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  • Unicamp desenvolve tecnologia que extermina percevejo da soja

    Unicamp desenvolve tecnologia que extermina percevejo da soja

    Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma tecnologia capaz de combater o percevejo, uma das pragas que mais causam prejuízo à soja brasileira. O método usa RNA de interferência (RNAi) para silenciar genes essenciais do inseto, sem recorrer a modificação genética da planta ou a inseticidas convencionais.

    A equipe do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, coordenada pelo professor associado Henrique Marques de Souza, conduziu a pesquisa que resultou na tecnologia. O Brasil lidera a produção e a exportação mundial de soja em grão, mas o percevejo compromete essa vantagem: a praga causa prejuízos anuais de bilhões de reais aos produtores.

    “Levando em consideração que o Brasil é um país tropical e muito quente, existem muitas pragas que podem afetar o cultivo de soja, mas o percevejo é o mais danoso a essa cultura”, afirma Souza.

    Um acordo de pesquisa e desenvolvimento entre a Unicamp e a empresa TMG Tropical Melhoramento e Genética S.A. viabilizou a tecnologia. A TMG detém a cotitularidade da patente e recebeu a licença para uso comercial. A Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp) conduziu a estratégia de proteção e licenciamento, com a interveniência da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp).

    Como a tecnologia elimina o percevejo sem venenos

    A invenção mira especificamente o percevejo Euschistus heros, espécie mais comum nas lavouras de soja. A tecnologia ativa o mecanismo de RNAi apenas nos organismos-alvo, sem exigir modificação genética. Uma abordagem que os pesquisadores classificam como mais sustentável e mais segura tanto para o agricultor quanto para o meio ambiente.

    O método explora um princípio básico da biologia celular: toda célula viva segue o chamado dogma central, no qual o DNA gera RNA e o RNA gera proteína. Vírus se aproveitam dessa lógica para inserir material genético nas células e induzi-las a produzir proteínas virais. Em resposta, as células desenvolveram uma defesa natural que reconhece o RNA de fita dupla, molécula típica de vírus, e destrói qualquer sequência genética semelhante a ela.

    Os pesquisadores exploram exatamente essa defesa natural. Eles identificam um gene essencial do inseto que pretendem controlar e desenham, em laboratório, uma versão de fita dupla desse gene. Ao entrar em contato com essa molécula, o organismo do percevejo a interpreta como uma ameaça viral e elimina o gene correspondente, impedindo a produção da proteína associada. Sem esse gene, o inseto perde a capacidade de se desenvolver, se alimentar ou se reproduzir.

    “Estudamos a biologia de uma praga, no caso o percevejo, e identificamos qual gene, se removido, o levará à morte, a parar de se alimentar, ou de procriar. Podemos desenhar a fita dupla de acordo com o que é identificado como vital para o inseto”, explica Souza.

    Por que a precisão genética supera os inseticidas tradicionais

    A especificidade define a principal vantagem da tecnologia. Inseticidas convencionais costumam atingir diferentes espécies presentes na lavoura, incluindo insetos benéficos como polinizadores e inimigos naturais das próprias pragas. A molécula de RNA, em contraste, atinge apenas o alvo escolhido. E por se tratar de um produto biológico e biodegradável, reduz o impacto ambiental do controle de pragas.

    Essa mesma precisão também estabelece os limites do método. A tecnologia não substitui outras ferramentas de controle nem funciona como solução única e imediata, já que depende de um processo biológico para agir. Por isso, os pesquisadores recomendam sua incorporação ao manejo integrado de pragas, combinada a outras práticas agronômicas.

    “Não é uma técnica de choque. Ela depende que a molécula de RNA entre, silencie o gene e pare de produzir proteína para que a praga morra”, enfatiza Souza.

    Da pesquisa básica na Alemanha à patente no Brasil

    A trajetória da descoberta começou longe dos campos brasileiros. Durante o doutorado na Universidade de Colônia, na Alemanha, Souza estudava a tecnologia de RNAi com foco no desenvolvimento embriológico de insetos. Um tema de pesquisa básica, sem aplicação prática prevista na época. Já na Unicamp, o pesquisador decidiu direcionar o estudo da tecnologia para o combate a pragas agrícolas, como o percevejo, o que transformou o desafio: descobrir o mecanismo deixou de ser suficiente, e a equipe passou a buscar transformá-lo em produto.

    Equipe de pesquisa. Foto: Igor Alisson/Inova Unicamp

    Essa fase da pesquisa levou quatro anos e resultou na invenção, desenvolvida por meio do acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) firmado entre o Instituto de Biologia da Unicamp e a TMG. Uma equipe de quinze pessoas, entre estudantes de pós-graduação, iniciação científica e pós-doutorado, participou do desenvolvimento total da tecnologia. A Inova Unicamp conduziu toda a etapa de proteção intelectual, da avaliação de patenteabilidade até a redação e a submissão do pedido.

  • Pesquisa reduz em 40% mortalidade de ciclame atacado por fungo

    Pesquisa reduz em 40% mortalidade de ciclame atacado por fungo

    Pesquisadores brasileiros encontraram uma alternativa promissora para proteger o ciclame (Cyclamen) da murcha de Fusarium, principal doença que ameaça a cultura no país. A solução combina um composto natural extraído de plantas, o β-cariofileno, com óxido de grafeno, material derivado do grafite. Juntos, os dois elementos reduziram a mortalidade de plantas infectadas em 40% e retardaram o avanço da doença.

    A Embrapa Meio Ambiente (SP) conduziu o estudo em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a empresa PPS Compósitos. O ciclame, planta ornamental cultivada principalmente em Holambra (SP), vem ganhando espaço no mercado brasileiro: o país já responde por cerca de 40% da produção sul-americana da espécie.

    Fungo pode destruir até 70% da produção

    O Fusarium oxysporum ataca as plantas de ciclame e compromete sua fisiologia, podendo matar até 70% dos exemplares em cultivos comerciais. Diante desse cenário, produtores e pesquisadores buscam alternativas que reduzam as perdas sem recorrer exclusivamente a fungicidas tradicionais.

    A equipe identificou o β-cariofileno ao analisar os compostos voláteis liberados por plantas de ciclame após a infecção pelo fungo. A molécula, presente também em espécies das famílias Asteraceae e Cannabaceae, já atuava como sinal capaz de ativar mecanismos naturais de defesa vegetal.

    Grafeno prolonga ação do composto natural

    Isoladamente, o β-cariofileno inibe o crescimento do fungo em testes de laboratório, mas se volatiliza rapidamente, perdendo eficácia. É aí que entra o óxido de grafeno: o material forma uma camada protetora sobre o composto, retendo-o na planta por mais tempo e potencializando seu efeito.

    A combinação de β-cariofileno, molécula do próprio ciclame, e do óxido de grafeno reduziu em 40% a mortalidade de plantas infectadas. Foto: Andre May /Embrapa

    “O óxido de grafeno atua como adsorvente do ácido fusárico, toxina produzida pelo fungo, reduzindo os danos causados à planta”, explica o pesquisador Bernardo Vieira. Sozinho, o grafeno não combate o fungo, mas a associação com o β-cariofileno gera um efeito sinérgico que aumenta a eficácia geral do tratamento.

    A pesquisadora Sônia Queiroz reforça que testes in vitro mostraram redução de até 40% no crescimento do F. oxysporum quando exposto ao β-cariofileno. Já a analista Márcia Assalin destaca que a estrutura única do grafeno protege substâncias benéficas contra a degradação.

    Testes em casa de vegetação confirmam eficácia

    Os cientistas aplicaram os tratamentos em dois genótipos de Cyclamen, “Verano Red Solar” e “Magenta”, testando tanto a pulverização quanto a endoterapia, técnica que injeta a solução diretamente nos bulbos das plantas. Em ambos os métodos, a combinação de β-cariofileno e grafeno retardou o aparecimento dos sintomas da murcha em até 26 dias.

    Além de conter a doença, o tratamento trouxe ganhos para a produtividade: as plantas tratadas apresentaram maior crescimento e biomassa nas partes aéreas, e a floração antecipou-se em 11% em relação às plantas não tratadas. Segundo o pesquisador André May, esse resultado indica efeitos diretos sobre a produtividade e o valor ornamental das flores.

    Estudo comprova segurança ambiental

    Antes de validar a estratégia, a equipe avaliou os riscos ambientais do composto. Pesquisadores testaram o β-cariofileno em organismos de diferentes níveis, como microalgas, plantas aquáticas, microcrustáceos e nematoides.

    A pesquisa reforça alternativas sustentáveis para o manejo fitossanitário, com potencial para reduzir o impacto ambiental. Foto: Andre May /Embrapa

    “Os resultados indicaram baixa toxicidade para a maioria das espécies, permitindo a determinação de concentrações seguras para ambientes aquáticos”, revela o pesquisador Claudio Jonsson. Essa etapa garante que a solução possa avançar rumo à aplicação comercial sem comprometer o meio ambiente.

    May resume o potencial da descoberta: a combinação entre β-cariofileno e óxido de grafeno representa uma estratégia inovadora e sustentável para proteger plantas ornamentais, reduzir perdas econômicas e aumentar a durabilidade das flores. Para os produtores de Holambra e de outras regiões que cultivam ciclame, a novidade pode representar uma ferramenta adicional no manejo fitossanitário, com menor dependência de insumos químicos convencionais.

  • Tecnologia amplia detecção de agrotóxicos e fármacos na água

    Tecnologia amplia detecção de agrotóxicos e fármacos na água

    Um método desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente (SP) em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) elevou a precisão na detecção de contaminantes emergentes em água. A técnica amplia a sensibilidade das análises e permite identificar substâncias em concentrações extremamente baixas, o que fortalece o monitoramento ambiental e a segurança hídrica.

    A fusão das técnicas de cromatografia líquida e espectrometria de massas viabiliza monitoramentos ambientais mais abrangentes. Foto: Bianca Ferreira

    O estudo integra uma tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Química da Unicamp, com coorientação da Embrapa. A proposta viabiliza análises mais completas e automatizadas, com potencial de aplicação em órgãos de fiscalização e sistemas de abastecimento.

    A pesquisa parte de um cenário crescente de preocupação: além dos poluentes tradicionais, como metais pesados e resíduos industriais, cientistas já detectam contaminantes emergentes em rios, lagos e até na água potável. Entre eles estão agrotóxicos, fármacos, hormônios, surfactantes, presentes em detergentes, xampus e cosméticos e outros compostos de uso doméstico.

    Essas substâncias, muitas vezes fora das legislações atuais, podem causar impactos à saúde humana e à vida aquática. Segundo a pesquisadora Bianca Ferreira, autora da tese, o principal desafio está na complexidade química desses compostos e nas baixas concentrações em que aparecem, geralmente na faixa de nanogramas por litro.

    Técnica amplia capacidade de detecção

    Para superar essas limitações, a pesquisa utiliza a cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas sequencial (LC-MS/MS). A técnica separa misturas complexas e identifica moléculas com alta precisão, permitindo tanto análises direcionadas, para compostos já conhecidos, quanto triagens que detectam substâncias suspeitas sem padrão prévio.

     

    O rio Mogi Guaçu foi um dos analisados no estudo. Foto: Robson Barizon / Embrapa

    De acordo com a professora Carla Bottoli, orientadora do trabalho na Unicamp, o método integra essas duas abordagens em um único protocolo analítico. Isso amplia a capacidade de identificar compostos presentes em baixos níveis e que não fazem parte das rotinas tradicionais de monitoramento.

    A pesquisadora Sonia Queiroz, da Embrapa Meio Ambiente, destaca que a metodologia pode apoiar estudos de impacto ambiental e o controle da qualidade da água, especialmente em regiões sob influência de atividades agrícolas e urbanas, onde há maior diversidade de contaminantes.

    Principais avanços da pesquisa:

    • Desenvolvimento de método analítico com preparo de amostras otimizado para extrair e concentrar contaminantes
    • Integração de análises direcionadas e triagem de compostos suspeitos
    • Uso de espectrometria de massas de alta resolução, que aumenta a seletividade e reduz erros analíticos

    Impactos para o monitoramento ambiental

    A nova abordagem oferece aplicação direta em políticas públicas e rotinas laboratoriais. O método pode auxiliar agências reguladoras na atualização de protocolos de análise da água, incluindo substâncias que hoje não entram nos testes convencionais.

    Com isso, o estudo contribui para aprimorar o controle da qualidade da água, reduzir riscos à saúde e fortalecer estratégias de gestão sustentável dos recursos hídricos. Um tema cada vez mais relevante para o agronegócio e para a segurança ambiental.

  • Satélite identifica cultivos de banana e pupunha com 93% de precisão

    Satélite identifica cultivos de banana e pupunha com 93% de precisão

    Imagens de satélite estão revolucionando o mapeamento agrícola em uma das regiões mais desafiadoras do Brasil. Um estudo conduzido por pesquisadores da Unicamp e Embrapa no Distrito Agrotecnológico (DAT) de Jacupiranga, no Vale do Ribeira (SP), demonstrou que a tecnologia pode alcançar mais de 93% de precisão na identificação de áreas agrícolas e vegetação nativa, mesmo em ambientes tropicais complexos.

    A pesquisa, publicada na revista internacional Agriculture, utilizou imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, combinadas com técnicas de inteligência artificial para mapear cultivos de banana e pupunha – as principais produções da agricultura familiar local.

    Desafios tropicais superados com tecnologia acessível

    O Vale do Ribeira apresenta condições particularmente difíceis para análise por satélite: cobertura persistente de nuvens, relevo acidentado, alta umidade e mosaicos complexos de pequenas propriedades intercaladas com fragmentos de Mata Atlântica. Apesar disso, os resultados mostraram-se compatíveis com estatísticas oficiais e métodos mais caros, como levantamentos por drones.

    “Justamente por isso, o Vale do Ribeira é um território estratégico para aperfeiçoarmos métodos de mapeamento capazes de lidar com toda essa diversidade e, ao mesmo tempo, respeitar o contexto socioambiental local”, explica Victória Beatriz Soares, mestranda em geografia da Unicamp e uma das autoras do estudo.

    Pupunha ganha destaque no mapeamento digital

    Um diferencial importante da pesquisa foi incluir a pupunha como categoria independente. Tradicionalmente, levantamentos em regiões tropicais priorizam a banana devido à sua relevância comercial. Porém, o palmito de pupunha tem consolidado sua importância como alternativa sustentável à extração de palmeiras nativas.

    Cultivo de pupunha em Jacupiranga. Foto: Katia Nechet/Embrapa

    Para diferenciar as culturas, os pesquisadores testaram diversos índices espectrais. O destaque foi o NDWI, que mede a presença de água nas folhas e superou o tradicional NDVI (focado em vegetação verde) na precisão de identificação em ambientes úmidos.

    “Essa integração de dados do vigor vegetativo, da umidade e do solo provou ser um método mais robusto para mapear paisagens agrícolas heterogêneas, inclusive para diferenciar o cultivo da banana e da pupunha”, destaca Soares.

    Agricultura digital democratiza acesso à tecnologia

    O método viabiliza o monitoramento de paisagens agrícolas diversificadas a baixo custo e em grande escala. Isso pode apoiar políticas públicas, ampliar a assistência técnica e fortalecer programas voltados a pequenos e médios produtores rurais, que muitas vezes não têm acesso a tecnologias digitais.

    Segundo levantamentos da Embrapa, mais de 84% dos produtores rurais brasileiros já utilizam alguma tecnologia digital no campo, e 95% têm interesse em ampliar esse uso. O estudo mostra que essas ferramentas podem gerar benefícios concretos também para agricultores familiares e comunidades tradicionais.

    “A adoção de tecnologias digitais na agricultura brasileira, além de impulsionar a eficiência produtiva, também democratiza o acesso a ferramentas de gestão rural e amplifica ações de sustentabilidade”, afirma Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e coautor do trabalho.

    Sustentabilidade e conservação da biodiversidade

    A pesquisa demonstrou que sistemas produtivos diversificados são mais resilientes às mudanças climáticas. Além de gerar renda e garantir segurança alimentar, eles preservam serviços ambientais essenciais como conservação do solo, proteção de nascentes e manutenção da biodiversidade.

    Cultivo de banana em Jacupiranga. Foto: Graziella Galinari

    “O monitoramento digital permite ainda a detecção precoce de problemas fitossanitários em uma área extensa e de difícil acesso. Assim, subsidiando a tomada de decisão pelo poder público”, complementa Kátia Nechet, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

    O mapeamento digital pode ser usado para certificar práticas sustentáveis, valorizar a produção diversificada e abrir mercados para produtos diferenciados. Portanto, contribuindo para um futuro rural mais equilibrado entre produção e conservação.

    Projeto Semear Digital

    Os resultados integram as ações do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital). E é liderado pela Embrapa Agricultura Digital com financiamento da Fapesp. A iniciativa objetiva aumentar a participação de pequenos e médios produtores no processo de transformação digital no campo.

    Imagem do satélite Sentinel-2, município de Jacupiranga (SP), junho de 2025. Foto: Divulgação

    As pesquisas são desenvolvidas em 10 Distritos Agrotecnológicos em diferentes regiões do Brasil, funcionando como modelos de tecnologias e serviços digitais para solução de problemas reais. O projeto conta com instituições associadas como Esalq/USP, IAC, IEA, UFLA, Inatel e CPQD.

    O estudo completo “Mapping Banana and Peach Palm in Diversified Landscapes in the Brazilian Atlantic Forest with Sentinel-2” está disponível na revista Agriculture.

  • Casca de jabuticaba e óleo de pequi protegem probióticos em alimentos ácidos

    Casca de jabuticaba e óleo de pequi protegem probióticos em alimentos ácidos

    Pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA-Unicamp) desenvolveram uma tecnologia que pode transformar o mercado de alimentos funcionais. Eles criaram microesferas protetoras, utilizando casca de jabuticaba e óleo de pequi, que ampliam drasticamente a resistência de probióticos em produtos vegetais e à base de frutas.

    Foto: Igor Alisson /Inova Unicamp

    A inovação soluciona um grande entrave da indústria: a alta sensibilidade desses microrganismos benéficos à acidez, ao açúcar e às variações de temperatura em alimentos não lácteos. Com a nova técnica, os probióticos sobrevivem e permanecem viáveis em ambientes antes considerados hostis, como sucos, polpas, geleias e bebidas vegetais.

    Como funciona a proteção com frutas brasileiras

    A tecnologia aprimora uma patente anterior do mesmo grupo. Os cientistas combinam métodos de encapsulação para criar uma matriz com alginato de cálcio (polímero natural), casca de jabuticaba em pó e óleo de pequi. Essa combinação forma emulsões duplas que atuam como verdadeiros escudos para os probióticos.

    “Testamos os probióticos encapsulados em ambientes extremos, com alta acidez e concentração de açúcar, e eles permaneceram viáveis. A casca de jabuticaba e o óleo de pequi criam camadas adicionais de proteção”, explica o professor Juliano Lemos Bicas, um dos inventores da tecnologia.

    Além do ganho funcional, a fórmula valoriza a biodiversidade nacional e promove um aproveitamento mais nobre para resíduos agroindustriais. “A combinação não só apresenta melhor desempenho, como também transforma subprodutos, que muitas vezes viram compostagem, em ingredientes de alto valor agregado e benefício à saúde”, destaca Bicas.

    Próximos passos e licenciamento

    A pesquisa, conduzida junto aos doutores Marina Felix Cedran e Fábio Júnior Rodrigues, já passou por testes em escala piloto com parceiros industriais. O próximo objetivo é validar e ampliar a escala para produção industrial.

    A tecnologia tem proteção intelectual via Certificado de Adição e recebeu apoio da Agência de Inovação Inova Unicamp. Ela já está disponível no Portfólio de Tecnologias da universidade para licenciamento por empresas interessadas.

    “A Inova tem uma estrutura que nos orienta da proteção intelectual até a interface com empresas. É o que garante que nossas pesquisas cheguem ao mercado”, avalia o pesquisador.

    A inovação contribui diretamente para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 – Saúde e Bem-Estar, ao criar alternativas alimentares mais inclusivas e promover uma economia circular.

    Empresas interessadas em licenciar esta tecnologia podem entrar em contato diretamente com a Inova Unicamp através do formulário de conexão disponível no site da Agência.

  • Casca de romã revela potencial para combater infecções de pele

    Casca de romã revela potencial para combater infecções de pele

    Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) comprovaram a eficácia de extratos da casca de romã para combater bactérias que causam infecções em feridas cutâneas. O material demonstrou forte ação antimicrobiana, inclusive contra a Pseudomonas aeruginosa, um patógeno conhecido por sua alta resistência a tratamentos convencionais.

    Foto: Rodarte/Agência Agro em Campo

    O estudo, coordenado pelo pesquisador Mauricio Ariel Rostagno e liderado pela engenheira de alimentos Thaís Carvalho Brito Oliveira, contou com apoio da FAPESP. A equipe testou inicialmente extratos de 11 resíduos da indústria alimentar. A casca de romã se destacou por apresentar a maior atividade antimicrobiana e o maior teor de compostos fenólicos, potentes antioxidantes.

    Simulação computacional

    Para maximizar o potencial do resíduo, os cientistas empregaram uma ferramenta de simulação computacional. O objetivo era identificar solventes “verdes” (ecologicamente corretos) mais eficientes para extrair o ácido elágico, principal composto antimicrobiano da casca. Após selecionar solventes como acetona e álcool isopropílico diluídos em água, a equipe realizou uma validação laboratorial.

    “Produzimos novos extratos com esses solventes otimizados e testamos novamente sua atividade antimicrobiana em laboratório para confirmar o aumento da eficácia”, explica Thaís Oliveira, pós-doutoranda na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp.

    Os resultados, publicados no Journal of Food Processing and Preservation, abrem um amplo campo para pesquisas futuras. Os próximos passos incluem a análise de compostos puros, o estudo de combinações sinérgicas, testes de citotoxicidade e a aplicação dos extratos otimizados em curativos inteligentes.

    O estudo ainda se encontra em fase de pesquisa e desenvolvimento laboratorial, com ensaios in vivo planejados para o futuro. A meta dos pesquisadores é dupla: oferecer uma alternativa natural aos antibióticos sintéticos, cujo uso indiscriminado gera resistência bacteriana,  e transformar um descarte da indústria alimentar em um produto de alto valor agregado para a saúde humana.

    Thais Szegö | Agência FAPESP

  • Tecnologia sustentável extrai isoflavonas do farelo de soja

    Tecnologia sustentável extrai isoflavonas do farelo de soja

    O que fazer com toneladas de farelo de soja que sobram depois da extração do óleo? E com as cascas das amêndoas de cacau, aquelas fibras que cheiram a chocolate mas acabam no lixo? Pesquisadores da Unicamp encontraram respostas para essas perguntas. E elas envolvem ondas ultrassônicas, alta pressão e zero desperdício.

    No Laboratório Multidisciplinar de Alimentação e Saúde da universidade, uma equipe liderada pelo engenheiro de alimentos Pedro Henrique Santos desenvolveu um método que extrai isoflavonas do farelo de soja de forma completamente sustentável. As isoflavonas são compostos que a indústria usa em suplementos, cosméticos e alimentos funcionais por seus benefícios à saúde: combatem doenças cardiovasculares, ajudam no controle da diabetes, tem ação anticancerígena e ainda aliviam sintomas da menopausa.

    Adeus aos solventes tóxicos

    O problema é que os métodos tradicionais para extrair essas substâncias usam solventes químicos prejudiciais ao meio ambiente e demoram horas pra completar o processo. “Nossa pesquisa buscou resolver essa questão aplicando uma tecnologia inovadora”, explica Santos. A solução? Combinar solventes ecológicos sob alta pressão com ondas ultrassônicas que intensificam a extração.

    Mas os cientistas foram além. Depois de extrair as isoflavonas, eles aplicaram uma enzima que quebra essas moléculas em pedaços menores, genisteína e daidzeína, que o corpo humano absorve muito mais facilmente. É como transformar um pedaço grande de pão em migalhas: fica mais fácil de digerir.

    “A junção das duas etapas resultou em um extrato totalmente rico em isoflavonas já na forma ativa, em menos tempo do que os métodos tradicionais e de maneira 100% sustentável”, destaca o pesquisador. E tem mais: o farelo que sobra mantém seu alto teor de proteína, podendo virar ração animal ou suplemento proteico vegetal. Dois produtos nobres a partir de um único resíduo.

    Cascas de cacau viram ouro

    Enquanto parte da equipe se dedicava à soja, outros pesquisadores do mesmo laboratório olharam pra um subproduto igualmente negligenciado: as cascas das amêndoas de cacau. “Elas lembram os nibs de cacau, com um cheiro extremamente parecido, mas são muito fibrosas, por isso normalmente são descartadas”, conta Felipe Sanchez Bragagnolo, engenheiro de processos e biotecnologia.

    O material, descobriram os cientistas, esconde compostos valiosos para as indústrias de alimentos e cosméticos. Pra extrair essas substâncias, a equipe, que contou com colaboradores da Espanha e da Austrália, usou um equipamento que trabalha com pressões muito superiores às de uma panela de pressão comum.

    Nesse sistema, água e etanol (solventes seguros) passam pelas cascas e retiram os compostos de interesse. Depois, a solução entra num “filtro inteligente” que separa tudo conforme afinidade química: o que “gosta” mais de água sai nas frações aquosas; o que “prefere” etanol aparece nas frações alcoólicas.

    Frações puras para indústrias exigentes

    O resultado impressiona. Os pesquisadores conseguiram obter uma fração rica em teobromina (principal composto das cascas), seguida por outra cheia de cafeína e uma última repleta de compostos fenólicos. Tudo separadinho, purinho.

    “Os achados podem ser empregados em diferentes abordagens”, explica Bragagnolo. Uma aplicação imediata é no controle de qualidade da matéria prima.Agora é possível verificar em menos etapas o que há e quanto há no material vegetal. Outra possibilidade mais específica envolve o uso dirigido das frações.

    Se uma indústria quiser usar teobromina num produto, por exemplo, basta ampliar a escala do processo pra obter uma fração enriquecida e mais pura desse composto, extraído diretamente das cascas que antes iriam pro lixo.

    Economia circular na prática

    Os dois estudos demonstram como resíduos agroindustriais podem se transformar em matérias-primas valiosas. Com tecnologias limpas, processos mais rápidos e produtos de alto valor agregado, a pesquisa da Unicamp mostra um caminho viável pra economia circular no Brasil.

    E o melhor: tudo isso sem comprometer o meio ambiente. Nada de solventes tóxicos, nada de desperdício. Só ciência brasileira fazendo o que faz de melhor, encontrar soluções inteligentes pros nossos desafios.

  • Farinhas de amoreira e ora-pro-nóbis turbinam a imunidade

    Farinhas de amoreira e ora-pro-nóbis turbinam a imunidade

    Um avanço científico promete revolucionar a nutrição animal na piscicultura brasileira. Pesquisas realizadas pela Embrapa Meio Ambiente, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), demonstram que as farinhas das folhas de amoreira e ora-pro-nóbis são poderosos ingredientes para reforçar a imunidade de peixes e reduzir a dependência de proteínas de origem animal, como a farinha de peixe e o farelo de soja.

    Os estudos, conduzidos com as espécies pacu e tilápia-do-Nilo, mostram que a inclusão moderada dessas farinhas nas rações resulta em melhor digestibilidade, fortalecimento do sistema imunológico e baixo impacto ambiental, pavimentando o caminho para uma aquicultura mais sustentável e competitiva.

    Imunidade reforçada e alta sobrevivência contra doenças

    Além do excelente perfil nutricional, os pesquisadores testaram o efeito prático das farinhas na saúde dos animais. Pacus e tilápias alimentados com rações contendo 6% de farinha de amoreira e 32% de ora-pro-nóbis apresentaram uma resposta imunológica superior e maior resistência à bactéria Aeromonas hydrophila, uma das principais causas de perdas na piscicultura mundial.

    Os resultados foram expressivos: a taxa de sobrevivência dos pacus desafiados pela bactéria chegou a 100%, enquanto as tilápias do grupo alimentado com a dieta vegetal atingiram 66,7% de sobrevida. “Os peixes também mostraram parâmetros sanguíneos mais equilibrados, redução de estresse e boa condição corporal, indicativos de saúde e nutrição adequada”, explicou Márcia Ishikawa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

    Vantagens nutricionais, econômicas e ambientais

    De acordo com a doutoranda Patrícia da Silva Dias, autora dos testes, a farinha de ora-pro-nóbis se destacou pela alta digestibilidade de proteína (64,9%). Enquanto a farinha de amoreira teve melhor aproveitamento de lipídios (76,7%). Ambas mantiveram níveis adequados de energia e aminoácidos essenciais.

    “Essas duas plantas oferecem uma alternativa local e econômica para a formulação de rações. Reduzindo a dependência da farinha de peixe e/ou do farelo de soja”, destacou Dias.

    A segurança ambiental das farinhas foi atestada em ensaios ecotoxicológicos, sendo classificadas como “praticamente não tóxicas” para organismos aquáticos. Isso segundo padrões da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA).

    Futuro sustentável para a piscicultura

    Para o professor Fábio Meurer, co-orientador do trabalho, o cultivo da amoreira e do ora-pro-nóbis em pequenas propriedades pode reduzir custos e fortalecer a produção familiar, aproveitando insumos locais.

    A inclusão moderada dessas farinhas nas rações comerciais representa, portanto, um marco. “É um avanço na busca por uma piscicultura mais competitiva, sustentável e menos dependente de insumos químicos”, afirma o pesquisador Julio Queiroz, membro da equipe. A descoberta não apenas melhora a saúde dos peixes. Mas também consolida um modelo de produção mais alinhado com as demandas ambientais e econômicas do Brasil.

  • Peixe e castanha: como a dieta amazônica protege ribeirinhos do mercúrio do garimpo

    Peixe e castanha: como a dieta amazônica protege ribeirinhos do mercúrio do garimpo

    A resposta para um dos maiores problemas ambientais da Amazônia pode estar justamente no prato dos ribeirinhos. Enquanto o garimpo ilegal contamina rios com mercúrio, a mesma dieta baseada em peixe que expõe essas comunidades ao metal tóxico parece também protegê-las dos seus efeitos devastadores.

    O segredo? O selênio, um mineral essencial encontrado principalmente na carne de peixes e na castanha do Brasil. Segundo estudo publicado recentemente na revista científica Chemosphere, esse elemento pode estar funcionando como um verdadeiro antídoto natural contra a intoxicação por mercúrio.

    O paradoxo do peixe amazônico

    Para os ribeirinhos que vivem nas bacias dos rios Tapajós e Amazonas, no Pará, o peixe não é opcional — ele representa 80% da proteína consumida diariamente. Isso significa exposição constante ao mercúrio, já que o metal usado para separar ouro no garimpo contamina os peixes através da água.

    Mas aqui surge o paradoxo: mesmo com níveis altíssimos de mercúrio no organismo, essas populações não apresentam os sintomas esperados de intoxicação. A explicação pode estar nos também elevados níveis de selênio que eles consomem naturalmente.

    “Esta é a maior coorte humana rastreando mercúrio e selênio nessas populações amazônicas”, explica Gabriel Neves Cezarette, pesquisador da USP Ribeirão Preto e da Université de Pau et des Pays de l’Adour, na França. Ele destaca que essas comunidades estão “entre as mais impactadas pelo mercúrio” mas, curiosamente, apresentam “valores distintos de selênio no sangue, geralmente entre os mais altos do mundo”.

    Como foi feito o estudo

    A pesquisa coordenada pelo professor Fernando Barbosa Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP, analisou 1.089 adultos de 13 comunidades ribeirinhas. De forma pioneira, a equipe coletou e examinou três tipos de amostras: sangue, plasma e urina.

    Cada uma dessas análises revelou informações complementares. O sangue mostra a carga recente de mercúrio e selênio no corpo. O plasma indica quanto desses elementos está biodisponível. Ou seja, circulando livremente e capaz de interagir com tecidos. Já a urina oferece um panorama da excreção, principalmente do mercúrio inorgânico.

    As amostras foram processadas por espectrometria de massas com plasma indutivamente acoplado, uma técnica tão sensível que consegue detectar elementos químicos mesmo em concentrações mínimas.

    Descobertas que desafiam expectativas

    Os resultados trouxeram surpresas. Pesquisadores encontraram diferentes níveis de mercúrio nos indivíduos dependendo da frequência com que comiam peixe — o que era esperado. Mas os níveis de selênio se mantiveram consistentemente altos em todas as comunidades estudadas, independente da dieta específica de cada uma.

    Mais intrigante ainda: apesar dos valores extremamente elevados de selênio (que em outras circunstâncias causariam selenose, com sintomas como queda de cabelo, fragilidade de unhas, problemas gastrointestinais e até danos renais), nenhum dos participantes apresentou esses problemas.

    “As correlações positivas das concentrações de mercúrio encontradas no sangue e plasma e excretadas pela urina são explicadas pela interação com os níveis, também altos, de selênio”, acredita Cezarette.

    A ciência por trás da proteção

    Um segundo estudo, conduzido em parceria com a Unicamp e liderado pela professora Ljubica Tasic, foi além e aplicou uma abordagem inédita em metabolômica, o estudo de pequenas moléculas no organismo.

    Os cientistas descobriram que subgrupos com níveis mais elevados de selênio apresentaram mudanças significativas no perfil metabólico. Indivíduos altamente expostos ao mercúrio, mas com bastante selênio no corpo, tinham um metabolismo mais parecido com pessoas que exibiam baixas concentrações de ambos elementos.

    Cezarette explica que isso provavelmente está “relacionado à formação de complexos entre o mercúrio-selênio e à atuação de selenoproteínas em mecanismos de defesa antioxidante”. Selenoproteínas são proteínas especiais que contém selênio em sua estrutura e são essenciais para manter a saúde humana funcionando adequadamente.

    Por que isso importa

    O mercúrio orgânico presente nos peixes é um neuro tóxico potente. Ele se liga às proteínas do organismo humano, provocando estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e danos ao sistema nervoso central. Exposições crônicas também causam problemas cardiovasculares, imunológicos e alterações no metabolismo energético.

    “Medir simultaneamente essas matrizes pode ajudar a compreender a dinâmica de absorção, distribuição e excreção, além de identificar possíveis interações que existam entre o mercúrio e o selênio no organismo”, explica o professor Barbosa Junior.

    Da ciência para as comunidades

    Após concluir o estudo, os pesquisadores não ficaram apenas nos laboratórios. Eles voltaram às comunidades ribeirinhas para campanhas de conscientização.

    “Preparamos alguns flyers, algumas palestras em uma linguagem mais acessível para que eles conheçam um pouco mais sobre a problemática do mercúrio, sobre as perspectivas que temos em relação a como diminuir esses efeitos tóxicos”, conta Cezarette.

    Para Barbosa Junior, os resultados “fornecem subsídios para políticas públicas de saúde e segurança alimentar, destacando a necessidade de monitoramento contínuo da exposição ao mercúrio e manutenção adequada de selênio na dieta”.

    Os pesquisadores já planejam complementar esses achados com técnicas ainda mais avançadas para identificar as possíveis interações entre mercúrio, selênio e outras moléculas do organismo humano.

    Enquanto isso, a descoberta reforça a importância de estratégias de comunicação de risco e programas de vigilância ambiental e nutricional que podem proteger comunidades vulneráveis. Especialmente enquanto o garimpo ilegal continuar contaminando os rios amazônicos.

    A natureza, ao que tudo indica, já havia fornecido uma solução parcial para o problema que o próprio ser humano criou. Agora cabe à ciência entender completamente esse mecanismo e às políticas públicas garantir que essas populações continuem tendo acesso a uma alimentação que, paradoxalmente, as expõe e protege ao mesmo tempo.

    Matéria do Jornal da USP, de autoria de Carol Castro

  • Etanol brasileiro pode alcançar emissão negativa de carbono

    Etanol brasileiro pode alcançar emissão negativa de carbono

    Os pesquisadores da Embrapa e Unicamp desenvolveram estudo revolucionário sobre biocombustíveis. A pesquisa demonstra que novas tecnologias podem zerar a pegada de carbono do etanol. Além disso, o processo consegue até mesmo gerar emissões negativas no setor.

    Tecnologias inovadoras transformam setor sucroenergético

    O estudo avaliou duas tecnologias principais para reduzir emissões de carbono. Cientistas analisaram o sistema BECCS e a aplicação de biochar em canaviais. Essas soluções podem ampliar significativamente os benefícios do programa RenovaBio.

    O BECCS captura carbono biogênico emitido durante a produção de etanol. Durante a fermentação, as usinas liberam dióxido de carbono que pode ser capturado. Posteriormente, o CO₂ fica armazenado em formações rochosas subterrâneas de forma permanente.

    A Usina FS já aplica essa tecnologia pioneira no território brasileiro. A iniciativa reforça o papel dos biocombustíveis na economia de baixo carbono. Entretanto, o processo ainda demanda altos investimentos e infraestrutura especializada.

    Biochar melhora solo e sequestra carbono

    O biochar transforma resíduos vegetais em material estável de carbono. Pesquisadores submetem bagaço de cana à pirólise com pouco oxigênio. O resultado é um biocarvão que melhora propriedades físicas do solo.

    Produtores aplicam o material nos canaviais para sequestrar CO₂ por décadas. Cada tonelada de biochar pode capturar até 1,42 toneladas de carbono equivalente. Além disso, o produto atua como corretivo agrícola natural nas lavouras.

    Redução drástica na intensidade de carbono

    Atualmente, o etanol hidratado brasileiro apresenta 32,8 gramas de CO₂ por megajoule. Com BECCS na fermentação, o índice cairia para apenas 10,4 gramas. A aplicação de biochar reduziria as emissões para 15,9 gramas por megajoule.

    Lucas Pereira, pesquisador da Embrapa, explica cenários ainda mais ambiciosos possíveis. “A captura durante a combustão permitiria resultados negativos de -81,3 gramas”, afirma. Isso significa que o etanol removeria mais carbono do que emite.

    Custos elevados limitam adoção das tecnologias

    Nenhuma das 300 usinas certificadas pelo RenovaBio adota essas tecnologias atualmente. Os créditos de descarbonização negociam a cerca de US$ 20 por tonelada. Porém, o BECCS custa entre US$ 100 e US$ 200 por tonelada capturada.

    O biochar apresenta custo médio de US$ 427 por tonelada do produto. Esses valores elevados impedem a implementação em larga escala no momento. Especialistas apontam necessidade de novos mecanismos de incentivo econômico e regulatório.

    Duas frentes de captura de carbono

    Nilza Patrícia Ramos, da Embrapa, destaca duas frentes de aplicação estudadas. A primeira ocorre durante a fermentação alcoólica nas usinas de etanol. A segunda acontece na geração de eletricidade a partir de biomassa.

    “A fermentação emite CO₂ relativamente puro e mais fácil de capturar”, explica. Já a combustão pode gerar emissões negativas em maior escala comercial. Contudo, essa opção enfrenta custos mais altos e desafios de infraestrutura.

    Plantas-piloto já testam armazenamento de carbono em usinas de etanol. Entretanto, nenhuma unidade sucroenergética opera comercialmente com a tecnologia ainda. Especialistas alertam sobre necessidade de mapear formações geológicas adequadas para armazenamento.

    Biochar reduz também outros gases de efeito estufa

    Cristiano Andrade, pesquisador da Embrapa, destaca benefícios adicionais do biochar. O produto reduz emissões de óxido nitroso, gás muito mais potente. Experimentos consideram aplicação entre 1 e 4 toneladas por hectare cultivado.

    A taxa menor é compatível com a rotina atual das usinas. A maior representa o limite viável conforme disponibilidade de resíduos agrícolas. Porém, aplicações excessivas podem afetar negativamente a fertilidade do solo.

    Etanol supera gasolina e compete com elétricos

    Pesquisadores compararam emissões de veículos movidos a etanol, gasolina e eletricidade. Mesmo sem tecnologias de emissão negativa, o etanol apresenta menor intensidade. Com BECCS e biochar, a vantagem ambiental aumenta significativamente em relação.

    Em alguns cenários, o etanol pode superar até veículos elétricos brasileiros. Isso ocorre quando se considera a eletricidade média do sistema nacional. O biocombustível demonstra potencial competitivo frente a todas as alternativas atuais.

    RenovaBio precisa de políticas complementares

    O programa RenovaBio estimula biocombustíveis com baixa emissão de gases estufa. Distribuidoras de combustíveis fósseis adquirem CBIOs para compensar suas emissões. Cada crédito equivale a uma tonelada de CO₂ evitada no ambiente.

    Contudo, o incentivo financeiro atual pode não viabilizar tecnologias de captura. O estudo sugere linhas de financiamento e mercado voluntário de carbono. Nos Estados Unidos, o crédito tributário 45Q remunera até US$ 180/tCO₂.

    Potencial de reduzir 12% das emissões nacionais

    A implementação em larga escala geraria ganhos expressivos para o Brasil. A combinação de tecnologias poderia resultar em 197 milhões de toneladas. Isso equivale a 12% de todas as emissões brasileiras registradas em 2022.

    O cenário mais viável capturaria cerca de 20 milhões de toneladas anualmente. Cada usina certificada sequestraria em média 75 mil toneladas de carbono. Esse volume seria decisivo para cumprimento das metas climáticas brasileiras até 2030.

    O país precisa reduzir emissões líquidas para 1.200 milhões de toneladas. Isso representa 500 milhões a menos que o total emitido em 2022. As tecnologias de emissão negativa acelerariam significativamente esse processo de descarbonização.

    Desafios na coleta de dados agrícolas

    Autores do estudo alertam sobre fragilidades no inventário de dados agrícolas. Usinas ainda apresentam dificuldades para mensurar emissões com precisão total. Isso pode gerar superestimativas ou subestimativas nos cálculos de impacto ambiental.

    A análise de mudanças no uso da terra ainda carece de detalhamento. Esse fator é central para avaliar sustentabilidade real da bioenergia brasileira. Especialistas recomendam aprimoramento urgente dos sistemas de monitoramento e rastreabilidade.

    Brasil pode liderar transição para combustíveis limpos

    O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol e biodiesel. O país dispõe de infraestrutura agrícola e industrial robusta para expansão. Além disso, políticas consolidadas como RenovaBio oferecem base regulatória sólida.

    O etanol brasileiro já se destaca como combustível de baixo carbono. Com tecnologias de emissão negativa, o país daria salto qualitativo expressivo. Isso colocaria o Brasil na vanguarda da transição energética global atual.

    O biocombustível nacional competiria não apenas com combustíveis fósseis tradicionais. A disputa incluiria também veículos elétricos e hidrogênio verde no mercado. Pesquisadores veem oportunidade única para o agronegócio brasileiro se posicionar estrategicamente.

    Futuro depende de articulação entre setores

    O avanço das tecnologias exige equilíbrio entre inovação e economia sustentável. Mecanismos econômicos precisam tornar o carbono negativo competitivo internacionalmente. Políticas públicas mais ambiciosas são fundamentais para viabilizar os investimentos necessários.

    O futuro do etanol depende menos da disponibilidade técnica das soluções. O desafio central está na capacidade de articular incentivos econômicos eficazes. Somente assim o Brasil transformará o carbono negativo em ativo competitivo.

    Os pesquisadores concluem que o momento é estratégico para o setor sucroenergético. A janela de oportunidade está aberta para liderança brasileira em biocombustíveis avançados. Entretanto, isso requer decisões coordenadas entre governo, setor privado e academia.