A safra de inverno 2026 confirma a expansão da vitivinicultura brasileira e consolida a produção de vinhos finos de alta gama fora das regiões tradicionais. Atualmente, 56 vinícolas associadas à Anprovin (Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno) utilizam a técnica da dupla poda em áreas do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, estabelecendo um novo calendário agrícola e fortalecendo um modelo de negócio competitivo no agronegócio.
Essas vinícolas somam 1,49 milhão de pés de uva e produziram cerca de 1,1 milhão de garrafas. A colheita ocorre entre junho e agosto, período marcado por clima seco e maior incidência solar, fatores que favorecem a qualidade da matéria-prima.
O setor mantém forte presença de propriedades familiares, responsáveis por 90% das vinícolas. Esse perfil estimula a diversificação produtiva em áreas antes ocupadas por café, grãos e pecuária leiteira, além de abrir espaço para a vitivinicultura de precisão como alternativa de renda e sucessão no campo.
Desenvolvida a partir de pesquisas iniciadas em 2000 pelo pesquisador Murilo Regina, a técnica da dupla poda inverte o ciclo da videira com duas podas anuais. Com isso, a maturação ocorre no inverno seco, o que garante uvas com maior sanidade e maturação fenólica completa, fatores decisivos para a produção de vinhos de alta qualidade.
Suporte estrutural e controle rigoroso
A qualidade dos vinhos também conta com suporte estrutural e controle rigoroso. O Centro de Análises e Pesquisa da Anprovin/ABDI, instalado em Brasília com investimento de R$ 3,4 milhões, atua na padronização e certificação. Além disso, o selo da Anprovin assegura informações como altitude, lote e origem, ampliando a rastreabilidade do produto.
A adaptabilidade da dupla poda se destaca em diferentes regiões produtoras. No Centro-Oeste, estados como Goiás e o Distrito Federal realizam colheitas entre julho e agosto, com variedades como Syrah, Sauvignon Blanc, Cabernet Franc e Chardonnay. No Nordeste, a Chapada Diamantina (BA) inicia a colheita em junho, com destaque para Sauvignon Blanc, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon. Já no Sudeste, especialmente em São Paulo e Minas Gerais, a colheita ocorre entre junho e julho, com vinhos que já ultrapassam 90 pontos em guias especializados.
O crescimento do setor também aparece nos números. Em 2025, a produção alcançou 1,49 milhão de garrafas, com destaque para a Syrah, que representou 42% do total. Na sequência, aparecem Sauvignon Blanc (17%), Cabernet Franc (12%) e Cabernet Sauvignon (10%). Outras variedades relevantes incluem Malbec, Marselan, Pinot Noir, Chardonnay e Merlot.
Para 2026, a expectativa é de crescimento de 15% na produção. A Anprovin projeta triplicar a capacidade até 2029, impulsionada pelo reconhecimento internacional dos vinhos de inverno brasileiros e pelo avanço tecnológico no campo.
Para o produtor rural, a vitivinicultura de inverno já se apresenta como uma alternativa consolidada. Em regiões com altitude adequada, solos bem drenados e inverno seco, a dupla poda oferece um sistema produtivo com suporte técnico, certificação e alta rentabilidade, ampliando as possibilidades de diversificação no agronegócio brasileiro.
O agrônomo José Procópio Stella transformou a tradição familiar de cinco gerações em um negócio vitivinícola que coloca o Sul de Minas Gerais no mapa nacional dos vinhos finos. A Stella Valentino, vinícola localizada em Andradas, produz entre 15 mil e 18 mil garrafas por ano e atrai cerca de 600 visitantes mensalmente.
O empreendimento aplica a técnica da dupla poda, método que inverte o ciclo produtivo da videira, e conquistou reconhecimento nacional. O Tempranillo 2022 recebeu medalha Duplo Ouro no All The Best – Grande Prova de Vinhos do Brasil 2025, com 93 pontos. Já o Tempranillo Gran Reserva 2023 levou medalha de Ouro no Brasil Selection 2025.
Técnica pioneira muda qualidade da produção
José Procópio cresceu entre as parreiras que seus antepassados italianos plantaram no final do século 19. A família Stella chegou ao Brasil em 1888, vinda do Vêneto, e começou a produzir café. Em 1910, adquiriu a propriedade atual e passou a cultivar uvas para consumo doméstico.
“Eu sabia que dava para produzir um vinho diferente aqui, desde que respeitássemos o campo e entendêssemos o mercado”, afirma o produtor, que retornou à propriedade familiar no início dos anos 2000 após carreira profissional fora do negócio.
A mudança de patamar aconteceu quando a vinícola adotou a técnica da dupla poda, desenvolvida pelo pesquisador Murilo Regina, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). A Stella Valentino aplicou o método pela primeira vez no estado.
Propriedade foi a primeira a utilizar a técnica de dupla poda, desenvolvida pelo pesquisador Murilo Regina. Foto: Luciana Trindade/Sebrae Minas
A técnica permite a colheita no inverno, período mais seco e favorável à maturação das uvas viníferas. O método reduz riscos climáticos, melhora a sanidade dos cachos e estabelece relação direta entre o manejo e a qualidade final do vinho.
Do vinhedo à garrafa: controle total do processo
O produtor analisa cada variedade durante anos antes de lançar um rótulo. “Primeiro analisamos a adaptação da planta; depois, a vinificação em pequena escala; e, por fim, a resposta do público. Nem tudo vira rótulo”, explica.
A vinícola trata cada vinho como projeto técnico específico. A equipe define temperatura de fermentação, leveduras, tempo de maturação e tipo de rolha conforme o perfil desejado para cada produto.
O terroir sul-mineiro contribui para os resultados. A região apresenta elevada incidência solar, altitude favorável e solo rico de origem vulcânica – características que proporcionam maturação equilibrada das uvas e geram vinhos mais estruturados.
Enoturismo amplia receita e aproxima consumidor
José Procópio identifica que a produção de vinhos finos em pequena escala envolve custos elevados e margens ajustadas. Por isso, estruturou o negócio para gerar valor além da garrafa.
José Procópio Stella conduz um negócio estruturado desde o vinhedo. Foto: Luciana Trindade/Sebrae Minas
A vinícola oferece degustações orientadas e venda direta ao consumidor. O enoturismo representa elemento central da estratégia comercial. A Stella Valentino planeja inaugurar um wine bar no primeiro semestre de 2026.
“Se conseguirmos unir qualidade técnica e preço mais acessível, o mercado cresce junto”, avalia o empresário, que também desenvolve variedades mais resistentes e produtivas para ampliar o acesso a vinhos de entrada.
Sustentabilidade integra modelo de negócio
A vinícola possui certificação Selo Pró-Ambiente ESG. A propriedade reaproveita os resíduos da vinificação e refloreста áreas em trabalho contínuo de preservação.
O Sebrae Minas apoia o fortalecimento de vinícolas familiares e pequenos negócios do agro na região. A entidade oferece capacitações, incentiva a inovação e promove ações para ampliação de mercado.
“O apoio do Sebrae Minas contribui para a inserção da vinícola em espaços estratégicos e amplia a visibilidade dos rótulos. A participação em feiras e eventos do setor, como o Origem Vulcânica, aproxima o consumidor final da nossa produção, valoriza os produtos do Sul de Minas e estimula o enoturismo”, conclui José Procópio.
A região de Videira, no Meio-Oeste catarinense, reconhecida nacionalmente pela excelência de seus vinhos, adota agora uma tecnologia que promete consolidar ainda mais sua liderança na viticultura brasileira. As uvas Piwi – termo alemão derivado de “pilzwiderstandsfähigen”, que significa “resistente a doenças fúngicas” – ganham espaço nos vinhedos e conquistam produtores e consumidores.
Foto: Pablo Gomes/Epagri
A Epagri e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com instituições da Alemanha, Hungria e Itália, lançaram recentemente as variedades Felicia e Calardis Blanc. Para apresentar as características e vantagens dessas uvas, a Estação Experimental de Videira realizou um Dia de Campo em 21 de janeiro, que reuniu mais de 100 participantes entre produtores, pesquisadores, técnicos e profissionais do setor.
Durante o evento, os visitantes conheceram técnicas de manejo das plantas e tratamento fitossanitário, além de degustarem vinhos elaborados com uvas Piwi pelos pesquisadores da instituição.
“Estas variedades apresentam maior resistência a doenças, reduzem o custo de produção e resultam em vinhos finos de alta qualidade, mais limpos e provenientes de vinhedos que exigem menos intervenções”, explica o engenheiro agrônomo André Luiz Kulkamp de Souza, gerente da Estação Experimental.
Foto: Pablo Gomes/Epagri
O pesquisador destaca ainda a versatilidade das uvas Piwi para adaptação ao diversificado território catarinense. “Estas uvas se adaptam facilmente a diferentes altitudes e climas. Os produtores podem cultivá-las tanto em regiões altas e frias, como São Joaquim, quanto em áreas mais baixas e quentes, como o Vale do Itajaí e o Sul do Estado”, afirma.
Vinhos conquistam paladares
Apesar de recentes no mercado, os vinhos de uvas Piwi já demonstram boa aceitação. A Estação Experimental de Videira mantém uma produção pequena, mas os pesquisadores promovem degustações itinerantes em diferentes regiões do estado.
“Quem prova, aprecia muito. São vinhos excelentes, leves, descomplicados e agradáveis, que harmonizam com diversos pratos. E se mostram ideais para dias quentes, encontros informais ou momentos à beira da praia. Todo o Vale do Rio do Peixe já possui o ‘saber fazer local’ de anos, uma história rica na elaboração de vinhos, e com as uvas Piwi seguiremos este legado”, afirma o químico industrial Vinícius Caliari, pesquisador da Estação.
Produtores apostam na tecnologia
A expectativa entre os viticultores é bastante positiva. Para Marceli Buss, produtora de Videira, eventos como o Dia de Campo desempenham papel fundamental ao proporcionar acesso às tecnologias desenvolvidas pela Epagri.
“As uvas Piwi representam uma excelente alternativa para o setor em Santa Catarina, pois possibilitam atingir boa produção utilizando menos recursos”, avalia a produtora.
Para Reney Dorow, diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Epagri, as pesquisas com uvas Piwi em Videira trazem uma perspectiva de vanguarda para a cultura vitivinícola do estado.
Foto: Pablo Gomes/Epagri
“Em 2025, a Epagri comemorou 50 anos de pesquisa agropecuária. Neste histórico, carregamos o DNA do desenvolvimento rural de Santa Catarina. Quando os produtores adotam as tecnologias que geramos, eles transformam o meio rural. A Epagri trabalha determinada a prover esta transformação permanente. Pesquisa significa antecipar o futuro. Não esperamos o futuro acontecer – trazemos as soluções de amanhã para hoje”, conclui Dorow.
A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) acaba de revolucionar o mercado de vinhos mineiros. A instituição lançou novas linhas de produtos que celebram os 90 anos do Campo Experimental de Viticultura e Enologia de Caldas, no Sudoeste de Minas Gerais.
As edições especiais “Madeiras Brasileiras” e “Maceração Carbônica” exploram técnicas inovadoras de elaboração. Os pesquisadores apostam no amadurecimento da bebida em diferentes recipientes e processos que criam novos estilos de produto.
“Queremos demonstrar a identidade dos vinhos brasileiros do início ao fim do processo, desde o campo, no vinhedo, contemplando todas as características de cada região e seu terroir específico, até a taça”, afirma Cristiane Rota, enóloga da Epamig.
A enóloga destaca que o mercado desenha um novo perfil de consumidor. Os produtores ganham destaque com elaborações diversificadas que apresentam melhor custo-benefício devido ao menor tempo de permanência na cantina.
Madeiras nativas realçam características dos vinhos mineiros
A Epamig validou e difundiu a tecnologia da dupla poda da videira, que viabilizou a produção de vinhos finos no Sudeste e em outras regiões do Brasil. Agora, a instituição abre espaço para novos métodos de elaboração.
A adega reúne vinhos oriundos de diferentes pesquisas. Desta vez, os pesquisadores inovaram ao utilizar madeiras como Amburana, Jequitibá-rosa e Castanheira no processo de envelhecimento da bebida.
“A proposta é demonstrar como elementos já presentes em nosso terroir podem ser empregados para realçar características importantes dos vinhos e reafirmar o papel da pesquisa para o produtor e para a vitivinicultura do estado”, explica Cristiane Rota.
Syrah edição “Madeiras Brasileiras” apresenta perfis distintos
Os pesquisadores elaboraram o Syrah edição “Madeiras Brasileiras” com uvas de colheita de inverno de São Sebastião do Paraíso, também no Sudoeste do estado. Cada rótulo da linha entrega características que variam de acordo com o potencial de cada madeira.
Foto: Erasmo Lemos/Epamig
O Jequitibá-rosa confere elegância e equilíbrio ao vinho. A madeira proporciona aromas amadeirados delicados e preserva o destaque da fruta. Já a Amburana imprime intensamente suas características aos aromas e sabores, exaltando a madeira e a complexidade da Syrah.
A Epamig iniciou as pesquisas com madeiras brasileiras na safra de 2021. A Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) apoiou os projetos desenvolvidos. Desde então, os pesquisadores realizam testes para identificar quais madeiras melhor se adaptam ao perfil de amadurecimento do vinho, além de compreender o tempo ideal de contato com cada uma.
“As madeiras brasileiras que já possuem autorização de uso, com cachaças por exemplo, vão ganhar mais uma possibilidade de utilização. Além disso, pesquisas para aprovação de uso de outras madeiras nativas estão em curso”, conta a pesquisadora Renata Vieira, coordenadora do Programa Estadual de Pesquisas em Vitivinicultura da Epamig.
Maceração carbônica cria vinho com perfil único
A Epamig lança o “Cuor”, um vinho Syrah de colheita de inverno, ao explorar novas técnicas de elaboração. Os pesquisadores elaboraram o produto por meio da técnica de maceração carbônica, que resulta em um vinho com características bem brasileiras.
“É uma técnica de fermentação muito diferente do que já conhecemos. Utilizamos cachos inteiros da variedade Syrah, que colocamos em um tanque de inox, com a adição de gás carbônico, onde permanecem por cerca de 25 a 30 dias”, ressalta a enóloga Cristiane Rota.
A fermentação acontece no interior da baga. As enzimas da própria uva passam a atuar quimicamente e formam compostos aromáticos responsáveis por conferir um perfil único ao vinho, exaltando a fruta, o frescor e a leveza.
A técnica resulta em características que diferenciam o produto do Syrah tradicional.
Linha completa oferece variedade aos consumidores
A linha de edições especiais também integra o Syrah “Unoaked”, um vinho que não passa por envelhecimento em madeira. O produto preserva a pureza e as características da uva e do terroir. Já o Syrah “Carvalho Francês” amadurece nas clássicas barricas de madeira francesa ou americana.
Os novos rótulos têm quantidade limitada. Os consumidores podem adquiri-los diretamente no Campo Experimental da Epamig, em Caldas.
Os vinhos finos produzidos em Minas Gerais conquistaram destaque na Wine Trade Fair 2025, realizada no Expo Center Norte, em São Paulo, até quinta-feira, 22 de maio. Pela primeira vez, o estado participou com um estande oficial organizado pelo Governo de Minas, que reuniu onze vinícolas, seis cachaçarias artesanais, além de oferecer degustações e experiências imersivas nas rotas do enoturismo mineiro. A iniciativa contou com o apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult) e da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge).
A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), responsável pela tecnologia da dupla poda da videira, marcou presença no evento. Essa técnica impulsionou a produção dos vinhos de inverno em Minas Gerais e em outras regiões do Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. A enóloga e pesquisadora Angélica Bender conduziu uma palestra sobre os avanços da vitivinicultura com a dupla poda, seguida de degustação de vinhos, no dia 20 de maio. Ela também participou da reunião da Câmara Setorial da Uva e do Vinho em 21 de maio.
Angélica destaca que a dupla poda permite colher uvas no inverno, fora do período chuvoso, garantindo condições ideais para a produção. Isso resulta em vinhos de maior qualidade, com mais expressão e identidade, colocando Minas Gerais no mapa nacional da vitivinicultura e transformando sua história.
Entre 2013 e 2022, Minas Gerais aumentou em 52,9% a área cultivada com uvas. Para 2025, a previsão é que o estado produza entre quatro e cinco milhões de litros de vinhos finos, espumantes e de mesa. A região também se destaca por abrigar vinícolas inovadoras e premiadas em concursos nacionais e internacionais.
A produção de vinhos no Brasil tem ganhado destaque nas últimas décadas, tornando-se uma atividade econômica importante, especialmente na região Sul do país. Até agora, oss estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná são os principais responsáveis pela vitivinicultura brasileira, com o Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, sendo uma das áreas mais renomadas.
O clima temperado e a diversidade de solos da região favorecem o cultivo de diversas variedades de uvas, como Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay. Além disso, a viticultura brasileira tem se destacado pela adoção de técnicas modernas e pela busca por qualidade, resultando em vinhos que conquistam mercados internacionais. Com um crescente interesse por enoturismo, a produção de vinho no Brasil não só contribui para a economia local, mas também promove a cultura e as tradições da região.
Mas agora, o agreste pernambucano também está se tornando um novo polo de produção de vinhos finos, impulsionado por pesquisas inovadoras realizadas pela Embrapa Semiárido, em parceria com a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) e o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA). Essas pesquisas identificaram seis variedades de uvas recomendadas para a região, comprovando a viabilidade do cultivo local e a qualidade dos vinhos produzidos.
O estudo avaliou dez variedades de uvas europeias em cinco ciclos de produção no campo experimental do IPA, localizado em Brejão (PE). O objetivo foi analisar o comportamento agronômico das variedades, sua adaptação ao clima, a qualidade das uvas, seu potencial enológico e a viabilidade de se produzir vinhos em regiões que tradicionalmente não cultivam videiras.
Variedades de uvas aumentam opções do produtor
Entre as variedades indicadas para a produção de vinhos brancos, destacam-se a Sauvignon Blanc, Muscat Blanc à Petits Grains (conhecido como Moscato Branco) e Viognier. Para os vinhos tintos, as melhores opções são Syrah, Cabernet Sauvignon e Malbec. Segundo a pesquisadora Patrícia Coelho de Souza Leão, da Embrapa, essas cultivares apresentaram excelente desempenho agronômico, produtividade e potencial para vinificação. “Sauvignon Blanc, Syrah e Malbec foram as que mais se destacaram, com uma produtividade média de 10 toneladas por hectare, comparável à do Vale do São Francisco, um polo vinícola consolidado”, explica.
Além disso, as variedades Chardonnay, para vinhos brancos, e Pinot Noir e Petit Verdot, para vinhos tintos, também foram testadas. Contudo, essas uvas não se adaptaram bem às condições locais, apresentando baixo vigor, desenvolvimento vegetativo insatisfatório e produtividade reduzida, conforme explicou a pesquisadora.
O projeto incluiu ainda a avaliação da qualidade dos vinhos produzidos com as uvas cultivadas. A vinificação ocorreu no Laboratório de Enologia da Embrapa Semiárido, utilizando métodos tradicionais em escala experimental. Os vinhos resultantes atenderam às normas da legislação brasileira para vinhos finos secos e obtiveram destaque em análises sensoriais realizadas pela equipe da Escola do Vinho, do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF Sertão-PE), confirmando o grande potencial da produção vinícola no Agreste de Pernambuco.
A pesquisa tem sido fundamental para impulsionar o cultivo de uvas viníferas e a produção de vinhos de alta qualidade no Agreste pernambucano. Isso vem atraindo investidores interessados no enoturismo como uma nova oportunidade de negócios. “Os resultados estimulam a produção de uvas viníferas na região. Além de fomentar o turismo, a vitivinicultura diversifica a produção agrícola, especialmente para pequenos e médios agricultores, e oferece vinhos de qualidade diferenciada em comparação aos do Semiárido”, comenta Souza Leão.
As variedades abaixo foram avaliadas na pesquisa:
Muscat Blanc à Petits Grains
O ciclo produtivo foi de 129 dias, com uma produtividade média de 6 toneladas por hectare, podendo chegar a 8 toneladas em condições ideais. Cada planta produziu em média 12 cachos, com massa de 148 gramas, e um rendimento de polpa de 74,39%. O vinho branco seco dessa variedade destacou-se pela cor esverdeada com reflexos dourados, aromas tropicais, cítricos e florais, além de um corpo leve com equilíbrio entre álcool e acidez.
Sauvignon Blanc
O ciclo fenológico dessa uva foi de 135 dias, com produtividade média de 11 toneladas por hectare, atingindo até 16 toneladas. Cada planta produziu cerca de 23 cachos, com massa média de 109 gramas e rendimento de polpa de 70,37%. O vinho produzido é límpido, com aromas de frutas brancas, tropicais e cítricas, e oferece um sabor equilibrado e persistente.
Viognier
O ciclo de produção variou entre 132 e 138 dias, com produtividade média de 5 toneladas por hectare, podendo alcançar até 6 toneladas. As plantas produziram, em média, 12 cachos de 94 gramas cada. O vinho seco de Viognier apresentou uma cor amarelo pálido, aromas complexos com notas de mel, baunilha e frutas cítricas, e sabor equilibrado.
Syrah
Com um ciclo fenológico de 144 dias, essa variedade teve uma brotação de 60,37% e produtividade de 10 toneladas por hectare, podendo atingir 14 toneladas. Os cachos pesavam cerca de 110 gramas e o rendimento de polpa foi de 61,73%. O vinho tinto seco apresentou cor rubi, aromas de frutas vermelhas e especiarias, corpo médio e boa persistência.
Cabernet Sauvignon
Com ciclo variando de 149 a 160 dias, essa variedade apresentou uma produtividade de 4 a 5 toneladas por hectare. Cada planta produziu cerca de 10 cachos de 105 gramas cada, com rendimento de polpa de 59,83%. O vinho dessa uva apresentou cor rubi com reflexos acastanhados, aromas de pimentão verde, especiarias, frutas vermelhas em compota e menta, com sabor equilibrado e corpo médio.
Malbec
O ciclo fenológico da Malbec foi de 146 dias, com uma brotação média de 54,65% e produtividade de 10 toneladas por hectare, podendo chegar a 18 toneladas em condições ideais. Os cachos dessa variedade tinham uma massa média de 140 gramas. O vinho tinto seco jovem produzido a partir da Malbec apresentou coloração rubi com reflexos violáceos, brilho intenso e boa limpidez. Os aromas se destacaram por notas de frutas vermelhas e negras, com um toque floral. O sabor era frutado, com corpo leve, resultando em um vinho equilibrado e agradável ao paladar.
União entre pesquisa e empreendedorismo
A pesquisa desenvolvida pela Embrapa Semiárido deu início ao surgimento de uma nova região vinícola no Agreste pernambucano, especialmente na cidade de Garanhuns, ao comprovar a viabilidade do cultivo de uvas em áreas locais. Esse esforço uniu a ciência à iniciativa empresarial, revelando o potencial da vitivinicultura de altitude nessa região.
O médico e empresário Michel Moreira Leite foi pioneiro ao explorar esse potencial. Dono da vinícola Vale das Colinas, ele produz aproximadamente 6 mil garrafas de vinho por ano, já premiadas nacionalmente, tornando-se um exemplo de inovação no Agreste.
Sua jornada começou em 2013, quando ele e sua esposa adquiriram um terreno de 37 hectares na zona rural de Garanhuns, com a intenção de cultivar uvas viníferas. “Não sabíamos por onde começar, então fomos à Embrapa em busca de informações sobre a viabilidade técnica do projeto”, relembra Leite.
No centro de pesquisa, eles descobriram que já existiam experimentos em andamento sobre o cultivo de uvas viníferas no Agreste. A colaboração com a Embrapa foi essencial para o desenvolvimento do projeto piloto na região. Leite firmou um convênio de cooperação técnica, cedendo seu vinhedo para novos estudos.
A partir dessa parceria, em 2018, nasceu a Vale das Colinas. Inicialmente, foram plantadas as variedades Cabernet Sauvignon, Malbec e Muscat Petit Grain em uma área de 3,5 hectares. A primeira colheita, realizada em 2020, marcou o início das atividades de enoturismo da vinícola. Posteriormente, a área cultivada foi expandida para 14 hectares, introduzindo novas variedades, como Syrah, Chenin Blanc e Marselan.
Produção sustentável
Com foco na produção artesanal e sustentável, a Vale das Colinas posiciona-se como uma Vinícola Boutique, priorizando a colheita manual e promovendo visitas e eventos. “Não queremos mecanizar, pois a geração de empregos é um dos nossos compromissos”, afirma Leite.
Atualmente, a vinícola oferece cinco rótulos, entre eles três tintos — Cabana do Vale Reserva (Cabernet Sauvignon), Dona Elisa (Malbec) e Cabana do Vale (Cabernet Sauvignon) — e dois brancos — Dona Cecília (Muscat Blanc à Petits Grains) e Ciranda (Sauvignon Blanc). As primeiras safras foram vinificadas com o apoio da Embrapa e do Instituto Federal do Sertão, em Petrolina. Desde a terceira safra, a vinificação passou a ser feita na própria propriedade, com a última safra resultando em 19.500 garrafas.
Os experimentos e análises comprovaram a viabilidade da produção local e a qualidade dos vinhos produzidos. Foto: Edmea Ubirajara
Leite agora busca reduzir custos e aumentar a competitividade do negócio, mas destaca que o impacto mais significativo foi o desenvolvimento humano na região. “Nossa vinícola fortaleceu a hotelaria e a gastronomia de Garanhuns, impulsionando o turismo local”, afirma.
Crescimento atrai novos produtores
O crescimento da vitivinicultura no Agreste já atraiu outros empreendedores. Como a Vinícola Mello, que começou suas operações em 2021, cultivando variedades como Malbec, Merlot, Cabernet Franc, Chenin Blanc, Chardonnay e Pinot Noir. Além disso, estão sendo realizados estudos com 12 novas variedades para expandir ainda mais o potencial vinícola da região.
Patrícia Souza Leão, pesquisadora da Embrapa, destaca que o sucesso do enoturismo tanto no Agreste quanto no Semiárido pernambucano tem atraído a atenção de empreendedores de outros estados do Nordeste. Projetos de vinhedos estão em desenvolvimento em cidades como Camocim de São Félix, Bonito, Gravatá e Flores, em Pernambuco; Bananeiras, Natuba e Sousa, na Paraíba; e São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte.
“As pesquisas da Embrapa e de seus parceiros têm fortalecido a vitivinicultura no Brasil, criando novas oportunidades de negócios e impulsionando o desenvolvimento econômico no interior do Nordeste”, conclui Souza Leão.
Condições climáticas
A vitivinicultura tropical no Brasil se desenvolve principalmente em duas condições climáticas: nas regiões de clima tropical e subtropical de altitude, e nas áreas semiáridas, como o Submédio do Vale do São Francisco. Neste último caso, as altas temperaturas possibilitam até duas colheitas anuais, conferindo uma vantagem competitiva significativa ao setor.
A vitivinicultura na região contribui para diversificar a produção de pequenos e médios agricultores, gera renda, favorece o turismo e tem atraído a atenção de empreendedores de outros estados do Nordeste. Foto: Edmea Ubirajara
A Microrregião de Garanhuns, localizada a quase 900 metros acima do nível do mar, destaca-se por seu clima de altitude. Ela apresenta uma temperatura média anual de 20,6 ºC. As características climáticas dessa região representam uma transição entre as condições observadas nas vinícolas do Semiárido e nas regiões Sul e Sudeste, permitindo a realização de apenas uma safra por ano.
Próximos passos
O cultivo de videiras voltado para a produção de vinhos finos no Agreste pernambucano está passando por um processo de aprimoramento para estabelecer um sistema de produção mais eficiente e competitivo. Esse é o próximo passo da pesquisa, conforme explica Souza Leão. Com base nos trabalhos já realizados, foram elaboradas recomendações para otimizar o cultivo na região.
A pesquisadora enfatiza a importância da continuidade dos estudos conduzidos pela Embrapa em colaboração com outras instituições, como a Ufape e o IPA. Essas pesquisas abordam aspectos fundamentais do sistema de produção, incluindo técnicas de manejo, avaliação de novas cultivares e clones, redução do ciclo produtivo, práticas de poda e definição do momento ideal para a colheita. O objetivo é aumentar a produção e garantir uvas de maior qualidade para a elaboração de vinhos.
“A qualidade do vinho está diretamente relacionada ao manejo adequado das plantas. Portanto, o avanço dos estudos é essencial para melhorar a competitividade da cadeia produtiva na região. Isso contribuirá para diversificar a economia local, gerando novos empregos e renda”, conclui.
O Agreste pernambucano está se tornando um novo polo de produção de vinhos finos, impulsionado por pesquisas inovadoras realizadas pela Embrapa Semiárido, em parceria com a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) e o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA). Essas pesquisas identificaram seis variedades de uvas recomendadas para a região, comprovando a viabilidade do cultivo local e a qualidade dos vinhos produzidos.
O estudo avaliou dez variedades de uvas europeias em cinco ciclos de produção no campo experimental do IPA, localizado em Brejão (PE). O objetivo foi analisar o comportamento agronômico das variedades, sua adaptação ao clima, a qualidade das uvas, seu potencial enológico e a viabilidade de se produzir vinhos em regiões que tradicionalmente não cultivam videiras.
Variedades de uvas aumentam opções do produtor
Entre as variedades indicadas para a produção de vinhos brancos, destacam-se a Sauvignon Blanc, Muscat Blanc à Petits Grains (conhecido como Moscato Branco) e Viognier. Para os vinhos tintos, as melhores opções são Syrah, Cabernet Sauvignon e Malbec. Segundo a pesquisadora Patrícia Coelho de Souza Leão, da Embrapa, essas cultivares apresentaram excelente desempenho agronômico, produtividade e potencial para vinificação. “Sauvignon Blanc, Syrah e Malbec foram as que mais se destacaram, com uma produtividade média de 10 toneladas por hectare, comparável à do Vale do São Francisco, um polo vinícola consolidado”, explica.
Além disso, as variedades Chardonnay, para vinhos brancos, e Pinot Noir e Petit Verdot, para vinhos tintos, também foram testadas. Contudo, essas uvas não se adaptaram bem às condições locais, apresentando baixo vigor, desenvolvimento vegetativo insatisfatório e produtividade reduzida, conforme explicou a pesquisadora.
O projeto incluiu ainda a avaliação da qualidade dos vinhos produzidos com as uvas cultivadas. A vinificação ocorreu no Laboratório de Enologia da Embrapa Semiárido, utilizando métodos tradicionais em escala experimental. Os vinhos resultantes atenderam às normas da legislação brasileira para vinhos finos secos e obtiveram destaque em análises sensoriais realizadas pela equipe da Escola do Vinho, do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF Sertão-PE), confirmando o grande potencial da produção vinícola no Agreste de Pernambuco.
A pesquisa tem sido fundamental para impulsionar o cultivo de uvas viníferas e a produção de vinhos de alta qualidade no Agreste pernambucano. Isso vem atraindo investidores interessados no enoturismo como uma nova oportunidade de negócios. “Os resultados estimulam a produção de uvas viníferas na região. Além de fomentar o turismo, a vitivinicultura diversifica a produção agrícola, especialmente para pequenos e médios agricultores, e oferece vinhos de qualidade diferenciada em comparação aos do Semiárido”, comenta Souza Leão.
As variedades abaixo foram avaliadas na pesquisa:
Muscat Blanc à Petits Grains
O ciclo produtivo foi de 129 dias, com uma produtividade média de 6 toneladas por hectare, podendo chegar a 8 toneladas em condições ideais. Cada planta produziu em média 12 cachos, com massa de 148 gramas, e um rendimento de polpa de 74,39%. O vinho branco seco dessa variedade destacou-se pela cor esverdeada com reflexos dourados, aromas tropicais, cítricos e florais, além de um corpo leve com equilíbrio entre álcool e acidez.
Sauvignon Blanc
O ciclo fenológico dessa uva foi de 135 dias, com produtividade média de 11 toneladas por hectare, atingindo até 16 toneladas. Cada planta produziu cerca de 23 cachos, com massa média de 109 gramas e rendimento de polpa de 70,37%. O vinho produzido é límpido, com aromas de frutas brancas, tropicais e cítricas, e oferece um sabor equilibrado e persistente.
Viognier
O ciclo de produção variou entre 132 e 138 dias, com produtividade média de 5 toneladas por hectare, podendo alcançar até 6 toneladas. As plantas produziram, em média, 12 cachos de 94 gramas cada. O vinho seco de Viognier apresentou uma cor amarelo pálido, aromas complexos com notas de mel, baunilha e frutas cítricas, e sabor equilibrado.
Syrah
Com um ciclo fenológico de 144 dias, essa variedade teve uma brotação de 60,37% e produtividade de 10 toneladas por hectare, podendo atingir 14 toneladas. Os cachos pesavam cerca de 110 gramas e o rendimento de polpa foi de 61,73%. O vinho tinto seco apresentou cor rubi, aromas de frutas vermelhas e especiarias, corpo médio e boa persistência.
Cabernet Sauvignon
Com ciclo variando de 149 a 160 dias, essa variedade apresentou uma produtividade de 4 a 5 toneladas por hectare. Cada planta produziu cerca de 10 cachos de 105 gramas cada, com rendimento de polpa de 59,83%. O vinho dessa uva apresentou cor rubi com reflexos acastanhados, aromas de pimentão verde, especiarias, frutas vermelhas em compota e menta, com sabor equilibrado e corpo médio.
Malbec
O ciclo fenológico da Malbec foi de 146 dias, com uma brotação média de 54,65% e produtividade de 10 toneladas por hectare, podendo chegar a 18 toneladas em condições ideais. Os cachos dessa variedade tinham uma massa média de 140 gramas. O vinho tinto seco jovem produzido a partir da Malbec apresentou coloração rubi com reflexos violáceos, brilho intenso e boa limpidez. Os aromas se destacaram por notas de frutas vermelhas e negras, com um toque floral. O sabor era frutado, com corpo leve, resultando em um vinho equilibrado e agradável ao paladar.
União entre pesquisa e empreendedorismo
A pesquisa desenvolvida pela Embrapa Semiárido deu início ao surgimento de uma nova região vinícola no Agreste pernambucano, especialmente na cidade de Garanhuns, ao comprovar a viabilidade do cultivo de uvas em áreas locais. Esse esforço uniu a ciência à iniciativa empresarial, revelando o potencial da vitivinicultura de altitude nessa região.
O médico e empresário Michel Moreira Leite foi pioneiro ao explorar esse potencial. Dono da vinícola Vale das Colinas, ele produz aproximadamente 6 mil garrafas de vinho por ano, já premiadas nacionalmente, tornando-se um exemplo de inovação no Agreste.
Sua jornada começou em 2013, quando ele e sua esposa adquiriram um terreno de 37 hectares na zona rural de Garanhuns, com a intenção de cultivar uvas viníferas. “Não sabíamos por onde começar, então fomos à Embrapa em busca de informações sobre a viabilidade técnica do projeto”, relembra Leite.
No centro de pesquisa, eles descobriram que já existiam experimentos em andamento sobre o cultivo de uvas viníferas no Agreste. A colaboração com a Embrapa foi essencial para o desenvolvimento do projeto piloto na região. Leite firmou um convênio de cooperação técnica, cedendo seu vinhedo para novos estudos.
A partir dessa parceria, em 2018, nasceu a Vale das Colinas. Inicialmente, foram plantadas as variedades Cabernet Sauvignon, Malbec e Muscat Petit Grain em uma área de 3,5 hectares. A primeira colheita, realizada em 2020, marcou o início das atividades de enoturismo da vinícola. Posteriormente, a área cultivada foi expandida para 14 hectares, introduzindo novas variedades, como Syrah, Chenin Blanc e Marselan.
Produção sustentável
Com foco na produção artesanal e sustentável, a Vale das Colinas posiciona-se como uma Vinícola Boutique, priorizando a colheita manual e promovendo visitas e eventos. “Não queremos mecanizar, pois a geração de empregos é um dos nossos compromissos”, afirma Leite.
Atualmente, a vinícola oferece cinco rótulos, entre eles três tintos — Cabana do Vale Reserva (Cabernet Sauvignon), Dona Elisa (Malbec) e Cabana do Vale (Cabernet Sauvignon) — e dois brancos — Dona Cecília (Muscat Blanc à Petits Grains) e Ciranda (Sauvignon Blanc). As primeiras safras foram vinificadas com o apoio da Embrapa e do Instituto Federal do Sertão, em Petrolina. Desde a terceira safra, a vinificação passou a ser feita na própria propriedade, com a última safra resultando em 19.500 garrafas.
Os experimentos e análises comprovaram a viabilidade da produção local e a qualidade dos vinhos produzidos. Foto: Edmea Ubirajara
Leite agora busca reduzir custos e aumentar a competitividade do negócio, mas destaca que o impacto mais significativo foi o desenvolvimento humano na região. “Nossa vinícola fortaleceu a hotelaria e a gastronomia de Garanhuns, impulsionando o turismo local”, afirma.
Crescimento atrai novos produtores
O crescimento da vitivinicultura no Agreste já atraiu outros empreendedores. Como a Vinícola Mello, que começou suas operações em 2021, cultivando variedades como Malbec, Merlot, Cabernet Franc, Chenin Blanc, Chardonnay e Pinot Noir. Além disso, estão sendo realizados estudos com 12 novas variedades para expandir ainda mais o potencial vinícola da região.
Patrícia Souza Leão, pesquisadora da Embrapa, destaca que o sucesso do enoturismo tanto no Agreste quanto no Semiárido pernambucano tem atraído a atenção de empreendedores de outros estados do Nordeste. Projetos de vinhedos estão em desenvolvimento em cidades como Camocim de São Félix, Bonito, Gravatá e Flores, em Pernambuco; Bananeiras, Natuba e Sousa, na Paraíba; e São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte.
“As pesquisas da Embrapa e de seus parceiros têm fortalecido a vitivinicultura no Brasil, criando novas oportunidades de negócios e impulsionando o desenvolvimento econômico no interior do Nordeste”, conclui Souza Leão.
Condições climáticas
A vitivinicultura tropical no Brasil se desenvolve principalmente em duas condições climáticas: nas regiões de clima tropical e subtropical de altitude, e nas áreas semiáridas, como o Submédio do Vale do São Francisco. Neste último caso, as altas temperaturas possibilitam até duas colheitas anuais, conferindo uma vantagem competitiva significativa ao setor.
A vitivinicultura na região contribui para diversificar a produção de pequenos e médios agricultores, gera renda, favorece o turismo e tem atraído a atenção de empreendedores de outros estados do Nordeste. Foto: Edmea Ubirajara
A Microrregião de Garanhuns, localizada a quase 900 metros acima do nível do mar, destaca-se por seu clima de altitude. Ela apresenta uma temperatura média anual de 20,6 ºC. As características climáticas dessa região representam uma transição entre as condições observadas nas vinícolas do Semiárido e nas regiões Sul e Sudeste, permitindo a realização de apenas uma safra por ano.
Próximos passos
O cultivo de videiras voltado para a produção de vinhos finos no Agreste pernambucano está passando por um processo de aprimoramento para estabelecer um sistema de produção mais eficiente e competitivo. Esse é o próximo passo da pesquisa, conforme explica Souza Leão. Com base nos trabalhos já realizados, foram elaboradas recomendações para otimizar o cultivo na região.
A pesquisadora enfatiza a importância da continuidade dos estudos conduzidos pela Embrapa em colaboração com outras instituições, como a Ufape e o IPA. Essas pesquisas abordam aspectos fundamentais do sistema de produção, incluindo técnicas de manejo, avaliação de novas cultivares e clones, redução do ciclo produtivo, práticas de poda e definição do momento ideal para a colheita. O objetivo é aumentar a produção e garantir uvas de maior qualidade para a elaboração de vinhos.
“A qualidade do vinho está diretamente relacionada ao manejo adequado das plantas. Portanto, o avanço dos estudos é essencial para melhorar a competitividade da cadeia produtiva na região. Isso contribuirá para diversificar a economia local, gerando novos empregos e renda”, conclui.
A tecnologia de Dupla Poda da Videira, desenvolvida pela EPAMIG, está revolucionando a produção de vinhos finos no Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Isso porque essa técnica permite a colheita das uvas durante o inverno. Ou seja, quando o clima é mais seco e ameno, garantindo uma maturação adequada para a vinificação.
Filipe Casselli, enólogo da EPAMIG, explica que a dupla poda é essencial para produzir uvas de alta qualidade. “Realizamos a dupla poda para que estas uvas atinjam a plena maturação durante o inverno seco, com dias ensolarados e noites frias, condições ideais para síntese de açúcares e compostos fenólicos”, detalha.
Reconhecimento do mercado internacional
Nos últimos anos, essa metodologia se espalhou por várias regiões de Minas Gerais, outros estados do Sudeste, Centro-Oeste e até mesmo a Chapada Diamantina. Os primeiros vinhos resultantes dessa técnica chegaram ao mercado no início da última década. Como resultado, rapidamente conquistaram prêmios nacionais e internacionais.
Ou seja, as competições importantes começaram a reconhecer os vinhos de inverno. Em 2016, a Expovinis premiou o Chardonnay da Vinícola Casa Verrone de Itobi-SP. No ano seguinte, a Casa Verrone e a Vinícola Guaspari, de Espírito Santo do Pinhal-SP, ganharam diversas medalhas com seus vinhos Syrah e Viognier. O Maria Maria Sauvignon Blanc, de Minas Gerais, também se destacou em competições internacionais.
Em 2020, o vinho Syrah da EPAMIG conquistou uma medalha de ouro no Brasil Wine Challenge. Este ano, vários vinhos mineiros receberam prêmios no Decanter, incluindo produções da Vinícola Barbara Eliodora, Casa Geraldo, Sacramento e Quinta do Canário.
Apoio para o produtor de vinhos finos
A EPAMIG também tem desempenhado um papel crucial ao ajudar novos produtores. “Atualmente, temos 19 produtores incubados em nossa vinícola”, afirma Casselli. Ele destaca que há uma fila de espera para novos produtores, que precisam ter produção própria e um volume mínimo de 500 quilos de uvas.
Evolução das pesquisas e novas variedades
Foto: Divulgação – EPAMIG
Inicialmente, as uvas Syrah e Sauvignon Blanc eram as mais utilizadas na dupla poda. Hoje, outras variedades como Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot, Tempranillo, Malbec e Marselan também têm mostrado excelente desempenho.
A pesquisadora da EPAMIG, Cláudia Souza, observa que a performance de algumas variedades melhorou significativamente com a enxertia sobre porta-enxertos mais vigorosos. Além disso, “a indicação de variedades como Tempranillo, Marselan e Marsanne também tem sido promissora”, destaca.
A EPAMIG continua investindo em diversas linhas de pesquisa para melhorar a produção vitivinícola. Os projetos incluem o uso de madeiras brasileiras no envelhecimento dos vinhos, rastreabilidade e caracterização da origem geográfica, além da introdução de novas tecnologias enológicas, por exemplo.
Para o cultivo de verão, as pesquisas se concentram na introdução de uvas resistentes a patógenos e novas opções de cultivares para espumantes e vinhos de mesa. As publicações, como o Informe Agropecuário, disponíveis na Livraria EPAMIG relatam essas iniciativas.