O mercado global de cacau enfrenta sua pior crise em anos. Depois de um pico histórico em 2024, os preços desabaram em 2025 e colocaram em risco o sustento de milhares de famílias produtoras em Gana e na Costa do Marfim, responsáveis por mais de 60% da produção mundial.
O contraste entre o preço crescente do chocolate nas prateleiras e a queda do valor do cacau pago aos agricultores evidencia o desequilíbrio da cadeia de valor. Em muitas comunidades rurais da África Ocidental, produtores não recebem há meses e já enfrentam escassez de recursos básicos.
Em Gana, a Ghana Cocoa Board (Cocobod) fixou em outubro passado o preço de compra em quase US$ 5.300 por tonelada, mas a cotação internacional despencou para menos de US$ 3.500. A diferença gerou uma dívida estimada em US$ 3 bilhões e atrasou pagamentos a cerca de 800 mil produtores, comprometendo a renda de centenas de vilarejos agrícolas.
- Conflito no Oriente Médio dispara preços de fertilizantes e pressiona oferta global
- Festival do Azeite Olivas de Gramado celebra safra 2026 com experiências sensoriais e imersivas
Com as empresas exportadoras incapazes de vender os grãos, a Cocobod interveio para evitar o colapso completo do setor. Mesmo assim, muitos agricultores seguem sem receber. A instituição reduziu em fevereiro o salário de sua diretoria em até 20% e anunciou que os pagamentos estão sendo regularizados gradualmente.
O cacau representa aproximadamente 7% do PIB de Gana e responde por cerca de 15% das receitas de exportação do país. Diante da crise, o governo planeja ampliar o processamento interno dos grãos para agregar valor e reduzir a dependência das exportações brutas.
Custos altos e incerteza no campo
Os produtores enfrentam dificuldades para manter as lavouras. Cultivar um hectare de cacau em Gana custa, em média, US$ 1.000 por ano, valor que inclui mão de obra e insumos agrícolas. Com a queda no preço pago por tonelada, muitos temem ficar no prejuízo em 2026.
Lideranças rurais criticam as medidas adotadas até agora e defendem o reajuste do preço mínimo garantido aos produtores. “Os custos não reduziram, mas o valor do cacau caiu. Isso inviabiliza nossa sobrevivência”, afirmou um agricultor da região de Suhenso.
Situação semelhante na Costa do Marfim
Na vizinha Costa do Marfim, maior produtora mundial de cacau, o cenário é parecido. Armazéns estão lotados de sacas que as cooperativas não conseguem vender, já que o preço interno fixado pelo Conselho do Café e do Cacau ficou muito acima do valor internacional.
Na tentativa de destravar o mercado, o governo anunciou um corte de 50% no preço pago aos agricultores. Ainda assim, produtores relatam dificuldades para escoar a safra e sustentar suas famílias.
Com a falta de compradores, estima-se que até o fim de março o país acumule mais de 200 mil toneladas de cacau sem destino. Agricultores afirmam que escolas, comércios e transportes locais já sentem o impacto da crise econômica gerada pela paralisação das exportações.
“Quando não há dinheiro, não há paz nas famílias. E hoje, o cacau é o que nos mantém vivos”, resumiu um produtor da região de Bangolo.






