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  • Floresta em pé: modelo de pagamento busca escala no agronegócio brasileiro

    Floresta em pé: modelo de pagamento busca escala no agronegócio brasileiro

    Um modelo que remunera produtores rurais pela preservação de vegetação nativa no Brasil avança e busca ganhar escala sem depender de doações internacionais. A iniciativa mira áreas onde o desmatamento é legalmente permitido e tenta transformar a floresta em pé em ativo econômico.

    O programa, baseado em pagamento por serviços ambientais (PSE), incentiva proprietários a manter excedentes de reserva legal, áreas além do mínimo exigido pelo Código Florestal. Essas regiões, apesar de protegidas voluntariamente, poderiam ser convertidas para agricultura ou pecuária com autorização.

    Entre 2020 e 2024, um projeto piloto conservou mais de 20 mil hectares nos biomas Cerrado e Amazônia. A iniciativa contou com financiamento internacional e envolveu propriedades rurais de médio e grande porte. Novos contratos ampliaram a área protegida em mais 7 mil hectares, com apoio de empresas do agronegócio comprometidas com cadeias livres de desmatamento.

    O avanço do modelo ocorre em meio a um cenário preocupante. Dados recentes indicam que quase 70% dos alertas de desmatamento no Brasil ocorrem em áreas privadas. Além disso, cerca de 3,6 milhões de hectares foram desmatados legalmente entre 2008 e 2024 no Cerrado e na Amazônia. Isso é o equivalente a uma área maior que a Bélgica.

    O Código Florestal permite a supressão de vegetação nativa além do limite obrigatório de preservação, que varia de 20% a 80% conforme o bioma. Esse excedente representa milhões de hectares com potencial de conversão, o que pressiona biodiversidade, recursos hídricos e o equilíbrio climático.

    Especialistas alertam que o desmatamento legal também ameaça a produtividade agrícola no longo prazo, ao comprometer regimes de chuva e elevar temperaturas.

    Pagamento como incentivo econômico

    O modelo de PSE oferece pagamentos regulares a produtores que mantêm a vegetação nativa intacta. O valor leva em conta fatores como risco de desmatamento, serviços ambientais prestados e valor da terra.

    Além da renda adicional, produtores relatam benefícios indiretos, como redução de incêndios, aumento da biodiversidade e melhoria nas condições climáticas locais.

    O programa exige conformidade com a legislação ambiental, monitoramento via satélite e auditorias independentes. Irregularidades podem gerar penalidades.

    Desafio agora é escalar

    Após a fase piloto, o principal desafio passa a ser a expansão do modelo. A viabilidade depende de fontes estáveis de financiamento e de mecanismos que garantam previsibilidade de receita.

    Estudos apontam três caminhos principais para escalar o programa:

    • Comercialização de créditos de carbono
    • Pagamento de prêmios por commodities livres de desmatamento
    • Acesso a crédito rural com juros reduzidos

    A combinação desses instrumentos surge como a alternativa mais viável para sustentar o modelo no longo prazo.

    O Brasil já possui uma política nacional de pagamento por serviços ambientais, mas ainda carece de regulamentação que padronize critérios de cálculo e amplie a segurança jurídica.

    Créditos de carbono aparecem como opção promissora, mas enfrentam desafios relacionados à credibilidade e à mensuração, especialmente no Cerrado.

    Floresta em pé ainda enfrenta barreira econômica

    Apesar dos avanços, a conservação voluntária ainda enfrenta um obstáculo central: a rentabilidade. Sem incentivos financeiros contínuos, a tendência é que áreas com potencial produtivo avancem para o desmatamento legal.

    A conversão dessas áreas segue como alternativa economicamente mais atrativa para muitos produtores, o que reforça a necessidade de políticas e mercados que valorizem a floresta em pé.

    Especialistas destacam que o combate ao desmatamento exige múltiplas estratégias e integração entre setor público e privado. Sem isso, milhões de hectares de vegetação nativa seguem sob risco de conversão nos próximos anos.

  • Cerrado: pastejo rotacionado reduz braquiária em 50% e restaura vegetação nativa

    Cerrado: pastejo rotacionado reduz braquiária em 50% e restaura vegetação nativa

    O pastejo pelo gado, quando bem gerenciado, pode conter a braquiária (Urochloa decumbens), uma das maiores ameaças aos campos naturais do Cerrado. E abrir caminho para a recuperação da vegetação nativa. É o que indica estudo do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) publicado no periódico Agriculture, Ecosystems and Environment.

    A braquiária chegou ao Brasil na década de 1960, vinda das regiões tropicais da África Oriental. Desde então, tornou-se uma das principais invasoras do Cerrado: recobre completamente o solo, impede que outras plantas brotem e é extremamente difícil de eliminar. Herbicidas e capina manual são opções caras e pouco eficazes.

    Com o gado, essa dinâmica muda. “O pastejo controlado surge como um possível aliado na conservação e restauração dos campos naturais. Em determinados contextos, reduz a cobertura de espécies invasoras, abre espaço para a regeneração da vegetação nativa e contribui para a manutenção da diversidade”, explica Bruna Helena de Campos, autora principal do estudo.

    O experimento

    Para testar a hipótese, as pesquisadoras instalaram um experimento na Estação Ecológica de Santa Bárbara, no oeste do Estado de São Paulo. Elas escolheram uma área de campo nativo invadida por braquiária, cercaram parte dela e permitiram a entrada de gado apenas nessa seção. As áreas vizinhas, com solo e vegetação semelhantes, ficaram sem gado e serviram como grupo de controle, o que permitiu separar os efeitos do pastejo das mudanças naturais ao longo do tempo.

    Antes da entrada do gado, a equipe registrou a vegetação em 200 parcelas de 1 m², mapeando espécies presentes e a ocupação do solo por plantas nativas, braquiária, arbustos, árvores e solo exposto. Dois anos depois, repetiu o levantamento.

    Os resultados

    O pastejo em sistema rotacionado, com alternância entre períodos curtos de uso e períodos de descanso, reduziu em 50% a cobertura de braquiária. E aumentou o solo exposto a níveis semelhantes aos de campos naturais intocados. “A abertura de espaço no solo é fundamental nos campos, porque cria condições para que outras espécies germinem ou rebrotem, o que contribui para a diversidade e a manutenção da vegetação típica”, diz Campos.

    carbono cerrado
    Foto: Gabriel Faria/Embrapa

    Com menos braquiária e mais solo exposto, as espécies nativas do Cerrado reocuparam as áreas invadidas: a riqueza total de espécies nativas cresceu cerca de 20% nas parcelas pastejadas em comparação com as não pastejadas. “O aumento da riqueza da camada herbácea, aliado à redução da espécie invasora, indica que o ecossistema está recuperando parte de sua diversidade funcional”, afirma a pesquisadora.

    Uma relação antiga

    A conexão entre campos e pastejo não é novidade do ponto de vista ecológico. Ao longo de milhões de anos, as plantas do Cerrado desenvolveram adaptações para conviver com a herbivoria de grandes animais da megafauna sul-americana, hoje extintos. Essas características persistem e fazem com que os campos naturais dependam do pastejo para manter seu equilíbrio ecológico.

    “Na África, essa relação entre campos e pastejo é amplamente conhecida. Em regiões onde os grandes herbívoros são raros ou ausentes, o gado tem feito o papel de controlar o acúmulo exagerado de biomassa de capins”, explica a ecóloga Giselda Durigan, coautora do artigo e pesquisadora do IPA.

    Cuidados necessários

    O pastejo como ferramenta de restauração exige atenção para não reproduzir os impactos historicamente associados à pecuária convencional. O principal risco é o sobrepastejo. “Quando há mais carga do que o ambiente suporta, ocorre compactação do solo e aumento do pisoteio e do consumo de plantas, o que pode diminuir a cobertura vegetal e, consequentemente, reduzir a diversidade”, alerta Campos.

    A pesquisadora recomenda o acompanhamento por indicadores ecológicos, como cobertura do solo e riqueza de espécies, como forma de avaliar se o manejo contribui para a restauração ao longo do tempo sem gerar novos impactos negativos.

    Respaldo legal e científico

    No Brasil, a Lei de Proteção à Vegetação Nativa já prevê o “manejo sustentável”, que permite o uso econômico de vegetação nativa ou restaurada, desde que compatível com a conservação. No Estado de São Paulo, o pastejo em ecossistemas abertos já tem reconhecimento oficial como uso sustentável de Reserva Legal.

    Durigan destaca que o estudo valida essa política pública ao demonstrar, com dados experimentais, que o pastejo bem manejado favorece a vegetação nativa. Ainda assim, a adoção da prática como ferramenta de conservação exige atuação coordenada entre órgãos ambientais, gestores de unidades de conservação e proprietários rurais.

    A pesquisa conta com financiamento da FAPESP, por meio do Projeto Temático BIOTA Campos, e inclui contribuição de pesquisadoras do Instituto de Biologia da Unicamp. Parte do trabalho resultou de estágio de Campos na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

    Beatriz Ortiz | Agência FAPESP

  • Restauração de vegetação nativa pode aumentar PIB agrícola de SP

    Restauração de vegetação nativa pode aumentar PIB agrícola de SP

    A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil) conquistou o primeiro lugar no Prêmio MapBiomas 2025. O estudo premiado revela o potencial econômico da polinização na agricultura paulista. A pesquisa integra o projeto Biota Síntese, com apoio da Fapesp.

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    O trabalho demonstra que a recuperação estratégica de vegetação nativa eleva o PIB agropecuário estadual em até R$ 4,2 bilhões anuais. Mais de 180 projetos participaram da competição, considerada uma das mais importantes do país.

    Metodologia inovadora mapeia oportunidades de polinização

    Os pesquisadores Rafael Chaves (Semil) e Eduardo Moreira (USP) utilizaram imagens de satélite e análise pixel a pixel. A metodologia mapeou áreas agrícolas e fragmentos de vegetação nativa. O objetivo foi identificar oportunidades para ampliar a polinização.

    A equipe mapeou as áreas agrícolas que demandam polinização e as áreas de vegetação nativa que oferecem esse serviço. Os cientistas avaliaram o fluxo de polinizadores na paisagem. Essa abordagem permite identificar locais estratégicos para recuperação ambiental.

    Margens de rios, fragmentos e bordas de propriedades surgem como áreas prioritárias. A restauração dessas regiões amplia a oferta de polinizadores. O processo beneficia a produtividade das lavouras sem suprimir a produção agrícola.

    Soja, laranja e café lideram ganhos econômicos

    O estudo quantifica os benefícios por cultura agrícola. A soja representa o maior potencial de ganho, com R$ 1,4 bilhão anuais. A laranja aparece em segundo lugar, com R$ 1 bilhão. O café completa o trio principal com R$ 660 milhões anuais.

    Cultivos permanentes como goiaba, abacate e manga somariam R$ 280 milhões adicionais. Culturas temporárias incluindo tomate, amendoim e feijão contribuiriam com R$ 820 milhões. A presença de vegetação nativa próxima aos cultivos amplia a diversidade de polinizadores.

    As abelhas desempenham papel fundamental no processo. Elas aumentam não apenas a quantidade dos frutos e grãos. O tamanho e a qualidade dos produtos também melhoram significativamente.

    Desafios identificados em regiões críticas

    A pesquisa identificou obstáculos para implementação prática do serviço. O Médio Paranapanema apresenta paisagens agrícolas homogêneas. Extensos monocultivos de soja dominam a região com vegetação insuficiente.

    O estudo aponta que essa limitação pode ser mitigada. O aumento da polinização através da restauração de ecossistemas oferece solução viável. A adoção de práticas amigáveis aos polinizadores complementa a estratégia.

    Rafael Chaves, vice-diretor do Biota Síntese pela Semil e coautor do estudo, destaca a importância dos resultados. “Esses números demonstram como as soluções baseadas na natureza beneficiam simultaneamente a agricultura, a renda dos produtores e a proteção da biodiversidade”, afirma.

    O subsecretário de Meio Ambiente, Jônatas Trindade, ressalta o valor do prêmio. Ele considera o reconhecimento como reflexo do trabalho de excelência das equipes. A parceria com a academia traz subsídios para melhorar políticas públicas atuais e formular novas estratégias.

    As recomendações do estudo já integram o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (Pearc). O governo de São Paulo lançou recentemente esse documento orientador.

    Publicação oferece guia prático para gestores

    A publicação apresenta mapas detalhados do estado de São Paulo. O material inclui indicadores de potencial de provisão e dependência por cultura. Gestores públicos e agricultores encontram recomendações específicas sobre como alinhar produção e conservação.

    O trabalho orienta a implementação de políticas e ações locais baseadas em evidências científicas. A metodologia seguiu uma sistemática de coprodução entre ciência e política pública.

    São Paulo também conquistou reconhecimento na categoria Políticas Públicas. A Fundação Florestal recebeu menção honrosa pela Plataforma de Restauração das Áreas Protegidas.

    A iniciativa foi lançada na COP29 como ferramenta inovadora para conservação. A Fundação Florestal desenvolveu a plataforma em parceria com a Semil. A Fundação Instituto de Administração (FIA) ofereceu apoio técnico.

    Plataforma mapeia 38 mil hectares para restauração

    A plataforma já mapeou mais de 38 mil hectares com potencial para restauração. O sistema cruza mais de 90 camadas de dados ambientais. Informações sobre uso do solo, vegetação, declividade e potencial de regeneração natural integram a análise.

    Técnicas de inteligência artificial potencializam o processamento dos dados. A ferramenta apoia iniciativas como o Refloresta-SP. O programa busca restaurar 1,5 milhão de hectares de vegetação nativa até 2050.

    A plataforma também direciona recursos do Finaclima-SP. Este mecanismo de financiamento climático atrai recursos privados para projetos sustentáveis. O sistema atua como intermediador entre doadores e iniciativas de resiliência climática no estado.

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