O agravamento das tensões no Oriente Médio pode gerar efeitos mistos no comércio exterior brasileiro. O cenário pode elevar exportações de combustíveis e reduzir temporariamente vendas de alimentos. A avaliação é do diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Herlon Brandão. Ele comentou o cenário nesta quinta-feira (5), durante análise dos dados da balança comercial brasileira.
Segundo Brandão, conflitos na região costumam pressionar o preço do petróleo no mercado internacional.
Com isso, o Brasil pode ampliar receitas externas com combustíveis. “O Brasil é exportador líquido de petróleo. Se o preço subir, o saldo do comércio de combustíveis tende a crescer”, afirmou.
Oriente Médio é grande comprador de alimentos brasileiros
Apesar do possível ganho com combustíveis, o conflito pode afetar temporariamente exportações de alimentos.
Países do Oriente Médio compram produtos importantes do agronegócio brasileiro. Entre eles estão carne de frango, milho, açúcar e produtos halal, produzidos conforme normas islâmicas.
Mesmo assim, Brandão avalia que o impacto deve ser temporário. “A demanda por alimentos nesses países não desaparecerá. Os fluxos comerciais tendem a se normalizar”, explicou.
Os dados do Mdic mostram forte dependência regional em alguns produtos. Cerca de 32% das exportações brasileiras de milho seguem para o Oriente Médio. A região também recebe 30% das vendas de carne de frango brasileira. Além disso, responde por 17% das exportações de açúcar e 7% da carne bovina.
Exportações para os Estados Unidos continuam em queda
Os dados da balança comercial também indicam mudanças no comércio com parceiros estratégicos. Em fevereiro, o Brasil exportou US$ 2,523 bilhões para os Estados Unidos. O valor representa queda de 20,3% frente ao mesmo mês do ano passado. As importações também recuaram 16,5%, somando US$ 2,788 bilhões.
Com isso, o saldo comercial ficou negativo em US$ 265 milhões.
Essa foi a sétima queda consecutiva das vendas brasileiras ao mercado norte-americano. O movimento reflete a sobretaxa de 50% imposta pelo governo do presidente Donald Trump em 2025. No fim de fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a tarifa. Entretanto, os efeitos positivos na balança comercial devem aparecer apenas nos próximos meses.
Exportações brasileiras para a China crescem
Enquanto isso, o comércio com a China seguiu em trajetória oposta. Em fevereiro, as exportações brasileiras para o país asiático somaram US$ 7,220 bilhões. O resultado representa crescimento de 38,7% frente aos US$ 5,206 bilhões registrados no mesmo mês de 2025. Por outro lado, as importações de produtos chineses caíram 31,3%.
O total importado alcançou US$ 5,494 bilhões.
Assim, o Brasil registrou superávit de US$ 1,73 bilhão na relação comercial com o país asiático. Segundo Brandão, um fator relevante influenciou as estatísticas de importação. O Brasil comprou uma plataforma de petróleo avaliada em cerca de US$ 2,5 bilhões. A aquisição ocorreu junto à Coreia do Sul e impactou as estatísticas regionais.
União Europeia amplia compras de produtos brasileiros
O comércio com a União Europeia também apresentou resultado positivo. Em fevereiro, as exportações brasileiras para o bloco cresceram 34,7%. As vendas alcançaram US$ 4,232 bilhões no período. Enquanto isso, as importações europeias recuaram 10,8%. O total importado somou US$ 3,301 bilhões. Assim, o Brasil registrou superávit comercial de US$ 931 milhões com o bloco.
Comércio com Argentina registra retração
No comércio com a Argentina, as vendas e as compras recuaram. As exportações brasileiras caíram 26,5% e somaram US$ 1,057 bilhão. As importações também diminuíram 19,2%, totalizando US$ 850 milhões. Mesmo com a retração, o Brasil manteve superávit comercial. O saldo positivo com o país vizinho chegou a US$ 207 milhões.
China, Estados Unidos, União Europeia e Argentina seguem entre os principais parceiros comerciais do Brasil.
Esses mercados influenciam diretamente o desempenho da balança comercial brasileira.
Quando se fala em conflito entre Estados Unidos e Irã, o primeiro pensamento é quase sempre o petróleo. Mas há outro produto que merece atenção de quem acompanha mercados agrícolas globais: o pistache.
Na manhã do último sábado (1º de março), EUA e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã. Os bombardeios mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por quase quatro décadas, mergulhando a nação em instabilidade e acendendo um alerta em mercados que vão muito além do petróleo.
Em resposta ao conflito, o governo iraniano anunciou a proibição das exportações de todos os produtos alimentícios e agrícolas “até novo aviso”, priorizando o abastecimento interno, segundo a agência de notícias semi-oficial Tasnim. A medida bloqueia embarques de “todos os alimentos e produtos agrícolas”, de acordo com comunicado governamental.
O Irã não é um fornecedor qualquer de pistache. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o país responde por cerca de 18% da produção global da oleaginosa. Na safra 2025/2026, a produção iraniana deve atingir 200 mil toneladas.
O Irã é um dos três países que dominam a produção mundial de pistache, ao lado de EUA e Turquia. Nos últimos anos, os EUA, liderados quase inteiramente pela Califórnia, se distanciaram dos concorrentes em volume e respondem hoje por aproximadamente metade de toda a oferta global.
O conflito chega em um momento já delicado para o mercado. Desde pelo menos janeiro de 2026, exportadores iranianos já enfrentavam restrições ligadas à instabilidade interna e bloqueios de internet e comunicações que dificultavam o contato com compradores internacionais, afetando a atividade exportadora antes mesmo da escalada militar.
Há ainda um fator de ciclo agrícola que complica o quadro: a produção de pistache segue um padrão bienal de alternância. Em 2026, a expectativa é que tanto EUA quanto Irã entrem em ano de baixa produção, o que já tornaria a oferta global mais apertada independentemente do conflito.
Cadeia global em alerta
O pistache iraniano abastece alguns dos maiores mercados consumidores do mundo. Entre setembro de 2024 e março de 2025, o Irã exportou 64% de seu estoque total, sendo 26% destinados a mercados de reexportação como Emirados Árabes Unidos e Turquia, outros 26% ao Leste Asiático, 19% ao Sul da Ásia e 10% ao restante do Oriente Médio.
O impacto já começa a aparecer nos preços. Um atacadista de frutas secas e castanhas no estado indiano de Madhya Pradesh relatou à imprensa local que os preços do pistache subiram quase 26% na semana seguinte ao início das hostilidades.
Especialistas apontam que o maior risco não está nas lavouras em si, mas na logística. Segundo Louise Ferguson, professora do Departamento de Ciências Vegetais da Universidade da Califórnia em Davis, a cadeia de abastecimento do pistache é mais vulnerável a interrupções causadas pelo conflito, especialmente no Estreito de Ormuz, do que a produção propriamente dita.
A exportação do pistache movimenta cerca de US$ 1,5 bilhão por ano para o Irã e gera 350 mil empregos diretos no país. Entre 70% e 80% da produção é destinada ao mercado externo, tornando o produto uma das principais fontes de receita não ligada ao petróleo.
Uma rivalidade com raízes históricas
A disputa entre Irã e EUA no mercado de pistache não é nova. Toda a produção americana de pistache descende de uma única semente iraniana. Na década de 1970, consumidores norte-americanos consumiam cerca de 9 mil toneladas anuais de pistaches importados do Irã. A crise dos reféns em 1979 e o embargo comercial subsequente abriram espaço para que os produtores californianos ocupassem o mercado, e nunca mais saíssem.
Foto: Forças de Defesa de Israel/Reprodução
Juntos, EUA e Irã respondem por mais de 70% das exportações globais de pistache. Os principais campos de batalha comercial entre os dois países são a Europa Ocidental e a China, onde a demanda é forte e crescente.
O Brasil no meio da crise
O Brasil não produz pistache, pois as condições climáticas do país inviabilizam o cultivo. Mas o consumo tem crescido de forma expressiva nos últimos anos. Em 2022, as importações foram de 352 toneladas; saltaram para 601 toneladas em 2023 e atingiram 1.100 toneladas em 2024, segundo o governo federal.
Os Estados Unidos são o principal fornecedor do país, seguidos pelo Irã. Nos primeiros meses de 2026, o Brasil importou 49 toneladas de pistache iraniano, volume superior às 35,5 toneladas adquiridas dos americanos no mesmo período, segundo o sistema Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Em 2025, o país também importou cerca de 1.400 toneladas de uva-passa iraniana, além de nozes, amendoins e tâmaras. Contudo, nenhum desses produtos representa insumo essencial da cadeia alimentar brasileira, o que limita o impacto imediato da crise sobre o abastecimento doméstico.
O risco para o consumidor brasileiro é de outra natureza: pressão de preços. Com a oferta iraniana bloqueada e o ciclo agrícola desfavorável nos EUA em 2026, o mercado global pode enfrentar um aperto de oferta que se reflete nas prateleiras, do snack saudável ao sorvete gourmet de pistache.
O governo do Irã proibiu a exportação de alimentos e produtos agrícolas nesta terça-feira (3). A medida ocorre após o conflito com Israel e Estados Unidos. Segundo a agência Tasnim, o governo confirmou a decisão em comunicado oficial.
Além disso, o texto determina a suspensão das exportações até segunda ordem. O governo iraniano informou que prioriza o abastecimento interno. Assim, o país concentra esforços no fornecimento de bens essenciais à população.
O Irã acionou um plano de emergência no sábado. No mesmo dia, Estados Unidos e Israel lançaram um ataque contra a República Islâmica. O ataque resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei. Além disso, a ofensiva matou oficiais militares de alta patente.
Importação brasileira
O Brasil não importa alimentos essenciais do Irã. No entanto, o país compra pistache e uva passa do mercado iraniano. Dados do Ministério da Agricultura apontam esses produtos como as principais aquisições agrícolas brasileiras.
Com a proibição, o governo iraniano busca garantir segurança alimentar durante o conflito. Enquanto isso, o mercado internacional monitora possíveis impactos no comércio agrícola.
Na madrugada deste sábado, EUA e Israel deflagraram ataques aéreos simultâneos contra Teerã, Qom, Isfahan, Tabriz e Kermanshah. O Irã respondeu com mísseis em bases americanas no Golfo e em Tel Aviv. O conflito não é apenas uma crise diplomática. Para o Brasil, representa uma ameaça concreta à cadeia produtiva do agronegócio, ao preço do combustível e à estabilidade do câmbio.
O canal mais imediato entre a guerra e o bolso do brasileiro passa pelo barril de petróleo. Com o Estreito de Ormuz, por onde circula entre 20% e 30% de todo o petróleo do mundo, sob ameaça, analistas projetam que o preço pode saltar dos atuais US$ 71 para uma faixa entre US$ 120 e US$ 150. Cenários extremos, que envolvem o fechamento total do estreito, chegam a projetar valores acima de US$ 300.
O Brasil depende fortemente do transporte rodoviário para escoar a produção do campo. Qualquer alta no diesel chega ao produtor rural antes mesmo de chegar ao consumidor final, e chega rápido. A inflação que começa no frete termina na prateleira do supermercado.
Há um ângulo positivo, mas limitado: a Petrobras e os exportadores brasileiros de petróleo bruto ganham com a alta do barril. O risco, porém, é a pressão política por reajuste nos preços domésticos da gasolina, o que retroalimenta o ciclo inflacionário.
Agronegócio: dois golpes em sequência
O setor que mais sente o choque é o agronegócio, e por dois caminhos distintos. O primeiro é a dependência de fertilizantes importados. O Brasil compra do exterior cerca de 80% dos insumos que usa no campo. E o Irã figura entre os principais fornecedores de ureia, essencial para as safras de soja e milho. Um bloqueio nas rotas marítimas ou sanções ao comércio iraniano encarece esses insumos, aumenta o custo de produção e, no médio prazo, pressiona os preços dos alimentos.
O segundo golpe vem do lado das exportações. O Irã foi, em 2025, o segundo maior destino do agronegócio brasileiro em volume, com US$ 2,9 bilhões em compras. O milho sozinho respondeu por US$ 1,9 bilhão, quase 68% do total. E a soja contribuiu com outros 19,3%. Um conflito prolongado fecha esse mercado de maneira abrupta, sem substituto imediato no horizonte.
Câmbio e juros: o impacto macroeconômico
Crises geopolíticas globais favorecem o dólar em detrimento de moedas emergentes. O real tende a se desvalorizar, o que encarece as importações, entre elas, os fertilizantes. E obriga o Banco Central a adotar uma postura mais cautelosa na condução da política monetária.
O cenário mais preocupante é aquele em que o conflito se prolong. Nesse caso, o Fed americano deve manter os juros na faixa entre 3,5% e 3,75% por mais tempo, reduzindo o fluxo de capital para países emergentes. O PIB brasileiro, que já enfrenta projeção de crescimento de apenas 1,8% em 2026, ficaria ainda mais pressionado.
Há algum lado positivo?
Sim, mas circunscrito. Uma mudança de regime no Irã poderia, no médio prazo, ampliar a oferta global de petróleo e derrubar os preços. O que favoreceria a competitividade do agronegócio brasileiro. Por ora, porém, a incerteza domina o cenário e os riscos superam as oportunidades.
O impacto mais imediato e certo já chegou: o preço do petróleo sobe e o diesel encarece. O risco mais grave, ainda incerto, é a combinação entre a perda do mercado iraniano para milho e soja e o encarecimento dos fertilizantes. Tudo depende de quanto tempo o conflito durar e se o Estreito de Ormuz de fato fechar. O Brasil torce para que seja uma crise curta. O agronegócio, mais do que qualquer outro setor, sabe o que está em jogo.
Na madrugada deste sábado, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos contra múltiplas instalações na Venezuela, incluindo a capital Caracas, em uma escalada sem precedentes na região. O presidente Donald Trump afirmou ter capturado Nicolás Maduro e sua esposa, retirando-os do país. A operação militar atinge em cheio os interesses brasileiros, com potenciais impactos que vão desde o agronegócio até a estabilidade regional.
A ofensiva ocorreu após semanas de tensão crescente, quando os EUA intensificaram operações no Caribe sob a justificativa de combater o narcotráfico. Washington acusa o governo venezuelano de liderar o chamado Cartel de los Soles, classificado como organização terrorista. Pelo menos sete explosões foram ouvidas por volta das 2h da manhã em Caracas, acompanhadas de aeronaves militares voando em baixa altitude.
A Venezuela respondeu declarando estado de emergência e convocando mobilização nacional. O presidente colombiano Gustavo Petro pediu reunião imediata da ONU e da OEA, enquanto Cuba e outros países latino-americanos condenaram veementemente a ação americana.
Impactos diretos no agronegócio brasileiro
A Venezuela, embora represente uma parcela modesta das exportações brasileiras totais, tornou-se nos últimos anos um comprador significativo de produtos do agronegócio nacional. Entre 2019 e 2022, o Brasil faturou US$ 517 milhões apenas com exportações de óleo de soja para a Venezuela, superando os 15 anos anteriores.
Os venezuelanos compraram do Brasil principalmente fertilizantes, alumínio, álcoois e derivados, enquanto o Brasil exportou açúcares, produtos alimentícios preparados, óleos vegetais, milho e arroz. Em 2021 e 2022, o fluxo comercial ultrapassou US$ 1 bilhão anuais, com destaque para óleo de soja, preparações alimentícias, açúcar e milho.
Com a instabilidade causada pela intervenção militar, o risco de calote aumenta dramaticamente. A Venezuela já enfrenta grave falta de divisas devido à queda na produção de petróleo, situação que tende a se agravar com a destruição de infraestrutura e eventual mudança de governo.
Incerteza nas cadeias de suprimentos
A crise afeta não apenas as exportações diretas, mas toda a logística regional. Em 2024, o comércio bilateral totalizou US$ 1,6 bilhão, sendo que as importações venezuelanas ficaram em US$ 422 milhões. A instabilidade pode interromper contratos já firmados e comprometer planejamentos de safra de produtores brasileiros que dependem desse mercado.
Empresas brasileiras do setor agrícola enfrentam agora um cenário de total imprevisibilidade. Não está claro quem controlará o país nas próximas semanas, qual será a política econômica adotada, e se haverá capacidade de pagamento por produtos já embarcados ou em negociação.
O dilema do petróleo e dos fertilizantes
O Brasil mantém uma relação complexa com a Venezuela no setor energético. A Venezuela vendeu ao Brasil principalmente fertilizantes (45%), alumínio (22%), álcoois e derivados (16%) e produtos residuais de petróleo (8%).
A interrupção desses fluxos pode impactar o custo de produção agrícola no Brasil, especialmente considerando que:
Fertilizantes: com dependência histórica de importações, qualquer restrição no fornecimento venezuelano pressiona os custos de produção do agronegócio brasileiro.
Petróleo: embora a Venezuela tenha perdido relevância como fornecedora direta, o país se tornou o terceiro maior exportador de petróleo para os EUA em 2024, com média de 295 mil barris por dia. Qualquer choque na oferta venezuelana pode afetar preços globais de combustíveis, impactando a logística do agronegócio brasileiro.
Consequências geopolíticas para o Brasil: crise humanitária e imigração
O governo brasileiro teme que uma ação militar cause instabilidade na Venezuela e leve a uma nova crise humanitária na fronteira, em Roraima. Desde 2018, a Operação Acolhida já recebeu mais de 125 mil imigrantes venezuelanos. Uma escalada do conflito pode multiplicar esse número exponencialmente, sobrecarregando a estrutura de assistência.
Estados do Norte do Brasil, particularmente Roraima, podem enfrentar um êxodo massivo, com impactos diretos em serviços públicos, segurança e economia local. O agronegócio da região pode ser afetado pela necessidade de realocação de recursos públicos e pela tensão social decorrente.
Posição diplomática delicada
A situação representa um dos maiores desafios para a política externa do presidente Lula, cuja diplomacia baseia-se na estabilidade regional e no diálogo. Lula orientou o Planalto que ataques ao continente sul-americano não podem ser tolerados, defendendo a América do Sul como zona de paz.
Foto: Divulgação – USDA
O Brasil encontra-se em posição estratégica, mas delicada:
Mantém contato com ambos os lados do conflito
Não reconheceu a reeleição de Maduro em 2024
Defende solução política e diplomática
Enfrenta pressões domésticas de diferentes espectros políticos
Uma eventual mudança de governo na Venezuela, com ascensão de forças de direita apoiadas por Washington, poderia criar tensões adicionais com o Brasil, considerando o histórico de aproximação do PT com o chavismo.
Impactos no mercado de commodities
A intervenção americana na Venezuela terá repercussões além das fronteiras sul-americanas. O país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com cerca de 300 bilhões de barris. Qualquer interrupção prolongada na produção pode:
Elevar preços internacionais do petróleo
Aumentar custos de transporte e insumos agrícolas
Impactar a competitividade das exportações brasileiras
Criar oportunidades para o Brasil aumentar exportações de petróleo
Efeito cascata em commodities
O conflito pode gerar volatilidade nos mercados de:
Grãos: interrupção de exportações brasileiras para a Venezuela e possível necessidade de buscar mercados alternativos
Carnes: a Venezuela era importante compradora de carne bovina e de frango brasileiras
Açúcar: mercado venezuelano absorvia volumes significativos da produção brasileira
Vamos analisar os cenários possíveis e suas consequências
Cenário 1: colapso institucional venezuelano
Se a queda de Maduro resultar em vácuo de poder ou guerra civil, o Brasil enfrentará:
Paralisação total do comércio bilateral
Pressão migratória extrema na fronteira Norte
Necessidade de intervenção humanitária
Perdas econômicas estimadas em centenas de milhões de dólares
Cenário 2: governo de transição Pró-EUA
Ascensão de María Corina Machado ou figura alinhada a Washington pode:
Reconfigurar relações comerciais, com redução de protagonismo brasileiro
Favorecer empresas americanas em detrimento de brasileiras
Criar tensões políticas regionais
Abrir oportunidade para renegociação de acordos comerciais
Cenário 3: resistência prolongada
Manutenção de conflito de baixa intensidade resultaria em:
Instabilidade crônica na fronteira brasileira
Interrupção intermitente de fluxos comerciais
Dificuldade em recuperar valores de exportações realizadas
Pressão sobre Brasil para tomar partido no conflito
Oportunidades em meio à crise
Apesar dos riscos, o conflito pode criar algumas oportunidades para o agronegócio brasileiro:
Diversificação forçada: necessidade de buscar novos mercados pode acelerar abertura de novos destinos de exportação
Petróleo: redução da oferta venezuelana pode beneficiar exportações brasileiras de petróleo
Mediação diplomática: papel de mediador pode fortalecer posição do Brasil na região e abrir portas comerciais
Reconstrução futura: Brasil pode se posicionar para participar de eventual reconstrução venezuelana
Recomendações para o setor
Diante deste cenário de alta incerteza, empresas do agronegócio brasileiro devem:
Revisar exposição: avaliar imediatamente contratos e exposição ao mercado venezuelano
Garantias: exigir pagamentos antecipados ou garantias robustas para novas operações
Diversificação: acelerar estratégias de diversificação de mercados
Monitoramento: acompanhar desdobramentos políticos e econômicos diariamente
Planejamento de cenários: desenvolver planos de contingência para diferentes desdobramentos
Diálogo com governo: buscar apoio do Itamaraty e do MDIC para proteção de interesses
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela representa um ponto de inflexão histórico para a América do Sul e coloca o Brasil diante de desafios complexos e interconectados. Para o agronegócio brasileiro, os impactos são multifacetados: desde a perda direta de um mercado que vinha crescendo significativamente até efeitos indiretos em cadeias de suprimentos, custos de insumos e logística.
A situação exige resposta coordenada entre setor privado e governo, com foco em proteger interesses comerciais já estabelecidos, preparar-se para eventuais choques de oferta de insumos críticos, e posicionar-se estrategicamente para o cenário pós-crise.
O desenvolvimento dos próximos dias será crucial. A confirmação ou não da captura de Maduro, a reação das forças armadas venezuelanas, o posicionamento de potências regionais e globais, e as decisões do governo brasileiro definirão não apenas o futuro da Venezuela, mas terão consequências duradouras para toda a região. E particularmente para o agronegócio brasileiro, pilar fundamental da economia nacional.
A escalada de tensões entre Irã e Israel acendeu o alerta no setor de fertilizantes no Brasil. O conflito no Oriente Médio traz riscos diretos aos custos de produção agrícola.
Ureia
O motivo da preocupação está na ureia. O Brasil importa 17% desse fertilizante diretamente do Irã, um dos maiores exportadores da região.
O Irã produz cerca de 9 milhões de toneladas de ureia por ano. Desse total, entre 4,5 e 5,5 milhões de toneladas são exportadas anualmente.
Fertilizantes importados
A dependência brasileira de fertilizantes importados é alta. Atualmente, mais de 80% do consumo nacional vem do mercado internacional. No caso da ureia, a dependência é total. Em geral, em 2024, o Brasil importou 100% da ureia utilizada na agricultura.
Momento de alerta
Neste período, os produtores estão atentos à compra de insumos. Ou seja, muitos já iniciaram as aquisições para a safra de verão, que começa em setembro. Além disso, alguns agricultores também antecipam a compra de adubos, sementes e defensivos para a safrinha de 2026.
O cenário fica mais desafiador com o aumento nos preços internacionais dos fertilizantes. As commodities agrícolas, por outro lado, não acompanham essa valorização. Portanto, essa defasagem pressiona ainda mais as margens dos produtores rurais brasileiros. O setor teme novos aumentos nos custos com a continuidade do conflito.
A escalada da guerra entre Israel e Irã já provoca impactos econômicos. O Brasil, como parte do mercado global, sente os efeitos. Ou seja, o risco de um confronto direto entre um país com armas nucleares, como Israel, e outro em busca delas, como o Irã, cresce a cada dia. Contudo, os efeitos vão além da esfera militar. A tensão no Oriente Médio gera incerteza nos mercados e pressiona os preços.
Estreito de Ormuz pode ser fechado
O Irã ocupa uma posição estratégica no Golfo Pérsico. O país controla o Estreito de Ormuz, fundamental para o comércio global. Em resumo, por essa rota passam combustíveis fósseis e produtos importados pela Arábia Saudita. O país mantém relação próxima com os Estados Unidos, mas rivaliza com o Irã.
Exportadores brasileiros também dependem da região. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes são grandes compradores de carne bovina do Brasil. Além disso, cerca de 25% do petróleo mundial cruza o Estreito de Ormuz. Isso inclui petróleo do Irã e de países como Arábia Saudita, Kuwait, Iraque e Emirados.
Após ataques israelenses, o governo iraniano ameaçou fechar o estreito. A agência IRA Novosti divulgou a informação nesta sexta-feira (14). Apenas a possibilidade já trouxe impactos. A Frontline, uma das maiores petroleiras do mundo, anunciou que vai evitar a rota de Ormuz.
Petróleo dispara e pressiona economia
Mesmo sem bloqueio total, a crise já afeta os preços. O petróleo subiu 7,26% apenas na sexta-feira (13). Desde 10 de junho, quando surgiram os primeiros rumores de ataque, a alta acumulada chegou a 12,3%. A tendência é de novas elevações.
Israel atacou quatro alvos estratégicos no Irã. Foram bombardeadas refinarias em Shahran, South Pars e Fajr Jam, além de um porto de gás natural.
Devido a sanções do Ocidente, o Irã vende petróleo principalmente à China. Por isso, o impacto direto sobre o Ocidente é limitado. Entretanto, como o petróleo é uma commodity, a oferta menor eleva os preços. A China buscará novos fornecedores, aumentando a disputa global.
O Irã possui a quarta maior reserva mundial de petróleo. Portanto, fica atrás apenas de Venezuela, Arábia Saudita e Canadá.
Preços devem subir no Brasil
Com o petróleo mais caro, os reflexos chegam rápido. O impacto direto será sentido nos postos de combustíveis. Além disso, produtos importados ou fabricados com peças externas também vão encarecer. O transporte rodoviário, essencial para abastecer os supermercados, também deve ficar mais caro. Isso pressionará os preços ao consumidor.
Dólar sobe em meio à instabilidade
O avanço da guerra aumenta a volatilidade no mercado internacional. O temor de uma escalada envolvendo potências como os EUA preocupa investidores. Nesses momentos, o mercado busca segurança no dólar. A moeda americana tende a se valorizar, pressionando o real. Ao mesmo tempo, com o dólar mais caro, as importações ficam mais pesadas. Commodities e seus derivados também sobem de preço no Brasil.