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  • Como as usinas de cana dominam o campo paulista sem serem donas da terra

    Como as usinas de cana dominam o campo paulista sem serem donas da terra

    As usinas de cana-de-açúcar encontraram uma forma silenciosa de dominar o campo paulista: em vez de comprar terras, elas as alugam. Desde os anos 1990, o setor sucroalcooleiro vem expandindo seus canaviais principalmente por meio de arrendamentos, incorporando propriedades de pequenos e médios agricultores sem transferir a posse formal. O resultado é uma concentração intensa no uso da terra no estado de São Paulo, mesmo que os registros cartoriais mostrem um quadro diferente.

    Um estudo publicado no periódico científico Land Use Policy apresenta essa conclusão. O pesquisador José Giacomo Baccarin, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Universidade Estadual Paulista, câmpus de Jaboticabal, assina o trabalho. E as informações aqui são de  matéria feita por Bruno Vaiano, no Jornal da Unesp.

    São Paulo lidera a produção nacional de cana-de-açúcar, respondendo por 54% da safra brasileira, 62% do açúcar produzido no país e 49% do etanol. O estado também ocupa posição de destaque no cenário mundial nessas três categorias.

    O mapa que os registros não mostram

    Os dados do levantamento revelam uma distorção significativa entre posse e controle da terra. Em 2017, estabelecimentos agrícolas com mais de mil hectares já ocupavam cerca de 45% da área agrícola paulista. Mas os imóveis rurais nessa mesma faixa de tamanho representavam apenas 21% do território usado para agricultura no estado.

    A diferença entre esses dois números evidencia o fenômeno: proprietários reúnem mais da metade do espaço controlado por esses megaempreendimentos em propriedades menores, sob um único administrador, por meio de contratos de arrendamento.

    Por que a cana exige estar perto

    A lógica do arrendamento tem raízes na própria biologia da cana-de-açúcar. Diferentemente da soja ou da laranja, a cana precisa ser processada em até 50 km do local de colheita. Caso contrário, perde qualidade e aumenta os custos de transporte, comprometendo a viabilidade econômica da operação.

    Essa exigência logística obriga cada usina a formar um cinturão de cultivo ao seu redor, disputando as áreas disponíveis dentro desse raio. A expansão, portanto, ocorre menos pela abertura de novas fronteiras agrícolas e mais pela incorporação de terras já cultivadas nas proximidades.

    “Cerca de 60% da cana moída em São Paulo é produzida pelas próprias usinas”, explica Baccarin. “Os outros 40% são adquiridos de fornecedores e agricultores independentes.”

    A mecanização que expulsou os pequenos

    Um ponto de inflexão para o setor ocorreu em 2007, com a adesão das usinas ao Protocolo Agroambiental para o Setor Energético da Cana-de-Açúcar de São Paulo. O acordo estabelecia o fim da queima da palha da cana até 2017 e a substituição da colheita manual pelo processo mecanizado.

    A transição exigiu pesados investimentos em máquinas agrícolas e adaptações no manejo das lavouras, como o uso de novas variedades de cana e o cultivo em parcelas maiores para viabilizar a operação dos equipamentos. Entre 2007 e 2017, 84% das usinas cumpriram o compromisso. Mas apenas 36% dos fornecedores independentes conseguiram se adaptar no mesmo período.

    Para os pequenos produtores, o obstáculo era econômico. Uma única máquina colhedora processa centenas de milhares de toneladas por safra. Em uma propriedade de 200 hectares, por exemplo, comprar o equipamento seria inviável. Alugar uma colhedora era a única alternativa mas, ainda assim, insuficiente para competir com a escala das usinas.

    Proprietários de terra, moradores da cidade

    O estudo de Baccarin também mapeia uma transformação social. Após arrendar as fazendas, boa parte dos proprietários migrou para centros urbanos e passou a viver da renda do aluguel rural enquanto atua no comércio ou no setor de serviços. As gerações seguintes, formadas em profissões urbanas, mostram pouco interesse em retomar a atividade agrícola.

    “Os filhos e netos dos primeiros arrendatários já não têm vocação nem capital para a agricultura. Eles se desfizeram dos tratores”, afirma o pesquisador.

    O futuro da cana e da terra paulista

    O setor sucroalcooleiro, no entanto, enfrenta novos desafios. Um quarto do etanol brasileiro já é produzido a partir do milho, que rende 400 litros por tonelada, contra 80 litros obtidos da cana. Ao mesmo tempo, o consumo de açúcar desacelera nos países mais ricos, pressionado pela crescente consciência sobre os malefícios dos alimentos ultraprocessados.

    Essas tendências podem frear a expansão dos canaviais paulistas nas próximas décadas e reorganizar a estrutura fundiária do estado.

    Para Baccarin, a concentração do uso da terra traz ganhos de eficiência e redução de custos, mas levanta questões que exigem atenção pública. Entre elas estão a distribuição de renda no campo, a responsabilidade ambiental em áreas arrendadas e a necessidade de políticas que incentivem a diversificação produtiva em pequenas propriedades, como o cultivo de frutas e hortaliças e a recuperação de matas nativas e nascentes.