Cinco séculos de exploração pesqueira moldaram drasticamente a fauna marinha brasileira. Baleias, peixes-boi e garoupas enfrentam hoje uma realidade bem diferente da documentada em 1500: populações reduzidas, animais menores e comportamentos alterados que comprometem seu papel nos ecossistemas.
A conclusão integra estudo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicado em novembro na revista Ocean & Coastal Management. As pesquisadoras analisaram mais de 200 documentos históricos. São livros, relatórios, desenhos, pinturas e fotografias produzidos entre 1500 e 1950 sobre a fauna vertebrada marinha do litoral brasileiro, da costa de Santa Catarina até o Amazonas.
Museus e acervos revelam o passado marinho
O trabalho incluiu visitas aos acervos do Museu Nacional e da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, além do Instituto Ricardo Brennand e da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. As cientistas também consultaram acervos digitais como o do Instituto Moreira Salles.
As pesquisadoras confrontaram os registros históricos com estatísticas atuais de relatórios pesqueiros. O contraste revelou transformações profundas nas populações marinhas.
“O oceano brasileiro já foi muito mais rico do que enxergamos hoje”, lamenta a bióloga Carine Fogliarini, uma das autoras da pesquisa.
Proibições chegaram tarde demais
A legislação brasileira demorou para proteger espécies vulneráveis. A caça às baleias, valorizadas pela carne e pelo óleo, só foi proibida em 1986. A captura de peixe-boi se intensificou no início do século XIX e desacelerou apenas nos anos 1970.
A pesca de garoupa atingiu níveis alarmantes em 1870, quando portos baianos registraram desembarques de 3,2 mil toneladas em uma única região.
Peixes encolhem 64% em relação ao passado
Além da queda populacional, a pressão seletiva da pesca provocou o encolhimento físico das espécies. Pescadores preferiam animais maiores, o que alterou geneticamente as populações ao longo dos séculos.
Exemplares atuais de camurupim (Megalops atlanticus) e beijupirá (Rachycentron canadum) medem, em média, 64% menos que os indivíduos documentados nos registros históricos. Antes, esses peixes superavam três metros de comprimento — hoje raramente ultrapassam 1,5 metro.
Novos desafios se somam à exploração histórica
Mesmo com a proibição da pesca comercial de baleias e peixes-boi, outras ameaças surgiram. A perda de habitat, colisões com embarcações, mudanças climáticas e ruídos submarinos agora impactam os movimentos migratórios dessas espécies.
As cientistas defendem a atualização das leis vigentes para refletir os desafios modernos da fauna marinha.
Conhecer o passado para planejar o futuro
Fogliarini destaca a necessidade de compreender as mudanças populacionais ao longo do tempo e os cenários possíveis de recuperação da biodiversidade marinha.
“Só conseguiremos planejar a conservação de forma realista quando entendermos o que se perdeu, o que ainda pode recuperar, e qual era o papel dessas espécies nos ecossistemas”, conclui a pesquisadora.
O estudo reforça que conhecer a história ambiental do país representa um passo fundamental para restaurar e proteger a rica, mas ameaçada, fauna marinha brasileira.