.

    Genômica salva espécies brasileiras da extinção

    O consórcio GBB seleciona espécies brasileiras sob risco de extinção para análises genômicas prioritárias. As informações orientam decisões estratégicas como criação de corredores ecológicos e proteção de habitats críticos.

    A saíra-apunhalada exemplifica a urgência do trabalho. Esta ave rara, encontrada apenas na Mata Atlântica do Espírito Santo, conta com cerca de 20 indivíduos restantes. A destruição e fragmentação do habitat ameaçam a espécie.

    O sequenciamento genômico apoia os Planos de Ação Nacionais de Conservação (PANs) do ICMBio, ações contra tráfico de fauna, decisões sobre criação de reservas e estratégias de manejo.

    Genômica e taxonomia trabalham juntas

    No Brasil, espécies correm risco de desaparecer sem terem sido descritas. O GBB combina genômica e taxonomia para definir espécies, mapear populações e reconhecer ameaças reais de extinção.

    A iniciativa envolve 14 centros de pesquisa e abrange desde organismos subterrâneos vulneráveis, como o Iuiuniscus iuiuensis e outros troglóbios – pequenos animais despigmentados que vivem exclusivamente em cavernas – até gigantes como o peixe-boi.

    “A genômica virou uma ferramenta como o microscópio. Ela é poderosa, mas é só mais uma ferramenta. Não substitui o trabalho de descrever, coletar e comparar espécie por espécie”, explica Santelmo Vasconcelos, biólogo e pesquisador do ITV.

    GenRefBR democratiza acesso a dados genômicos no Brasil

    O GBB criou o GenRefBR para facilitar o acesso a informações genômicas de vertebrados brasileiros. A plataforma pública reúne dados essenciais para pesquisas em conservação, bioeconomia e evolução. O sistema incluirá plantas e invertebrados futuramente.

    A criação do banco responde às dificuldades de acessar informações em bancos estrangeiros. Uma estrutura técnica e financeira robusta sustenta a missão, envolvendo logística, sequenciamento avançado de DNA, supercomputação e equipes especializadas em bioinformática.

    O futuro do GenRefBR depende da continuidade do financiamento e da possível transformação em iniciativa nacional permanente. O objetivo é garantir que o Brasil ocupe lugar de protagonismo na conservação baseada em dados genômicos.

  • Inteligência artificial revoluciona reprodução de pirarucu

    Inteligência artificial revoluciona reprodução de pirarucu

    Uma tecnologia que até pouco tempo era exclusiva de laboratórios de neurociência está transformando a criação de pirarucu no Brasil. A Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas (TO), desenvolveu um sistema inédito de inteligência artificial capaz de prever com precisão o momento reprodutivo do Arapaima gigas, o gigante das águas amazônicas que pode ultrapassar 100 quilos.

    O projeto, realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), adapta técnicas de rastreamento comportamental originalmente desenvolvidas para estudos com roedores. A iniciativa coloca o Brasil na vanguarda da aquicultura inteligente, área ainda pouco explorada no país.

    “Aplicações em piscicultura, especialmente com espécies nativas como o pirarucu, representam uma nova fronteira”, afirma o professor Cleiton Aguiar, da UFMG, coordenador do projeto. Segundo ele, enquanto a inteligência artificial já é amplamente utilizada em setores como saúde e agronegócio de grãos, sua aplicação na criação de peixes nativos ainda é praticamente inexistente no país.

    Como funciona o sistema de monitoramento inteligente

    O mecanismo desenvolvido pelos pesquisadores utiliza 12 câmeras instaladas em viveiros escavados, registrando continuamente o comportamento dos peixes das 6h às 18h. Como o pirarucu possui respiração aérea obrigatória, precisa subir regularmente à superfície. Cada aparição é detectada automaticamente pelo sistema de IA, que marca a posição exata no viveiro.

    Os resultados obtidos nessa pesquisa abrem portas para outros tipos de explorações científicas com a espécie – Foto: Arquivo pessoal

    “A máquina conta quantas vezes o pirarucu sobe e gera uma planilha com dia, hora e coordenadas de cada aparição”, explica Lucas Torati, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura. O sistema elimina a necessidade de observação humana contínua, que além de cara, é limitada e subjetiva.

    Aprendizado de máquina: ensinando computadores a reconhecer peixes

    Por trás da aparente simplicidade do monitoramento está um complexo processo de aprendizado de máquina. Os pesquisadores utilizam redes neurais profundas, modelos computacionais inspirados no funcionamento do cérebro humano, compostos por múltiplas camadas de processamento.

    O treinamento começa com a marcação manual de cerca de 200 quadros de vídeo, identificando os quatro cantos do viveiro e as diferentes partes do corpo do peixe (cabeça, tronco e cauda). A partir desses exemplos, a rede neural aprende a reconhecer automaticamente os padrões em novos vídeos.

    A precisão do sistema depende da variedade de condições incluídas no treinamento. “É necessário utilizar imagens com diferentes condições de luminosidade – manhã, meio-dia e entardecer – e em diversas situações climáticas: sol, nuvens e chuva”, detalha Torati. Esse treinamento minucioso garante que o sistema funcione eficientemente em todas as condições ambientais.

    Da neurociência à aquicultura: adaptando ferramentas científicas

    O projeto utiliza o DeepLabCut (DLC), um software de código aberto amplamente empregado em pesquisas de neurociência para rastrear movimentos de animais. No Laboratório de Neurociências Comportamental e Molecular (LANEC) da UFMG, a ferramenta é usada principalmente para analisar o comportamento de ratos em tarefas de aprendizagem.

    A engenheira e doutoranda Natália Martínez, do Programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFMG, colabora na adaptação dessa tecnologia para o contexto da aquicultura. A diferença fundamental está no objetivo: enquanto nos roedores o foco é compreender mecanismos de memória e aprendizagem, no pirarucu a IA monitora padrões que refletem bem-estar, crescimento e comportamento reprodutivo.

    Detecção precoce: o santo graal da piscicultura de pirarucu

    O grande desafio enfrentado pelos produtores está na identificação do momento exato da formação do ninho. Após receberem implantação hormonal, o casal de pirarucus forma um ninho onde a fêmea deposita os ovos para serem fertilizados pelo macho.

    Pesquisador Lucas Torati. Foto: Arquivo pessoal

    Durante o cuidado parental, comportamento característico da espécie, o casal permanece sempre no mesmo local e para de buscar alimento. A identificação precoce desse momento é crucial para o sucesso da produção.

    “Se fosse possível coletar ovos recém-fertilizados, certamente aumentaria a taxa de sobrevivência”, destaca Torati. Atualmente, os produtores perdem milhares de alevinos pela demora em retirá-los dos viveiros. O sistema de IA promete identificar o momento exato da formação do ninho, permitindo intervenção no tempo ideal.

    Além da reprodução

    As aplicações da inteligência artificial na criação de pirarucu vão muito além do monitoramento reprodutivo. Os pesquisadores vislumbram um leque de possibilidades para os próximos anos.

    O sistema poderá avaliar como fatores ambientais – temperatura da água, níveis de oxigênio e amônia – interferem na frequência respiratória dos peixes. Também será possível identificar períodos de maior atividade, medir níveis de estresse pós-manejo durante biometrias e até detectar reflexos comportamentais de diferentes doenças.

    “A IA permite monitorar eficiência alimentar e consumo de comida automaticamente, sem contagem manual”, projeta Torati. Uma perspectiva ainda mais ambiciosa é o cálculo automático de biomassa através de análise fotográfica, eliminando a necessidade de manejos estressantes em peixes que podem superar 100 quilos.

    Financiamento e parcerias estratégicas

    O projeto conta com recursos do consórcio internacional de pesquisa Aquavitae, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (FAPT) e de emenda parlamentar do senador Eduardo Gomes (Tocantins). A colaboração entre Embrapa e UFMG demonstra o potencial da união entre instituições de pesquisa para desenvolver soluções inovadoras para desafios brasileiros.

    A tecnologia desenvolvida representa um salto qualitativo para a aquicultura nacional. Ao transformar dados comportamentais em informações quantitativas, padronizadas e contínuas, o sistema facilita a tomada de decisões no manejo e aumenta a previsibilidade da produção.

    Para um setor que busca expansão sustentável e maior competitividade, ferramentas como essa podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso comercial. O pirarucu, valorizado no mercado nacional e internacional, ganha aliados tecnológicos para consolidar sua posição como uma das principais espécies da piscicultura brasileira.

  • Pirarucu ganha “CPF Digital” e abre novos mercados

    Pirarucu ganha “CPF Digital” e abre novos mercados

    O maior peixe de água doce da Amazônia enfrenta um novo desafio, desta vez, positivo. Depois de superar a ameaça de extinção pela pesca predatória nos anos 1990, o pirarucu agora protagoniza uma revolução tecnológica que promete agregar valor à cadeia produtiva e aumentar a renda das comunidades ribeirinhas.

    A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) lançou o projeto “Sistema de Rastreabilidade: Inovação e Inteligência de Mercado na Cadeia Produtiva do Pirarucu da RDS Mamirauá”. A iniciativa combina tecnologia blockchain, infraestrutura física e novos canais de comercialização para fortalecer a sociobioeconomia amazônica.

    Blockchain garante rastreabilidade total do pescado

    O projeto traz três pilares inovadores. Primeiro, a FAS implementa blockchain para assegurar a procedência do pescado, com dados que o aplicativo Gygas coleta diretamente nas comunidades. Segundo, a organização constrói um flutuante de pré-beneficiamento na comunidade Santa Luzia do Jussara. Terceiro, a equipe cria a marca Gigantio, focada em estratégias de comercialização do filé de pirarucu.

    O investimento total alcança R$ 3,5 milhões. O aplicativo Gygas funciona mesmo em áreas de baixa conectividade e rastreia completamente o pirarucu — tanto a carne quanto a pele. A tecnologia blockchain assegura transparência e confiabilidade em toda a cadeia produtiva.

    O “CPF do pescado” substitui cadernos vulneráveis

    Na prática, o sistema funciona como um “caderno digital de dados” que registra cada fase do manejo, desde a captura nos lagos até a chegada ao consumidor final. A plataforma conecta esses registros, criptografa-os em sequência e impede alterações. No final, cada pirarucu recebe um QR Code único — o “CPF do pescado”.

    “É uma ferramenta que fortalece a sociobioeconomia e dá mais visibilidade ao trabalho das comunidades ribeirinhas e indígenas, mostrando ao mundo que é possível conservar a floresta e gerar renda de forma sustentável”, explica Wildney Mourão, gerente de Empreendedorismo e Negócios Sustentáveis da FAS.

    Comunidades abandonam planilhas de papel

    O Ibama regulamenta o manejo do pirarucu e autoriza a pesca de até 30% da população adulta por meio de cotas anuais. Para cumprir essa exigência, os comunitários já precisavam registrar e comprovar todos os dados da atividade.

    Antes, os manejadores anotavam informações como peso, comprimento, sexo e lago de origem em planilhas vulneráveis a rasuras, perdas ou danos pela umidade. Denilson dos Santos, jovem manejador e morador da comunidade ribeirinha, relata a transformação: “Com a novidade, ficou melhor do que quando a gente usava o caderno. Antes tinha o risco de molhar, porque tudo ficava junto à evisceração do peixe”.

    O aplicativo torna o processo mais ágil e confiável. A tecnologia gera automaticamente relatórios que facilitam a emissão dos documentos de legalização, assegurando a rastreabilidade e a conformidade do manejo sustentável.

    A FAS construiu o sistema com base em um princípio central: escutar quem diariamente lida com o manejo do pirarucu. “As comunidades já possuem seus próprios sistemas de manejo, que são métodos tradicionais. Nosso papel foi traduzir isso em uma solução digital que respeita essa lógica, ao mesmo tempo em que facilita processos, gera mais segurança e valoriza o trabalho da comunidade”, explica Matheus Vinícius, desenvolvedor de tecnologia da FAS.

    Impacto social atinge 180 pessoas em três comunidades

    O projeto beneficia diretamente 55 manejadores de pirarucu em três comunidades: Mangueira, Catiti e Jussara. A previsão indica ampliação da renda de 45 famílias, cerca de 180 pessoas, além da geração de 15 novos empregos.

    Foto: Rodolfo Pongelupe

    Os manejadores atuam na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, formando uma ampla rede de atores sociais cuja economia e cultura se ligam profundamente à pesca. A atividade responde por mais de 70% da produção de pirarucu no Amazonas e, dentro da reserva, o peixe representa a principal fonte de renda para as famílias ribeirinhas.

    “O sistema é um marco para transformar desafios históricos em oportunidades, unindo qualidade, transparência e protagonismo comunitário”, destaca Valcleia Lima, superintendente adjunta da FAS.

    Pele de pirarucu conquista mercado de moda e design

    O projeto também amplia a presença do pirarucu no mercado gastronômico. O Gigantio conectará associações e cooperativas comunitárias da Amazônia a chefs, restaurantes e hotéis de referência em todo o Brasil. A pele do peixe, por sua vez, ganha oportunidade de valorização em produtos de moda e design de alto valor agregado, criando novas frentes de negócio.

    Foto: Rodolfo Pongelupe

    “Isso é inteligência de mercado: uma estratégia que garante origem, eficiência e agrega valor ao pirarucu de manejo sustentável, promovendo iniciativas inovadoras como o Gigantio, clube de assinatura que comercializará o peixe diretamente com o setor gastronômico e hoteleiro de forma mais justa e responsável”, detalha Mourão.

    Positivo Tecnologia apoia bioeconomia amazônica

    A FAS executa o projeto “Sistema de Rastreabilidade: Inovação e Inteligência de Mercado na Cadeia Produtiva do Pirarucu da RDS Mamirauá” com apoio da Positivo Tecnologia, por meio do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), política pública da Suframa que o Idesam coordena.

    Leandro Rosa dos Santos, vice-presidente de Estratégia e Inovação da Positivo Tecnologia, afirma que a empresa tem responsabilidade com a Amazônia. “A inovação e a sustentabilidade fazem parte do DNA da Companhia, por isso é tão importante apoiar iniciativas que preservem o meio ambiente e o desenvolvimento econômico e social”, comenta. “Uma das nossas principais fábricas, responsável por boa parte da produção, está localizada na Zona Franca de Manaus. Participar desse projeto é, também, uma forma de retribuir e ressaltar a importância que os ecossistemas naturais têm para nós e para todo o planeta”.

    Foto: Rodolfo Pongelupe

    Thiago Boutin, líder técnico de PD&I da empresa, reforça: “A Positivo, como uma empresa 100% brasileira, tem orgulho de apoiar iniciativas que fortalecem a cadeia do pirarucu, um peixe que chegou a ficar ameaçado de extinção na década de 1990”.

    As ações contribuem diretamente para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), incluindo redução da pobreza, crescimento econômico, consumo e produção responsáveis e vida na água.

  • Tratamento com alho combate parasitas que matam alevinos de pirarucu

    Tratamento com alho combate parasitas que matam alevinos de pirarucu

    Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) descobriram que cápsulas de alho (Allium sativum) vendidas em farmácias combatem com eficácia parasitas que atacam alevinos de pirarucu (Arapaima gigas). A solução natural e acessível pode reduzir perdas na produção, melhorar o bem-estar animal e diminuir o uso de produtos químicos no setor.

    O estudo, publicado na revista científica Veterinary Parasitology, demonstrou que as cápsulas de alho reduziram significativamente a presença de dois inimigos comuns dos alevinos: os protozoários tricodinídeos e o verme das brânquias Dawestrema cycloancistrium. Esses parasitas causam mortalidade em larga escala nos criadouros de pirarucu, uma das espécies mais cultivadas no Brasil.

    A pesquisadora Patricia Oliveira Maciel Honda, da Embrapa, coordenou a pesquisa em parceria com a Universidade Federal do Tocantins (UFT) e a Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) financiou o projeto.

    Parasitas ameaçam criações e causam morte de cardumes inteiros

    Os tricodinídeos são protozoários unicelulares, enquanto as monogeneas constituem um tipo de helminto conhecido como verme das brânquias. Ambos os parasitas infectam comumente as brânquias e o corpo de alevinos de pirarucu e podem levar cardumes inteiros à morte.

    Patrícia Maciel manejando pirarucu – Foto: Siglia Souza/Embrapa

    Os pesquisadores utilizaram diversas concentrações de alho no tratamento: 2,5 mg, 5 mg, 7,5 mg e 10 mg por litro. Eles expuseram os peixes durante quatro dias em banhos estáticos. No combate às monogeneas, as doses mais baixas promoveram uma redução de 33,5% a 42,9% sem causar nenhum tipo de toxicidade nos peixes.

    “A intensidade de D. cycloancistrium nas brânquias apresentou redução significativa nos peixes tratados em comparação ao controle (animais que não receberam tratamento), mas não observamos diferenças entre as concentrações testadas, indicando que as menores doses são eficazes”, destaca a pesquisadora.

    No caso dos tricodinídeos, o experimento alcançou uma eficácia de 77% para a dosagem de 5 mg/L em quatro dias de tratamento, com redução dos protozoários nas brânquias.

    As cápsulas de alho de farmácia apresentam duas versões: 1.000 mg e 500 mg. A partir dessas apresentações, os pesquisadores testaram diferentes doses. “Colocamos, por exemplo, duas cápsulas de 1.000 mg e uma cápsula de 500 mg em um litro de água, e fomos medindo para obter as concentrações de teste. Dessa forma, chegamos à dose de 2,5 mg por litro”, detalha Maciel.

    Metodologia comprova morte de parasitas sem afetar os peixes

    Os pesquisadores deixaram os peixes naturalmente infectados em aquários com água e alho por 96 horas. Após esse período, a equipe coletou o sangue dos alevinos e raspou o muco dos animais para verificar os protozoários mortos. Os cientistas também verificaram as monogeneas presentes nas brânquias.

    “Para quantificar os protozoários tricodinídeos no muco que morreram após a exposição ao alho, utilizamos um corante que penetra nas células mortas. Então, levamos a amostra de muco ao microscópio e contamos as células de coloração azul, indicadora da morte do organismo”, explica a cientista da Embrapa.

    Os pesquisadores constataram que nas três maiores dosagens (5 mg/litro, 7,5 mg/litro e 10 mg/litro) uma quantidade maior de tricodinas morreu em comparação ao grupo controle. Para monogeneas, todas as concentrações utilizadas, desde a menor (2,5 mg/litro) até 10 mg/litro, provocaram uma redução significativa na carga de parasitos em relação ao grupo de controle.

    “Não observamos mortalidade ou alterações comportamentais dos alevinos de pirarucu durante o experimento. Os resultados sugerem que o alho pode constituir uma alternativa fitoterápica promissora para o manejo de ectoparasitas na piscicultura, particularmente na concentração de 5,0 mg/L por quatro dias de exposição”, sublinha a pesquisadora. Ela conta que, embora o alho apresente efeito imunoestimulante, a equipe não identificou esse benefício nos peixes analisados.

    Momento ideal para aplicar o tratamento

    A pesquisadora lembra que os produtores não induzem a reprodução do pirarucu. Os alevinos são coletados em viveiros após a reprodução natural do casal, o que favorece que os alevinos carreguem parasitos – geralmente os ectoparasitos monogeneas, os tricodinídeos e os parasitos internos nematóides.

    O momento ideal para aplicar o tratamento com alho ocorre durante o treinamento alimentar dos pirarucus, quando os produtores colocam os alevinos em caixas d’água ou estruturas similares para ensiná-los a comer ração. Nesse momento, os produtores devem observar se os peixes apresentam alguma sintomatologia ou sinal clínico da doença, tais como inapetência, flashing (comportamento de raspar-se nas laterais do tanque, como se coçasse), apatia ou isolamento do grupo.

    Pirarucu no tanque – Foto: Eliane Tie Oba Yoshioka/Embrapa

    As brânquias podem ficar pálidas porque o peixe desenvolve anemia. As monogeneas se alimentam de sangue e células epiteliais do hospedeiro. Os animais também podem apresentar melanose, um escurecimento da pele.

    “Quando identificamos peixes nesse estado, o ideal é descartá-los e tratar o lote restante de modo profilático, porque quando o animal apresenta esses sinais clínicos, dificilmente tem cura”, alerta a pesquisadora.

    Diagnóstico precoce aumenta chances de sucesso

    É possível confirmar a presença dos parasitos em exames de microscópio ótico, e o ideal é realizar o diagnóstico precoce. Uma vez que os produtores identificam os parasitos, devem iniciar o tratamento com alho durante o treinamento alimentar.

    Segundo a médica veterinária, outro momento adequado para realizar o tratamento com alho ocorre quando os produtores recolhem os alevinos dos viveiros para transportá-los. Geralmente os peixes vêm do viveiro com alguma carga parasitária. “Esse tipo de manejo geralmente estressa o peixe, diminuindo seu sistema imunológico. Nesse período de aclimatação e preparação para o transporte também seria indicado usar o alho de forma profilática”, diz ela.

    “O óleo de alho demonstrou eficácia no controle desses parasitos, com destaque para a concentração de 5,0 mg/L, que também não induziu toxicidade significativa”, afirma. No entanto, os pesquisadores precisam conduzir mais estudos para compreender melhor seu uso a campo. Maciel defende mais pesquisas nessa área e maior disponibilidade de produtos aprovados para a aquicultura, com a respectiva avaliação de custos.

    A Embrapa está aberta a parcerias com indústrias para desenvolver esse e outros fitoterápicos para a aquicultura. Empresas interessadas podem entrar em contato pelo e-mail: [email protected].

    Sal de cozinha também apresenta eficácia comprovada

    Segundo Patrícia Maciel, embora nenhuma pesquisa específica tenha avaliado a eficácia do uso do sal e do alho conjuntamente no tratamento de parasitos na aquicultura, ela coordenou um estudo anterior publicado no Journal of Fish Diseases que comprovou a eficácia do cloreto de sódio no combate do parasita monogenea Dawestrema cycloancistrium no pirarucu.

    A pesquisa contou com parceria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e financiamento do Sebrae.

    Na ocasião, a equipe testou o sal e o triclorfon, um produto químico muito utilizado em pisciculturas. Os testes avaliaram banhos curtos e longos.

    Os banhos longos duraram 24 horas de exposição, com 10 g de sal por litro. A equipe aplicou dois banhos com intervalo de 24 horas, totalizando três dias de tratamento.

    Já nos banhos curtos, os peixes ficaram numa solução de 12 g de sal por litro durante quatro horas de banho, uma vez por dia durante quatro dias.

    Os pesquisadores testaram o triclorfon com a mesma posologia, ou seja, mesma forma de administração, mudando apenas a dose para 5 mg do quimioterápico por litro.

    “A nossa pesquisa constatou que a eficácia do sal atingiu 91% nos banhos curtos. Nos banhos longos alcançou 99%, porém ocorreu maior mortandade de peixes. Já para o triclorfon a eficácia foi de 84% para os banhos curtos e de 97% para os banhos longos, também com maior mortalidade”, explica ela. “Nós concluímos que o banho longo não é indicado para o peixe que está muito parasitado. Pois o animal está debilitado e não resiste ao tratamento”, conclui a pesquisadora.

    Óleos essenciais amazônicos também combatem parasitas em tambaquis

    O uso de fitoterápicos na aquicultura tem sido amplamente estudado como alternativa para o controle de ectoparasitas em peixes.

    Pesquisa recente da Embrapa Amapá revelou que óleos essenciais extraídos de plantas amazônicas combatem com eficácia parasitas que atacam as brânquias (monogeneas) do tambaqui (Colossoma macropomum), espécie nativa mais cultivada no Brasil. A pesquisa aponta para uma alternativa natural ao uso de quimioterápicos, abrindo novas perspectivas para práticas mais sustentáveis na piscicultura brasileira.

    O trabalho analisou óleos essenciais de três espécies do gênero Piper: P. callosum, P. hispidum e P. marginatum. Os dois primeiros apresentaram resultados positivos na redução da infestação por vermes monogeneas, responsáveis por comprometer a saúde dos peixes. Já o terceiro não demonstrou a mesma efetividade no tratamento.

    O pesquisador Marcos Tavares Dias, da Embrapa Amapá, coordenou a investigação em colaboração com a Universidade Federal do Amapá (Unifap) e a Embrapa Amazônia Ocidental (AM). O estudo contou com financiamento do CNPq, por meio do Edital Universal.

  • Novo flutuante impulsiona cadeia do pirarucu e bioeconomia na Amazônia

    Novo flutuante impulsiona cadeia do pirarucu e bioeconomia na Amazônia

    A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e o Bradesco entregaram um flutuante de pré-beneficiamento na comunidade de Ingaioara, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, em Fonte Boa (AM).

    A estrutura vai transformar o manejo do pirarucu, um dos maiores peixes da Amazônia, fortalecendo a bioeconomia local e valorizando o trabalho ribeirinho. O projeto integra a Cadeia Produtiva do Pirarucu Manejado, desenvolvido pela FAS com apoio estratégico do Bradesco. E mantém compromisso com o desenvolvimento sustentável das comunidades amazônicas.

    O flutuante oferece instalações que garantem higiene e conservação do pescado imediatamente após a captura, reduzindo perdas e garantindo melhor qualidade para o produto final. Com capacidade para processar até 53 toneladas de pirarucu inteiro eviscerado por safra, a estrutura atenderá mais de 80 manejadores de quatro comunidades locais.

    Além disso, o equipamento alia o conhecimento técnico do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá com as práticas tradicionais dos próprios manejadores, reforçando a autonomia comunitária e otimizando a cadeia produtiva.

    Importância do investimento

    Raimundo “Birico” Gomes Ferreira, manejador da comunidade de Ingaioara, destacou a importância do investimento: “Criamos um regimento para cuidar do flutuante, que vai ajudar a organizar a produção e garantir um preço justo pelo nosso trabalho.” Desde 2021, o projeto estimula a participação de jovens e mulheres nas atividades de beneficiamento e comercialização do pirarucu, ampliando as oportunidades econômicas e sociais.

    O projeto alcançou resultados significativos nas fases anteriores. Em 2023, beneficiou 369 pessoas com capacitações que aperfeiçoaram técnicas tradicionais, elevando o preço médio do pirarucu e melhorando a renda das famílias ribeirinhas. Foram realizados treinamentos em gestão de negócios e educação financeira, com apoio de voluntários do Bradesco, que também contribuíram com palestras para fortalecer a autonomia financeira dos manejadores.

    Em eventos como a Feira do Pirarucu, promovida em Manaus, 153 manejadores comercializaram mais de 33 toneladas de peixe para cerca de 2.800 clientes. Consolidando o evento como referência em conciliação entre conservação ambiental e geração de renda.

    Parceria

    Além disso, o projeto é fruto de uma parceria entre FAS, Associação dos Moradores e Usuários da RDS Mamirauá Antônio Martins (Amurman), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (Sema) e Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror).

    Silvana Machado, diretora-executiva de Recursos Humanos e Sustentabilidade do Bradesco, ressaltou que a iniciativa demonstra como preservar a floresta e desenvolver a economia local podem caminhar juntos. Ela afirmou que o flutuante consolida quatro anos de apoio contínuo do banco à cadeia produtiva do pirarucu. E reafirma o compromisso histórico da instituição com a região amazônica.

    O manejo segue cotas rigorosamente definidas cientificamente para garantir o equilíbrio ecológico e a reprodução da espécie. A população de pirarucus, que antes enfrentava risco de extinção, vem se recuperando consistentemente nas últimas décadas, segundo pesquisas do Instituto Mamirauá.

    Cada peixe comercializado simboliza a aplicação de um modelo coletivo, sustentável e responsável, conduzido pelas comunidades locais. Que agora contam com essa nova infraestrutura para ampliar ganhos e fortalecer a conservação ambiental.