Pesquisadores registraram pela primeira vez a existência de uma espécie de aranha capaz de imitar a aparência de fungos parasitas. A espécie, denominada Taczanowskia waska, foi encontrada na porção equatoriana da Floresta Amazônica e amplia o conhecimento científico sobre a biodiversidade da região.
A descoberta ocorreu após a publicação de uma fotografia do animal na plataforma de ciência iNaturalist. Inicialmente, observadores acreditaram que o organismo retratado fosse um fungo. No entanto, análises posteriores revelaram tratar-se de uma aranha.
“Descobertas como essas demonstram o valor das coleções científicas. Elas nos permitem classificar novas espécies e compará-las com espécimes históricos. Aliadas à colaboração internacional e à ciência cidadã, isso abre novas oportunidades para a pesquisa da biodiversidade”, destacou a pesquisadora Nadine Dupérré, uma das autoras do trabalho.
A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Leibniz para Análise da Mudança da Biodiversidade (LIB), da Alemanha.
Segundo os cientistas, a Taczanowskia waska apresenta estruturas alongadas que se estendem até o abdômen, além de uma coloração clara semelhante à observada em fungos do gênero Gibellula, conhecidos por parasitar aranhas.
Dessa forma, a espécie utiliza a aparência de fungo como estratégia de camuflagem, reduzindo o risco de ser identificada por predadores.
Taczanowskia waska, nova espécie de aranha, apresenta estruturas no abdômen que imitam fungos parasitas — Foto: David Diaz-Guevara/Reprodução Phys
Para aumentar a eficiência dessa estratégia, a aranha permanece imóvel em áreas das folhas onde esses fungos costumam se desenvolver. Assim, torna-se ainda mais difícil distingui-la do ambiente natural.
Além de revelar características inéditas do pouco estudado gênero Taczanowskia, a descoberta contribui para ampliar o conhecimento sobre a rica fauna amazônica presente na região equatoriana da floresta.
Pesquisadores identificaram duas espécies de minhocas até então desconhecidas pela ciência na Fazenda Canchim, sede da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP). A descoberta, publicada em abril na revista internacional Zootaxa, coloca o Brasil mais perto de mapear a riquíssima e ainda pouco conhecida fauna de oligoquetas do país.
As duas espécies pertencem à família Glossoscolecidae: a Fimoscolex bernardii sp. nov. e a Glossoscolex (Glossoscolex) canchim sp. nov. Os animais habitam áreas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e lavouras sob plantio direto, sistemas agrícolas reconhecidos por sua menor perturbação do solo.
O artigo tem a assinatura da pesquisadora Marie Luise Carolina Bartz, do Programa de Pós-Graduação em Ecossistemas Agrícolas e Naturais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); do pesquisador George Brown, da Embrapa Florestas; e de Lilianne Maia Bruz, do Programa de Pós-Graduação em Solos da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Minhocas figuram entre os organismos mais relevantes da fauna edáfica. Atuam como engenheiras do ecossistema. Ou seja, abrem canais no solo, fragmentam resíduos vegetais, transportam microrganismos e misturam matéria orgânica com minerais. E sua presença ou ausência indica o estado de saúde do ambiente em que vivem.
“Espécies nativas geralmente estão associadas a habitats menos perturbados, enquanto formas exóticas ou invasoras tendem a dominar solos manejados. O registro da diversidade de minhocas em sistemas integrados é essencial para relacionar as respostas biológicas do solo à intensidade do manejo e à sustentabilidade a longo prazo”, afirma George Brown.
Para Bartz, o achado demonstra que a produção agrícola e a conservação da vida no solo podem andar juntas. “As minhocas são organismos-chave e sua presença indica que esses sistemas estão funcionando biologicamente. Isso reforça que práticas como o plantio direto e os sistemas integrados não apenas produzem alimentos, mas também mantêm a biodiversidade nativa brasileira”, diz a pesquisadora. “O impacto é muito positivo. Isso muda a forma como vemos a agricultura. Ela deixa de ser apenas produtiva e passa a ser também conservacionista.”
Da coleta à publicação
A história desta descoberta começa em 2018, quando Brown, Bartz, Bruz e equipe visitaram a Embrapa Pecuária Sudeste para avaliar a influência dos sistemas integrados sobre a qualidade do solo e as populações de minhocas. Os dados gerados a partir dessas coletas também alimentaram a tese de doutorado de Lilianne Bruz.
“Há ainda muitas respostas que precisam ser dadas. Para isso, procuramos especialistas que atuam em outros temas para entender melhor esses sistemas, que são muito complexos”, ressalta o pesquisador Alberto Bernardi, da Embrapa Pecuária Sudeste, homenageado no nome de uma das espécies.
Os resultados mostraram que os sistemas integrados aumentam a abundância de minhocas, tanto nativas quanto exóticas. “O fato de termos encontrado minhocas nativas em áreas amplamente perturbadas indica que os sistemas integrados utilizados na Embrapa possibilitam a conservação dessas espécies”, explica Bruz.
A coleta ocorreu em múltiplos ambientes da Fazenda Canchim; sistemas ILPF, ILP, IPF, pastagem extensiva, pastagem intensiva e cultura de milho irrigado sob plantio direto. Técnicos retiraram os animais manualmente, contaram, separaram e os avaliaram quantitativa e qualitativamente. Após análise das características externas, realizaram dissecção dorsal para examinar as estruturas anatômicas internas.
Os espécimes estão depositados na Coleção Fritz Müller de Oligoquetas (COFM) da Embrapa Florestas, em Colombo (PR), com um parátipo de cada espécie no Museu de Zoologia de São Paulo (MZUSP).
Os nomes carregam história
A Fimoscolex bernardii recebe o nome em homenagem a Alberto Bernardi, responsável há mais de 20 anos pelos experimentos sobre sistemas integrados na Embrapa Pecuária Sudeste.
Alberto Bernardi (Embrapa São Carlos), George Brown (Embrapa florestas), Marie Bartz. Foto: Lilianne Maia Bruz/Embrapa
Já a Glossoscolex canchim leva o nome de uma árvore nativa da Mata Atlântica, a canchim (Pachystroma longifolium), comum na região de São Carlos. A mesma que batizou a raça bovina Canchim e a própria fazenda onde os pesquisadores fizeram a descoberta.
Brasil tem uma das faunas mais ricas do mundo. E ainda pouco mapeada
O país conta com cerca de 336 espécies de minhocas descritas, mas estimativas indicam que podem existir mais de 1.400 no território nacional. São Paulo é um dos estados com maior número de espécies registradas, e São Carlos se situa justamente na transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado, região de grande heterogeneidade ambiental e intensa atividade agropecuária.
Apesar disso, a composição taxonômica das minhocas nativas ainda permanece pouco documentada, especialmente no Cerrado. A Fazenda Canchim funciona há mais de duas décadas como sítio de referência para experimentos de longo prazo, mas suas comunidades zoológicas do solo seguem subestudadas.
Além do valor taxonômico, a descoberta reforça a necessidade de mais estudos ecológicos sobre como o uso da terra e as práticas de manejo influenciam a persistência das comunidades nativas de minhocas. E por consequência, a saúde dos solos brasileiros.
Uma colaboração internacional liderada pela Embrapa acaba de descrever 60 novas espécies de psilídeos – insetos conhecidos como “piolhos-de-planta saltadores” – em biomas críticos como Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado. O estudo foi publicado na revista Zootaxa após mais de uma década de pesquisa. E expõe a riqueza invisível da biodiversidade brasileira. Além de alertar para o risco de espécies desaparecerem antes mesmo de serem catalogadas.
Os psilídeos (superfamília Psylloidea) são insetos minúsculos, mas com papéis ecológicos gigantescos. Algumas espécies combatem plantas invasoras, como a Melanastera smithi, testada contra a Miconia calvescens no Havaí.
Elas também são Indicadores ambientais. Como são sensíveis a mudanças, ajudam a monitorar a saúde dos ecossistemas. Enquanto espécies como o Diaphorina citri transmitem doenças a citros, outras podem revolucionar o controle biológico.
O estudo, que percorreu 15 estados brasileiros entre 2011 e 2021, usou DNA barcoding e análise morfológica para identificar as novas espécies, incluindo 59 do gênero Melanastera e uma de Klyveria. “Cada descoberta é uma peça para entender o quebra-cabeça da biodiversidade”, afirma Dalva Queiroz, pesquisadora da Embrapa Florestas e coautora do trabalho.
Biomas sob pressão: Amazônia e Cerrado escondem espécies ameaçadas
A pesquisa coincide com um cenário alarmante:
Amazônia: 14% da cobertura florestal já foi perdida.
Cerrado: 50% da vegetação nativa foi convertida para agricultura.
Autores Dalva Queiroz e Daniel Burckhardt em campo. Foto: Divulgação Embrapa
“Ambientes degradados podem abrigar espécies únicas que sequer conhecemos. Se desaparecerem, perdemos oportunidades científicas e ecológicas irreparáveis”, alerta Daniel Burckhardt, entomólogo do Naturhistorisches Museum Basel (Suíça) e coautor do estudo.
Da teoria à prática: como as novas espécies impactam a agricultura e a conservação
Controle de Pragas: Espécies nativas, como o psilídeo da erva-mate (Gyropsylla spegazziniana), exigem manejo preciso para evitar prejuízos. Invasoras, como a Diaphorina citri (transmissora do greening dos citros), são monitoradas com base nos dados do estudo.
Coleções científicas na USP, UFPR e Embrapa Amazônia Ocidental armazenam espécimes para futuras pesquisas. “O conhecimento sobre essas espécies é vital para desenvolver bioinsumos e proteger cultivos”, explica Queiroz.
Como são batizadas as novas espécies? histórias por trás dos nomes
A taxonomia mistura ciência e poesia. A pesquisadora Liliya Š. Serbina, primeira autora do estudo, homenageou familiares e colegas:
Melanastera olgae: Em tributo à sua mãe, Olga.
Melanastera barretoi: Referência ao professor Marliton Barreto, da Embrapa.
Klyveria flaviae: Nomeada em honra à filha da coautora Dalva Queiroz.
“Nomear espécies é perpetuar legados. Cada uma carrega uma história”, destaca Serbina.
Desafios e futuro: por que precisamos de mais pesquisas?
Porém, o estudo é apenas o início. Cientistas calculam que existam mais de mil espécies de psilídeos no Brasil – a maioria ainda desconhecida. O projeto capacitou agentes fitossanitários e estudantes em taxonomia, fortalecendo a defesa agrícola.
Foto: Divulgação Embrapa
“Sem investimento contínuo, perderemos espécies que poderiam salvar ecossistemas ou impulsionar a agricultura sustentável”, reforça Burckhardt.
Como apoiar a conservação?
Fortalecer políticas ambientais: Combater desmatamento e invasões em unidades de conservação.
Investir em ciência: Ampliar recursos para estudos taxonômicos e monitoramento de biomas.
Engajamento público: Divulgar a importância de insetos pouco carismáticos, mas ecologicamente cruciais.