Tag: conservação ambiental

  • Parceria transforma conservação do Cerrado em negócio com cultivo de gergelim

    Parceria transforma conservação do Cerrado em negócio com cultivo de gergelim

    A Legado Verdes do Cerrado firmou parceria com a Concepta Ingredients para cultivar gergelim em áreas agrícolas já usadas durante a entressafra. Dessa forma, o projeto pretende unir agricultura, conservação ambiental e indústria sem abrir novas áreas de plantio.

    A reserva fica em Niquelândia (GO), pertence à Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) e é administrada pela Reservas Votorantim. Segundo as empresas, trata-se da primeira Reserva Privada de Desenvolvimento Sustentável do Cerrado no Brasil.

    Cultivo na entressafra

    A parceria ocupará áreas da reserva que já recebem atividade agrícola. Assim, o gergelim será plantado no intervalo entre as safras, período em que essas áreas ficam ociosas.

    Com essa estratégia, o projeto busca aumentar o aproveitamento da terra e reduzir a pressão por novas áreas de cultivo. Além disso, a atividade pode gerar receita adicional para a operação agrícola do território.

    Desde 2017, o Legado desenvolve ações de conservação e protege cerca de 27 mil hectares de vegetação nativa do Cerrado. A proposta combina, portanto, produção agrícola, conservação da biodiversidade, pesquisa científica e desenvolvimento de novos negócios, conceito conhecido como múltiplo uso da terra.

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    Da colheita à indústria

    Após a colheita, a Concepta processará o gergelim para produzir óleo destinado às indústrias de alimentos, cosméticos, produtos farmacêuticos e ingredientes naturais. O processamento também vai permitir rastrear a origem da matéria-prima e agregar valor ao produto cultivado na reserva.

    Além disso, a Concepta planeja aproveitar os subprodutos do gergelim e transformá-los em novos insumos para aplicações industriais. Para o produtor rural, o modelo amplia as possibilidades de uso de áreas já cultivadas e aproxima a produção agrícola de mercados industriais específicos.

    No entanto, as empresas não informaram a área destinada ao cultivo, o volume estimado de produção nem os valores previstos para a nova cadeia.

    Rastreabilidade e conservação

    Para Leandro Faria, gerente-geral de Sustentabilidade, Segurança e Meio Ambiente da CBA, a parceria pode ajudar a ampliar cadeias ligadas à bioeconomia. Segundo ele, ao conectar o gergelim cultivado no Legado à capacidade industrial da Concepta, a iniciativa mostra que uma reserva privada pode funcionar como plataforma de origem, rastreabilidade e inovação para ingredientes de alto valor agregado.

    “A parceria com a Concepta demonstra o potencial do Legado Verdes do Cerrado e da estratégia da CBA para dar escala sustentável a novas cadeias da bioeconomia […] sendo um caminho viável e rentável para a conservação do Cerrado”, afirma Faria.

    Assim, a iniciativa pretende beneficiar diferentes etapas da cadeia: a produção terá origem identificada, enquanto a indústria contará com matéria-prima rastreável.

    De acordo com as empresas, o aproveitamento de áreas já utilizadas para agricultura pode reduzir a necessidade de conversão de novas áreas. Ainda assim, os resultados ambientais e econômicos dependerão da execução da parceria e dos indicadores que virão a ser divulgados.

    Um modelo pensado para replicar

    Segundo Tatiana Motta, coordenadora de Projetos e Carbono da Reservas Votorantim, o território funciona como espaço de teste para modelos que combinam conservação e produção. Para ela, a cadeia de gergelim reforça esse potencial, pois estrutura uma produção com origem rastreável no Cerrado e amplia oportunidades para a indústria e para negócios ligados à conservação.

    “O Legado Verdes do Cerrado mostra que a conservação pode ser estruturada como uma plataforma de soluções. O território reúne biodiversidade, pesquisa científica, produção responsável e governança para testar modelos replicáveis em áreas privadas”, explica Motta.

    O projeto também dialoga com as diretrizes do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, política que busca aproximar ciência, inovação, preservação ambiental e inclusão social, além de integrar setores como agricultura, indústria e biocombustíveis.

    Aproveitamento integral do gergelim

    A parceria prevê o uso de diferentes partes do gergelim: a Concepta produzirá o óleo e dará novos destinos aos subprodutos. Esse processo pode reduzir perdas e aumentar o valor gerado por cada volume de matéria-prima, ainda que as empresas não tenham detalhado quais insumos resultarão dos subprodutos nem quais mercados os receberão.

    Segundo André Sabará, CEO da Concepta Ingredients, a empresa busca construir cadeias produtivas com retorno econômico e impacto ambiental positivo. Para ele, o futuro da produção sustentável passa pela integração entre agricultura e inovação, ao mesmo tempo que protege um dos biomas mais importantes do Brasil.

    Conheça o Legado Verdes do Cerrado

    O Legado ocupa 32 mil hectares pertencentes à CBA, dos quais cerca de 80% mantêm vegetação nativa do Cerrado. A reserva fica a aproximadamente três horas de Brasília e possui dois núcleos: Engenho e Santo Antônio Serra Negra.

    No núcleo Engenho nascem os rios Peixe, São Bento e Traíras, responsáveis pelo abastecimento público de Niquelândia (GO). A área também abriga a sede do Legado e reúne, em 23 mil hectares, pesquisas científicas, educação ambiental, produção de plantas e projetos de reflorestamento. Outros 5 mil hectares são destinados à pecuária, à produção de soja e à silvicultura.

    Já o núcleo Santo Antônio Serra Negra possui 5 mil hectares de Cerrado nativo preservado, parte deles às margens do Lago da Serra da Mesa.

    As empresas por trás da parceria

    A Concepta Ingredients desenvolve ingredientes naturais e tecnológicos para diferentes setores industriais, com produtos orgânicos e convencionais. A empresa mantém ainda o Programa Bio Abundância, voltado à capacitação de famílias e à conservação indireta de áreas em diferentes biomas brasileiros. A fábrica fica em Valinhos (SP), ocupa 7.800 metros quadrados, tem acesso a rodovias e aeroportos e conta com certificação FSSC 22000, norma de segurança de alimentos.

    Fundada em 1955, a CBA atua da mineração à fabricação de produtos de alumínio, incluindo reciclagem, e afirma produzir 100% da energia elétrica que consome a partir de fontes renováveis. A companhia fornece soluções para os setores de embalagens, transportes, automotivo, construção civil, energia e bens de consumo. Listada na B3 sob o código CBAV3, integra o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e registrou, em 2025, receita líquida de R$ 8,8 bilhões e EBITDA ajustado de R$ 1,1 bilhão.

    Já a Reservas Votorantim integra o portfólio da Votorantim S.A., administra cerca de 130 mil hectares e desenvolve projetos de economia verde e soluções baseadas na natureza, com atuação em crédito de carbono, reserva legal e biodiversidade. Fundada em 2015 e lançada ao mercado em 2022, a empresa trabalha com projetos baseados no uso múltiplo da terra.

  • Palmeira rara reaparece após quase 100 anos e intriga cientistas

    Palmeira rara reaparece após quase 100 anos e intriga cientistas

    Uma palmeira rara reapareceu em Madagascar após quase um século sem registros científicos. Pesquisadores identificaram 28 indivíduos da espécie Ravenea latisecta em áreas protegidas da região de Andasibe-Mantadia, no leste do país.

    O achado reforça a importância da conservação e evidencia lacunas no conhecimento sobre a flora da ilha, considerada um dos principais pontos de biodiversidade do planeta.

    A equipe liderada por Louis Aureglia, da Universidade Aix-Marseille, iniciou expedições de campo em 2024 com o objetivo de localizar espécies do gênero Ravenea em ambiente natural. Os pesquisadores também revisaram amostras históricas armazenadas em herbários para validar registros antigos.

    Apesar de as palmeiras apresentarem grande porte, o grupo enfrentou dificuldades na identificação. Muitas espécies do gênero Ravenea possuem características semelhantes fora do período de floração, o que dificulta a distinção em campo.

    A confirmação da espécie ocorreu quando os cientistas encontraram indivíduos férteis, com inflorescências, estruturas que concentram flores. A presença de plantas masculinas e femininas permitiu validar a identificação com precisão.

    A Ravenea latisecta apresenta reprodução dioica, ou seja, produz flores masculinas e femininas em plantas separadas. Esse fator torna o processo de identificação ainda mais dependente da observação de exemplares em floração.

    Onde a palmeira foi encontrada

    Os pesquisadores localizaram a maioria dos indivíduos em quatro áreas: Reserva Vohimana, Parque Nacional Analamazoatra, Parque Nacional Mantadia e a reserva privada Vakona Forest.

    O registro atual surge quase 100 anos após a primeira descrição da espécie, feita com base em um exemplar coletado em 1927. Tentativas anteriores de identificação, incluindo amostras de 1992, apresentaram inconsistências e erros de classificação.

    Com menos de 50 indivíduos maduros conhecidos, a Ravenea latisecta integra a lista de espécies criticamente ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

    Os cientistas ainda não determinaram se a raridade da palmeira resulta de características naturais ou de pressões ambientais. As áreas onde a espécie ocorre enfrentam impactos da agricultura de corte e queima e da perda de cobertura florestal nas bordas.

    Apesar disso, os pesquisadores não encontraram evidências de exploração direta da espécie por comunidades locais. O grupo destaca a necessidade de monitoramento contínuo para entender a dinâmica populacional e os riscos envolvidos.

    Outro desafio envolve a conservação fora do habitat natural. A equipe não identificou exemplares confirmados em cultivo nem encontrou indivíduos com frutos durante as expedições, o que impede, até o momento, a coleta de sementes para programas de propagação e conservação ex situ.

    A redescoberta da Ravenea latisecta reforça que mesmo regiões consideradas bem estudadas ainda podem abrigar espécies raras e pouco conhecidas, ampliando a urgência de ações de conservação em Madagascar.

  • Vídeo: Casal de pirarucus guia filhotes em rio brasileiro

    Vídeo: Casal de pirarucus guia filhotes em rio brasileiro

    Uma cena incomum registrada nas águas do Rio Teles Pires, em Mato Grosso, viralizou nas redes sociais. O vídeo mostra um casal de pirarucus conduzindo centenas de filhotes enquanto atravessa uma área de águas rasas.

    Esse comportamento ajuda a proteger os pequenos contra predadores.

    As imagens foram captadas pelo pescador e influenciador Tiger Bilzerian na região de Porto Santo Expedito, em Itaúba.

    Comportamento surpreendeu até observadores da espécie

    Embora o cuidado parental faça parte do ciclo de vida do pirarucu, o que mais chamou atenção no registro foi a quantidade de filhotes acompanhando os pais.

    Segundo Tiger Bilzerian, é comum que muitos filhotes sejam perdidos ao longo do desenvolvimento devido à ação de predadores naturais.

    “Os predadores atacam os filhotes. É comum que, no fim do trajeto, sobrem cerca de 50, dependendo do habitat. Esse casal deve ter uma estratégia muito boa porque, desse tamanho, já era para ter bem menos filhotes.”

    https://www.instagram.com/reel/DbZCw1yJF4X/?igsh=MTYxOHdzNzg5aGJt

    No vídeo, é possível observar os filhotes se movimentando próximos aos adultos, que parecem liderar o grupo durante o percurso.

    Estratégia ajuda a evitar ataques

    De acordo com especialistas e observadores da fauna aquática, o deslocamento em águas rasas pode dificultar a aproximação de alguns predadores.

    Entre os principais riscos para os filhotes estão:

    • Peixe-cachorra;
    • Ariranhas;
    • Jacarés;
    • Grandes peixes carnívoros.

    A proteção oferecida pelos pais aumenta as chances de sobrevivência da prole nos primeiros meses de vida.

    O gigante das águas amazônicas

    O pirarucu é considerado um dos maiores peixes de água doce do mundo e pode ultrapassar dois metros de comprimento.

    O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce com escamas do mundo, sendo considerado um verdadeiro gigante da Bacia Amazônica — Foto: Reprodução/GOV

    Nativo da Amazônia, ele se destaca não apenas pelo tamanho impressionante, mas também pelos comportamentos ligados à reprodução e ao cuidado com os filhotes, algo relativamente raro entre peixes de grande porte.

    Espécie também está no centro de debates ambientais

    Apesar de ser um símbolo da fauna amazônica, o pirarucu passou a ser considerado uma espécie exótica invasora quando encontrado fora de sua área natural de ocorrência.

    Neste ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou a pesca da espécie em diferentes regiões hidrográficas do país como forma de controle populacional.

    Segundo o órgão, o pirarucu possui grande capacidade de adaptação e pode impactar espécies nativas quando introduzido em ecossistemas onde não ocorre naturalmente.

  • Peixe amazônico se disfarça de folha para capturar presas

    Peixe amazônico se disfarça de folha para capturar presas

    Nas águas tranquilas dos igarapés da Amazônia, um predador desenvolveu uma estratégia impressionante para caçar sem ser percebido. O peixe-folha (Monocirrhus polyacanthus) utiliza uma camuflagem extremamente eficiente, assumindo a aparência de uma folha morta para se aproximar de suas presas.

    Como ele se disfarça

    O segredo está na anatomia. O corpo achatado apresenta formas, linhas e tonalidades que reproduzem com precisão a aparência de uma folha em decomposição caída na água.

    Além disso, pequenas expansões na pele lembram o pecíolo das folhas, reforçando ainda mais o disfarce. A coloração marrom também varia conforme as características do ambiente, enquanto os movimentos lentos acompanham a correnteza, simulando o deslocamento natural da vegetação.

    Peixe folha
    Peixe permanece praticamente invisível para outros organismos — Foto: Reprodução/Blog do Pescador

    Paciência e ataque relâmpago

    A principal tática do peixe-folha é a caça por emboscada. Na maior parte do tempo, ele permanece imóvel ou se movimenta lentamente, reproduzindo o comportamento de uma folha sendo carregada pela água.

    Quando um pequeno peixe, camarão ou outro organismo se aproxima sem perceber o perigo, o predador entra em ação. Com movimentos discretos das nadadeiras, ele ajusta sua posição e aguarda o momento ideal para atacar.

    Então ocorre o golpe final: sua mandíbula protrátil se expande rapidamente, criando um poderoso efeito de sucção capaz de engolir a presa inteira em apenas alguns milissegundos.

    Camuflagem também ajuda na sobrevivência

    O mimetismo não serve apenas para capturar alimento, mas também como mecanismo de defesa.

    Ao se confundir com folhas acumuladas no fundo dos rios, o peixe-folha reduz significativamente as chances de ser identificado por possíveis predadores. Por isso, a adaptação garante vantagens tanto na obtenção de alimento quanto na própria sobrevivência.

    Entre os principais benefícios dessa estratégia estão:

    • Economia de energia, já que não precisa perseguir suas presas;
    • Menor exposição a predadores presentes no ambiente;
    • Alta eficiência na captura de alimento graças ao fator surpresa.

    Conservação dos igarapés é fundamental para a espécie

    A sobrevivência do peixe-folha depende diretamente da preservação dos igarapés e da vegetação que abastece esses ambientes com folhas e matéria orgânica.

    Alterações na cobertura vegetal podem reduzir a disponibilidade dos micro-habitats utilizados pela espécie, comprometendo sua capacidade de caça e proteção.

  • Aranha que se disfarça de fungo é descoberta na Amazônia equatoriana

    Aranha que se disfarça de fungo é descoberta na Amazônia equatoriana

    Pesquisadores registraram pela primeira vez a existência de uma espécie de aranha capaz de imitar a aparência de fungos parasitas. A espécie, denominada Taczanowskia waska, foi encontrada na porção equatoriana da Floresta Amazônica e amplia o conhecimento científico sobre a biodiversidade da região.

    A descoberta ocorreu após a publicação de uma fotografia do animal na plataforma de ciência iNaturalist. Inicialmente, observadores acreditaram que o organismo retratado fosse um fungo. No entanto, análises posteriores revelaram tratar-se de uma aranha.

    “Descobertas como essas demonstram o valor das coleções científicas. Elas nos permitem classificar novas espécies e compará-las com espécimes históricos. Aliadas à colaboração internacional e à ciência cidadã, isso abre novas oportunidades para a pesquisa da biodiversidade”, destacou a pesquisadora Nadine Dupérré, uma das autoras do trabalho.

    A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Leibniz para Análise da Mudança da Biodiversidade (LIB), da Alemanha.

    Camuflagem ajuda na sobrevivência da espécie

    Segundo os cientistas, a Taczanowskia waska apresenta estruturas alongadas que se estendem até o abdômen, além de uma coloração clara semelhante à observada em fungos do gênero Gibellula, conhecidos por parasitar aranhas.

    Dessa forma, a espécie utiliza a aparência de fungo como estratégia de camuflagem, reduzindo o risco de ser identificada por predadores.

    Aranha que se disfarça de fungo
    Taczanowskia waska, nova espécie de aranha, apresenta estruturas no abdômen que imitam fungos parasitas — Foto: David Diaz-Guevara/Reprodução Phys

    Para aumentar a eficiência dessa estratégia, a aranha permanece imóvel em áreas das folhas onde esses fungos costumam se desenvolver. Assim, torna-se ainda mais difícil distingui-la do ambiente natural.

    Além de revelar características inéditas do pouco estudado gênero Taczanowskia, a descoberta contribui para ampliar o conhecimento sobre a rica fauna amazônica presente na região equatoriana da floresta.

  • Cinco vacas abandonadas viraram rebanho selvagem de 2 mil animais

    Cinco vacas abandonadas viraram rebanho selvagem de 2 mil animais

    Cinco vacas abandonadas em uma ilha remota no sul do Oceano Índico deram origem a uma das histórias mais curiosas da evolução animal. Sozinhos, cercados pelo mar e expostos a ventos incessantes, os bovinos se multiplicaram até formar uma população de quase 2 mil cabeças e retomaram comportamentos típicos de animais selvagens.

    O caso ocorreu na Ilha Amsterdã, território francês localizado a cerca de 4,4 mil quilômetros de Madagascar. Sem rios permanentes, castigada por chuvas frequentes e rajadas de vento que varrem a paisagem, a ilha parecia um lugar improvável para a sobrevivência de um rebanho. Ainda assim, os animais prosperaram.

    Agora, um estudo baseado no material genético de 18 bovinos ajuda a explicar esse fenômeno e lança luz sobre os mecanismos que permitiram a adaptação de um grupo tão pequeno de animais a um ambiente tão hostil.

    Uma aposta fracassada que mudou a história da ilha

    Os registros históricos indicam que, em 1871, um fazendeiro chamado Heurtin e sua família deixaram a Ilha da Reunião e tentaram se estabelecer na Ilha Amsterdã para criar gado. A empreitada durou apenas alguns meses.

    O isolamento, o clima adverso e as dificuldades de adaptação fizeram a família desistir do projeto e retornar. As vacas ficaram para trás. O que parecia o fim de uma experiência malsucedida acabou se tornando o início de um experimento involuntário da natureza.

    DNA revela mistura de europeus e zebus

    As análises genéticas mostraram que o rebanho era formado por descendentes de duas linhagens distintas. Cerca de 75% de sua herança genética veio de bovinos taurinos europeus, próximos ao atual gado Jersey. Os outros 25% vieram de zebus originários do Oceano Índico.

    Essa combinação ajudou a explicar o sucesso dos animais. Os ancestrais europeus já estavam adaptados a condições climáticas semelhantes às encontradas na Ilha Amsterdã. Em outras palavras, parte do caminho já estava pavimentada antes mesmo de os bovinos desembarcarem no local.

    De animais domésticos a uma sociedade selvagem

    Ao longo de poucas gerações, o gado passou por um processo conhecido como feralização, quando animais domesticados recuperam comportamentos típicos da vida selvagem.

    Os pesquisadores identificaram sinais de seleção natural em genes ligados ao sistema nervoso, indicando mudanças comportamentais profundas. Além disso, observadores descreveram grupos organizados de forma semelhante aos de grandes herbívoros selvagens, com estruturas sociais complexas, separação entre machos e fêmeas e formação de grupos reprodutivos durante determinadas épocas do ano.

    As vacas, que um dia dependeram da ação humana, reaprenderam a viver sozinhas. O mugido do curral deu lugar ao silêncio de uma população totalmente adaptada à natureza.

    Infográfico vertical mostrando a evolução das vacas abandonadas

    Nem gigantes, nem miniaturas

    Alguns cientistas, no entanto, acreditavam que os animais haviam diminuído de tamanho para sobreviver aos recursos limitados da ilha, fenômeno conhecido como nanismo insular.

    A genética, porém, contou outra história. Os animais fundadores já eram naturalmente pequenos, semelhantes ao gado Jersey e ao zebu de Madagascar. A pesquisa não encontrou evidências de redução adicional no porte dos bovinos ao longo das gerações.

    O fim de uma população única

    O fim das vacas na ilha de Amsterdã
    Foto: François Cola

    Apesar de sua relevância científica, a população foi completamente abatida em 2010.

    Ambientalistas consideravam o gado uma ameaça ao ecossistema local por causa do pisoteio da vegetação e do potencial impacto sobre espécies endêmicas, como o albatroz-de-Amsterdã e a árvore Phylica arborea.

    Os autores do estudo, porém, observam que a decisão continua cercada de controvérsias. O rebanho prestava serviços ambientais, como a redução da vegetação rasteira e a manutenção de áreas que funcionavam como barreiras naturais contra incêndios. Além disso, medidas de controle de espécies invasoras, como roedores e gatos, só começaram anos depois da eliminação das vacas.

    Uma lição para a conservação

    Para os pesquisadores, o caso da Ilha Amsterdã deixa um alerta. Antes de erradicar populações de animais introduzidos que se tornaram selvagens, é preciso compreender sua história genética e seu potencial científico.

    O destino dessas vacas mostra que a biodiversidade nem sempre cabe em definições simples de “nativa” ou “invasora”. Às vezes, ela surge de forma inesperada, cresce em silêncio e deixa perguntas que continuam ecoando muito depois de o último animal desaparecer.

  • Rara arara-canindé branca é registrada no Tocantins e impressiona

    Rara arara-canindé branca é registrada no Tocantins e impressiona

    Uma arara-canindé com plumagem branca e amarelada ganhou destaque nas redes sociais nos últimos dias. O raro exemplar foi fotografado pelo geógrafo e fotógrafo de natureza Clóvis Cruvinel em Aliança do Tocantins (TO).

    Tradicionalmente reconhecida pelas cores azul e amarela, características da espécie, a ave surpreendeu pela aparência incomum. A alteração na coloração é resultado de uma condição genética rara chamada lutinismo, responsável pela ausência total de melanina, mantendo, no entanto, os pigmentos amarelos e avermelhados.

    Segundo Cruvinel, a ave apresenta exatamente essa condição genética. Dessa forma, a falta de melanina faz com que a plumagem assuma tonalidades mais claras, enquanto os olhos costumam adquirir coloração avermelhada.

    Arara branca ao lado de arara azul, no Tocantins.
    Foto: Reprodução/Clóvis Cruvinel

    Em uma das fotografias, a ave aparece ao lado de outra arara-canindé com a coloração padrão da espécie.

    Por conta da raridade, as imagens repercutiram entre observadores de aves, fotógrafos de natureza e pesquisadores. Casos de lutinismo são considerados incomuns na fauna silvestre e se tornam ainda mais raros quando ocorrem em aves de grande porte, como as araras.

    Beleza rara pode representar um desafio

    Embora a aparência diferenciada impressione, a mutação genética pode trazer dificuldades para a sobrevivência da ave em ambiente natural.

    De acordo com o biólogo especialista em aves Danilo Freitas Rangel, a ausência de melanina reduz a capacidade de camuflagem do animal, tornando-o mais vulnerável à ação de predadores.

    “Ao eliminar a melanina e destacar uma coloração vibrante na plumagem, a ave perde sua camuflagem natural nas copas das árvores, transformando-se em um alvo fácil para predadores”, afirma.

    Além dos riscos naturais, a raridade também pode aumentar a exposição ao tráfico de animais silvestres. Segundo o especialista, indivíduos com características incomuns costumam despertar o interesse de colecionadores ilegais.

    “A beleza exótica e a extrema raridade dessas araras atraem a atenção de traficantes, que frequentemente monitoram ninhos para capturar filhotes ainda jovens”, alerta.

    Por fim, Rangel destaca que registros como esse possuem grande importância científica. Segundo ele, a ocorrência ajuda pesquisadores a compreenderem melhor os processos evolutivos que continuam acontecendo na natureza.

  • Papagaio raro volta a nascer após mais de 100 anos no Nordeste

    Papagaio raro volta a nascer após mais de 100 anos no Nordeste

    Após mais de um século, periquito-cara-suja volta a nascer na Serra da Ibiapaba Nascimento de 43 filhotes no Parque Nacional de Ubajara reacende a esperança para uma das aves mais ameaçadas do Brasil.

    Há histórias que parecem improváveis até para quem trabalha diariamente com conservação ambiental. A do periquito-cara-suja é uma delas.

    A cena pode passar despercebida para quem visita a serra. No entanto, para os especialistas que acompanham o projeto, cada filhote nascido carrega um significado enorme. Afinal, durante décadas, a presença da espécie na região existia apenas nos registros históricos.

    O retorno não aconteceu por acaso. Por trás dele existe um esforço que reúne ciência, monitoramento e persistência.  O projeto de reintrodução é conduzido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por meio do Parque Nacional de Ubajara e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), em parceria com a organização não governamental Aquasis.

    Além disso, caixas-ninho foram instaladas para estimular a reprodução em ambiente natural.

    O resultado começou a aparecer de forma silenciosa, como costuma acontecer na natureza.

    Primeiro vieram os sinais de adaptação. Depois, a ocupação dos ninhos. Agora, chegaram os filhotes.

    Ciclo reprodutivo

    Segundo os técnicos envolvidos no projeto, o nascimento das aves mostra que a espécie conseguiu se estabelecer na região e iniciar um ciclo reprodutivo considerado fundamental para a formação de uma população autossustentável.

    A conquista ganha ainda mais relevância quando se observa o passado recente da espécie.

    Por isso, o nascimento dos filhotes tem um peso que vai além da biologia. É como se a serra recuperasse uma peça que faltava em sua própria história.

    Depois de décadas de silêncio, o voo do periquito-cara-suja volta a fazer parte da rotina das matas da Ibiapaba.

    Especialistas destacam que o acompanhamento dos animais continuará sendo fundamental.

    Foto: ICMBio
    Foto: ICMBio

    O monitoramento permanente, a proteção dos habitats e o combate ao tráfico de aves ainda são desafios que exigem atenção constante.

    A diferença é que agora existe um motivo concreto para acreditar.

    Os 43 filhotes que nasceram neste ano representam mais do que uma vitória dos programas de conservação. Eles simbolizam a possibilidade de que uma espécie ameaçada volte, aos poucos, a ocupar o espaço que nunca deveria ter perdido.

    Parque está entre os mais visitados do Brasil.

    Quem percorre suas trilhas costuma se encantar com as cavernas, os mirantes e a vegetação exuberante.

    Agora, há também uma nova razão para olhar com atenção para as copas das árvores.

    Em algum ponto da floresta, uma geração inteira de periquitos-cara-suja começa a escrever um capítulo que parecia impossível há poucos anos.

  • Conheça a serpente temida na Ilha das Cobras no litoral paulista

    Conheça a serpente temida na Ilha das Cobras no litoral paulista

    A Ilha da Queimada Grande, localizada entre Itanhaém e Peruíbe, no litoral de São Paulo, ganhou fama internacional por abrigar a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), espécie endêmica considerada uma das serpentes mais perigosas do planeta. No entanto, a chamada Ilha das Cobras também é lar de outra serpente bem menos conhecida: a dormideira (Sibynomorphus mikanii), uma espécie inofensiva que se alimenta principalmente de lesmas e caracóis.

    Além disso, a Queimada Grande é considerada a segunda ilha com maior densidade populacional de cobras do mundo. O local é o único habitat natural da jararaca-ilhoa. Já a dormideira também ocorre no continente e, segundo pesquisadores, apresenta poucas diferenças visíveis em relação aos exemplares encontrados fora da ilha.

    De acordo com o pesquisador do Instituto Butantan, Otavio Marques, a presença da dormideira desperta interesse científico porque, ao contrário da jararaca-ilhoa, a espécie não sofreu mudanças aparentes durante o período de isolamento geográfico.

    Segundo o pesquisador, seus hábitos noturnos e a alimentação baseada em lesmas permitiram que a serpente encontrasse na ilha condições muito semelhantes às existentes no continente. Dessa forma, a espécie manteve características praticamente inalteradas ao longo do tempo.

    Dormideira pode ser encontrada em hortas e áreas úmidas

    Conforme informações do Instituto Butantan, a dormideira é uma serpente de pequeno porte, terrestre e com hábitos predominantemente noturnos. Além disso, ela é totalmente inofensiva aos seres humanos.

    Sua dieta é composta principalmente por lesmas e caracóis, motivo pelo qual a espécie costuma ser encontrada em hortas, áreas de cultivo e locais com vegetação úmida, ambientes comuns em diversas propriedades rurais.

    Cobra dormideira na Ilha da Queimada Grande, entre Itanhaém e Peruíbe, SP — Foto: Instituto Butantan

    A serpente não possui veneno. Em contrapartida, desenvolveu adaptações específicas no crânio e na mandíbula que permitem retirar moluscos de dentro das conchas sem quebrá-las, característica que chama a atenção dos pesquisadores.

    Jararaca-ilhoa desenvolveu peçonha mais potente após isolamento

    Enquanto a dormideira costuma passar despercebida, a jararaca-ilhoa permanece como a principal protagonista da Ilha da Queimada Grande. Segundo o biólogo Eric Comin, a espécie figura entre as serpentes mais peçonhentas e perigosas do mundo.

    “Ela é uma jararaca de coloração meio esverdeada com tom voltado ao amarelo. Com isso, ela tem uma camuflagem muito boa”, disse Comin.

    A origem da espécie está diretamente relacionada ao isolamento geográfico provocado pela elevação do nível do mar há aproximadamente 11 mil anos. Com a formação da ilha, uma população ancestral de jararacas ficou separada do continente e passou a evoluir de forma independente.

    “Nesse isolamento, ela teve que caçar aves do continente que vão até a ilha. Para ela caçar essas aves, se ela pica a ave e a peçonha não é forte, a ave voa, vai embora e cai em outro lugar”, acrescentou o biólogo.

    Jararaca-ilhoa na Ilha da Queimada Grande, conhecida como 2ª com maior densidade de cobras do mundo — Foto: João Rosa

    Com o passar das gerações, a espécie desenvolveu uma peçonha cada vez mais eficiente para capturar aves, que representam a maior parte de sua alimentação. Assim, a seleção natural favoreceu indivíduos capazes de imobilizar rapidamente suas presas.

    “Dentro desse isolamento geográfico […] a peçonha dela se potencializou de uma tal forma que a partir do momento que ela dava o bote, a ave já morria e ficava no galho”, completou Comin.

    Por isso, a Ilha da Queimada Grande se tornou um dos mais importantes laboratórios naturais para estudos sobre evolução, adaptação de espécies e biodiversidade, temas de grande relevância para a conservação dos ecossistemas brasileiros.

  • Tarântulas brasileiras raras entram na mira do tráfico por aparência “de joia”

    Tarântulas brasileiras raras entram na mira do tráfico por aparência “de joia”

    As tarântulas do gênero Typhochlaena vivem grande parte da vida escondidas em árvores, porém a aparência exótica dessas aranhas tem despertado o interesse do mercado internacional de animais raros. Com cores metálicas que lembram joias, elas passaram a ser alvo constante de colecionadores e traficantes de animais exóticos.

    Além da beleza incomum, a raridade dessas espécies aumentou ainda mais a procura ilegal. Pesquisas apontam que o comércio internacional de pets exóticos se tornou um dos principais fatores responsáveis pela captura clandestina de espécies raras no Brasil.

    Aranhas que parecem “joias” são alvo de crimes — (Foto: jungledweller / iNaturalist)

    O gênero Typhochlaena possui apenas cinco espécies conhecidas, todas endêmicas do território brasileiro. Além disso, elas apresentam uma distribuição geográfica extremamente limitada. Em estudo publicado na revista científica ZooKeys, pesquisadores descreveram essas aranhas como pequenas caranguejeiras arborícolas com cores marcantes no abdômen e padrões considerados únicos.

    Segundo especialistas, a popularidade dessas aranhas representa um risco significativo para populações naturais já bastante reduzidas.

    Espécie criticamente ameaçada preocupa pesquisadores

    Entre os exemplos mais preocupantes está a Typhochlaena curumim, encontrada em remanescentes da Mata Atlântica do Nordeste brasileiro.

    Inicialmente, a espécie era conhecida apenas por três fêmeas coletadas sob cascas soltas de árvores na Paraíba. Posteriormente, novas expedições científicas localizaram outros exemplares nos estados do Ceará e do Rio Grande do Norte.

    Ainda assim, o conhecimento sobre a distribuição da espécie continua extremamente limitado. Por isso, ela foi classificada como criticamente ameaçada na lista brasileira de espécies ameaçadas de extinção.

    Registro de uma Caranguejeira-Joia-Brasileira (Typhochlaena seladonia) — (Foto: vsmjr / iNaturalist)

    Pesquisadores destacam que espécies com área de ocorrência restrita se tornam mais vulneráveis à coleta ilegal. “A presença de uma espécie no comércio pode afetar populações naturais, especialmente quando se trata de espécies com distribuição limitada que atraem demanda internacional”, alertaram os autores do estudo.

    Além disso, os cientistas reforçaram que muitas espécies são descritas a partir de poucos exemplares encontrados em um único local. Dessa forma, ainda é difícil estimar o tamanho real das populações existentes na natureza.

    Mercado ilegal cresce com facilidade de transporte

    A crescente demanda por tarântulas brasileiras também impulsiona o mercado clandestino internacional. Isso acontece porque esses animais podem ser transportados com facilidade para outros países.

    De acordo com os pesquisadores, as aranhas costumam ser enviadas em pequenas encomendas, muitas vezes sem qualquer identificação. Esse método é conhecido como brown-boxing, estratégia utilizada para despachar discretamente espécies capturadas na natureza até comerciantes estrangeiros.

    Muitos exemplares acabam comercializados na Europa e na América do Norte. “Uma vez fora do país, muitos espécimes brasileiros de tarântulas são vendidos no comércio de animais de estimação”, registrou o estudo científico.

    Outro fator que dificulta o combate ao tráfico é a diferença entre legislações internacionais. No Brasil, a coleta e comercialização dessas espécies são proibidas. Entretanto, alguns países ainda permitem a compra de animais exóticos sem grandes restrições.

    Tráfico de animais movimenta bilhões no mundo

    Segundo dados divulgados, o tráfico de animais silvestres está entre as atividades ilegais mais lucrativas do planeta. Relatórios da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS) indicam que o setor movimenta bilhões de dólares todos os anos e envolve organizações criminosas internacionais.

    Diante do crescimento desse mercado ilegal, pesquisadores buscam ampliar o conhecimento sobre a biologia das tarântulas brasileiras para criar medidas mais eficientes de conservação.

    Uma das propostas defendidas pelos especialistas é incluir o gênero Typhochlaena em acordos internacionais de proteção. Além disso, os cientistas sugerem inserir essas espécies na Lista Vermelha global da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), medida que poderia aumentar a atenção das autoridades internacionais para o problema.