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  • Pesquisadora apresenta raio-x do agronegócio baiano

    Pesquisadora apresenta raio-x do agronegócio baiano

    Baianópolis, município de 14 mil habitantes no oeste da Bahia, fica no Matopiba, uma das regiões mais dinâmicas do agronegócio brasileiro. Ainda assim, apenas 20% da cadeia produtiva da soja e do milho cultivados ali funciona localmente. O restante escoa para outros centros, levando junto empregos, renda e oportunidades. Esse paradoxo está no centro de uma pesquisa de doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília (UnB) que propõe um novo modelo de planejamento urbano para municípios pequenos. E que, em simulação, multiplica por 2,4 vezes cada real investido.

    A urbanista Carlla Brito Furlan Pourre desenvolveu o estudo, intitulado “Modelo conceitual de instrumento econômico: desenho e análise de aplicação para a viabilidade de projetos urbanos em pequenas cidades”. A tese parte de um diagnóstico econômico detalhado do município para, só então, definir programas, políticas e ações de desenvolvimento urbano alinhadas à realidade local. E não a modelos genéricos pensados para grandes capitais.

    O problema: instrumentos urbanos que ignoram cidades pequenas

    O Brasil tem 5.569 municípios. Desses, 3.370, quase 70%, têm menos de 20 mil habitantes, segundo o IBGE. Apesar de representar a maioria, essas cidades não contam com instrumentos de planejamento urbano adequados à sua escala.

    Os mecanismos hoje disponíveis, como a Operação Urbana Consorciada e os Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepac), nasceram para grandes centros. A Operação Urbana Consorciada une poder público e iniciativa privada para viabilizar intervenções como escolas, praças e unidades de saúde. Os Cepacs permitem que o mercado imobiliário construa acima dos limites urbanísticos estabelecidos em troca de contrapartidas financeiras.

    Segundo Carlla Pourre, esses instrumentos costumam chegar ao território sem estudos aprofundados e sem conexão com as necessidades reais da população. “São decisões pontuais, muitas vezes tomadas de forma unilateral pelo grupo político gestor ou até mesmo pela iniciativa privada”, afirma. Para municípios pequenos, onde o mercado imobiliário é restrito, esses mecanismos simplesmente não funcionam. “Há um verdadeiro vácuo de políticas de planejamento urbano voltadas às pequenas cidades”, diz a pesquisadora.

    O modelo: planejamento que começa pela economia

    A proposta de Carlla Pourre inverte a lógica tradicional. Em vez de partir do desenho urbano, o modelo começa pelo mapeamento econômico do município, suas vocações, lacunas e potencialidades. A partir desse diagnóstico, o poder público identifica cadeias de negócios estratégicas e estrutura infraestrutura, serviços e políticas públicas para fortalecê-las.

    “A tese propõe um modelo de desenvolvimento baseado em cadeias de negócios, no qual o planejamento urbano deixa de ser pensado apenas como desenho urbano e passa a ser articulado à dinâmica econômica local”, explica a urbanista. O objetivo é estimular a circulação de renda, criar atividades estratégicas e garantir a sustentabilidade financeira de projetos, públicos ou privados.

    Para municípios pequenos, a pesquisadora defende um modelo híbrido de financiamento, que combine recursos públicos, capital privado, financiamento de desenvolvimento e fundos multilaterais, calibrado às vocações econômicas de cada lugar.

    O caso Baianópolis: R$ 20 milhões que podem virar R$ 48 milhões

    O modelo chegou a números concretos quando a pesquisadora simulou a instalação de uma indústria esmagadora de soja em Baianópolis. Com investimento estimado em R$ 20 milhões, a projeção aponta impacto total de R$ 48 milhões na economia local, 2,4 vezes o valor aplicado. A simulação também indica a criação de cerca de 285 empregos diretos, indiretos e induzidos, além de R$ 8 milhões em renda anual gerada.

    Com a implantação do modelo completo, a cadeia do agronegócio de soja e milho no município avançaria de 20% para 41% de completude, com novos serviços e atividades econômicas integradas. “Assim, Baianópolis aproveitaria novos fluxos de capital, pessoas e serviços, aumentando a qualidade de vida da população local”, destaca Carlla Pourre.

    Hoje, a ausência de indústrias de processamento e a baixa oferta de serviços de apoio forçam trabalhadores a migrar para centros maiores e aprofundam informalidade, pobreza e desigualdade. Mesmo em um município inserido em uma das regiões agrícolas mais produtivas do país.

    Por que isso importa além da Bahia

    A pesquisadora defende que o modelo pode servir de referência para qualquer município que busque atrair investimentos, reduzir desigualdades e construir estratégias de crescimento mais sustentáveis.

    Mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional Carlla Brito Furlan Pourre. Foto: Divulgação

    Na prática, significa criar condições para reter população com mais oportunidades de trabalho, ampliar serviços urbanos e dinamizar a economia a partir das vocações do próprio território. E sem depender de receitas prontas feitas para realidades completamente diferentes.

  • Pesquisa revela potencial da canola brasileira para descarbonizar a aviação

    Pesquisa revela potencial da canola brasileira para descarbonizar a aviação

    Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Embrapa e da Universidade de Brasília (UnB) aponta que o combustível sustentável de aviação (SAF, do inglês Sustainable Aviation Fuel) produzido a partir de canola de segunda safra no Brasil tem potencial de reduzir em até 55% as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em relação ao querosene fóssil convencional Jet-A1. O resultado depende do cenário de adoção e considera toda a cadeia produtiva, do cultivo da oleaginosa até a queima do combustível na aeronave.

    A metodologia adotada pelos pesquisadores é a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), abordagem que mapeia os impactos ambientais em cada etapa do processo produtivo. “O setor aéreo precisa de alternativas tecnicamente viáveis para cumprir metas climáticas globais. E o SAF é hoje a principal estratégia de curto e médio prazo”, afirma Giulia Lamas, doutoranda da UnB e colaboradora da Embrapa Meio Ambiente. “Nosso diferencial foi analisar a canola cultivada como segunda safra no Brasil, em rotação com a soja, sob condições tropicais ainda pouco representadas na literatura internacional”, acrescenta.

    Potencial real, mas com limites regulatórios

    A analista da Embrapa Meio Ambiente Priscila Sabaini esclarece que a redução de 55% representa um potencial máximo, calculado em um cenário hipotético e otimista, ainda inviável na prática. Uma das principais barreiras é técnica e regulatória: o SAF do tipo HEFA (Hydroprocessed Esters and Fatty Acids), produzido a partir de óleos e gorduras vegetais, só pode compor até 50% da mistura com o querosene convencional. Ou seja, a substituição integral do combustível fóssil ainda não é possível.

    O estudo avaliou três cenários para a produção de um megajoule (MJ) de bioquerosene. Uso exclusivo de Jet-A1 fóssil; mistura de 50% SAF com 50% Jet-A1; e 100% SAF. Os resultados dialogam com diretrizes internacionais como o programa Corsia, da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). E com políticas nacionais como o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro.

    Agricultura concentra a maior parte das emissões

    Os dados mostram que a fase agrícola responde pela maior parcela das emissões ao longo do ciclo de vida do SAF de canola. O cultivo gera aproximadamente 34,2 g de CO₂ equivalente por MJ, volume impulsionado principalmente pela produção de fertilizantes e pelas emissões de óxido nitroso (N₂O) do solo. A etapa de conversão industrial via HEFA, quando utiliza hidrogênio de origem fóssil, adiciona cerca de 12,8 g de CO₂ eq./MJ.

    “A produção e o uso de fertilizantes, especialmente nitrogenados, representam o principal ponto crítico do sistema”, alerta Alexandre Cardoso, pesquisador da Embrapa Agroenergia. Ele destaca que os bioinsumos surgem como uma alternativa promissora para reduzir as emissões na produção da canola. O estudo também classifica os impactos dos fertilizantes em categorias como eutrofização (excesso de nutrientes em ambientes aquáticos que provoca proliferação de algas e queda nos níveis de oxigênio)  e toxicidade humana.

    “A análise evidencia que a sustentabilidade do SAF depende tanto de avanços industriais quanto de melhorias nas práticas agronômicas”, complementa o professor Edgar Amaral Silveira, da UnB, orientador e coautor do estudo.

    Hidrogênio verde muda o jogo

    A origem do hidrogênio utilizado na produção do combustível emerge como um dos fatores mais determinantes para o desempenho ambiental do SAF. Quando o hidrogênio fóssil cede lugar ao hidrogênio produzido a partir de fontes renováveis, como energia solar e eólica, as emissões na etapa industrial caem entre 86% e 94%. Em cenários mais avançados, com integração de hidrogênio de baixo carbono, o combustível final apresenta intensidade de carbono significativamente menor do que o querosene fóssil.

    “A integração entre bioenergia e hidrogênio renovável pode reduzir de forma importante a intensidade de carbono dos combustíveis de aviação”, destaca Silveira.

    Vantagem brasileira: canola que não compete por terra

    O Brasil reúne uma característica que diferencia positivamente o SAF nacional no cenário global. A canola ocupa áreas já utilizadas, como segunda safra de inverno em rotação com a soja, sem disputar espaço com outras culturas principais.

    “Aqui a canola não entra como cultura principal que ‘disputa’ área, mas como opção de segunda safra no inverno e na safrinha, em sistemas integrados de rotação”, explica Bruno Laviola, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agroenergia e pesquisador responsável pela tropicalização da canola. Segundo ele, essa característica melhora o desempenho de sustentabilidade da canola brasileira frente a regiões onde produtores a cultivam como safra única.

    O estudo aponta, contudo, que as emissões associadas à mudança indireta do uso da terra (iLUC) ficaram fora do escopo da análise,. Lacuna que os autores identificam como oportunidade para pesquisas futuras.

    Canola ainda está fora do RenovaCalc

    Os resultados também têm implicações diretas para o mercado de biocombustíveis no Brasil. Atualmente, a canola não integra a rota HEFA do RenovaCalc, ferramenta do programa RenovaBio para certificação da intensidade de carbono e emissão de Créditos de Descarbonização (CBIOs). A inclusão da oleaginosa nessa plataforma pode ampliar as opções de certificação e refletir melhor a diversidade agrícola do país.

    Os pesquisadores reforçam que a análise ambiental precisa ir além das emissões de CO₂. “A redução das emissões climáticas deve vir acompanhada de melhorias no uso de fertilizantes e na mitigação de impactos sobre água e ecossistemas”, afirma Sabaini. “O Brasil reúne condições favoráveis para integrar produção agrícola e energia renovável. O que pode ampliar ainda mais os benefícios climáticos do SAF”, acrescenta a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente Marilia Folegatti.

    O estudo é fruto de uma colaboração entre o Laboratório de Energia e Ambiente (LEA) da UnB, a Embrapa Agroenergia (DF) e a Embrapa Meio Ambiente (SP), e contribui para o debate internacional sobre a descarbonização da aviação.

  • Pesquisa: tratamento para Alzheimer a partir de veneno de vespa

    Pesquisa: tratamento para Alzheimer a partir de veneno de vespa

    Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) estão abrindo um caminho científico promissor e genuinamente brasileiro na luta contra o Alzheimer. Eles investigam o potencial terapêutico de uma substância extraída da peçonha da vespa social Polybia occidentalis para combater os mecanismos biológicos dessa doença neurodegenerativa que afeta mais de 1,2 milhão de pessoas no Brasil.

    Equipe coordenada pela professora Luana Cristina Camargo (ao centro) em parceria com pesquisadores de diferentes áreas. Foto: FAPDF

    Liderados pela professora Luana Cristina Camargo, do Instituto de Psicologia da UnB, o estudo multidisciplinar identificou que um peptídeo batizado de Octovespina, derivado do veneno do inseto, pode modular o acúmulo da proteína beta-amiloide no cérebro. O acúmulo dessa proteína em forma de placas é um dos principais eventos patológicos que desencadeiam o Alzheimer. Atrapalhando a comunicação entre neurônios e levando à degeneração celular.

    Da vespa ao laboratório: a jornada de uma molécula promissora

    A história da pesquisa começou há cerca de 25 anos, com os estudos da neurocientista Márcia Mortari sobre os efeitos neuroativos do veneno de marimbondos. A observação inicial de que a picada podia paralisar outros insetos despertou a hipótese de que compostos do veneno atuavam no sistema nervoso.

    A partir da ocidentalina-1202, um composto extraído diretamente da peçonha, os cientistas realizaram modificações em laboratório para criar a Octovespina, uma versão otimizada com foco específico no Alzheimer. Experimentos em animais já demonstraram resultados encorajadores. A substância não apenas impediu a formação de novos aglomerados de beta-amiloide, mas também amenizou déficits cognitivos, como a perda de memória, em camundongos que já apresentavam sintomas da doença.

    “Um dos grandes limitantes das pesquisas é o fato de que muitas vezes elas não olham para a parte do comportamento. A octovespina conseguiu interferir no mecanismo e melhorar os déficits”, explica a professora Luana Camargo.

    Inovação na entrega: A aposta em um spray nasal

    Um dos maiores desafios no tratamento de doenças cerebrais é a barreira hematoencefálica. Ela é uma estrutura protetora que também impede a entrada da maioria dos medicamentos no sistema nervoso central. Para contornar este obstáculo, os pesquisadores da UnB estão desenvolvendo uma via de administração inovadora: um spray nasal.

    Esta abordagem, considerada uma das mais promissoras, utiliza a mucosa nasal como rota direta para que compostos bioativos alcancem áreas cerebrais relacionadas à memória e cognição. O método promete maior eficiência, redução no tempo de resposta terapêutica e menos efeitos adversos em comparação com métodos invasivos.

    Simulações de ponta e uma longa estrada pela frente

    Para otimizar tempo e recursos, a equipe da UnB, que inclui físicos, farmacêuticos e biólogos, utiliza simulações computacionais de alta performance para prever as interações moleculares entre o peptídeo e as proteínas do cérebro.

    Esses modelos teóricos, que demandam capacidade de supercomputadores do Brasil e dos EUA, já indicaram um achado ainda mais empolgante. A Octovespina pode ter o potencial não só de retardar, mas de desfazer aglomerados de beta-amiloide já formados.

    Apesar do otimismo, os pesquisadores são realistas sobre o caminho a percorrer. A estimativa é de que sejam necessários pelo menos mais dez anos de pesquisa antes que um medicamento potencial chegue ao mercado. O percurso envolverá mais testes pré-clínicos, estudos para definir dosagens e segurança, e finalmente, ensaios clínicos em humanos, sujeitos à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

    Outras frentes brasileiras e a esperança de um novo paradigma

    A pesquisa da UnB se destaca em um cenário nacional de importantes descobertas sobre o Alzheimer. Cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por exemplo, publicaram um estudo na Nature Neuroscience mostrando que o acúmulo de proteínas tóxicas precisa estar associado a um processo inflamatório cerebral para que a doença se estabeleça. Esse entendimento pode reorientar o desenvolvimento de futuros tratamentos, que deverão mirar não apenas as “pedrinhas” (as placas de proteína), mas também “acalmar a conversa inflamatória” entre as células do cérebro.

    O trabalho com a Octovespina reforça, assim, o papel estratégico da biodiversidade brasileira como fonte inesgotável para a bioprospecção e a inovação terapêutica. Transformar moléculas da rica fauna nacional em tecnologias de alto impacto global representa uma mudança de paradigma. Da busca por apenas aliviar os sintomas do Alzheimer para a possibilidade real de interromper sua progressão.

  • Biscoito com casca de café valoriza Robustas Amazônicos

    Biscoito com casca de café valoriza Robustas Amazônicos

    A casca do café, antes usada como adubo, ganhou novo valor com uma inovação desenvolvida pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Embrapa Rondônia. As instituições criaram um biscoito elaborado com farinha de cafés Robustas Amazônicos (Coffea canephora), que já teve pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

    O produto substitui cerca de 30% da farinha tradicional, tornando-se uma opção mais saudável. A nova receita tem mais fibras, antioxidantes e cafeína, além de abrir um mercado promissor para o aproveitamento da casca do café no Brasil. O estudo foi conduzido ao longo de dois anos e reforça a sustentabilidade na cadeia do café amazônico.

    Casca de café ganha novo valor nutricional e sensorial

    Segundo o pesquisador da Embrapa Enrique Alves, as cascas dos cafés finos — que atingem mais de 80 pontos na avaliação da Specialty Coffee Association (SCA) — são insumos nobres, ricos em compostos sensoriais e nutricionais. “Entretanto, no Brasil, são usados, principalmente, como adubo”, explica.

    As variedades de Robustas Amazônicos, selecionadas pela Embrapa em parceria com cafeicultores nas Matas de Rondônia, receberam em 2021 a primeira Indicação Geográfica (IG) de Coffea canephora do mundo, concedida pelo INPI.
    O projeto envolve o desenvolvimento de cultivares adaptadas à Amazônia, cultivadas por agricultores familiares, indígenas e comunidades tradicionais. “Hoje em todo o estado de Rondônia, mais de 17 mil famílias cultivam essas variedades”, complementa Alves.
    >“Além da qualidade, as cascas dos cafés Robustas Amazônicos carregam características diferenciadas de sustentabilidade por serem cultivadas na Amazônia por povos indígenas e comunidades tradicionais”, destaca o pesquisador.

    Lançamento acontece durante a Semana Internacional do Café

    Foto: divulgação – UnB

    A inovação será apresentada no dia 6 de novembro, durante a Semana Internacional do Café (SIC), que ocorre de 5 a 7 de novembro, na Expominas, em Belo Horizonte (MG).
    >A feira é uma das maiores do mundo e conecta profissionais de toda a cadeia do café brasileiro, gerando oportunidades de negócios, conhecimento e acesso a mercados.
    >O biscoito também será oferecido para degustação durante a COP30, no Cooking Show da Agrizone – Casa da Agricultura Sustentável da Embrapa, no pavilhão “Comida, Tradição e Cultura”. O espaço será compartilhado com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e promoverá trocas entre pesquisas e culinárias tradicionais.

    UnB e Embrapa estudam novos usos da casca do café

    A parceria entre a Embrapa Rondônia e a UnB busca valorizar as cascas dos Robustas Amazônicos em diferentes processamentos pós-colheita. A pesquisa é coordenada pela professora e engenheira de alimentos Lívia de Oliveira, da UnB.
    O estudo começou em 2023 e avaliou cascas da cultivar Apoatã em três tipos de processamento: natural, lavado e fermentação anaeróbica autoinduzida. As amostras foram analisadas quanto à composição química, bioativos e perfil sensorial.
    >Segundo Lívia, os resultados mostraram que:
    • As cascas naturais apresentaram mais compostos fenólicos, flavonoides, antocianinas e fibras, com aroma doce e caramelado.
    • As cascas lavadas exibiram menor complexidade química, com predominância de compostos estruturais e baixos teores de açúcares.
    • As cascas fermentadas variaram conforme o tempo de fermentação, mostrando aromas frutados e florais entre 4 e 20 dias.
    >Essas diferenças, explica a professora, resultam da ação microbiana que modifica açúcares e fenólicos, gerando perfis aromáticos distintos e aplicações variadas para cada tipo de casca.

    Novo biscoito tem mais fibras e menos açúcares

    Com base nos resultados, a UnB desenvolveu um biscoito com 30% de farinha de casca de robusta amazônico — um avanço inédito. Até então, o máximo de substituição de farinha registrado na literatura científica era de 15%.
    >As versões reformuladas, com lecitina e polidextrose, aumentaram em até 15 g de fibras por 100 g de produto. Além disso, reduziram 45% das gorduras saturadas e 25% dos açúcares adicionados, em conformidade com a RDC nº 429/2020 da Anvisa.
    A melhor aceitação sensorial foi observada nas amostras com cascas naturais e fermentadas por 4 ou 20 dias, que apresentaram notas doces, frutadas e amanteigadas.

    “Esses resultados evidenciam que o tipo de processamento da casca é determinante para as notas sensoriais do produto final, sendo um parâmetro-chave de inovação tecnológica e posicionamento sensorial. Todavia, todos os cookies elaborados apresentaram aceitação sensorial satisfatória”, afirma Lívia.

    O pedido de patente, registrado em 4 de setembro, foi feito com base em uma fermentação de 8 dias, que mantém o açúcar da polpa e realça notas frutadas.

    Mais de 250 consumidores participaram da degustação organizada pela UnB, aprovando as amostras desenvolvidas ao longo da pesquisa.

    Sustentabilidade e inovação impulsionam o café amazônico

    O desenvolvimento do biscoito com casca de café reforça a importância da inovação tecnológica e da economia circular na cafeicultura amazônica.

    A iniciativa valoriza o trabalho de produtores locais e incentiva o uso integral do fruto, unindo sustentabilidade, nutrição e sabor em um produto com potencial de mercado nacional e internacional.

     

  • Descoberta genética promete transformar cultivo de tomate no Brasil

    Descoberta genética promete transformar cultivo de tomate no Brasil

    A Embrapa alcançou um marco na pesquisa agrícola. Cientistas da empresa mapearam o genoma do tomateiro e identificaram o gene que confere porte ereto às folhas. O estudo contou com parceria da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Inia) do Uruguai.

    A descoberta promete revolucionar o melhoramento genético do tomate. Os pesquisadores agora podem desenvolver novas cultivares usando marcadores moleculares e biotecnologia avançada.

    Maria Esther Fonseca, pesquisadora da Embrapa Hortaliças, explica o processo. “Observamos plantas com mutação natural em nossa coleção de germoplasma”, conta. “Essas plantas apresentavam folhas eretas.”

    Os cientistas cruzaram essas plantas mutantes com tomateiros normais. O mapeamento genético revelou um padrão específico. Toda planta com porte ereto apresentava o mesmo marcador molecular de DNA.

    “Conseguimos localizar o gene exato no cromossomo 10 do tomateiro”, destaca Fonseca.

    Tecnologia CRISPR comprova função do gene

    Francisco Aragão, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, liderou a validação. Sua equipe usou a ferramenta CRISPR-Cas9 para editar genes de plantas normais. O resultado confirmou as expectativas: plantas editadas desenvolveram folhas eretas.

    “Percorremos todas as etapas desta descoberta”, explica Leonardo Boiteux, da Embrapa Hortaliças. “Desde a observação no campo até a prova final da função do gene.”

    Conhecimento se aplica a outras culturas

    A descoberta vai além do tomate. Estudos filogenéticos mostram genes similares em outras espécies. Milho, pêssego e diversas plantas herbáceas possuem variações do mesmo gene.

    “Podemos editar e gerar plantas eretas em outras espécies vegetais”, projeta Boiteux. A técnica pode beneficiar hortaliças, cereais e frutíferas.

    Aragão reforça o potencial da descoberta. “A estratégia contribui para enfrentar desafios de segurança alimentar e sustentabilidade”, afirma.

    Folhas eretas oferecem proteção térmica

    A arquitetura da planta impacta diretamente a produtividade. Folhas eretas distribuem melhor a luz solar e oferecem maior conforto térmico. O ângulo vertical minimiza a incidência solar direta. As plantas sofrem menos estresse por calor e perdem menos água.

    Matias González-Arcos, pesquisador do Inia, compara os modelos. “Plantas convencionais sofrem estresse oxidativo intenso das 11h às 15h”, explica. “Folhas eretas reduzem a evapotranspiração e criam proteção térmica natural.”

    Maior densidade de plantio gera mais produtividade

    O principal benefício está no adensamento do plantio. Produtores podem cultivar mais plantas por hectare sem competição excessiva por luz. O tomate para processamento industrial apresenta maior potencial. A técnica permite otimizar áreas de produção significativamente.

    Folhas verticais facilitam o controle químico e biológico de doenças. O manejo de oídio e moscas-brancas torna-se mais eficaz. Pedro Brício Brito Fernandes, estudante da UnB, pesquisou o tema em sua dissertação. “Plantas editadas receberam 2,5 vezes menos moscas-brancas”, revela.

    A posição ereta expõe a superfície inferior das folhas. Essa área, preferida pelas pragas para postura, fica mais acessível a inimigos naturais e condições ambientais desfavoráveis.

    A descoberta representa um avanço significativo para a agricultura brasileira. Os pesquisadores estabeleceram base genética sólida para desenvolver cultivares mais adaptadas ao cultivo intensivo.

  • Método promete mudar avaliação da qualidade do café

    Método promete mudar avaliação da qualidade do café

    Uma nova metodologia desenvolvida pela Embrapa e pela Universidade de Brasília (UnB) promete revolucionar a análise sensorial de cafés. Isso torna mais acessível para pequenos produtores e cooperativas avaliarem a qualidade do café. O nome do método é Perfil Descritivo Otimizado (PDO). Pesquisadores o adaptaram para o café e já descreveram todas as etapas do processo em um manual detalhado.

    O grande diferencial do PDO é a possibilidade de incluir consumidores e funcionários como avaliadores, eliminando a necessidade de especialistas altamente treinados. Com um treinamento mais simples, a metodologia permite que pequenas propriedades e cooperativas montem suas próprias equipes para análise. “Essa abordagem torna o processo mais ágil e reduz custos, sem comprometer a qualidade das informações obtidas”, explica Sônia Celestino, pesquisadora da Embrapa Cerrados e uma das responsáveis pelo projeto.

    Além disso, o método facilita a avaliação de atributos específicos, como aroma, acidez e amargor, e pode ser utilizado para selecionar amostras para concursos ou separar lotes especiais. A escala utilizada classifica os cafés em até 50 pontos, possibilitando identificar grãos ruins, bons e excelentes.

    Uma solução inspirada pela pandemia

    A adaptação do PDO surgiu durante a pandemia de Covid-19, que dificultou o uso de métodos tradicionais, mais complexos e demorados. A então mestranda Manuella Nascimento liderou o estudo com orientação de Celestino e da professora Lívia de Oliveira, no Departamento de Nutrição da UnB.  “Com o tempo reduzido, optamos por adaptar o método para o café, algo inédito até então”, relembra Oliveira.

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    Os pesquisadores apresentaram a metodologia no evento Coffee Brasília 2023, atraindo grande interesse de produtores e da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Segundo Celestino, o manual explica de forma didática todo o processo, permitindo que fazendas, cooperativas e universidades utilizem a ferramenta para melhorar seus processos e produtos.

    Entre as vantagens destacadas estão a redução do tempo necessário para as análises e o suporte na identificação de grãos com potencial para avaliação oficial pela Specialty Coffee Association (SCA). “Nosso método oferece uma análise inicial dos grãos, ajudando produtores a decidir quais amostras enviar para avaliações oficiais, que têm custo elevado”, destaca Celestino.

    Como funciona o treinamento dos avaliadores da qualidade do café

    O PDO exige uma equipe de 16 avaliadores, que passam por testes de sensibilidade para identificar gostos e aromas encontrados no café. A cada sessão, um atributo é avaliado em até seis amostras. O treinamento inclui referências para os principais atributos desejáveis (como aroma e doçura) e indesejáveis (como amargor residual).

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    Ao final do processo, os avaliadores calculam uma nota global que considera os atributos positivos e os defeitos. Produtores utilizam esses dados para ajustar técnicas de cultivo, enquanto empresas os empregam para aprimorar o controle de qualidade e atender às preferências dos consumidores.

    A Embrapa planeja utilizar a metodologia PDO em novos projetos de pesquisa para aprofundar o conhecimento sobre a qualidade sensorial do café. Com isso, o método promete se consolidar como uma ferramenta indispensável para a avaliação de cafés especiais. Democratizando o acesso a análises sensoriais de alta qualidade.