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  • Tecnologias agrícolas substituem garimpo e levam produção de alimentos à Terra Yanomami

    Tecnologias agrícolas substituem garimpo e levam produção de alimentos à Terra Yanomami

    Onde havia garimpo, agora há alimento. O silêncio tomou o lugar do barulho das dragas e motores nas margens do rio Mucajaí, em Roraima. Onde antes operavam garimpeiros ilegais, agora brotam roças, viveiros e tanques de criação de peixes. A transformação ocorre dentro da Terra Indígena Yanomami, com a instalação das primeiras unidades demonstrativas de tecnologias agrícolas voltadas à soberania alimentar.

    Foto: Divulgação MDS

    Em Sikamabiu, comunidade com cerca de 400 indígenas, o governo federal inaugurou, no dia 2, a primeira unidade demonstrativa de produção sustentável, unindo recuperação ambiental e segurança alimentar. O projeto, executado pela Embrapa Roraima, tem apoio do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), Funai e Instituto Federal de Roraima (IFRR).

    Produção sustentável e capacitação

    A unidade modelo conta com aviário de 100 galinhas rústicas, viveiro com capacidade para 2 mil mudas nativas, roças comunitárias de mandioca e hortaliças, tanque de compostagem e sistemas agroflorestais (SAFs) que ajudam a recuperar áreas degradadas pelo garimpo. Também há um tanque escavado de piscicultura de 440 m² e dois antigos açudes convertidos em criadouros, abrigando 4 mil alevinos de tambaqui.

    “Onde antes corríamos risco de vida, hoje levamos estrutura e ferramentas para a autonomia alimentar”, afirma Rosemary Vilaça, pesquisadora da Embrapa Roraima e uma das responsáveis pelo projeto. Segundo ela, os testes realizados nos açudes confirmaram a ausência de contaminação por mercúrio, garantindo segurança para a produção.

    Expansão e investimentos

    O investimento aplicado em Sikamabiu chega a R$ 90 mil, dentro de um Termo de Execução Descentralizada (TED) entre o MDS e a Embrapa Roraima, com valor global de R$ 1,8 milhão. A previsão é implantar outras sete unidades em 2026, atendendo 18 comunidades Yanomami nas regiões de Surucucu, Homoxi, Xitei, Lasasi, Ajarani, Olomai e Uxiu.

    Outras 11 comunidades já manifestaram interesse em aderir ao projeto. A Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil, tem 9,6 milhões de hectares e abriga cerca de 31 mil indígenas.

    Criação de peixes e autonomia indígena

    O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) também atua em Sikamabiu, com a entrega de 10 tanques elevados contendo 4 mil alevinos adicionais, totalizando 8 mil peixes na comunidade. Os tanques, feitos em geomembrana, oferecem maior durabilidade e eficiência para a piscicultura.

    Em parceria com o IFRR, 34 indígenas foram capacitados para conduzir o cultivo e repassar o conhecimento à comunidade. “O objetivo é que os Yanomami tenham autonomia na criação e manejo, por isso a formação acontece dentro do território”, explica Fernanda Gomes de Paula, secretária nacional de Aquicultura do MPA.

    Segundo ela, o tempo mínimo para a primeira “despesca”, ou seja, a retirada dos peixes prontos para consumo, é de três meses. O programa será replicado em 14 polos Yanomami, com investimento total de R$ 12 milhões previstos pelo MPA.

    Uma nova realidade na Terra Yanomami

    Somadas, as ações do MDS e MPA devem garantir à comunidade de Sikamabiu produção de até 1 tonelada de proteína animal por ano até o final de 2026. As iniciativas fazem parte do Plano de Ação para o Desenvolvimento Sustentável da Terra Indígena Yanomami. Coordenado pela Funai, a ação tem o propósito de promover o “bem viver” dos povos Yanomami e Ye’kwana.

    “O impacto desta ação vai além da produção de alimentos. Representa reconquista e esperança em um território que antes era devastado pelo garimpo”, resume Rosemary Vilaça.

  • “Os Últimos Filhos da Floresta”: livro documenta vida dos Yanomami

    “Os Últimos Filhos da Floresta”: livro documenta vida dos Yanomami

    Ricardo Martins chegou à aldeia Yanomami e ouviu palavras que marcaram sua trajetória. “É, seu Ricardo, seu nome ecoou pela floresta e chegou aos nossos corações”, disseram os indígenas ao fotógrafo e documentarista.

    O encontro resultou em “Os Últimos Filhos da Floresta”, 15º livro do autor. A obra retrata o cotidiano de um dos maiores povos indígenas do Brasil. O lançamento acontece no dia 30 de julho, às 19h, no Teatro Municipal Pedro Paulo Teixeira Pinto, em Ubatuba.

    Foto: Ricardo Martins/Divulgação

    Ricardo planejou chegar à aldeia em oito horas. A viagem levou três dias. O fotógrafo dormiu na mata e viveu o dia a dia da comunidade. Ele acompanhou rituais, caçadas e rotinas dos indígenas.

    “Quando conseguimos essa permissão, preparamos a expedição para chegar na aldeia em oito horas, mas a viagem levou, na verdade, três dias”, conta Ricardo. “Apesar disso, o acesso que tivemos, sem restrições, e toda a receptividade foram únicos.”

    A expedição contou com o apoio de Regiane, indígena que já havia pertencido à aldeia. Ela facilitou o contato com o fotógrafo. Após mais de um ano e meio de negociações, o líder Maciel recebeu Ricardo na comunidade.

    Povo milenar enfrenta ameaças

    Os Yanomami são um dos maiores povos indígenas relativamente isolados do mundo. Sua origem remonta a mais de mil anos nas terras altas da atual Venezuela. Desde então, vivem profundamente integrados à floresta amazônica.

    O povo se distribui entre Brasil e Venezuela. São tradicionalmente caçadores, agricultores e coletores. Desde a década de 1980, enfrentam ameaças crescentes: invasões, garimpo ilegal, desmatamento e doenças trazidas de fora.

    Parte da verba arrecadada financia construção da escola Hemare Pi Wei. Foto: Ricardo Martins/Divulgação

    “O projeto nasceu enquanto eu sobrevoava a Amazônia e assistia a um documentário que mencionava os Yanomami como os últimos filhos da floresta”, explica Ricardo. “Aquilo me tocou profundamente. Percebi que era hora de registrar essa história de forma visual, humana e respeitosa.”

    O livro inclui QR codes para acesso a vídeos exclusivos. Os vídeos revelam os bastidores das fotos. Ricardo também produziu sua 5ª série documental, “Aventura Fotográfica Yanomami”.

    A produção será lançada pela RM Produções em conjunto com o livro. Deve chegar em breve a plataformas de streaming. No dia do lançamento, será exibido um compilado de 20 minutos do documentário.

    Escola como contrapartida

    Ricardo construirá uma escola na aldeia Hemare Pi Wei como contrapartida. O pedido partiu diretamente das lideranças para o autor.

    “Nossos jovens precisam se orgulhar da nossa cultura e dos nossos costumes”, afirmou Maciel, uma das lideranças. “Precisam ter orgulho de serem indígenas. Também precisam aprender a língua e a cultura do Napo (homem branco), pois isso será a defesa deles.”

    Obra documenta cotidiano de um dos maiores povos indígenas do Brasil. Foto: Ricardo Martins/Divulgação

    “Convivendo com os Yanomami, vi um modo de vida conectado à terra, onde tudo é respeitado”, afirma Ricardo. “Enquanto os povos originários existirem, a floresta estará em pé.”

    Parte da verba arrecadada com a venda dos livros financia a construção da escola. Uma coleção de FineArt foi criada para ampliar a arrecadação. Está disponível em www.ricardomartins.org/fineart. Uma “vaquinha” virtual também pode ser acessada pelo link ajud.ar/escola.

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