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  • Genoma do açaí é sequenciado pela primeira vez

    Genoma do açaí é sequenciado pela primeira vez

    Pesquisadores da Amazônia sequenciaram pela primeira vez o genoma completo do açaí (Euterpe oleracea Mart.), um avanço que promete acelerar o melhoramento genético da palmeira e abrir novas frentes de pesquisa biotecnológica. O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Embrapa Amazônia Oriental. E identificou os genes responsáveis por características como produtividade elevada, maior concentração de antocianinas e resistência a doenças.

    A descoberta também explica um mistério botânico que intrigava produtores e consumidores: por que alguns frutos de açaí são roxos e outros, verdes. Além disso, o mapeamento genético abre caminho para o desenvolvimento de novos produtos a partir de moléculas de interesse da indústria, como corantes naturais e antioxidantes.

    Os resultados foram publicados na revista científica Genome, no artigo “The genome sequence of the açaí berry (Euterpe oleracea Mart.) and RNA-Seq analysis of the fruit ripening”.

    Como a pesquisa foi conduzida

    O estudo partiu da seleção de amostras de açaizeiro armazenadas no banco genético da Embrapa Amazônia Oriental. O centro de pesquisa disponibilizou material da cultivar BRS Pai d’Égua para o sequenciamento do DNA, além de frutos em diferentes estágios de maturação de duas variedades distintas: uma que produz frutos roxos e outra que gera frutos verdes, conhecida popularmente como “açaí branco”.

    Açaí
    Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    O Laboratório de Engenharia Biológica (EngBio) da UFPA, localizado no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém, ficou responsável pela extração e sequenciamento do DNA, assim como pela montagem do genoma utilizando ferramentas de bioinformática.

    O que explica a diferença de cor entre os frutos

    A comparação genética entre as amostras de açaí roxo e branco revelou que a coloração mais comum do fruto resulta da ativação de uma enzima específica, ligada à síntese de antocianinas. Já a variedade branca apresenta uma inibição generalizada dos genes que dão início a esse processo de pigmentação.

    Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    Para a pesquisadora Elisa Moura, da Embrapa Amazônia Oriental e uma das autoras do estudo, essas descobertas têm potencial para transformar o trabalho de campo. Segundo ela, o sequenciamento permite identificar regiões do genoma que funcionam como marcadores genéticos, eliminando a necessidade de aguardar cerca de seis anos para obter dados sobre produção de antocianinas e produtividade das plantas.

    Um caminho mais curto para novas variedades

    O conhecimento do genoma do açaí representa um ponto de partida estratégico para identificar genes ligados a características desejáveis da planta. Moura destaca que, embora não exista atualmente nenhuma doença com impacto grave sobre a produção de açaí, o sequenciamento já oferece uma base importante caso surja alguma enfermidade no futuro, permitindo identificar com mais agilidade os genes relacionados à resistência.

    Pesquisadora Elisa Moura. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    A pesquisa também avança na busca por variedades de açaí mais adaptadas ao cultivo em terra firme. Como a palmeira é nativa de áreas de várzea, sujeitas a alagamentos sazonais, o desenvolvimento de plantas que tolerem ambientes com menos água tem sido uma das prioridades dos estudos da Embrapa.

    Maria do Socorro Padilha, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e responsável pela equipe que lançou a primeira cultivar de açaí em 2005, dimensiona o impacto da nova ferramenta genética. Segundo ela, o desenvolvimento daquela primeira cultivar levou 24 anos de trabalho em campo. Com os dados genômicos disponíveis hoje, esse prazo poderia cair para entre oito e dez anos.

    Pesquisadora Socorro Padilha. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    A pesquisadora explica que informações consistentes sobre o genoma da espécie permitem realizar boa parte da seleção genética dentro do laboratório. Portanto, tornando o processo significativamente mais rápido. Os dados de campo, levantados pelas equipes que avaliam as palmeiras de açaí, poderão agora ser cruzados com as informações geradas pelas áreas de biologia molecular, genética e bioinformática.

    Novas rotas biotecnológicas para a indústria

    Para além do melhoramento genético do açaizeiro, o professor Rafael Baraúna, do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA e coautor do artigo, aponta dois campos de aplicação para a descoberta. O primeiro envolve a geração de conhecimento sobre a biologia da planta. Com a perspectiva de criação de uma base de dados pública que sirva de apoio a outros pesquisadores da região.

    O segundo campo está relacionado à pesquisa aplicada. O mapeamento genético pode contribuir para a produção de moléculas de interesse das indústrias farmacêutica e cosmética. Depois de identificados os genes responsáveis por compostos como corantes naturais e antioxidantes, cientistas poderão recorrer a técnicas de engenharia biológica para induzir microrganismos, como bactérias e leveduras, a produzir essas substâncias em larga escala em ambiente laboratorial.

    Professor Rafael Baraúna. Foto: Vinícius Braga/Embrapa

    Baraúna afirma que esse processo, batizado pelos pesquisadores de criação de rotas biotecnológicas, representa uma alternativa mais sustentável para atender à demanda industrial. Segundo o professor, a produção controlada em laboratório reduz a exploração direta da planta no campo. E ao mesmo tempo aumenta a oferta das substâncias procuradas pelo mercado.

    Financiamento e equipe

    A pesquisa contou com financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além de Elisa Moura, Maria do Socorro Padilha e Rafael Baraúna, assinam o artigo os pesquisadores Maria Silvanira Ribeiro Barbosa, Sávio de Souza Costa, Davi Josué Marcon, Adan Rodrigues de Oliveira, Lucas da Silva e Silva, Maria Paula Cruz Schneider, Juarez Antônio Simões Quaresma, Diego Assis das Graças, Adonney Allan de Oliveira Veras, Simone de Miranda Rodrigues e Artur Silva.

    Quatro décadas de melhoramento genético do açaí

    A Amazônia abriga duas espécies de açaí com viabilidade comercial. O açaí-solteiro (Euterpe precatoria Mart.) predomina no Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima e se desenvolve em tronco único. Já o açaí de touceira (Euterpe oleracea Mart.), nativo do Pará, Amapá e Maranhão, cresce a partir de múltiplos troncos na base. E responde atualmente pela maior parte da produção nacional.

    O trabalho de melhoramento genético da Embrapa com o açaí de touceira teve início na década de 1990, resultando no lançamento de duas variedades adaptadas ao cultivo em terra firme. Uma mudança relevante, já que a espécie é originária de áreas de várzea sujeitas a alagamentos temporários.

    arvore de açaí
    Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    A primeira cultivar, batizada de BRS Pará, foi lançada em 2005 com foco no aumento de produtividade. Em 2019, a Embrapa apresentou a BRS Pai d’Égua. Ela, além do rendimento elevado, trouxe como diferencial a distribuição mais equilibrada da colheita ao longo do ano quando submetida à irrigação. Portanto, minimizando a escassez do fruto durante o período de entressafra no Pará.

    Atualmente, o projeto Melhoraçaí – Fase III dá continuidade às pesquisas com o açaí de touceira e também busca selecionar genótipos da espécie Euterpe precatoria Mart. (açaí-solteiro) para abastecer o mercado de polpa nos estados do Acre e Roraima.

  • Tecnologia brasileira pode revolucionar uso de fertilizantes

    Tecnologia brasileira pode revolucionar uso de fertilizantes

    Pesquisadores da Embrapa, da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um revestimento para fertilizantes capaz de liberar ureia de forma gradual e sincronizada com a necessidade das plantas. A solução combina um polímero derivado de óleo de mamona com nanoargila mineral e, nos testes com capim-piatã, dobrou a taxa de absorção de nitrogênio em comparação à ureia convencional.

    Revestimento à base de polímero derivado de óleo de mamona e argila mineral que é capaz de liberar de forma controlada a ureia. Foto: Pedro Octávio/Embrapa

    Nos experimentos de liberação em água, a ureia sem revestimento perdeu mais de 85% do nitrogênio em apenas quatro horas. Com o revestimento de poliuretano derivado de óleo de mamona, esse ritmo caiu. Mas o fertilizante ainda liberava cerca de 70% do nutriente em nove dias.

    A mudança mais expressiva veio com a adição de apenas 5% de nanoargila montmorilonita à matriz polimérica: a liberação caiu para 22% no mesmo período. Uma redução de 78 pontos percentuais.

    “A nanoargila cria uma espécie de barreira inteligente dentro do revestimento”, explica Caue Ribeiro, pesquisador da Embrapa e coordenador do Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA). “Além de dificultar fisicamente a passagem da água, ela interage quimicamente com o nitrogênio liberado. Assim, retém o nutriente por mais tempo e o libera de forma gradual, mais próxima do ritmo de absorção da planta.”

    Tecnologia inédita combina polímero renovável com mineral em escala nanométrica

    O revestimento usa poliuretano de origem renovável e biodegradável como base,um polímero que oferece boa adesão, resistência mecânica e degradação controlada. À essa matriz, os pesquisadores incorporaram montmorilonita em proporções que variaram entre 2% e 10% da massa da ureia.

    A estrutura em lamelas da montmorilonita (plaquetas que se empilham como escamas em distâncias nanométricas) é o segredo do desempenho. Quando os pesquisadores dispersam essas camadas na matriz polimérica, elas se esfoliam ou intercalam, criando uma distribuição em nanoescala que altera profundamente as propriedades de transporte do revestimento.

    Ricardo Bortoletto-Santos, professor da Unaerp e responsável pela condução da pesquisa em seu pós-doutorado, destaca que esta é a primeira avaliação com plantas desse tipo de revestimento à base de óleo de mamona e nanoargila realizada no Brasil.

    Experimentos com capim-piatã comprovam dobro na absorção de nitrogênio

    Em casa de vegetação, os pesquisadores cultivaram capim-piatã por 135 dias e realizaram quatro cortes sequenciais da gramínea. O resultado foi consistente em todas as etapas: os vasos fertilizados com ureia revestida com nanoargila produziram mais biomassa seca e absorveram o dobro de nitrogênio em relação aos vasos com ureia convencional.

    “Os resultados destacam o papel crucial da nanoestrutura do revestimento em aumentar a eficiência do uso de nutrientes e, ao mesmo tempo, minimizar as perdas ambientais”, afirma Bortoletto-Santos.

    A ureia é o fertilizante nitrogenado mais usado no mundo, com teor de nitrogênio de cerca de 45% em massa. Sua alta solubilidade, porém, representa um problema agronômico e ambiental grave: em condições normais, ela se dissolve rapidamente no solo, gerando volatilização de amônia e emissões de óxido nitroso, um potente gás de efeito estufa.

    Barreira química supera barreira física no controle do nutriente

    O estudo revelou que a montmorilonita não age apenas como obstáculo físico à passagem da água, mas principalmente como barreira química, por meio de interações iônicas e adsorventes com o nitrogênio.

    Revestimento e ureia em grânulos. Foto: Caue Ribeiro, Ricardo Bortoletto-Santos e Alefe

    “Essa interação química permite que o nutriente seja liberado em sincronia com a necessidade de absorção da planta”, diz Ribeiro. Para o pesquisador, esse mecanismo abre caminho para sistemas de revestimento mais finos, sem comprometer o desempenho. O que torna a tecnologia economicamente viável e ambientalmente mais sustentável.

    Inovação entra na estratégia nacional de fertilizantes

    Alberto Carlos de Campos Bernardi, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, contextualiza a relevância estratégica da pesquisa. O Brasil importa hoje mais de 85% dos fertilizantes que consome, e o nitrogênio está entre os nutrientes mais críticos e caros dessa equação.

    “Esse estudo representa muito mais do que uma questão acadêmica. Ele se insere na estratégia de Estado para reduzir a vulnerabilidade externa e aumentar a sustentabilidade da agricultura brasileira, consideradas no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) 2022-2050”, afirma Bernardi.

    Pesquisa publicada e aberta a parcerias

    Os resultados integram o artigo Role of Nanocomposite Structure in Polyurethane Coatings for Slow-Release Fertilizers: A Case Study with Brachiaria brizantha. Ele foi publicado em setembro de 2025 no periódico ACS Agricultural Science & Technology. Fapesp, CNPq, Capes e Finep financiaram o estudo.

    Os pesquisadores buscam parceiros para transferir a tecnologia ao setor produtivo. Interessados podem entrar em contato pelo e-mail [email protected].

  • Estruvita: fertilizante pode reduzir a dependência do Brasil por fósforo importado

    Estruvita: fertilizante pode reduzir a dependência do Brasil por fósforo importado

    Pesquisadores da Embrapa Agrobiologia (RJ) desenvolveram e testam a estruvita como fertilizante fosfatado de liberação lenta, produzido a partir de dejetos da suinocultura. Os resultados preliminares mostram que o produto consegue suprir até 50% da demanda de fósforo na cultura da soja, mantendo produtividade de 3.500 kg/há. Ou seja, próxima dos 3.560 kg/ha registrados na média nacional em 2025 com fertilização convencional.

    Experimento com estruvita e soja em casa de vegetação. Foto: Caio Inácio/Embrapa

    A tecnologia ganha relevância estratégica diante de um dado preocupante: o Brasil importa cerca de 75% dos fertilizantes fosfatados que consome. Para o coordenador do estudo, pesquisador Caio de Teves Inácio, o projeto vai além da simples substituição de insumos. “Estamos criando uma nova rota tecnológica para o campo brasileiro, alinhada à sustentabilidade, à autonomia e à inovação”, afirma.

    O que é a estruvita e como ela funciona

    A estruvita é um mineral branco, de fórmula química MgNH4PO4·6H2O, composto por cristais de fosfato de magnésio e amônio. Contém aproximadamente 12% de fósforo, 5% de nitrogênio e 10% de magnésio. Os pesquisadores obtêm o material por meio da precipitação química de nutrientes presentes nos efluentes da criação de suínos.

    Sua principal vantagem agronômica está na baixa solubilidade, que permite a liberação gradual de nutrientes acompanhando o ciclo das culturas. Essa característica é especialmente relevante nos solos tropicais brasileiros, altamente ácidos e ricos em óxidos de ferro e alumínio, que tendem a fixar o fósforo rapidamente, tornando-o indisponível para as plantas. A reação alcalina da estruvita no solo contribui ainda mais para aumentar o aproveitamento do nutriente — efeito oposto ao dos fertilizantes solúveis convencionais, que são ácidos.

    “É um paradoxo: temos um recurso promissor, mas pouco se sabe sobre seu comportamento nas nossas condições de solo”, reconhece Inácio. “Os solos predominantemente ácidos e com alta capacidade de adsorção de fósforo são justamente o ambiente onde a estruvita pode fazer a diferença.”

    Economia circular na prática

    O conceito por trás da tecnologia é o da economia circular aplicada ao agronegócio: transformar um passivo ambiental em insumo de alto valor agregado. “Transformamos os efluentes animais, antes um problema ambiental, em um fertilizante agrícola com valor real para o produtor”, explica o pesquisador.

    As recomendações preliminares indicam que a estruvita pode ser usada isolada ou em combinação com fertilizantes solúveis, em doses que variam de 50% a 100% da recomendação agronômica de fósforo, conforme a cultura e o tipo de solo. A equipe também desenvolve um fertilizante organomineral, que combina nutrientes minerais com matéria orgânica, cujos experimentos de difusão de fósforo no solo registraram resultados 50% superiores nos primeiros 28 dias, em comparação com a estruvita granulada pura.

    Benefícios ambientais e nova renda para suinocultores

    Além do ganho agronômico, a adoção da estruvita traz impactos ambientais e econômicos relevantes. Em regiões de suinocultura intensiva, como o Sul e o Centro-Oeste do Brasil, a precipitação da estruvita retira o excesso de nutrientes dos efluentes antes da aplicação no solo, reduzindo o risco de contaminação de águas superficiais e subterrâneas. Esse benefício ainda abre caminho para a ampliação da capacidade produtiva das granjas, hoje limitada pela quantidade de fósforo e nitrogênio que o solo pode receber.

    Experimento com estruvita e soja em casa de vegetação. Foto: Caio Inácio/Embrapa

    Do ponto de vista econômico, a tecnologia cria uma nova fonte de receita para os criadores. Estimativas da Embrapa indicam que propriedades com mais de 5 mil suínos podem gerar cerca de 340 mil toneladas de estruvita por ano no país. “Trata-se de uma alternativa economicamente viável e especialmente atrativa para médios e grandes criadores de suínos”, destaca Inácio.

    Um mercado global em expansão que o Brasil ainda precisa alcançar

    No cenário internacional, o interesse pela estruvita cresceu exponencialmente na última década. Em 2019, mais de 80 instalações de produção já operavam, principalmente em países desenvolvidos com excedentes de fósforo oriundos da pecuária intensiva ou da alta densidade populacional. China, Estados Unidos e Alemanha lideram a pesquisa na área, frequentemente por meio de cooperação internacional.

    O Brasil, no entanto, ainda engatinha nesse campo, o que representa tanto um atraso quanto uma oportunidade. A ausência de estudos locais deixa um vácuo de conhecimento sobre o desempenho da estruvita em condições tropicais, justamente o ambiente onde ela pode apresentar vantagens mais expressivas.

    Alinhamento com o Plano Nacional de Fertilizantes

    A pesquisa está alinhada ao Plano Nacional de Fertilizantes, que busca ampliar a produção doméstica e incentivar fontes alternativas mais eficientes e sustentáveis. Para Inácio, o projeto representa mais do que a busca por um insumo alternativo. “Nossa alta dependência de fertilizantes importados é uma fragilidade estratégica para a segurança alimentar do Brasil. Precisamos de tecnologias que permitam o uso eficiente do fósforo e a recuperação de nutrientes presentes em nossos próprios resíduos”, conclui.

    O estudo conta com financiamento do CNPq e da Embrapa, e reúne pesquisadores da Embrapa Solos (RJ), Embrapa Suínos e Aves (SC), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade de Rio Verde (UniRV) e Instituto Federal Farroupilha (campus Santo Augusto, RS).

    “Acreditamos que a estruvita tem um papel estratégico para o futuro da agricultura brasileira. Nosso trabalho é entregar a base científica para que ela possa ser registrada e adotada com segurança e eficiência no campo”, conclui o pesquisador.

  • Expedição leva ciência e inovação para pequenos produtores de café em Mato Grosso

    Expedição leva ciência e inovação para pequenos produtores de café em Mato Grosso

    A Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) e a Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf-MT) lançam a Expedição Rota do Café – MT: “Pelos Caminhos do Café Mato-grossense”. O circuito itinerante de encontros técnicos leva resultados de pesquisas diretamente aos cafeicultores familiares das regiões Norte e Noroeste do estado.

    A programação começa por Colniza e segue para Aripuanã, Cotriguaçu, Juína, Nova Bandeirantes e Nova Monte Verde. Estes municípios destacam-se como referências na produção de café robusta em Mato Grosso.

    Atualmente, o estado produz cerca de 270 mil sacas por ano em mais de 30 municípios. A agricultura familiar e a assistência técnica rural impulsionam este crescimento, colocando Mato Grosso entre os estados com maior potencial para produção de cafés robustas, segundo pesquisadores da Empaer.

    Pesquisadores compartilham conhecimento técnico no campo

    Na reunião de planejamento nesta semana, a equipe de pesquisadores apresentou o roteiro da expedição à secretária da Seaf, Andreia Fujioka, e ao presidente da Empaer, Suelme Fernandes. Durante os encontros, técnicos e pesquisadores compartilharão resultados de pesquisas sobre validação de clones de café robusta mais adaptados às condições locais.

    Foto: Assessoria Empaer

    “A proposta é levar mais conhecimento ao produtor. O projeto busca estimular a adoção de tecnologias, melhorar a produtividade e garantir qualidade ao café produzido nas pequenas áreas rurais”, explica a engenheira agrônoma e pesquisadora em Sistemas Produtivos da Empaer, Danielle Müller.

    O presidente da Empaer, Suelme Fernandes, reforça o compromisso da instituição: “Nosso compromisso é transformar a pesquisa em ações práticas que beneficiem diretamente o agricultor familiar. Cada etapa da programação foi pensada para transformar conhecimento em ação. Queremos inspirar o produtor a ver o potencial do nosso café”.

    Instituições se unem para fortalecer cafeicultura familiar

    A Rota do Café reúne parceiros institucionais que oferecem suporte técnico, científico e logístico às atividades. Participam da iniciativa a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), prefeituras municipais, sindicatos rurais, associações de produtores, cooperativas e instituições de ensino e pesquisa.

    “Entre os resultados esperados estão a integração entre pesquisa, extensão rural e produtores, a ampliação das oportunidades de comercialização e a valorização da identidade do café mato-grossense”, afirma a engenheira agrônoma e pesquisadora em Sistemas Produtivos da Empaer, Dalilhia Nazaré dos Santos.

    A secretária da Seaf, Andreia Fujioka, destacou a importância da união entre as instituições: “Acreditamos que o fortalecimento da agricultura familiar passa pela união entre instituições e produtores. Projetos como este reforçam o compromisso do Estado em gerar conhecimento, qualidade e renda para quem vive do que produz”.

    Qualidade e renda garantem permanência no campo

    Para a agricultura familiar, os benefícios vão além do aumento da produtividade. A expectativa da expedição é consolidar a marca “Café de Mato Grosso” como produto de origem, qualidade e valor social. Assim, gerarrenda e incentivando a permanência das famílias no campo.

    “Com assistência técnica, acesso à inovação e orientação adequada de manejo, pequenos produtores têm a oportunidade de produzir mais e melhor. Antes visto como cultura secundária em algumas regiões, o café ganha protagonismo na economia rural do estado”, pontua o engenheiro agrônomo e pesquisador em Solos da Empaer, Wininton Mendes.

    A inscrição para o evento é gratuita e está disponível no link da Empaer: https://forms.gle/GXBT2Ro8WGZfmn3N9

    Confira a programação completa

    Colniza: 11/3 (qua) – Câmara Municipal, 7h às 11h45;

    Aripuanã: 12/3 (qui) – Balneário Oasis, 7h às 11h45;

    Cotriguaçu: 25/3 (qua) – Centro de Eventos, 7h às 11h45;

    Juína: 26/3 (qui) – Barracão da Feira Municipal, 7h às 11h45;

    Nova Bandeirantes: 08/4 (qua) – local a definir, 7h às 11h45;

    Nova Monte Verde: 09/4 (qui) – Estância Villa Bella, 7h às 11h45.

  • Óleo de pequi melhora hidratação da pele, confirmam testes clínicos

    Óleo de pequi melhora hidratação da pele, confirmam testes clínicos

    Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP desenvolveram uma tecnologia capaz de transformar o óleo de pequi em cosmético hidratante de alta eficácia. O grupo encapsulou o óleo em nanoestruturas chamadas lipossomas, incorporando-o a géis e outras bases aquosa. Algo até então inviável por conta da incompatibilidade do óleo com a água e de seu odor marcante.

    Os testes clínicos confirmaram os benefícios: apenas duas horas após a aplicação do gel com as nanoestruturas, os participantes apresentaram hidratação imediata e significativa da pele, melhora da função barreira cutânea e maior suavidade na textura superficial. Os resultados constam de artigo publicado na revista científica Pharmaceutics.

    A farmacêutica Letícia Kakuda, responsável pela pesquisa e doutoranda sob orientação dos professores Patrícia Maia Campos e Wanderley Oliveira, explica que a escolha do pequi combinou motivação científica e cultural. “O pequi é um símbolo do Cerrado e da biodiversidade brasileira, já usado na alimentação e na medicina popular, mas ainda pouco explorado em produtos de alto valor agregado”, afirma.

    Da polpa ao nanossistema

    O processo começa com a extração do óleo da polpa do fruto por método mecânico a frio, prensas que trituram o fruto em baixas temperaturas. Essa técnica preserva os nutrientes, antioxidantes e demais propriedades naturais da matéria-prima. O óleo de pequi concentra ácidos graxos, carotenoides, tocoferóis (vitamina E) e antioxidantes naturais, combinação com alto apelo para cuidados com pele e cabelos.

    Para contornar a incompatibilidade com sistemas aquosos, a equipe recorreu aos lipossomas. Elas são estruturas esféricas nanométricas formadas por camadas de lipídios semelhantes às das membranas celulares. “Eles têm água no interior e no meio externo e, entre essas duas regiões, existe uma dupla camada lipídica onde podemos incorporar substâncias com afinidade por óleo, como o óleo de pequi”, descreve Letícia.

    Além da versão líquida, os pesquisadores desenvolveram uma versão em pó, chamada lipossoma liofilizado. O processo retira a água das nanoestruturas, transformando-as em pó que, ao receber reidratação, reconstitui lipossomas com características praticamente idênticas às originais. Segundo a pesquisadora, o formato facilita o armazenamento, o transporte e a incorporação em fórmulas, com maior estabilidade físico-química e microbiológica em relação à versão aquosa.

    Menos óleo, mais eficiência

    As nanoestruturas protegem o óleo de pequi da luz, do oxigênio e da temperatura, reduzindo oxidação e degradação ao longo do tempo. Outro ponto de destaque é a possibilidade de usar concentrações menores do ativo na fórmula sem perder eficácia. “Ao organizar o óleo em sistemas nanoestruturados, abre-se a possibilidade de usar menores concentrações. E ainda assim, alcançar uma eficácia igual ou superior em estudos clínicos”, afirma Letícia.

    A composição lipídica dos lipossomas também tem afinidade com os lipídios da camada mais externa da pele, o que favorece a tolerabilidade e reduz o risco de irritação. O resultado são estruturas biocompatíveis com a barreira cutânea que contribuem para melhor desempenho do produto final. Incluindo hidratação, redução da perda transepidérmica de água e suavização do microrrelevo cutâneo.

    Apesar dos resultados promissores, o produto ainda deve levar algum tempo para chegar ao mercado. A equipe avaliou apenas os efeitos imediatos. Os próximos estudos preveem testes com o óleo encapsulado em outros sistemas lipídicos nanoestruturados e análises de uso prolongado. Especialmente em pele madura, com foco em hidratação, função barreira, manchas, poros, oleosidade e densidade dérmica ao longo do tempo.

    Carolina Castro/Jornal da USP

  • Suspensão de lista de espécies invasoras coloca pesquisas com tilápia sob holofotes

    Suspensão de lista de espécies invasoras coloca pesquisas com tilápia sob holofotes

    Pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecupecuária de Minas Gerais (EPAMIG) desenvolvem tecnologias para equilibrar a produção de tilápia com a segurança ambiental. As soluções incluem controle reprodutivo avançado, melhoramento genético e sistemas de cultivo fechados, que impedem a interação da espécie com ecossistemas naturais.

    A espécie, que movimenta cerca de R$ 7 bilhões por ano no Brasil, esteve recentemente no centro de um debate ambiental. A Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) chegou a incluir a tilápia na Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras. Após manifestações do setor produtivo e órgãos ambientais, o órgão suspendeu temporariamente a tramitação da lista para reavaliar os critérios.

    “A tilápia não é uma espécie invasora, mas sim introduzida”, esclarece o pesquisador da EPAMIG, Franklin Costa. “Precisamos estudar melhor os impactos do escape de peixes com capacidade reprodutiva para lagos e rios brasileiros”, completa.

    Controle reprodutivo avança com manipulação cromossômica

    Há décadas, produtores utilizam a masculinização hormonal para evitar que as tilápias se reproduzam dentro dos tanques de engorda. A técnica tradicional, no entanto, ainda apresenta uma margem de erro de cerca de 5%, permitindo a presença de fêmeas férteis.

    Para eliminar esse risco, a EPAMIG firmou parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para desenvolver lotes 100% masculinos. Os cientistas também testam a produção de tilápias estéreis por meio de manipulação cromossômica, o que anularia completamente qualquer possibilidade de reprodução em caso de fuga.

    Sistemas fechados isolam produção do meio ambiente

    Outra frente de atuação da EPAMIG envolve a adoção de sistemas intensivos de recirculação de água (RAS) e de bioflocos (BFT). Diferente dos viveiros escavados e tanques-rede, esses modelos operam de forma desconectada do ambiente natural, reduzindo drasticamente o risco de escape dos peixes.

    “Não queremos substituir os modelos tradicionais, mas sim incorporar sistemas mais controlados nas fases críticas do cultivo”, explica Costa. A estratégia visa encurtar o período em que os peixes permanecem em contato com o ambiente externo.

    Genética cria peixe “dependente” do cativeiro

    O melhoramento genético também atua como ferramenta de proteção ambiental. A EPAMIG seleciona animais com alto desempenho produtivo, mas com baixa capacidade de sobrevivência fora do cativeiro.

    “Se um peixe melhorado escapar, terá chances mínimas de sobrevivência comparado aos peixes de vida livre”, afirma o pesquisador. A lógica por trás da técnica é simples: quanto mais adaptado ao ambiente artificial e à ração balanceada, menor a chance de o animal prosperar na natureza.

    A EPAMIG transfere os resultados dessas pesquisas para o setor produtivo por meio de dias de campo, capacitações e materiais técnicos. O objetivo é aliar a relevância econômica da espécie, que já ultrapassa 600 mil toneladas anuais e garante emprego e renda para milhares de famílias, à responsabilidade ambiental.

  • Pesquisadores criam técnicas inovadoras para conter avanço do coral-sol no litoral brasileiro

    Pesquisadores criam técnicas inovadoras para conter avanço do coral-sol no litoral brasileiro

    Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do ICMBio desenvolveram um conjunto de equipamentos inéditos para conter a expansão do coral-sol (Tubastraea coccinea) na costa brasileira. Entre as ferramentas testadas em ambiente natural estão martelete, escova elétrica, pistola injetora, disparadores de ar comprimido e um dispositivo que aplica luz ultravioleta para eliminar a espécie invasora.

    Foto: Marcelo Crivellaro/Acervo PACS Arvoredo

    Os trabalhos ocorrem na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em Santa Catarina, desde 2022. A equipe realizou 114 mergulhos e acumulou 140 horas de monitoramento in loco em aproximadamente 65 quilômetros de costões rochosos. Os dados orientam o planejamento e a execução das ações de remoção mecânica dos corais.

    O projeto integra o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Coral-Sol na Rebio Arvoredo e Entorno (PACS Arvoredo). A iniciativa nasceu como medida de mitigação exigida no licenciamento ambiental conduzido pelo Ibama para a exploração de petróleo no Campo de Baúna, Bacia de Santos.

    “Algumas dessas ferramentas e técnicas foram testadas ou adaptadas pela primeira vez em ambiente natural por esse projeto, o que mostra a importância do licenciamento ambiental para a inovação”, afirma Fernando Augusto Galheigo, analista ambiental do Ibama.

    Espécie chegou ao Brasil nos anos 1980 e ocupa sete estados

    Nativo dos oceanos Índico e Pacífico, o coral-sol provavelmente desembarcou no Brasil na década de 1980 em cascos de navios e plataformas de petróleo. Atualmente, ocupa costões rochosos e estruturas artificiais na Bahia, Ceará, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

    O coral pertence a um grupo que dispensa algas simbiontes (azooxantelados) e cresce em águas rasas. Duas espécies ocorrem no país: uma de coloração amarela (T. tagusensis) e outra vermelho-alaranjada (T. coccinea).

    A professora Bárbara Segal, da UFSC, explica que o coral-sol domina o ambiente recifal e reduz o espaço para espécies nativas. “Isso altera a estrutura dos ecossistemas e causa perda da biodiversidade marinha brasileira”, diz.

    Pesquisa segue até março com foco em detecção precoce

    As atividades de campo do PACS Arvoredo seguem até março. A expectativa da equipe é reduzir a densidade do coral nos locais já invadidos e aprimorar a capacidade de detectar a espécie onde ela ainda não chegou.

    Foto: Marcelo Crivellaro/Acervo PACS Arvoredo

    “A ideia é utilizar esse conhecimento para diminuir a densidade da espécie nos locais já invadidos. E se possível, detectá-la precocemente onde ainda não foi registrada”, acrescenta Adriana Carvalhal Fonseca, analista ambiental do ICMBio.

    Em 2018, o Ministério do Meio Ambiente publicou o Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Coral-Sol. O documento orienta as estratégias de combate à espécie em todo o território nacional.

  • Casca de jabuticaba e óleo de pequi protegem probióticos em alimentos ácidos

    Casca de jabuticaba e óleo de pequi protegem probióticos em alimentos ácidos

    Pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA-Unicamp) desenvolveram uma tecnologia que pode transformar o mercado de alimentos funcionais. Eles criaram microesferas protetoras, utilizando casca de jabuticaba e óleo de pequi, que ampliam drasticamente a resistência de probióticos em produtos vegetais e à base de frutas.

    Foto: Igor Alisson /Inova Unicamp

    A inovação soluciona um grande entrave da indústria: a alta sensibilidade desses microrganismos benéficos à acidez, ao açúcar e às variações de temperatura em alimentos não lácteos. Com a nova técnica, os probióticos sobrevivem e permanecem viáveis em ambientes antes considerados hostis, como sucos, polpas, geleias e bebidas vegetais.

    Como funciona a proteção com frutas brasileiras

    A tecnologia aprimora uma patente anterior do mesmo grupo. Os cientistas combinam métodos de encapsulação para criar uma matriz com alginato de cálcio (polímero natural), casca de jabuticaba em pó e óleo de pequi. Essa combinação forma emulsões duplas que atuam como verdadeiros escudos para os probióticos.

    “Testamos os probióticos encapsulados em ambientes extremos, com alta acidez e concentração de açúcar, e eles permaneceram viáveis. A casca de jabuticaba e o óleo de pequi criam camadas adicionais de proteção”, explica o professor Juliano Lemos Bicas, um dos inventores da tecnologia.

    Além do ganho funcional, a fórmula valoriza a biodiversidade nacional e promove um aproveitamento mais nobre para resíduos agroindustriais. “A combinação não só apresenta melhor desempenho, como também transforma subprodutos, que muitas vezes viram compostagem, em ingredientes de alto valor agregado e benefício à saúde”, destaca Bicas.

    Próximos passos e licenciamento

    A pesquisa, conduzida junto aos doutores Marina Felix Cedran e Fábio Júnior Rodrigues, já passou por testes em escala piloto com parceiros industriais. O próximo objetivo é validar e ampliar a escala para produção industrial.

    A tecnologia tem proteção intelectual via Certificado de Adição e recebeu apoio da Agência de Inovação Inova Unicamp. Ela já está disponível no Portfólio de Tecnologias da universidade para licenciamento por empresas interessadas.

    “A Inova tem uma estrutura que nos orienta da proteção intelectual até a interface com empresas. É o que garante que nossas pesquisas cheguem ao mercado”, avalia o pesquisador.

    A inovação contribui diretamente para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 – Saúde e Bem-Estar, ao criar alternativas alimentares mais inclusivas e promover uma economia circular.

    Empresas interessadas em licenciar esta tecnologia podem entrar em contato diretamente com a Inova Unicamp através do formulário de conexão disponível no site da Agência.

  • Pesquisadores da USP analisam riscos e benefícios dos pesticidas na produção de alimentos

    Pesquisadores da USP analisam riscos e benefícios dos pesticidas na produção de alimentos

    Pesquisadores do Laboratório de Ecotoxicologia do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), em Piracicaba (SP), lançaram a cartilha Do campo à mesa: o uso de pesticidas e a segurança dos alimentos. O material gratuito busca equilibrar produtividade agrícola, saúde pública e sustentabilidade, oferecendo informações claras sobre rastreabilidade e boas práticas no uso de defensivos químicos. O conteúdo está disponível para download no Portal de Livros Abertos da USP.

    Organizada por Laura Bordignon, Márcio Antônio Godoi Junior, Nicoli Gomes de Moraes e Kassio Ferreira Mendes, a publicação aborda a dualidade dos pesticidas na agricultura: embora sejam essenciais para garantir lavouras saudáveis e alta produtividade, exigem manejo responsável para evitar impactos à saúde humana e ao meio ambiente. Segundo os autores, a conscientização e a informação são fundamentais para melhorar continuamente a qualidade dos alimentos e a confiança do consumidor.

    A cartilha reúne figuras, gráficos e fluxogramas que explicam temas como comportamento dos pesticidas no ambiente, resíduos em alimentos, limites legais permitidos e métodos de detecção. O objetivo é auxiliar produtores, técnicos e consumidores a entender os aspectos legais e sanitários que envolvem o uso dessas substâncias.

    “Esperamos que o material estimule práticas mais seguras e conscientes no campo, reforçando a confiança na origem dos alimentos”, afirmam os organizadores.

    Rastreabilidade e segurança dos alimentos

    Um dos pontos centrais da publicação é a rastreabilidade, mecanismo que permite acompanhar a origem e o percurso dos produtos ao longo da cadeia produtiva. No Brasil, a rastreabilidade de frutas, legumes e verduras é obrigatória por lei, segundo a Instrução Normativa Conjunta, o que garante ao consumidor acesso a informações sobre quem produziu, quando e como o alimento foi cultivado — incluindo o uso de pesticidas.

    A iniciativa reforça a importância de transparência na cadeia produtiva e explica conceitos como:

    • Comportamento dos pesticidas: forma como os compostos se dispersam no ambiente.
    • Resíduos em alimentos: níveis de substâncias químicas presentes nos produtos que chegam à mesa.
    • Limites legais: normas e parâmetros definidos pela legislação brasileira para assegurar a segurança alimentar.

    Certificações e autoridades reguladoras

    O material também detalha o papel das certificadoras que fiscalizam boas práticas agrícolas, como:

    • GlobalG.A.P., que define padrões internacionais de produção segura e sustentável.
    • Rainforest Alliance Certified, voltada à proteção ambiental e aos direitos dos trabalhadores.
    • Certifica Minas Café, que adota critérios técnicos de conservação do solo, manejo responsável e redução de agrotóxicos.

    Além disso, a cartilha explica como os Limites Máximos de Resíduos (LMR) são definidos e verificados. Esses parâmetros medem, em miligramas por quilo de alimento (mg/kg), a quantidade máxima de pesticida permitida nos produtos, considerando o tipo de cultura, condições reais de cultivo e práticas agrícolas adequadas. Entre os órgãos responsáveis pela aferição dos LMR estão:

    • Codex Alimentarius,
    • FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação),
    • OMS (Organização Mundial da Saúde),
    • Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e
    • Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).

    A cartilha Do campo à mesa: o uso de pesticidas e a segurança dos alimentos está disponível para leitura e download gratuito no Portal de Livros Abertos da USP, com acesso livre para produtores, estudantes e consumidores interessados em entender melhor como o manejo responsável de pesticidas contribui para a segurança alimentar e ambiental.

  • Casca de romã revela potencial para combater infecções de pele

    Casca de romã revela potencial para combater infecções de pele

    Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) comprovaram a eficácia de extratos da casca de romã para combater bactérias que causam infecções em feridas cutâneas. O material demonstrou forte ação antimicrobiana, inclusive contra a Pseudomonas aeruginosa, um patógeno conhecido por sua alta resistência a tratamentos convencionais.

    Foto: Rodarte/Agência Agro em Campo

    O estudo, coordenado pelo pesquisador Mauricio Ariel Rostagno e liderado pela engenheira de alimentos Thaís Carvalho Brito Oliveira, contou com apoio da FAPESP. A equipe testou inicialmente extratos de 11 resíduos da indústria alimentar. A casca de romã se destacou por apresentar a maior atividade antimicrobiana e o maior teor de compostos fenólicos, potentes antioxidantes.

    Simulação computacional

    Para maximizar o potencial do resíduo, os cientistas empregaram uma ferramenta de simulação computacional. O objetivo era identificar solventes “verdes” (ecologicamente corretos) mais eficientes para extrair o ácido elágico, principal composto antimicrobiano da casca. Após selecionar solventes como acetona e álcool isopropílico diluídos em água, a equipe realizou uma validação laboratorial.

    “Produzimos novos extratos com esses solventes otimizados e testamos novamente sua atividade antimicrobiana em laboratório para confirmar o aumento da eficácia”, explica Thaís Oliveira, pós-doutoranda na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp.

    Os resultados, publicados no Journal of Food Processing and Preservation, abrem um amplo campo para pesquisas futuras. Os próximos passos incluem a análise de compostos puros, o estudo de combinações sinérgicas, testes de citotoxicidade e a aplicação dos extratos otimizados em curativos inteligentes.

    O estudo ainda se encontra em fase de pesquisa e desenvolvimento laboratorial, com ensaios in vivo planejados para o futuro. A meta dos pesquisadores é dupla: oferecer uma alternativa natural aos antibióticos sintéticos, cujo uso indiscriminado gera resistência bacteriana,  e transformar um descarte da indústria alimentar em um produto de alto valor agregado para a saúde humana.

    Thais Szegö | Agência FAPESP