Tag: UFSC

  • Invasora e perigosa: Rã que “muge” é monitorada em Florianópolis

    Invasora e perigosa: Rã que “muge” é monitorada em Florianópolis

    A presença da rã-touro (Aquarana catesbeiana) passou a ser monitorada em Florianópolis após registros confirmados no bairro Ratones.

    A espécie é considerada exótica invasora e preocupa autoridades ambientais devido ao seu potencial de impacto sobre ecossistemas locais.

    Espécie invasora e de alto impacto ecológico

    Originária da América do Norte, a rã-touro foi introduzida no Brasil em 1935 para criação comercial.

    Hoje, é classificada como uma das espécies de maior risco ambiental por sua alta capacidade de adaptação e reprodução.

    Predação e risco para fauna nativa

    Segundo pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a rã-touro é uma predadora generalista.

    Sua dieta inclui peixes, anfíbios, répteis e pequenos mamíferos, o que amplia seu impacto ambiental.

    Além disso, seu porte avantajado facilita a ocupação de nichos ecológicos antes ocupados por espécies nativas.

    Monitoramento e ações em campo

    A primeira confirmação oficial ocorreu em outubro de 2025, com ações coordenadas pela FLORAM em parceria com a Prefeitura de Florianópolis.

    Desde então, foram realizadas operações de campo que resultaram na captura de exemplares juvenis e adultos.

    Os animais coletados foram encaminhados para análises laboratoriais, incluindo testes para doenças como ranavírus e quitridiomicose.

    Risco de disseminação e alerta ambiental

    A presença da espécie em múltiplas propriedades indica possível expansão silenciosa da população.

    Autoridades reforçam a importância do monitoramento contínuo e da detecção precoce para evitar impactos maiores sobre a fauna local.

  • Novas leveduras ampliam os sabores das cervejas nacionais

    Novas leveduras ampliam os sabores das cervejas nacionais

    O mundo das cervejas, que há alguns anos vive no país uma efervescência em razão da explosão de bebidas artesanais, comumente produzidas por pequenos produtores de forma quase intuitiva, também tem atraído a atenção da ciência. Equipes de diversos centros de pesquisa nacionais buscam desenvolver uma cerveja genuinamente nacional, com ingredientes locais e métodos adaptados de produção, diferente das encontradas nos supermercados, que geralmente seguem a receita tradicional europeia.

    Um dos grupos mais ativos está no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB-UFMG), que integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Leveduras. Usando leveduras brasileiras, a equipe já criou cinco novas “cervejas acadêmicas”, sendo a primeira delas, Star Brasilis, formulada em 2023. Leveduras são fungos unicelulares muito usados na indústria de alimentos, principalmente em processos de fermentação. Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pesquisadores elaboraram a Catharina Sour, modificando a Berliner Weisse, receita alemã do estilo Sour (do inglês “azedo”), para acrescentar sucos concentrados de frutas nativas. Soma-se a elas a Manipueira Selvagem, projeto inovador de cerveja, que combina mandioca e tradições indígenas, elaborado por empresas de Santa Catarina e de Minas Gerais.

    Starmerella meliponinorum

    O coordenador do INCT Leveduras, o biólogo da UFMG Carlos Augusto Rosa, identificou a levedura Starmerella meliponinorum, rebatizada com o nome comercial de Star Brasilis. Ela havia sido coletada por sua aluna de doutorado, Ana Raquel dos Santos, no néctar da flor da chama-da-floresta (Spathodea campanulata), uma árvore de até 25 metros (m) de altura, no campus da universidade. Segundo o pesquisador, a equipe da universidade realizou uma série de ensaios com diferentes leveduras para ver quais poderiam produzir uma cerveja de qualidade sem causar problemas ao organismo humano. “Testamos 150 linhagens e escolhemos a Star Brasilis pela riqueza sensorial que imprime na bebida”, ele conta. A cerveja de textura suave e acidez equilibrada, entrega sabores e aromas sutis de frutas, como abacaxi maduro, damasco e melão, e um leve toque de mel.

    Banco de leveduras

    O banco de leveduras tropicais do INCT soma 50 mil microrganismos, coletados em vários biomas do país. Uma vez selecionada a levedura, o laboratório torna-se um espaço para criar e testar diferentes combinações. Em equipamentos similares aos usados pelos cervejeiros amadores, os pesquisadores seguem o processo tradicional básico de produção, que consiste inicialmente na transformação do amido do malte em açúcares. Em seguida, vem a fervura do mosto (solução líquida rica em açúcares composta pelo malte de cevada e água quente) com lúpulo (Humulus lupulus), flor que confere amargor ao preparado. Por fim, o mosto é fermentado pela levedura, gerando álcool, gás carbônico (CO₂) e aromas (ver infográfico abaixo e Pesquisa FAPESP nº 251).

    Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP
    O grupo mineiro apresentou outras cervejas depois da Star Brasilis, feitas com ingredientes 100% brasileiros (levedura, lúpulo e malte). A Minha Honey Beer, uma Belgian Blond Ale (estilo de cerveja belga de cor dourada), fermentada por uma linhagem brasileira da levedura Saccharomyces cerevisiae, originalmente isolada de fermentação para a produção de cachaça artesanal, foi lançada em outubro de 2024 – essa espécie é largamente usada na indústria de bebidas, alimentos e biocombustíveis. Depois dela, em julho do ano passado, veio a Amazônia Sour Ybirá, cerveja de sabor mais ácido elaborada com frutas tropicais, como o cajá-mirim, a partir de uma levedura, Lachancea thermotolerans, isolada de madeira da floresta amazônica.

    Adaptação

    Em setembro de 2025, empregando a mesma levedura da Star Brasilis, os pesquisadores mudaram os ingredientes para produzir uma cerveja no estilo Fruit Beer, feita com coco e graviola. O rótulo mais recente foi a IPA Tropical, produzida com outra linhagem de S. cerevisiae de cachaça, que apresenta aromas intensos de manga, maracujá e laranja-da-terra e amargor equilibrado.

    As cervejas do tipo IPA (Indian Pale Ale) fermentam em temperaturas mais altas, têm aromas marcantes e amargor intenso em razão da elevada quantidade de lúpulo.

    Parceria

    Com o objetivo de levar as leveduras estudadas na universidade ao mercado, a UFMG assinou em 2022 com a startup Laboratório da Cerveja um contrato de transferência de tecnologia repassando a ela os direitos de exploração comercial desses microrganismos. “A Star Brasilis foi uma das cervejas em que o potencial das leveduras brasileiras foi testado em escala industrial. É uma cerveja leve e refrescante, turva, com espuma persistente”, avalia a bióloga Luciana Brandão, sommelier de cerveja e diretora-executiva da empresa, cuja sede fica em Nova Lima, município a 30 minutos de Belo Horizonte.

    Cervejas experimentais criadas com leveduras brasileiras na UFMGLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

    Brandão e sua equipe colocaram à disposição do mercado as novas espécies e linhagens descobertas pela equipe de Rosa. Não apenas a Star, mas também a levedura Torulaspora delbrueckii, encontrada sobre a casca de uma árvore do parque que abriga o Santuário Caraça, a 120 quilômetros (km) de Belo Horizonte. Por essa razão, foi rebatizada de Guará, em homenagem ao lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), que habita a região. “A levedura T. delbrueckii produz compostos com aromas florais e sabores de mel, pera e conhaque”, atestou a sommelier. A startup de Nova Lima já produziu em parceria com as cervejarias mineiras Prússia, Stardust e Verace algumas cervejas experimentais a partir das novas leveduras.

    INCT Leveduras

    Em outra vertente da parceria, o Laboratório da Cerveja trabalha com o INCT Leveduras multiplicando os microrganismos, que são vendidos em meio líquido para cervejarias artesanais. A forma líquida da levedura, no entanto, é pouco competitiva. As grandes cervejarias compram o microrganismo liofilizado (seco, em pó), que dura mais e pode ser transportado em grandes quantidades, enquanto no meio líquido ele deve ser refrigerado e usado em até 40 dias.

    O biólogo Jean Carlos Rodrigues da Silva, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em Sertãozinho, trabalha com a equipe da empresa Biosab Leveduras, de Ribeirão Preto, também no interior paulista, para desenvolver uma levedura em pó. Com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP, ele avalia o gosto e o aroma da bebida produzida a partir do pó para ver se o sabor agrada. “Se der certo, poderemos reduzir o custo e escalar a produção das cervejas artesanais brasileiras, o que diminuiria o preço”, acredita. Uma garrafa de cerveja artesanal com 300 a 500 mililitros [mL] custa, em média, de R$ 10 a R$ 35, até seis vezes o das equivalentes industrializadas.

    Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

    Descobertas como essas chamaram a atenção das grandes cervejarias interessadas em leveduras mais raras que permitem criar cervejas com identidade nacional. “Na Argentina, a Heineken adotou uma levedura selvagem, Saccharomyces eubayanus, encontrada por pesquisadores na Patagônia, e desenvolveu a H41 Wild Lager, lançada em 2017 como uma edição limitada, que trouxe aromas diferentes, mais intensos e levemente frutados”, conta Rosa, da UFMG.

    Lúpulo

    “A produção de lúpulo no Brasil é outra limitação para a criação de uma cerveja um pouco mais brasileira”, diz o farmacêutico Fernando da Costa, da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto, que trabalha com plantio experimental. Em artigo publicado na revista European Journal of Agronomy, de 2023, ele mostrou que é possível cultivar quatro variedades do lúpulo nas condições climáticas tropicais do estado de São Paulo. Agricultores de Minas Gerais, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, do Paraná, do Rio de Janeiro, de Mato Grosso e da Bahia trabalham há anos para adaptar aos trópicos essa trepadeira nativa de regiões de clima temperado.

    “A flor do lúpulo produzida no Brasil tem aroma e amargor parecidos com a importada, principalmente da Alemanha e dos Estados Unidos, mas a produção nacional ainda é pequena”, diz Costa. “E as grandes cervejarias precisam de uma quantidade vultosa e de qualidade homogênea de lúpulo, algo que ainda não conseguimos entregar.”

    Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

     

    Santa Catarina

    O prazer proporcionado pela cerveja não depende só das leveduras e do lúpulo. Em Florianópolis, uma equipe da UFSC fez algo novo, sob a inspiração da Berliner Weisse, cerveja típica de Berlim, a capital alemã. Leve e clara do estilo Sour, a bebida é caracterizada pela acidez refrescante e conhecida como Champagne do Norte, pela maior quantidade de espuma.

    A uma formulação básica, com base em trigo e cevada, os pesquisadores acrescentaram, aos poucos, durante a fermentação, doses comedidas de sucos concentrados de frutas nativas, como caju, seriguela, pitanga, cajá, graviola e cupuaçu. Como muitas cervejas de perfil ácido, a fermentação se dá em duas etapas. Na primeira, bactérias do gênero Lactobacillus convertem o açúcar do mosto em ácido lático. Depois, a levedura S. cerevisiae encerra a fermentação produzindo aromas frutados. A maturação normalmente é feita em tanques de aço inoxidável. Um artigo científico publicado em fevereiro na revista Food Chemistry Advances detalha seu modo de produção.

    Catharina Sour

    A cerveja produzida desse modo foi registrada com o nome de Catharina Sour e em 2018 foi a primeira criada no Brasil reconhecida pela Beer Judge Certification Program, uma organização norte-americana que avalia o que há de melhor do mundo nesse campo. Sua fórmula já foi registrada na Argentina, no Chile, no Equador, na Colômbia, na Alemanha e nos Estados Unidos. A produção da Catharina Sour em outros países ainda é limitada por causa das frutas nativas usadas na formulação original, raramente encontradas fora do Brasil, mas que a princípio poderiam ser substituídas por similares de cada lugar.

    Mas será que é boa mesmo? “A combinação de trigo e cevada cria uma sensação macia e aumenta a complexidade dos sabores”, descreve a neurocientista Amanda Reitenbach, da UFSC. Ela testou a reação dos consumidores que provaram a novidade e observou: “A cerveja agrada ao público pelo sabor leve e ácido e pelos aromas que lembram frutas cítricas ou iogurte, produzidos pela levedura, combinado às frutas brasileiras”.

    Levedura Lachancea thermotolerans, usada na fabricação da Amazônia Sour YbiráAmanda Canhestro/Outlab UFMG

    Pesquisas

    Outras linhas de pesquisa na UFSC e no IFSP buscam novas formas de resolver um problema da cerveja sem álcool, cada vez mais apreciada pelos consumidores, por serem refrescantes e combinarem com pratos leves como saladas e peixes. Não há grandes dificuldades em reduzir o teor alcoólico médio de 5% para 0,05%. O problema é que o sabor vai junto.

    Silva, do IFSP, que já trabalhou nisso, aponta duas possibilidades. A primeira é devolver ao líquido os compostos responsáveis pelo sabor e aroma. Outra consiste em usar leveduras, geneticamente modificadas ou não, que produzem pouco álcool. Como fermentam pouco, o gosto é mais adocicado. “O álcool é um conservante natural, que inibe os microrganismos. Sem ele, patógenos podem crescer mais facilmente”, acrescenta Reitenbach. Segundo ela, a Catharina Sour sem álcool e com maturação em madeira foi criada também para atender quem gosta desse tipo de bebida.

    Cerveja de mandioca

    As novas versões de cerveja que saem dos laboratórios de pesquisa são uma gota no mar dessa bebida – em 2024, as quase 2 mil cervejarias em operação no país produziram 15,3 bilhões de litros –, mas fazem pensar quão próximos estaríamos de uma amarelinha inteiramente nacional, com leveduras, lúpulo e cevada produzidos no país. Reitenbach e Costa concordam que, em vista das grandes quantidades de matérias-primas exigidas pelos fabricantes, a produção em larga escala de uma cerveja genuinamente nacional ainda é uma possibilidade remota.

    Mesmo que a definição seja a mesma instituída em 1516 na Baviera pelo duque Guilherme IV (1493-1550) – a cerveja deve conter apenas água, malte e lúpulo; a levedura, que não era conhecida na época, foi incluída depois –, parte do processo de produção no país foi adaptado dos aplicados nos Estados Unidos, na Bélgica ou na Alemanha.

    Equipe da UFSC realiza prova de cerveja desenvolvida na instituiçãoUFSC

    A cerveja mais brasileira criada até agora talvez seja a Manipueira Selvagem, lançada em 2022 por um projeto colaborativo liderado pelas cervejarias Cozalinda, em Florianópolis, e Zalaz, em Paraisópolis, Minas Gerais, com a participação do Centro Multidisciplinar de Tecnologia Cervejeira do IFSP, de Sertãozinho, e da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva).

    A novidade da bebida é que, ao mosto da cerveja, é misturado caldo de mandioca. Suas raízes remetem ao pajuaru ou paiauaru, uma bebida alcoólica tradicional indígena da Amazônia, feita com método parecido e a matéria-prima. A bebida original tem sabor forte, azedo e amargo, e pode facilmente embebedar quem não está acostumado com ela por ter um teor alcoólico que vai de 10% a 15% – nas cervejas tradicionais, esse número está em torno de 5%.

    Tempo de fermentação

    Outra diferença é o tempo de fermentação: em vez de um mês da bebida habitual, a Manipueira Selvagem descansa durante um ano, em barris de carvalho. A cerveja de mandioca é depois envasada e termina de fermentar na garrafa, quando o açúcar forma gás carbônico, o responsável pelas bolhas como as da champagne. É um processo semelhante ao usado para se fazer a cerveja do estilo Lambic em cervejarias belgas, que deixa microrganismos do ar cair no mosto, técnica chamada de fermentação espontânea. Há vários rótulos da Manipueira, vendidos principalmente em lojas especializadas. A garrafa de 375 mL custa em torno de R$ 35.

    “O processo de fabricação da Manipueira é parecido, mas as leveduras são substituídas pelos microrganismos do caldo da mandioca. E quase não se usa lúpulo”, nota Silva, do IFSP. Segundo ele, as variações regionais da planta conferem à Manipueira perfis sensoriais diferentes. “É espumante, com acidez equilibrada, um leve sabor de malte, lembrando pão, aroma de frutas cítricas, como o maracujá, e final seco. É o nosso terroir”, celebra Silva. Terroir é um termo usado para designar principalmente vinhos que ganham identidade e valor na medida em que são produzidos a partir de condições únicas de solo e clima.

  • Pesquisadores criam técnicas inovadoras para conter avanço do coral-sol no litoral brasileiro

    Pesquisadores criam técnicas inovadoras para conter avanço do coral-sol no litoral brasileiro

    Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do ICMBio desenvolveram um conjunto de equipamentos inéditos para conter a expansão do coral-sol (Tubastraea coccinea) na costa brasileira. Entre as ferramentas testadas em ambiente natural estão martelete, escova elétrica, pistola injetora, disparadores de ar comprimido e um dispositivo que aplica luz ultravioleta para eliminar a espécie invasora.

    Foto: Marcelo Crivellaro/Acervo PACS Arvoredo

    Os trabalhos ocorrem na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em Santa Catarina, desde 2022. A equipe realizou 114 mergulhos e acumulou 140 horas de monitoramento in loco em aproximadamente 65 quilômetros de costões rochosos. Os dados orientam o planejamento e a execução das ações de remoção mecânica dos corais.

    O projeto integra o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Coral-Sol na Rebio Arvoredo e Entorno (PACS Arvoredo). A iniciativa nasceu como medida de mitigação exigida no licenciamento ambiental conduzido pelo Ibama para a exploração de petróleo no Campo de Baúna, Bacia de Santos.

    “Algumas dessas ferramentas e técnicas foram testadas ou adaptadas pela primeira vez em ambiente natural por esse projeto, o que mostra a importância do licenciamento ambiental para a inovação”, afirma Fernando Augusto Galheigo, analista ambiental do Ibama.

    Espécie chegou ao Brasil nos anos 1980 e ocupa sete estados

    Nativo dos oceanos Índico e Pacífico, o coral-sol provavelmente desembarcou no Brasil na década de 1980 em cascos de navios e plataformas de petróleo. Atualmente, ocupa costões rochosos e estruturas artificiais na Bahia, Ceará, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

    O coral pertence a um grupo que dispensa algas simbiontes (azooxantelados) e cresce em águas rasas. Duas espécies ocorrem no país: uma de coloração amarela (T. tagusensis) e outra vermelho-alaranjada (T. coccinea).

    A professora Bárbara Segal, da UFSC, explica que o coral-sol domina o ambiente recifal e reduz o espaço para espécies nativas. “Isso altera a estrutura dos ecossistemas e causa perda da biodiversidade marinha brasileira”, diz.

    Pesquisa segue até março com foco em detecção precoce

    As atividades de campo do PACS Arvoredo seguem até março. A expectativa da equipe é reduzir a densidade do coral nos locais já invadidos e aprimorar a capacidade de detectar a espécie onde ela ainda não chegou.

    Foto: Marcelo Crivellaro/Acervo PACS Arvoredo

    “A ideia é utilizar esse conhecimento para diminuir a densidade da espécie nos locais já invadidos. E se possível, detectá-la precocemente onde ainda não foi registrada”, acrescenta Adriana Carvalhal Fonseca, analista ambiental do ICMBio.

    Em 2018, o Ministério do Meio Ambiente publicou o Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Coral-Sol. O documento orienta as estratégias de combate à espécie em todo o território nacional.

  • Inovação monitora em tempo real criação de moluscos em Santa Catarina

    Inovação monitora em tempo real criação de moluscos em Santa Catarina

    A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) desenvolveu em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) um protótipo de alta tecnologia que revoluciona o estudo dos impactos ambientais da criação de moluscos bivalves.

    O equipamento utiliza sensores de vazão conectados a um módulo de transmissão de dados, tecnologia baseada no protocolo de Internet das Coisas (IoT). As informações são enviadas em tempo real para os computadores da Epagri em Florianópolis.

    O protótipo atua na coleta e quantificação de fezes e pseudofezes de moluscos bivalves. Os pesquisadores utilizam água do mar que passa pelo equipamento, onde ficam abrigados moluscos vivos em 12 compartimentos separados.

    O sistema permite acompanhar com precisão a quantidade de água que entra em cada compartimento. Também quantifica os resíduos produzidos pelos animais durante o processo de alimentação por filtração.

    “Isso é essencial porque, como esses animais se alimentam filtrando a água, a quantidade e qualidade desse alimento influencia diretamente na produção de fezes e pseudofezes”, explica Luis Hamilton P. Garbossa, pesquisador e gerente da Epagri/Ciram.

    Aplicativo monitora dados em tempo real

    Os dados ficam disponíveis em um aplicativo que permite acompanhar o volume acumulado de água filtrada por cada compartimento. A ferramenta já passou pela fase de testes e gera resultados para estudos científicos.

    Segundo Garbossa, o sistema representa um avanço significativo: “Com a nova ferramenta os pesquisadores poderão avançar em estudos sobre a dispersão dos resíduos no ambiente marinho e apoiar decisões sobre o melhor uso das áreas de cultivo”.

    A inovação integra o projeto “Análise da operação unitária de sedimentação das fezes e pseudofezes de moluscos bivalves”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).

    O sistema foi inspirado em estudos anteriores e adaptado para a realidade brasileira com base em pesquisas recentes. A pesquisa está alinhada aos objetivos da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável.

    Garbossa destaca que o projeto fortalece o compromisso da Epagri com a sustentabilidade da maricultura em Santa Catarina.

    Santa Catarina lidera produção nacional

    Santa Catarina mantém sua posição como líder nacional na produção de moluscos bivalves. O estado concentra cerca de 98% da produção nacional de moluscos bivalves, com Florianópolis entre os maiores polos produtores.

    Segundo dados da Epagri/Cepa no Observatório Agro Catarinense, Santa Catarina produziu pouco mais de 7 mil toneladas de moluscos em 2023. A maior parte da produção são mexilhões, que representam cerca de 5 mil toneladas.

    A atividade mobilizou 292 produtores no estado em 2023. A maricultura envolve centenas de famílias, gera milhares de empregos diretos e indiretos e movimenta dezenas de milhões de reais por ano.

    Impacto da pesquisa para o setor

    O novo equipamento representa um marco para a maricultura catarinense. A tecnologia permitirá que os maricultores tenham informações mais precisas sobre o impacto ambiental de suas atividades.

    Os dados coletados servirão para apoiar decisões sobre o melhor aproveitamento das áreas de cultivo. Também contribuirão para o desenvolvimento de práticas mais sustentáveis na criação de ostras e mexilhões.

    A pesquisa fortalece Santa Catarina como referência nacional em maricultura sustentável, combinando tradição produtiva com inovação tecnológica.

    Leia mais:

    + Agro em Campo: Demanda da China por gelatina ameaça jumentos no Brasil

    + Agro em Campo: Vale ouro: conheça a especiaria mais cara do mundo

  • Pesquisadora brasileira lidera estudo inédito sobre canabinóides no tratamento da Doença de Parkinson

    Pesquisadora brasileira lidera estudo inédito sobre canabinóides no tratamento da Doença de Parkinson

    Um estudo inédito realizado por cientistas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) pode representar um avanço significativo no tratamento da Doença de Parkinson. Liderada pela farmacêutica Ana Carolina Ruver Martins, doutora em farmacologia e pós-doutoranda na instituição, a pesquisa investigou os efeitos da associação entre dois compostos canabinóides – o THC (tetrahidrocanabinol) e o CBD (canabidiol) – nos sintomas motores e não motores da doença. Trata-se do primeiro ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo com uma amostra significativa de pacientes e acompanhamento prolongado.

    A pesquisa foi desenvolvida no Laboratório Experimental de Doenças Neurodegenerativas (LEXDON), sob orientação do professor Rui Prediger, e se destaca por adotar um protocolo científico rigoroso. Ao todo, 68 pacientes participaram do estudo ao longo de seis meses. Eles foram divididos em dois grupos: um recebeu a combinação oral de THC e CBD, enquanto o outro utilizou placebo. O objetivo foi avaliar a eficácia e a segurança da combinação no tratamento de sintomas como rigidez muscular, tremores, distúrbios do sono, alterações cognitivas e dor crônica, característicos do Parkinson.

    Metodologia e resultados: inovação científica com potencial terapêutico

    A metodologia aplicada seguiu os padrões científicos internacionais, com randomização por software, controle por placebo e avaliação às cegas, evitando vieses e garantindo a confiabilidade dos resultados. A fórmula utilizada foi padronizada e administrada via oral, fator que diferencia o estudo de outras iniciativas internacionais que, em geral, utilizam extratos inalatórios ou não especificam a dosagem.

    canabinóides pesquisa
    Liderado pela Dra. Ana Ruver, o estudo se diferencia por metodologia rigorosa com análises mais aprofundadas e resultados inéditos. Foto: divulgação

    Os resultados preliminares indicaram melhora mais rápida nos sintomas motores dos pacientes tratados com canabinóides. Mulheres apresentaram respostas mais expressivas em termos de qualidade do sono, flexibilidade e gravidade da doença. Também foram observados níveis mais altos do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), o que reforça o potencial neuroprotetor da substância.

    Segundo a pesquisadora, o objetivo foi suprir a escassez de ensaios clínicos controlados e fornecer dados robustos para a comunidade científica. “Queríamos construir uma base sólida de evidências que permita compreender melhor o papel terapêutico dos canabinóides na Doença de Parkinson e contribuir para futuras diretrizes clínicas”, explica Ana Ruver.

    Impacto social e regulamentação

    De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 4 milhões de pessoas convivem com Parkinson no mundo. No Brasil, o número estimado é de 200 mil indivíduos. A condição neurodegenerativa compromete gradualmente os neurônios dopaminérgicos, resultando na diminuição dos níveis de dopamina, neurotransmissor essencial para o controle motor e outras funções cerebrais.

    A pesquisa está alinhada às diretrizes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), especialmente às resoluções RDC 327/2019 e RDC 660, que regulam o uso medicinal da cannabis no Brasil. O estudo também segue as normas internacionais da Conferência Internacional de Harmonização e a Declaração de Helsinki, assegurando a conformidade ética e científica da investigação.

    Segundo Ruver, os achados podem subsidiar futuras regulamentações, incentivar novos estudos e ampliar o acesso da população a tratamentos alternativos. “Se os resultados continuarem positivos, poderemos ter mais respaldo para incluir terapias com canabinóides no SUS, promovendo segurança e eficácia no uso medicinal da cannabis”, destaca.

    Qualidade de vida: o relato de uma paciente

    Entre os 68 participantes, a voluntária A.K. compartilhou os impactos positivos do tratamento. Diagnosticada com Parkinson em janeiro de 2023, ela relatava intensas dores musculares e dificuldade para dormir. “Após o ajuste da medicação, notei uma melhora significativa. A dor e a insônia diminuíram, e a adaptação ao tratamento foi rápida”, afirma. A paciente recomenda que mais estudos sejam conduzidos e acredita que o uso medicinal da cannabis, quando supervisionado, pode beneficiar muitos outros pacientes.

    A UFSC estuda há quase duas décadas os mecanismos da Doença de Parkinson e seus tratamentos. Agora, o Laboratório Experimental de Doenças Neurodegenerativas expande suas investigações para outras condições neurológicas e crônicas, como Alzheimer, Transtorno do Espectro Autista (TEA), Fibromialgia e Esclerose Múltipla (EM).

    A pesquisadora enfatiza que o estudo contribui para desmistificar o uso medicinal da cannabis. “Ainda há muito preconceito, mas quando olhamos para os benefícios documentados e para a segurança do uso clínico, percebemos o potencial que essa terapia pode oferecer”, afirma.

    A expectativa é de que os resultados finais sejam publicados em revistas científicas internacionais e que a pesquisa sirva de referência para novos protocolos de tratamento e regulamentações mais abrangentes no Brasil e no exterior.

    Mercado e tendências

    Dados da empresa de inteligência de mercado Kaya Mind revelam que, em 2023, o SUS gastou cerca de R$ 80 milhões com medicamentos à base de cannabis. No total, cerca de 219 mil brasileiros utilizam esses produtos por meio de importação, farmácias ou associações. A estimativa é que o mercado brasileiro de cannabis medicinal tenha ultrapassado R$ 1 bilhão em 2024. E mais, ele pode movimentar até R$ 26 bilhões até 2027, caso haja regulamentação mais ampla para uso medicinal, industrial e outros fins.

    Esse cenário promissor fortalece a importância de pesquisas como a conduzida pela UFSC, que colocam o Brasil na vanguarda científica sobre o uso de canabinóides no tratamento de doenças neurológicas e inflamatórias crônicas.

    Potencial para agricultura nacional

    O canabidiol (CBD), derivado da cannabis, está transformando não apenas a medicina, mas também a agricultura global. No Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) anunciou um ambicioso programa de 12 anos para desenvolver variedades de cannabis adaptadas ao clima tropical, visando impulsionar a produção nacional de forma sustentável. O projeto inclui a criação de um banco de sementes e o estudo de técnicas para integrar a planta em sistemas de rotação de culturas, além de explorar seu potencial para fixar carbono no solo.

    A iniciativa, inspirada no sucesso histórico da Embrapa com a soja — que elevou o país ao topo da produção mundial —, já atrai parcerias de empresas nacionais e internacionais interessadas em aplicações farmacêuticas, alimentícias e industriais. Enquanto isso, nos EUA, pesquisas do Departamento de Agricultura (USDA) investigam o uso de resíduos lignocelulósicos do cânhamo (subproduto da extração de CBD) para produzir bioprodutos, como biocombustíveis e materiais de construção, reduzindo o desperdício na cadeia agrícola.

    O cenário regulatório também avança. No Brasil, uma decisão judicial de 2024 permitiu o cultivo de cânhamo (com menos de 0,3% de THC) para fins medicinais. E assim, abrindo caminho para polos regionais de produção. Especialistas, como Kiara Cardoso, da DNA Soluções em Biotecnologia, preveem que a planta poderá abastecer indústrias têxteis, de papel e até de alimentos, seguindo o exemplo de países como China e França.

    Porém, desafios persistem. A Anvisa ainda debate normas para cultivo em larga escala, enquanto o mercado global de CBD — projetado para atingir US$ 46,25 bilhões até 2034 — pressiona por inovações agrícolas que equilibrem demanda e sustentabilidade.

    Aliança histórica posiciona América do Sul como polo de bioeconomia

    Brasil, Uruguai e Argentina uniram forças através da ABICANN, CECAM (Uruguai) e INTA (Argentina) para criar um corredor produtivo-tecnológico sem precedentes. O objetivo, organizado em março é grande. Transformar a região em líder global de Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial até 2026. O setor tem projeção de injetar R$ 190 bilhões/ano na economia brasileira. Além de impactar setores como saúde, agricultura regenerativa e exportações para mais de 100 países.

    Pilares estratégicos da cooperação
    • Harmonização regulatória: alinhamento de legislações entre os países para facilitar exportações e atrair investimentos trilaterais.
    • Transferência de tecnologia: expansão de centros de inovação brasileiros para Argentina e Uruguai, com foco em biotecnologias sustentáveis.
    • Desenvolvimento genético: criação conjunta de variedades adaptadas ao clima sul-americano, envolvendo técnicos do INTA, ABICANN e CECAM.
    • Certificação de sementes: implementação do modelo uruguaio – reconhecido como diferencial global – no Brasil e Argentina.

    Lideranças destacam potencial transformador

    Thiago Ermano, presidente da ABICANN, afirma: “Estamos testemunhando o nascimento de uma bioeconomia integrada, capaz de alavancar políticas públicas e destravar regulamentações engessadas”.

    Reunião da Comitiva Internacional da ABICANN com Sergio Vázquez (ao centro) do Ministério da Agricultura e IRCCA, o órgão que regulamenta a Cannabis no Uruguai

    Ricardo Páez, da CECAM, concorda: “O Uruguai compartilhará expertise em cultivos em larga escala e processamento industrial – áreas onde somos referência regional”.

    Gustavo Astuni, CEO da Litoral Hemp (Uruguai), acrescenta:“Nossa certificação de sementes é um divisor de águas. O desafio agora é replicar esse modelo com apoio tecnológico trinacional”.

    Oportunidades para investidores e produtores
    • Novos mercados: expansão para Europa, América do Norte e Ásia com produtos premium (fibras naturais, óleos medicinais e insumos veterinários).
    • Infraestrutura compartilhada: criação de unidades de processamento e centros logísticos binacionais.
    • Fomento à inovação: atração de Startups Deep Tech para desenvolver soluções em agricultura regenerativa e extração sustentável.

    O movimento surge enquanto Europa e EUA enfrentam limitações produtivas. Com biodiversidade única e capacidade industrial escalável, a Tríplice Aliança pode suprir até 15% da demanda global por cânhamo até 2030, segundo projeções setoriais.

    Leia mais:

     

    + Agro em Campo: Mapa apreende 933 toneladas de farinha animal “batizada” no Paraná
    + Agro em Campo: Produção de camarão em água salobra transforma o Semiárido