Quando Zezé Di Camargo apareceu nas redes sociais ao volante de um Chevrolet Corvette Stingray 2026, vermelho, conversível, com motor V8 de 495 cavalos e preço beirando os R$ 2 milhões, as manchetes foram rápidas em falar de ostentação. Faz sentido, o carro impressiona. Acelera de zero a 100 km/h em três segundos e atinge 312 km/h. É uma das primeiras unidades do modelo a chegar ao Brasil, em configuração exclusiva para o mercado nacional.
Mas essa é a parte mais fácil de contar. O que pouca gente sabe, ou prefere não dizer, é de onde veio o dinheiro que sustenta esse estilo de vida. E a resposta passa muito menos pelo microfone do que pelo pasto.

(Foto: Reprodução/Instagram)
Criado no sítio, moldado pelo campo
Mirosmar José de Camargo, o Zezé, nasceu em 1962 em Pirenópolis, no interior de Goiás, em uma família numerosa e de vida simples no meio rural. O pai, Seu Francisco, criou nove filhos no sítio, sempre com dificuldade, mas com muita música e com o sonho de ver os filhos brilharem. O menino cresceu em contato direto com a terra, com o gado, com o ritmo do campo. Esse DNA nunca saiu dele.
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Décadas depois, quando o sucesso chegou com a dupla Zezé Di Camargo & Luciano no começo dos anos 1990, a primeira grande compra não foi um apartamento em São Paulo nem um carro importado. Foi uma fazenda em Araguapaz, Goiás, adquirida em 1993 e batizada com o nome do maior hit da carreira: É o Amor. “Sonhava em ter a minha fazenda para não precisar passar pelo que minha família passou”, disse ele em entrevista. Essa frase resume bem de onde vem a relação dele com o campo.
1.500 hectares, nelore puro e leilões milionários
A Fazenda É o Amor não é apenas um refúgio emocional. É um negócio sério, avaliado atualmente em torno de R$ 65 milhões, segundo especialistas do setor. A propriedade cobre 1.500 hectares às margens do Rio dos Peixes, com instalações modernas, laboratório próprio de reprodução animal e um programa de melhoramento genético de gado nelore que coloca Zezé entre os criadores mais respeitados de Goiás.
Os touros produzidos na fazenda chegam a valer até R$ 1,5 milhão cada, e os leilões anuais organizados pelo cantor podem render até R$ 6 milhões em uma única edição. Além disso, Zezé participa do PMGZ, o Programa de Melhoramento Genético do Zebu, um dos mais rigorosos do Brasil para pecuária de corte. Não é hobby. É pecuária de alto nível.
Mais recentemente, o cantor também começou a olhar para a agricultura. Relatos indicam interesse em expandir as atividades da fazenda para a produção de soja, o que, se confirmado, colocaria o sertanejo entre os produtores rurais mais diversificados do setor.

O campo como alicerce de uma fortuna
Há um padrão bem conhecido no agronegócio brasileiro: artistas e celebridades oriundas do interior que, ao acumularem renda, voltam os investimentos para a terra. Zezé Di Camargo é talvez o exemplo mais emblemático dessa equação. A música deu visibilidade e caixa. O campo deu consistência e patrimônio.
Não por acaso, a fazenda foi o cenário escolhido para gravar o EP solo “Rústico”, projeto que o próprio Zezé descreveu como um retorno às origens, e também serviu de locação para uma série documental na Netflix sobre sua trajetória familiar. O campo, para ele, não é pano de fundo. É identidade.
Além do gado, a propriedade recebe cães resgatados, funciona como santuário animal após a decisão do cantor de encerrar o abate na fazenda, e opera com energia solar, reduzindo a conta mensal de energia de R$ 5 mil para R$ 100. Uma iniciativa que mostra como produtores rurais modernos combinam rentabilidade com consciência ambiental.
O Corvette como símbolo de uma jornada que começa no pasto
O carro vermelho que tomou as redes sociais é a ponta visível de uma história muito mais profunda. Zezé Di Camargo não é uma celebridade que comprou fazenda para parecer fazendeiro. É um homem do campo que virou cantor, fez fortuna com os dois mundos, e nunca desvinculou os dois. A trajetória dele é, em certa medida, a trajetória de toda uma geração do agronegócio brasileiro que saiu da escassez rural e construiu patrimônio com trabalho, terra e genética animal.
O Corvette impressiona. Mas o que realmente deveria impressionar é a fazenda que o pagou.
