O Brasil intensificou os esforços para retomar as exportações de carne bovina para a Venezuela, mercado que já esteve entre os principais destinos do produto brasileiro no exterior. Nesta semana, uma missão multissetorial organizada pelo Ministério das Relações Exteriores cumpre agenda em Caracas para discutir oportunidades comerciais.
As vendas de carne bovina brasileira para o país vizinho permanecem praticamente interrompidas desde meados de 2015. Naquele período, a forte queda dos preços internacionais do petróleo, somada ao início das sanções impostas pelos EUA, agravou a crise econômica venezuelana e reduziu significativamente o poder de compra local.
Antes desse cenário, a Venezuela representava um mercado relevante para a proteína brasileira. Em 2014, auge da relação comercial entre os dois países nesse segmento, os embarques alcançaram 160 mil toneladas, gerando uma receita de US$ 852 milhões.
A programação, iniciada nesta semana, inclui encontros de negócios entre empresas brasileiras e venezuelanas. Durante as reuniões, os participantes avaliam possibilidades de ampliação do comércio bilateral e oportunidades de investimentos.
Consumo ainda é desafio para o setor
Apesar das perspectivas positivas, a retomada do mercado enfrenta obstáculos importantes. Entre eles estão a continuidade das dificuldades econômicas no país e o baixo consumo de carne bovina pela população.
Antes da crise, cada venezuelano consumia, em média, 21 quilos de carne bovina por ano. No entanto, esse volume caiu drasticamente nos anos seguintes. Em 2019, o consumo per capita atingiu apenas três quilos por habitante.
Desde então, houve recuperação gradual. Ainda assim, a média atual permanece em torno de nove quilos por pessoa ao ano, número bastante inferior ao registrado no Brasil, onde o consumo médio anual é de aproximadamente 35 quilos por habitante.
Mesmo diante das dificuldades, a indústria exportadora considera que a Venezuela continua oferecendo oportunidades relevantes no longo prazo.
Segundo Julio Ramos, diretor de Assuntos Estratégicos da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e integrante da missão empresarial em Caracas, o mercado vizinho não deve ser ignorado.
“Temos uma tendência natural de olhar para mercados muito distantes, e, muitas vezes, deixamos de observar oportunidades importantes em nossa própria região. A Venezuela já foi um grande mercado para a carne bovina brasileira e continua sendo um país estratégico”, afirmou.
Além disso, a estrutura exportadora já está preparada para atender uma eventual ampliação da demanda. Atualmente, quase 80 frigoríficos brasileiros possuem habilitação para exportar carne bovina ao mercado venezuelano.
De acordo com dados do Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura que reúne estatísticas do comércio exterior do agronegócio, a Venezuela importou 25,3 mil toneladas de carne bovina brasileira entre 2016 e 2026.
As tensões geopolíticas recentes entre Estados Unidos e Venezuela trouxeram preocupações ao mercado internacional sobre possíveis rupturas na cadeia de fertilizantes nitrogenados. No entanto, a participação limitada do país no comércio global de ureia deve conter os efeitos sobre os preços e a oferta mundial, conforme análise da StoneX, empresa global de serviços financeiros.
De acordo com Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, países grandes produtores de petróleo costumam ter relevância também na produção de fertilizantes nitrogenados — que dependem do gás natural como insumo principal. “Rússia, Argélia, Irã e Catar são exemplos claros. Já a Venezuela, apesar de sua extensa produção petrolífera, tem presença modesta no mercado de ureia”, explica.
Dados de 2024 mostram que a Venezuela ocupou apenas a 18ª posição entre os maiores exportadores globais de ureia, com embarques de pouco mais de 560 mil toneladas. O equivalente a cerca de 1% do total mundial. Em comparação, a Rússia foi responsável por aproximadamente 18% das exportações no mesmo período.
Fornecimento ao Brasil existe, mas não é estratégico
Embora a Venezuela seja um fornecedor de ureia para o Brasil, sua importância é secundária. Em 2024, cerca de 6% das importações brasileiras do produto vieram do país vizinho. Entre janeiro e novembro de 2025, essa fatia recuou para menos de 5%.
Atualmente, os principais fornecedores de ureia do Brasil são Nigéria (23%), Rússia (16%) e Catar (15%), o que demonstra uma matriz diversificada e reduz a dependência de uma única origem.
“Até agora, não há sinais de impactos diretos na capacidade produtiva ou exportadora de fertilizantes da Venezuela”, destaca Pernías. “O que se observa são pressões pontuais nos custos logísticos, com relatos de aumento nos fretes marítimos devido ao cenário de incertezas na região”, conclui o especialista.
Na madrugada deste sábado, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos contra múltiplas instalações na Venezuela, incluindo a capital Caracas, em uma escalada sem precedentes na região. O presidente Donald Trump afirmou ter capturado Nicolás Maduro e sua esposa, retirando-os do país. A operação militar atinge em cheio os interesses brasileiros, com potenciais impactos que vão desde o agronegócio até a estabilidade regional.
A ofensiva ocorreu após semanas de tensão crescente, quando os EUA intensificaram operações no Caribe sob a justificativa de combater o narcotráfico. Washington acusa o governo venezuelano de liderar o chamado Cartel de los Soles, classificado como organização terrorista. Pelo menos sete explosões foram ouvidas por volta das 2h da manhã em Caracas, acompanhadas de aeronaves militares voando em baixa altitude.
A Venezuela respondeu declarando estado de emergência e convocando mobilização nacional. O presidente colombiano Gustavo Petro pediu reunião imediata da ONU e da OEA, enquanto Cuba e outros países latino-americanos condenaram veementemente a ação americana.
Impactos diretos no agronegócio brasileiro
A Venezuela, embora represente uma parcela modesta das exportações brasileiras totais, tornou-se nos últimos anos um comprador significativo de produtos do agronegócio nacional. Entre 2019 e 2022, o Brasil faturou US$ 517 milhões apenas com exportações de óleo de soja para a Venezuela, superando os 15 anos anteriores.
Os venezuelanos compraram do Brasil principalmente fertilizantes, alumínio, álcoois e derivados, enquanto o Brasil exportou açúcares, produtos alimentícios preparados, óleos vegetais, milho e arroz. Em 2021 e 2022, o fluxo comercial ultrapassou US$ 1 bilhão anuais, com destaque para óleo de soja, preparações alimentícias, açúcar e milho.
Com a instabilidade causada pela intervenção militar, o risco de calote aumenta dramaticamente. A Venezuela já enfrenta grave falta de divisas devido à queda na produção de petróleo, situação que tende a se agravar com a destruição de infraestrutura e eventual mudança de governo.
Incerteza nas cadeias de suprimentos
A crise afeta não apenas as exportações diretas, mas toda a logística regional. Em 2024, o comércio bilateral totalizou US$ 1,6 bilhão, sendo que as importações venezuelanas ficaram em US$ 422 milhões. A instabilidade pode interromper contratos já firmados e comprometer planejamentos de safra de produtores brasileiros que dependem desse mercado.
Empresas brasileiras do setor agrícola enfrentam agora um cenário de total imprevisibilidade. Não está claro quem controlará o país nas próximas semanas, qual será a política econômica adotada, e se haverá capacidade de pagamento por produtos já embarcados ou em negociação.
O dilema do petróleo e dos fertilizantes
O Brasil mantém uma relação complexa com a Venezuela no setor energético. A Venezuela vendeu ao Brasil principalmente fertilizantes (45%), alumínio (22%), álcoois e derivados (16%) e produtos residuais de petróleo (8%).
A interrupção desses fluxos pode impactar o custo de produção agrícola no Brasil, especialmente considerando que:
Fertilizantes: com dependência histórica de importações, qualquer restrição no fornecimento venezuelano pressiona os custos de produção do agronegócio brasileiro.
Petróleo: embora a Venezuela tenha perdido relevância como fornecedora direta, o país se tornou o terceiro maior exportador de petróleo para os EUA em 2024, com média de 295 mil barris por dia. Qualquer choque na oferta venezuelana pode afetar preços globais de combustíveis, impactando a logística do agronegócio brasileiro.
Consequências geopolíticas para o Brasil: crise humanitária e imigração
O governo brasileiro teme que uma ação militar cause instabilidade na Venezuela e leve a uma nova crise humanitária na fronteira, em Roraima. Desde 2018, a Operação Acolhida já recebeu mais de 125 mil imigrantes venezuelanos. Uma escalada do conflito pode multiplicar esse número exponencialmente, sobrecarregando a estrutura de assistência.
Estados do Norte do Brasil, particularmente Roraima, podem enfrentar um êxodo massivo, com impactos diretos em serviços públicos, segurança e economia local. O agronegócio da região pode ser afetado pela necessidade de realocação de recursos públicos e pela tensão social decorrente.
Posição diplomática delicada
A situação representa um dos maiores desafios para a política externa do presidente Lula, cuja diplomacia baseia-se na estabilidade regional e no diálogo. Lula orientou o Planalto que ataques ao continente sul-americano não podem ser tolerados, defendendo a América do Sul como zona de paz.
Foto: Divulgação – USDA
O Brasil encontra-se em posição estratégica, mas delicada:
Mantém contato com ambos os lados do conflito
Não reconheceu a reeleição de Maduro em 2024
Defende solução política e diplomática
Enfrenta pressões domésticas de diferentes espectros políticos
Uma eventual mudança de governo na Venezuela, com ascensão de forças de direita apoiadas por Washington, poderia criar tensões adicionais com o Brasil, considerando o histórico de aproximação do PT com o chavismo.
Impactos no mercado de commodities
A intervenção americana na Venezuela terá repercussões além das fronteiras sul-americanas. O país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com cerca de 300 bilhões de barris. Qualquer interrupção prolongada na produção pode:
Elevar preços internacionais do petróleo
Aumentar custos de transporte e insumos agrícolas
Impactar a competitividade das exportações brasileiras
Criar oportunidades para o Brasil aumentar exportações de petróleo
Efeito cascata em commodities
O conflito pode gerar volatilidade nos mercados de:
Grãos: interrupção de exportações brasileiras para a Venezuela e possível necessidade de buscar mercados alternativos
Carnes: a Venezuela era importante compradora de carne bovina e de frango brasileiras
Açúcar: mercado venezuelano absorvia volumes significativos da produção brasileira
Vamos analisar os cenários possíveis e suas consequências
Cenário 1: colapso institucional venezuelano
Se a queda de Maduro resultar em vácuo de poder ou guerra civil, o Brasil enfrentará:
Paralisação total do comércio bilateral
Pressão migratória extrema na fronteira Norte
Necessidade de intervenção humanitária
Perdas econômicas estimadas em centenas de milhões de dólares
Cenário 2: governo de transição Pró-EUA
Ascensão de María Corina Machado ou figura alinhada a Washington pode:
Reconfigurar relações comerciais, com redução de protagonismo brasileiro
Favorecer empresas americanas em detrimento de brasileiras
Criar tensões políticas regionais
Abrir oportunidade para renegociação de acordos comerciais
Cenário 3: resistência prolongada
Manutenção de conflito de baixa intensidade resultaria em:
Instabilidade crônica na fronteira brasileira
Interrupção intermitente de fluxos comerciais
Dificuldade em recuperar valores de exportações realizadas
Pressão sobre Brasil para tomar partido no conflito
Oportunidades em meio à crise
Apesar dos riscos, o conflito pode criar algumas oportunidades para o agronegócio brasileiro:
Diversificação forçada: necessidade de buscar novos mercados pode acelerar abertura de novos destinos de exportação
Petróleo: redução da oferta venezuelana pode beneficiar exportações brasileiras de petróleo
Mediação diplomática: papel de mediador pode fortalecer posição do Brasil na região e abrir portas comerciais
Reconstrução futura: Brasil pode se posicionar para participar de eventual reconstrução venezuelana
Recomendações para o setor
Diante deste cenário de alta incerteza, empresas do agronegócio brasileiro devem:
Revisar exposição: avaliar imediatamente contratos e exposição ao mercado venezuelano
Garantias: exigir pagamentos antecipados ou garantias robustas para novas operações
Diversificação: acelerar estratégias de diversificação de mercados
Monitoramento: acompanhar desdobramentos políticos e econômicos diariamente
Planejamento de cenários: desenvolver planos de contingência para diferentes desdobramentos
Diálogo com governo: buscar apoio do Itamaraty e do MDIC para proteção de interesses
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela representa um ponto de inflexão histórico para a América do Sul e coloca o Brasil diante de desafios complexos e interconectados. Para o agronegócio brasileiro, os impactos são multifacetados: desde a perda direta de um mercado que vinha crescendo significativamente até efeitos indiretos em cadeias de suprimentos, custos de insumos e logística.
A situação exige resposta coordenada entre setor privado e governo, com foco em proteger interesses comerciais já estabelecidos, preparar-se para eventuais choques de oferta de insumos críticos, e posicionar-se estrategicamente para o cenário pós-crise.
O desenvolvimento dos próximos dias será crucial. A confirmação ou não da captura de Maduro, a reação das forças armadas venezuelanas, o posicionamento de potências regionais e globais, e as decisões do governo brasileiro definirão não apenas o futuro da Venezuela, mas terão consequências duradouras para toda a região. E particularmente para o agronegócio brasileiro, pilar fundamental da economia nacional.
Uma operação conjunta entre o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e autoridades venezuelanas resultou na repatriação de 127 canários-da-terra (Sicalis flaveola flaveola) à Venezuela, entre os dias 9 e 12 de dezembro. As aves foram interceptadas pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, na capital amazonense, em uma ação de combate ao tráfico internacional de fauna silvestre.
As aves estavam sendo transportadas ilegalmente para Guarulhos, em São Paulo, onde seriam comercializadas no mercado negro de animais silvestres. Após a apreensão, os canários foram encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres do Amazonas (Cetas/AM), unidade do Ibama especializada no atendimento de fauna apreendida.
No Cetas, os animais receberam atendimento veterinário especializado e foram submetidos a rigorosos protocolos de avaliação sanitária e monitoramento, garantindo as condições adequadas para a repatriação.
Em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e a Polícia Federal, a equipe do Ibama realizou análises morfológicas detalhadas e estudos de isótopos estáveis nos espécimes apreendidos. Os resultados foram conclusivos: os canários-da-terra possuem distribuição natural exclusiva no território venezuelano e não fazem parte da fauna nativa brasileira.
Diante dessa constatação científica, a soltura das aves em território nacional foi descartada. Segundo especialistas, a introdução de espécies exóticas no ambiente pode causar sérios desequilíbrios ecológicos, incluindo competição com espécies nativas, transmissão de doenças e alteração de ecossistemas locais.
Diplomacia ambiental em ação
Com base nos laudos técnicos, o governo brasileiro iniciou as tratativas diplomáticas com as autoridades ambientais venezuelanas para viabilizar o retorno dos animais ao seu habitat de origem. O processo envolveu articulação entre órgãos ambientais dos dois países e seguiu protocolos internacionais de cooperação em biodiversidade.
A entrega oficial dos 127 canários-da-terra aos representantes do órgão ambiental venezuelano ocorreu na quinta-feira, 11 de dezembro, concluindo com sucesso a missão de repatriação.
Compromisso contra o tráfico de animais
A operação reforça a atuação do Ibama no combate ao tráfico internacional de fauna e destaca a importância da cooperação entre países para a proteção da biodiversidade. De acordo com o instituto, a destinação ambientalmente adequada de animais apreendidos é prioridade, assegurando que retornem ao seu ambiente natural sempre que possível.
O tráfico de animais silvestres é considerado a terceira atividade ilegal mais lucrativa do mundo, movimentando bilhões de dólares anualmente. No Brasil, o comércio ilegal de fauna é crime ambiental previsto na Lei 9.605/98, com penas que variam de seis meses a um ano de detenção, além de multas.
Conscientização é fundamental
O Ibama reforça o alerta à população: não compre animais silvestres. Ao recusar o comércio ilegal, cada cidadão contribui diretamente para a preservação da fauna brasileira e combate redes criminosas que lucram com o sofrimento animal e a destruição da biodiversidade.
Para denunciar o tráfico de animais silvestres, a população pode utilizar a Linha Verde do Ibama pelo telefone 0800-61-8080 ou fazer denúncias online através do portal do instituto.
A Venezuela retomou nesta semana a isenção de impostos para produtos brasileiros com certificado de origem. A decisão reverte uma medida surpresa que, na semana passada, taxou importações do Brasil em até 77%, gerando custos extras e insegurança jurídica para empresas.
O sistema aduaneiro venezuelano, Sidunea, já foi ajustado e voltou a reconhecer os documentos de origem. O órgão tributário do país, Seniat, também retomou a emissão do benefício fiscal. “Praticamente todos os produtos estão com isenção de 100% novamente”, afirmou Eduardo Oestreicher, coordenador de Negócios Internacionais de Roraima.
Impacto em Roraima e esforços diplomáticos
A Venezuela é o principal destino das exportações de Roraima, respondendo por 46,1% das vendas do estado. O governador Antonio Denarium (PP) celebrou a retomada da isenção, destacando que a taxação poderia prejudicar empregos e a economia local.
Na última terça-feira (22), a Câmara Venezuelana Brasileira de Comércio de Roraima pediu apoio diplomático à embaixada do Brasil em Caracas. Oestreicher afirmou que divulgará em breve um comunicado conjunto com autoridades venezuelanas para agradecer a solução do impasse.
Falha no sistema ou mudança de política?
Inicialmente, autoridades atribuíram a taxação a um possível erro no sistema aduaneiro da Venezuela. No entanto, um decreto publicado em junho havia extinguido isenções para vários produtos importados, incluindo açúcar e soja — itens essenciais na pauta de exportação brasileira.
O Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento acompanharam o caso, buscando esclarecimentos com o governo venezuelano. O Acordo de Complementação Econômica nº 69 (ACE 69), em vigor desde 2014, garante tarifa zero para a maioria dos produtos entre os dois países .
Com a normalização, os exportadores recuperam a confiança no comércio bilateral, que movimentou US$ 1,6 bilhão em 2024.
A Venezuela, historicamente conhecida por suas vastas reservas de petróleo, também possui um enorme potencial agrícola que, se devidamente explorado, pode transformar o país em uma potência agroalimentar. O clima tropical, a diversidade de ecossistemas e a vasta extensão de terras aráveis oferecem condições ideais para a produção de uma variedade de cultivos, como café, cacau, milho, arroz, frutas tropicais e hortaliças. No entanto, nas últimas décadas, a agricultura venezuelana tem enfrentado um declínio significativo, decorrente de políticas econômicas inadequadas, falta de investimentos e instabilidade política.
Atualmente, o setor agrícola na Venezuela opera muito abaixo de sua capacidade. A escassez de insumos, tecnologia ultrapassada e a fuga de talentos rurais para centros urbanos ou para outros países devido à crise econômica e social têm contribuído para a redução da produtividade. Além disso, as políticas de controle de preços e expropriações de terras pelo governo resultaram na diminuição do incentivo para os produtores, tornando o país dependente de importações para suprir as necessidades alimentares da população.
Apesar desse cenário desafiador, a Venezuela ainda possui um grande potencial para revitalizar sua agricultura. Especialmente se houver uma mudança para um governo democrático e comprometido com a recuperação econômica e social do país. Um governo democrático poderia restaurar a confiança dos agricultores, atrair investimentos estrangeiros e promover reformas que incentivem a produção local. Nesse contexto, o Brasil poderia desempenhar um papel fundamental na reestruturação do setor agrícola venezuelano.
Ajuda brasileira e oportunidade de investimento
Como uma das maiores potências agrícolas do mundo, o Brasil possui vasta experiência em tecnologias agrícolas de ponta, práticas sustentáveis e modelos de gestão eficientes. A cooperação entre os dois países poderia incluir desde o fornecimento de insumos e maquinários agrícolas até a transferência de tecnologia e conhecimento em áreas como irrigação, manejo de solo, cultivo e armazenamento de grãos.
Com uma experiência consolidada no agronegócio, o Brasil pode ajudar a Venezuela a superar esses desafios. A cooperação entre os dois países poderia incluir a transferência de tecnologia agrícola, capacitação de produtores e investimentos em infraestrutura. Programas de intercâmbio e parcerias entre instituições de pesquisa e universidades poderiam facilitar o compartilhamento de conhecimentos e melhores práticas.
Além disso, o Brasil poderia oferecer suporte na implementação de políticas agrícolas que incentivem a produção local e a sustentabilidade. O fortalecimento das cadeias produtivas e a promoção de práticas agrícolas sustentáveis são fundamentais para garantir a segurança alimentar e a recuperação do setor agrícola venezuelano.
O Brasil também poderia auxiliar na formação de parcerias comerciais que beneficiem ambos os países, promovendo o comércio de produtos agrícolas e fortalecendo as cadeias de suprimentos regionais. Instituições brasileiras de pesquisa, como a Embrapa, poderiam colaborar com o desenvolvimento de cultivares adaptadas ao clima venezuelano, além de capacitar técnicos e agricultores locais.
Para que essa cooperação seja viável, a Venezuela precisaria adotar políticas de incentivo à produção agrícol e respeitar a propriedade privada. Além de promover um ambiente de negócios estável e transparente. Um governo comprometido com a democracia e o desenvolvimento sustentável pode transformar o setor agrícola venezuelano em um motor de crescimento econômico,. E garantir segurança alimentar para sua população, contribuindo para a estabilidade regional.
Estabilidade política
Com um governo democrático, a Venezuela poderia se tornar um mercado atraente para investidores brasileiros. A estabilização política e a implementação de reformas econômicas criariam um ambiente propício para o investimento em setores como agricultura, infraestrutura e tecnologia. O Brasil, como um dos principais parceiros comerciais da Venezuela, poderia explorar oportunidades de exportação de produtos agrícolas e insumos. Além de atrair investimentos para projetos conjuntos.
O potencial agrícola da Venezuela é vasto, mas sua realização depende de um ambiente político estável e de políticas eficazes. Com a colaboração do Brasil, o país pode revitalizar seu setor agrícola, promovendo o desenvolvimento econômico e a segurança alimentar. A cooperação entre os dois países não apenas beneficiaria a agricultura venezuelana, mas também fortaleceria os laços comerciais e estratégicos na região.
A colaboração entre Brasil e Venezuela, portanto, tem o potencial de ser uma via de mão dupla, onde o compartilhamento de experiências e recursos resultaria em benefícios mútuos. Além de fortalecer a integração sul-americana e promover o desenvolvimento sustentável na região.
Nos últimos 20 anos, a agricultura na Venezuela passou por uma transformação dramática. O setor, que já foi um dos pilares da economia venezuelana, enfrenta atualmente uma série de desafios que comprometeram sua produtividade e sustentabilidade.
Duas décadas atrás, a agricultura venezuelana vivia um cenário muito diferente. Durante os anos 1990 e início dos anos 2000, o país ainda mantinha uma produção agrícola diversificada e relativamente estável, apesar da crescente dependência da economia em relação à exportação de petróleo. A Venezuela produzia uma variedade de alimentos, como milho, arroz, café, cacau, e frutas tropicais, e conseguia atender grande parte da demanda interna, além de exportar produtos agrícolas para outros países.
O setor agrícola contava com o apoio governamental em termos de subsídios, crédito e políticas que incentivavam a produção e o desenvolvimento rural. Além disso, a infraestrutura rural, incluindo estradas, sistemas de irrigação e assistência técnica, estava em melhores condições, facilitando o escoamento da produção e o acesso dos agricultores a insumos e mercados.
A agricultura na Venezuela hoje
Atualmente, a agricultura na Venezuela enfrenta uma profunda crise. A produção agrícola do país caiu drasticamente, afetada por uma combinação de políticas governamentais ineficazes, falta de investimentos, escassez de insumos e uma infraestrutura deteriorada. A reforma agrária implementada nos primeiros anos do governo de Hugo Chávez, que visava redistribuir terras, resultou em uma fragmentação das grandes propriedades e na queda da produtividade agrícola, já que muitas das terras redistribuídas não foram adequadamente aproveitadas devido à falta de recursos e assistência técnica.
A escassez de insumos agrícolas, como fertilizantes, sementes e defensivos, é um dos principais problemas enfrentados pelos produtores. Essa escassez é agravada pela dificuldade de importar esses produtos devido às restrições econômicas e cambiais.
Consequentemente, a Venezuela, que anteriormente era autossuficiente em vários produtos agrícolas, agora depende fortemente da importação de alimentos básicos. Produtos básicos, como arroz, feijão e milho, que antes eram produzidos em larga escala no país, agora precisam ser adquiridos no mercado internacional. A insegurança alimentar é uma realidade para grande parte da população, e o setor agrícola luta para se reerguer em meio a um ambiente de incertezas e desafios.
Comparação entre passado e presente
A comparação entre o cenário agrícola de 20 anos atrás e o atual revela um declínio significativo na capacidade produtiva do país. Enquanto no passado a Venezuela conseguia sustentar sua população com uma produção agrícola diversificada e robusta, hoje a situação é de extrema fragilidade. A produção é insuficiente e tem uma crescente dependência de importações.
Reprodução Instagram @nicolasmaduro
O futuro da agricultura venezuelana depende da implementação de políticas que incentivem o investimento no setor. E também da recuperação da infraestrutura rural e do fornecimento de insumos necessários para reativar a produção. Porém, sem essas medidas, a agricultura do país continuará enfrentando dificuldades, impactando diretamente a segurança alimentar da população e a economia nacional.
Porém, com a insegurança politica que ocorre no país, e a briga entre o atual governo, que se perpetua no poder de toda forma, esse investimento no agro venezuelano parece algo muito distante de se tornar realidade. Enquanto isso os venezuelanos ficam sem ter o que fazer, a não ser lutar para sobreviver.