O avanço das projeções para um novo episódio de El Niño em 2026 começa a ganhar espaço nas análises do mercado brasileiro e já influencia decisões em dois setores estratégicos: agronegócio e energia.
Com probabilidade superior a 60% de formação no inverno e possibilidade de atingir cerca de 80% no segundo semestre, o fenômeno deixa de ser um cenário alternativo e passa a ser considerado um fator relevante de risco econômico.
Impactos no campo devem variar por região
No agronegócio, o El Niño altera o regime de chuvas de forma desigual entre as regiões do país.
No Sul, o aumento das precipitações tende a favorecer culturas como soja e milho, elevando o potencial produtivo. Ainda assim, o excesso de chuva pode comprometer a qualidade dos grãos e dificultar a colheita.
No Centro-Oeste, principal região produtora do Brasil, o risco está no atraso das chuvas. Esse cenário pode prejudicar o plantio da soja e reduzir a janela da segunda safra de milho, responsável por cerca de 75% da produção nacional.
Já nas regiões Norte e Nordeste, a redução das chuvas aumenta o risco de perdas em culturas básicas e pressiona a pecuária.
Volatilidade climática aumenta custos e riscos
Além da distribuição irregular de chuvas, o El Niño costuma intensificar a variabilidade ao longo da safra.
Períodos de excesso podem ser seguidos por estiagens curtas, o que eleva o risco de perdas mesmo em regiões inicialmente favorecidas. Esse comportamento afeta diretamente a produtividade, a qualidade das lavouras e os custos operacionais.
Com isso, produtores podem enfrentar maior necessidade de replantio, uso intensivo de insumos e manejo mais técnico. Também cresce a demanda por seguro rural e ferramentas de proteção financeira, o que aumenta o custo de produção e adiciona volatilidade aos preços.
Pressão sobre alimentos pode impactar inflação
O redesenho climático tem efeito direto sobre os preços dos alimentos. A combinação entre perdas regionais, maior volatilidade internacional e custos logísticos mais elevados tende a pressionar um dos principais componentes da inflação brasileira.
Em cenários mais intensos, o impacto pode deixar de ser localizado e se espalhar por diferentes cadeias produtivas, ampliando o efeito sobre o custo de vida.
Agro e energia ampliam efeito econômico
A combinação entre pressão nos alimentos e aumento do custo da energia amplia o impacto sobre a economia. De um lado, a produção agrícola pode enfrentar perdas ou queda de produtividade. De outro, o setor elétrico pode operar com custos mais elevados.
Esse cenário reforça o risco inflacionário e pode influenciar decisões de política monetária nos próximos meses.
Intensidade do fenômeno será decisiva
O impacto final dependerá da intensidade do El Niño. Um evento moderado tende a gerar efeitos regionais e parcialmente compensatórios. Já um fenômeno mais forte pode sincronizar perdas agrícolas e deterioração energética, ampliando o impacto sobre preços e expectativas.
Mercado já começa a ajustar projeções
Entre maio e junho, com maior precisão dos modelos climáticos, o mercado deve recalibrar as expectativas para a safra 2026/27 e para o equilíbrio do sistema elétrico.
Até lá, o El Niño já se consolida como uma variável relevante na formação de preços, influenciando alimentos, energia e inflação no Brasil.
A estação do outono no Hemisfério Sul chegou nesta sexta-feira, dia 20 de março. Considerada uma transição entre o calor do verão e o frio do inverno, o período é
tradicionalmente marcado pelas temperaturas amenas, diminuição das chuvas que encerram o verão (aquelas “águas de março”), noites mais longas e a queda das folhas das
árvores.
O outono apresenta fortes precipitações no Norte, escassez no semiárido e redução das chuvas e do calor, especialmente no Centro-Sul brasileiro. Nessas regiões, a estação é
favorável às espécies de clima ameno, como as hortaliças folhosas e raízes; milho, aveia e trigo; a cultura do caqui, figo e a colheita do maracujá.
São culturas beneficiadas pelos dias mais curtos (fotoperíodo) e menor umidade, características desse clima menos extremo do que o calor do verão e as frentes frias
invernais. Por outro lado, sendo época de transição não é incomum que as primeiras massas de ar frio cheguem do sul do continente provocando nevoeiros, principalmente nas
regiões serranas e de planalto.
Uma Nota Técnica Conjunta INMET / INPE apresentou os prognósticos para o outono brasileiro em 2026, indicando a influência do El Niño e sugerindo atenção para a
possibilidade de uma estação mais quente e chuvosa.
Para a região Norte, a previsão climática para o período de abril a junho indica chuvas acima da média. No nordeste, ela sugere condições desfavoráveis às chuvas na Bahia,
Paraíba e no Rio Grande do Norte. Nas duas regiões, por outro lado, há expectativa de temperaturas acima da média.
Para a região Centro-Oeste, a Nota Técnica conjunta do INMET / INPE indica redução de chuvas, especialmente no Mato Grosso, enquanto as temperaturas devem permanecer
acima da média em toda a região.
Na região Sudeste, embora possam ocorrer chuvas abaixo da média, há possibilidade de precipitações volumosas, sobretudo no leste. Já as temperaturas devem ficar também
acima da média, ainda que as primeiras frente frias tragam prejuízos, especialmente nas regiões elevadas.
Um prognóstico parecido é previsto, pela Nota Técnica Conjunta, para o Sul brasileiro. Exige-se atenção, em particular, ao aquecimento sobre as regiões do Rio Grande do Sul e
Santa Catarina.
Estes cenários exigem cuidados extras com a safra, diante da instabilidade com os padrões tradicionais do outono. Assim, a Nota Técnica Conjunta adverte que a produção agrícola,
nos próximos meses, deve ser acompanhada com atenção.
A previsão de um El Niño de intensidade moderada a forte em 2026 coloca o setor agrícola brasileiro em estado de alerta. A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) aponta 60% de probabilidade de o fenômeno,caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico acima da temperatura média, se desenvolver entre julho e setembro deste ano, com influência nos meses seguintes.
O impacto vai além de temperaturas mais altas ou chuvas mais intensas. Para o head da Ascenza Brasil, Hugo Centurion, o fenômeno cria um ambiente altamente favorável à pressão fitossanitária. “Temperaturas elevadas combinadas com umidade, especialmente no Sul e no Sudeste, aceleram ciclos de fungos e bactérias e exigem do produtor uma postura mais preventiva do que reativa. O agricultor que se antecipa e investe em monitoramento constante tende a reduzir perdas e preservar qualidade, mesmo em um cenário climático adverso”, afirma.
Riscos regionais
A equipe de hortifruticultura (HF) do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) identificou os principais vetores de risco para 2026: temperaturas mais elevadas em relação a 2025 e mudanças regionais no regime de chuvas, com efeitos diretos sobre a demanda hídrica das culturas, a produtividade e a rentabilidade dos produtores.
Os impactos variam conforme a região. No Sul, crescem o volume de chuvas e o risco de enchentes, sobretudo na primavera e no verão. Já no Norte e no Nordeste, a tendência é de seca e temperaturas mais altas, com pressão sobre reservatórios. No Sudeste e no Centro-Oeste, as chuvas ficam mais irregulares e as ondas de calor, mais frequentes.
Planejamento como diferencial competitivo
Diante desse cenário, monitoramento climático contínuo, manejo preciso, escalonamento de plantios e avaliação criteriosa de riscos serão determinantes para preservar produtividade e rentabilidade na horticultura brasileira, segundo o Cepea.
A engenheira agrônoma Patrícia Cesarino reforça a necessidade de adaptação regional. “No Nordeste e em áreas de sequeiro, o desafio será a limitação hídrica e o estresse térmico. Já nas regiões com excesso de chuva, o foco deve ser a proteção contra doenças de solo e foliares. O comportamento mais prudente será escalonar plantios, revisar o calendário agrícola e fortalecer o manejo integrado, combinando genética, nutrição equilibrada e soluções fitossanitárias adequadas para cada realidade regional”, explica.
Cultivos em risco
Cenoura, alface, batata, cebola e tomate figuram entre os cultivos mais vulneráveis ao fenômeno. O excesso de chuvas desde novembro no Cerrado mineiro e goiano já atrasou o calendário da próxima safra de batata, cebola e tomate. Cenoura e alface também sofrem com perdas de qualidade e atrasos em plantios e colheitas, especialmente no Cerrado de Minas Gerais e no Sudeste, conforme análise do Cepea.
Para Centurion, tecnologias de proteção de cultivos ganham papel estratégico nesse contexto. “A qualidade do fruto passa a ser decisiva para a remuneração do produtor. Essas tecnologias ajudam a manter o padrão comercial, reduzir descartes e evitar perdas pós-colheita. A recomendação é investir em planejamento técnico, protocolos preventivos e acompanhamento agronômico próximo, transformando o manejo climático em uma vantagem competitiva”, aponta.
O que a história ensina
O El Niño mais recente, ocorrido entre 2023 e 2024 e classificado como forte, contribuiu para que 2023 se tornasse o ano mais quente já registrado globalmente. No Brasil, o fenômeno gerou chuvas excessivas no Sul, seca histórica na Amazônia e irregularidade de precipitações no Centro-Oeste e no Sudeste.
Os reflexos econômicos foram significativos: em 2024, o valor da produção agrícola brasileira chegou a R$ 783,2 bilhões, recuo de 3,9% em relação ao ano anterior, segundo a Agência Brasil. A produção total de cereais, leguminosas e oleaginosas caiu 7,5%, para 292,5 milhões de toneladas, mesmo com expansão de 1,2% na área plantada, que somou 97,3 milhões de hectares.
Linha do tempo do El Niño em 2026
Com base nos padrões históricos do fenômeno, os especialistas traçam a seguinte projeção para este ano:
Julho a agosto (inverno): aquecimento do Pacífico ganha força e se consolida
Setembro a novembro (primavera): efeitos ficam mais claros na atmosfera
Dezembro a janeiro (verão): possível pico do evento
Entre os episódios mais intensos já registrados estão o de 1997–1998 e o de 2015–2016, ambos com anomalias de +2,3°C no Pacífico, além do de 1982–1983, primeiro grande evento monitorado por satélites modernos, que gerou fortes impactos econômicos globais.
A horticultura brasileira enfrenta um ano de grandes desafios climáticos. A transição de um La Niña curto e de baixa intensidade, caracterizado pelo esfriamento das águas do Oceano Pacífico, para um evento de El Niño com maior persistência deve inverter as condições produtivas que favoreceram o setor em 2025. O alerta é da revista Hortifruti Brasil, referência técnica no segmento.
Em 2025, a combinação entre chuvas relativamente bem distribuídas e temperaturas adequadas resultou em produtividade elevada para diversas culturas hortícolas. O novo cenário climático para 2026, no entanto, aponta em direção oposta: mais calor, irregularidade hídrica e pressão crescente sobre os custos de produção.
O que muda com o El Niño
O El Niño é um fenômeno climático causado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial que afeta os padrões de chuva e temperatura em todo o planeta. E o Brasil está entre os países mais impactados. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/Inpe), os efeitos variam por região. Enquanto o Sul tende a registrar chuvas acima da média, o Nordeste e partes do Centro-Oeste podem enfrentar estiagens mais severas.
Para a horticultura, que depende fortemente de condições climáticas estáveis, esse desequilíbrio é especialmente crítico. As altas temperaturas associadas ao fenômeno tendem a acelerar os ciclos vegetativos das plantas, comprometer a qualidade dos produtos e intensificar problemas fitossanitários. Como o avanço de pragas e doenças fúngicas, que se proliferam com mais facilidade em ambientes quentes e úmidos.
Irrigação no centro do debate
Em regiões com menor disponibilidade hídrica, a irrigação deixa de ser apenas uma ferramenta de suporte. E passa a ser condição essencial para a manutenção da produção. O problema é que o custo dessa operação também cresce em anos de El Niño, pressionando as margens dos produtores. Especialmente os de menor porte, que têm menos acesso a crédito e tecnologia.
Pesquisadores da Hortifruti Brasil destacam que a viabilidade econômica da irrigação será um dos fatores centrais para determinar quem conseguirá manter volumes e qualidade ao longo do ano. A gestão eficiente da água, o uso de sistemas mais modernos como gotejamento e a leitura regionalizada do clima são apontados como diferenciais competitivos para a safra 2026.
Planejamento como resposta
Diante desse cenário, especialistas recomendam que produtores redobrem o monitoramento climático regional. E também intensifiquem o controle fitossanitário preventivo e revisem seus planos de custeio levando em conta o aumento potencial de despesas com irrigação e defensivos agrícolas.
A horticultura brasileira movimenta bilhões de reais anualmente e abastece tanto o mercado interno quanto cadeias de exportação. Em um ano marcado pela instabilidade climática, a capacidade de adaptação técnica e a antecipação de riscos serão os maiores ativos dos produtores que quiserem manter competitividade e rentabilidade em 2026.
A transição de La Niña para El Niño deve intensificar desafios aos produtores em 2026. A equipe do Cepea avalia que a mudança altera o ambiente produtivo da horticultura brasileira. Segundo o centro ligado à Esalq/USP, 2025 registrou clima mais favorável ao campo. Naquele ano, chuvas bem distribuídas e temperaturas adequadas elevaram a produtividade de diversas culturas.
Agora, o novo cenário climático amplia riscos e exige maior planejamento técnico. Além disso, os produtores precisam aprimorar a leitura regional do clima e reforçar a gestão de custos.
As projeções indicam temperaturas médias mais elevadas ao longo de 2026. Elas também apontam mudanças no regime de chuvas a partir do inverno. Ou seja, essas alterações devem afetar as regiões brasileiras de forma distinta.
O comportamento do El Niño varia conforme cultura, região e sistema produtivo. Portanto, não existe efeito climático único sobre frutas e hortaliças.
Os pesquisadores da Hortifruti Brasil destacam impactos diretos das altas temperaturas. O calor tende a intensificar problemas fitossanitários e acelerar ciclos produtivos. Além disso, pode comprometer a qualidade, principalmente quando há excesso de umidade.
Irrigação
Em áreas com menor disponibilidade hídrica, a irrigação se torna fator decisivo. Nesse contexto, custo e viabilidade do sistema influenciam a manutenção da produção.
A experiência recente também reforça outro alerta ao produtor. Os ganhos de produtividade não garantem melhores margens automaticamente. O aumento de oferta, perdas de qualidade e pressão de custos reduzem a rentabilidade. Esse cenário já marcou o desempenho do setor ao longo de 2025.
Diante disso, o monitoramento climático contínuo torna-se essencial em 2026. Os produtores precisam adotar manejo mais preciso e escalonar plantios. Além disso, devem avaliar riscos com maior rigor. Essas estratégias serão decisivas para preservar produtividade, qualidade e rentabilidade na horticultura brasileira.
O fenômeno climático El Niño retorna ao Brasil em 2026 com previsão de intensidade moderada a forte, trazendo temporais severos e ondas de calor prolongadas para grande parte do território nacional. Os primeiros efeitos devem começar em maio e se intensificar ao longo do ano, segundo análises da maior empresa de consultoria meteorológica do Brasil e da América Latina.
Altas temperaturas (manchas vermelhas) no oceano Pacífico Equatorial, como observado entre 1 e 10 de junho de 2023, são características do El Niño. Fotoe: NOA
Vinicius Lucyrio, meteorologista, alerta que o El Niño 2026 terá um início acelerado. “Possivelmente, o El Niño este ano terá um início acelerado, e a expectativa é de que seja, no mínimo, um evento climático com intensidade de moderada a forte”, afirma o especialista. E isso deve afetar de forma prejudicial a produção agrícola do Brasil.
As projeções da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA) indicam maior probabilidade de um El Niño moderado ou mais intenso entre agosto, setembro e outubro. Normalmente, o fenômeno atinge seu pico entre novembro e janeiro.
O aquecimento do ar e do oceano aumenta significativamente os eventos de temporais severos. Lucyrio lembra que 2023 e 2024 registraram as temperaturas mais altas da história do planeta, ambos anos marcados por um forte El Niño e maior frequência de incidentes climáticos extremos.
O fenômeno ocorre quando as águas do Oceano Pacífico equatorial aquecem anormalmente. Esse aquecimento eleva a temperatura do ar e torna a distribuição de chuvas irregular na maior parte do País. O Rio Grande do Sul recebe mais precipitações, enquanto a Amazônia e o Nordeste enfrentam secas severas.
Frio concentrado em maio e junho
Especialistas apontam que o período mais frio de 2026 concentrará as massas de ar frio principalmente em maio e junho. A partir de julho, o desenvolvimento mais consistente do El Niño reduzirá gradualmente a entrada de ar frio no Brasil.
“A tendência é termos extremos de calor e tempo seco a partir do final do inverno e a primavera de 2026. Isto mostra uma certa similaridade com as condições de 2023, no sentido de que poderemos ter grandes, frequentes, longas e intensas ondas de calor em grande parte do interior do País”, explica Lucyrio.
Sul do país terá inverno tempestuoso
Enquanto o interior enfrenta calor extremo, o Sul do Brasil terá um inverno mais tempestuoso e nublado. Os eventos de chuva abrangente, com risco de enchentes, além de fortes temporais e CCMs (Complexos Convectivos de Mesoescala), crescerão expressivamente na primavera. Mato Grosso do Sul e São Paulo também sentirão parte dessa instabilidade.
As previsões indicam que os rios da Amazônia terão uma cheia maior em 2026 comparada ao ano anterior, seguida por uma vazante muito mais acentuada. “Entretanto, ainda não dá para afirmar se isso vai comprometer a navegabilidade dos rios da região. É bem provável que tenhamos longos e fortes períodos de calor e tempo seco por lá”, avalia Lucyrio.
Chuvas irregulares ameaçam abastecimento e agricultura
O meteorologista alerta que o início do próximo período úmido pode “enganar” algumas regiões. Pancadas de chuva atípicas podem ocorrer entre agosto e setembro no Brasil Central, sudeste do Pará, Minas Gerais, São Paulo e interior nordestino. Contudo, essas chuvas não indicarão o retorno da regularidade.
“O começo do próximo período de chuvas deve ter um padrão muito irregular e insuficiente para repor a umidade do solo e dos reservatórios, o que pode levar a problemas de abastecimento, geração de energia hidrelétrica e instalação de algumas culturas”, conclui o especialista.
O agricultor deve se preparar para proteger a produção, pois o ano promete muitos obstáculos para a plantação.
A combinação do fenômeno El Niño e a expectativa de uma queda na produtividade agrícola moldam um cenário desafiador para a safra 2025/2026. Este contexto, no entanto, abre caminho para um crescimento seletivo no mercado de insumos, com destaque para bioestimulantes, inoculantes e fertilizantes de alta concentração. Produtores buscam essas tecnologias para proteger as lavouras contra adversidades climáticas e garantir rentabilidade em um ano de margens apertadas.
A previsão de uma safra de grãos cerca de 3,7% menor que o recorde de 2025 e os veranicos (períodos de seca durante a estação chuvosa) projetados para o Centro-Oeste aceleram a adoção de soluções específicas. Produtores da região já antecipam a compra de fertilizantes foliares para correções nutricionais rápidas, prática que pode elevar a eficiência da adubação em até 20%.
“O manejo adequado com fertilizantes líquidos de alta concentração é o ponto de partida para obter produtividade, qualidade e rentabilidade. Eles melhoram o desempenho das plantas e ajudam a controlar problemas fitossanitários, fortalecendo a imagem do Brasil como líder mundial”, afirma Leonardo Sodré, CEO da GIROAgro.
Mercado em transformação: biológicos e precisão no centro da estratégia
A demanda por resiliência impulsiona o mercado de bioinsumos a um novo patamar. Especialistas preveem que produtos como bioestimulantes e inoculantes, que mitigam estresses hídricos e térmicos, podem alcançar 50% da área plantada com grãos no país. Em 2025, registros recordes de novos produtos já sinalizavam essa maturidade.
A adaptação é regional. No Sul, o excesso de chuvas amplia o mercado de fungicidas para soja e trigo. Já no Matopiba, biofortificantes ganham importância para sustentar a produtividade em solos arenosos sob seca prolongada.
A integração desses insumos com a agricultura de precisão – usando drones e sensores – se torna crucial. Essa combinação otimiza custos, reduz perdas e atende à crescente pressão por sustentabilidade.
Crescimento moderado e volatilidade exigem cautela
Apesar do otimismo com os biológicos, o mercado total de insumos enfrenta ventos contrários. A volatilidade nos preços internacionais dos fertilizantes, pressionada por tensões geopolíticas e demanda global, pode limitar o volume total aplicado. Estratégias nacionais, como o Plano Nacional de Fertilizantes, buscam estabilizar a oferta, mas o poder de compra do produtor ainda depende da recuperação dos preços das commodities.
As projeções refletem esta dualidade: enquanto o mercado de fertilizantes tradicionais pode crescer modestamente 1% a 2%, o setor de bioinsumos mira uma expansão robusta acima de 13% ao ano, com potencial para atingir R$ 40 bilhões em sete anos.
“Levamos tecnologia e inovação para o campo com soluções que impulsionam o trabalho do produtor. O investimento em pesquisa, aliado ao seu conhecimento, é o caminho para uma agricultura mais sustentável e produtiva”, conclui Sodré.
O ano de 2026 se configura, portanto, como um período de ajustes, onde a alta seletiva em insumos com alto retorno por hectare moldará um mercado agrícola mais eficiente e resiliente.
O ano de 2023 entrou para a história brasileira pelos piores motivos: registrou a maior chuva em 24 horas já documentada no país, uma seca amazônica sem precedentes e uma sequência devastadora de ciclones no Rio Grande do Sul. O saldo trágico ultrapassou 120 vítimas fatais e alertou a população sobre uma realidade inescapável: as mudanças climáticas chegaram ao Brasil.
Um estudo publicado nos Anais da Academia de Ciências de Nova York, conduzido por 19 pesquisadores brasileiros, finalmente esclarece os mecanismos atmosféricos por trás dessa onda de desastres. A pesquisa, liderada pela professora Luana Pampuch, da Unesp de São José dos Campos, revela como o El Niño, combinado ao aquecimento global, criou condições perfeitas para uma tempestade catastrófica de eventos extremos.
Litoral paulista: a maior chuva da história
Na madrugada de 18 para 19 de fevereiro de 2023, o litoral norte de São Paulo viveu seu pior pesadelo climático. Em apenas 24 horas, Bertioga registrou 682,8 mm de precipitação – um recorde nacional absoluto. O resultado: 65 mortos e 338 pessoas desabrigadas.
O fenômeno começou quando uma massa de ar frio do Oceano Atlântico colidiu com o ar quente sobre o litoral. Esse encontro, comum na região, tornou-se catastrófico devido a condições anormais: as águas do Atlântico estavam entre 1°C e 2°C mais quentes que o usual, criando mais vapor d’água para alimentar as tempestades.
“O ar quente, ao ser empurrado para cima pela frente fria, esfria e perde capacidade de reter umidade. Com oceanos mais quentes, há mais vapor disponível, resultando em chuvas extremamente volumosas”, explica o estudo.
A Serra do Mar intensificou ainda mais o desastre. Seu relevo íngreme força o ar úmido a subir rapidamente, provocando as chamadas chuvas orográficas. Somado ao aquecimento oceânico – 0,9°C acima da média pré-industrial devido aos gases de efeito estufa – o cenário tornou-se explosivo.
Rios voadores alimentaram a tragédia
Outro fator crucial foram os “rios voadores”, tecnicamente conhecidos como jatos de baixos níveis sul-americanos. Esses fluxos atmosféricos transportam umidade da Amazônia para o sul do Brasil, mas são bloqueados pela Cordilheira dos Andes e redirecionados, intensificando precipitações em regiões específicas.
“Não fizemos análises de atribuição específicas neste artigo, mas o aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos é compatível com um planeta em aquecimento”, afirma Camila Carpenedo, líder do Núcleo de Estudos sobre Variabilidade e Mudanças Climáticas da UFPR.
Amazônia: quando os rios secaram
Enquanto o Sudeste afogava em chuvas, a Amazônia sufocava na seca. Em 2023, o rio Amazonas despencou de 15,80 metros para apenas 12,70 metros em Manaus – mínima histórica que paralisou o transporte fluvial e devastou comunidades ribeirinhas.
Foto: Divulgação Portal.Gov
O culpado principal foi o El Niño, fenômeno climático cíclico registrado desde 1578. Durante episódios de El Niño, os ventos alísios enfraquecem, impedindo que águas quentes do Pacífico se desloquem para oeste. Isso altera drasticamente os padrões de circulação atmosférica global.
Como funciona a Célula de Walker
Em condições normais, as águas quentes do Pacífico concentram-se próximo à Ásia, criando uma zona de baixa pressão com muitas nuvens e chuvas sobre a Amazônia. Durante o El Niño, essas águas quentes permanecem próximas à costa das Américas, deslocando a zona chuvosa e deixando a região amazônica sob alta pressão atmosférica – sinônimo de céu limpo e seca prolongada.
“Atmosfera e oceano estão conectados. Há um acoplamento entre as duas coisas”, destaca Luana Pampuch.
O aquecimento global amplifica esse processo. Quanto mais quente a Terra, mais intensas são as variações provocadas pelo El Niño, gerando estiagens mais severas onde já se espera seca e chuvas mais violentas onde já chove naturalmente.
A reversão climática provocada pelo El Niño também gerou uma zona de alta pressão sobre o Centro-Oeste brasileiro, resultando na temperatura mais alta já registrada no país: 44,8°C em Araçuaí (MG), em 19 de novembro de 2023.
Rio Grande do Sul: quatro ciclones devastadores
Entre junho e outubro de 2023, o Rio Grande do Sul enfrentou quatro ciclones extratropicais notáveis, deixando um rastro de destruição que prenunciava a megaenchente de 2024.
O primeiro, em junho, foi o mais letal: despejou 80% da precipitação mensal esperada em poucas horas, matou 16 pessoas e desabrigou 10 mil. Em setembro, outro ciclone atingiu 106 cidades, especialmente o Vale do Taquari, fazendo 54 vítimas fatais e afetando 359 mil pessoas.
Foto: Divulgação Agência Brasil – Rafa Neddermeyer
A localização geográfica do Rio Grande do Sul o coloca próximo à frente polar – a fronteira turbulenta entre o ar gelado da Antártida e o ar quente dos trópicos. Essa zona, localizada entre os paralelos 30° e 60°, é berço natural de ciclones extratropicais.
Diferente dos furacões tropicais, esses ciclones formam-se quando massas de ar frio e quente colidem, criando áreas de baixa pressão que funcionam como um “ralo” atmosférico, sugando ar ao redor e gerando redemoinhos gigantes de nuvens.
“O espaço de tempo entre um ciclone e outro vai ser maior com o aquecimento global, então a atmosfera acumula mais energia. Além disso, ar mais quente armazena mais vapor de água, resultando em chuvas mais intensas”, explica Luiz Felippe Gozzo, professor de Meteorologia da Unesp Bauru.
O futuro é preocupante
As projeções científicas são alarmantes. Caso o planeta atinja 2°C acima dos níveis pré-industriais até 2100, trajetória provável nas políticas atuais, todos os fenômenos de 2023 se intensificarão.
Os números projetados impressionam:
Chuvas fortes: 1,7 vezes mais frequentes e 14% mais intensas
Estiagens: 2,4 vezes mais comuns
Ciclones: menos frequentes, porém significativamente mais intensos
“A América do Sul deve enfrentar eventos extremos mais intensos e contrastantes, com chuvas mais fortes em algumas regiões e secas mais longas em outras, impactando agricultura, recursos hídricos, biodiversidade e aumentando a vulnerabilidade social”, alertam Gozzo e Pampuch.
Vale lembrar: 2024 já ultrapassou pontualmente a marca de 1,5°C de aquecimento (1,55°C), demonstrando que o futuro previsto pelos cientistas está se tornando presente mais rápido do que esperado.
Entendendo as emissões: de 1850 a hoje
O ponto de referência para medir o aquecimento global é o período entre 1850 e 1900, quando já havia industrialização, mas em escala insuficiente para afetar o clima perceptivelmente. Nessa época, a humanidade havia emitido apenas 12 gigatoneladas de carbono desde a Revolução Industrial.
Entre 1901 e 2013, porém, as emissões dispararam para 380 gigatoneladas – mais de 30 vezes o total anterior. O resultado: a maior parte do aquecimento global aconteceu no século 20 e continua acelerando no século 21.
A complexidade da atribuição climática
Determinar a parcela exata de responsabilidade do aquecimento global em cada evento extremo é um desafio científico complexo. Fenômenos atmosféricos funcionam como dominós: uma pequena alteração em um parâmetro pode desencadear reações catastróficas em cadeia.
“Nem todo evento extremo ocorre por causa do aquecimento global”, reconhecem os pesquisadores. Mas o padrão é inegável: os eventos estão ficando mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis.
Enquanto meteorologistas trabalham para decifrar esse quebra-cabeça climático, a responsabilidade pela prevenção recai sobre governos, empresas e sociedade. Infelizmente, as medidas tomadas até agora ainda estão muito aquém do necessário para evitar tragédias ainda piores nas próximas décadas.
Um estudo conduzido na região de Caracaraí, em Roraima, aponta que o fenômeno El Niño impacta diretamente o crescimento da castanheira-da-amazônia (Bertholletia excelsa), espécie emblemática da floresta Amazônica e de grande importância econômica, histórica e cultural para a região.
Segundo a pesquisa, períodos de estiagem provocados pelo El Niño resultam em uma redução significativa do crescimento em diâmetro dessas árvores. Maria Eduarda Guimarães, estudante de Engenharia Florestal da Esalq e bolsista da Embrapa Meio Ambiente, destaca que as castanheiras funcionam como verdadeiros arquivos do clima, permitindo resgatar informações históricas por meio da análise dos anéis de crescimento, técnica conhecida como dendrocronologia.
Detalhes da pesquisa
Foram analisadas amostras de 10 castanheiras coletadas de forma não destrutiva em uma área de castanhal nativo de nove hectares. Os exemplares avaliados apresentam, em média, 92 anos de idade, 17,5 metros de altura e diâmetro de 78 centímetros. O crescimento médio anual dos anéis foi de 3,87 milímetros.
As cronologias de crescimento dessas árvores foram correlacionadas a dados de temperatura e precipitação local. Além de informações sobre a temperatura da superfície do oceano Pacífico, utilizadas para identificar eventos de El Niño e La Niña.
De acordo com Patrícia Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do estudo, há uma forte relação entre o crescimento da castanheira e a quantidade de chuva na região. Quanto maior a precipitação, maior o desenvolvimento da árvore. Por outro lado, o aumento da temperatura do oceano Pacífico — característica do El Niño — desacelera o crescimento da espécie.
A série histórica analisada (1951-2010) apresentou alta qualidade nos sinais climáticos registrados nas árvores. O professor Mário Tomazello Filho, coordenador do Laboratório de Anatomia e Identificação de Madeira, ressalta que a castanheira se mostrou um importante bioindicador, sensível às variações de precipitação e aos efeitos do El Niño.
Importância para a conservação e economia
Os resultados do estudo reforçam a necessidade de preservar as florestas. E também ampliam o conhecimento sobre como eventos climáticos extremos afetam a dinâmica das espécies amazônicas. Além disso, servem de alerta para possíveis impactos futuros no ecossistema e na economia regional, que depende fortemente da castanha-da-amazônia.
O Brasil registrou em 2024 o ano mais quente desde o início da série histórica em 1961, com uma temperatura média de 25,02°C. Esse valor representa um aumento de 0,79°C em relação à média histórica de 24,23°C, calculada entre 1991 e 2020. Em comparação, a média anual de 2023 foi de 24,92°C, que já era 0,69°C acima da média histórica.
Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que tanto 2023 quanto 2024 foram anos afetados pelo fenômeno El Niño, que apresentou intensidade de forte a muito forte. Essa condição climática tem impactos significativos nas temperaturas e padrões de precipitação no Brasil.
Ranking dos anos mais quentes da história do Brasil entre 1961 e 2024. Reprodução Inmet.
A análise dos desvios de temperaturas médias anuais realizada pelo Inmet revela uma tendência estatisticamente significativa de aumento das temperaturas no Brasil ao longo dos anos. Essa mudança pode estar associada às alterações climáticas globais e a transformações ambientais locais.
Temperatura global em ascensão
De acordo com a versão provisória do Estado Global do Clima 2024, publicada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), a temperatura média da superfície global também apresentou um aumento significativo. Até setembro de 2024, essa temperatura estava 1,54°C acima da média histórica de 1850 a 1900. Com isso, espera-se que 2024 supere o recorde anterior de temperatura média global registrado em 2023.
O Inmet prevê que o calor continuará a ser uma característica marcante neste início de ano. Para janeiro de 2025, há expectativas de temperaturas acima da média em quase todo o país.
O ano de 2024 não apenas se destaca como o mais quente na história do Brasil. Ele também reflete uma tendência global preocupante em relação às mudanças climáticas. A combinação do fenômeno El Niño e as alterações ambientais exigem atenção urgente para mitigar os impactos das altas temperaturas e garantir a segurança alimentar e hídrica no país. O Inmet continua a monitorar as condições climáticas e fornecer dados essenciais para entender e enfrentar esses desafios.