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  • Pernambuco retoma monitoramento de tubarões com microchips após 11 anos

    Pernambuco retoma monitoramento de tubarões com microchips após 11 anos

    Pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) vão retomar, a partir de julho, o monitoramento de tubarões na costa pernambucana por meio de microchips transmissores. A iniciativa marca a volta de um projeto que havia sido interrompido há 11 anos e que agora recebeu um novo impulso.

    O trabalho será conduzido pelo Núcleo de Educação Ambiental do Departamento de Pesca e Aquicultura da UFRPE e tem como principal objetivo ampliar o conhecimento sobre o comportamento e os deslocamentos das espécies que frequentam o litoral do estado.

    Além disso, os dados coletados deverão contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à prevenção de incidentes com tubarões.

    Duas espécies serão acompanhadas

    Nesta nova etapa, os pesquisadores vão monitorar o tubarão-cabeça-chata e o tubarão-tigre, espécies associadas à maior parte dos incidentes registrados em Pernambuco.

    Inclusive, os dois ataques ocorridos nesta semana envolveram justamente esses animais.

    Tubarão cabeça-chata aparece frequentemente em redes de pesca — Foto: Divulgação

    O sistema consiste na captura dos tubarões para instalação de um chip transmissor ultrassônico. Em seguida, os animais são devolvidos ao ambiente natural. Além disso, receptores serão distribuídos ao longo da costa para registrar a passagem dos indivíduos monitorados.

    Dessa forma, os pesquisadores poderão acompanhar os padrões de movimentação, identificar áreas mais frequentadas e entender como essas espécies utilizam os diferentes ambientes costeiros.

    O tubarão-tigre apresenta uma série de riscas transversais escuras nas costas e nas laterais — Foto: Divulgação

    Pernambuco soma 84 incidentes desde 1992

    Pernambuco registra incidentes envolvendo tubarões desde o início da década de 1990. Segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), o estado contabilizou 84 ataques desde 1992.

    Desse total, 70 ocorrências foram registradas no Grande Recife e outras 14 em Fernando de Noronha.

    Além disso, dois novos incidentes ocorreram em um intervalo de pouco mais de 24 horas entre os dias 31 de maio e 1º de junho.

    No primeiro caso, um menino de 11 anos foi atacado por um tubarão-cabeça-chata na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes.

    Já no dia seguinte, uma jovem de 19 anos sofreu a amputação de uma perna após ser atacada por um tubarão-tigre de aproximadamente três metros de comprimento na praia de Boa Viagem, no Recife.

    Apesar da proximidade temporal, os dois ataques foram provocados por espécies diferentes e ocorreram em locais separados por menos de 10 quilômetros.

    Especialistas reforçam medidas de prevenção

    Além do monitoramento científico, especialistas do Núcleo de Educação Ambiental da UFRPE destacam a importância de medidas preventivas para reduzir os riscos de incidentes.

    Entre as recomendações está a atenção às condições do mar. Águas turvas, por exemplo, reduzem a visibilidade, enquanto a maré alta favorece a circulação de animais.

    Outro ponto importante é priorizar áreas protegidas pelos arrecifes naturais. Segundo os especialistas, essa barreira funciona melhor durante a maré baixa, quando os arrecifes permanecem aparentes ou próximos da superfície.

    Por outro lado, quando a maré está cheia e os arrecifes ficam totalmente submersos, os tubarões conseguem ultrapassar a barreira natural com mais facilidade, aumentando as chances de aproximação da área de banho.

    Além disso, os pesquisadores recomendam que os frequentadores das praias respeitem a sinalização instalada nos locais e sigam as orientações dos guarda-vidas.

  • Bactérias prometem revolucionar o cultivo de pimenta-do-reino

    Bactérias prometem revolucionar o cultivo de pimenta-do-reino

    Pesquisadores brasileiros identificaram duas bactérias presentes naturalmente no interior das plantas com potencial para transformar o cultivo da pimenta-do-reino, a segunda especiaria mais produzida no Brasil, com valor de mercado que saltou de R$ 1,65 bilhão para R$ 3,67 bilhões em apenas um ano.

    Cacho de pimenta-do-reino. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    O estudo, conduzido pela Embrapa em parceria com cinco universidades federais, mostra que as linhagens Priestia sp. T2.2 e Lysinibacillus sp. C5.11 estimulam o crescimento da planta e melhoram o enraizamento das estacas usadas na produção de mudas.

    Como as bactérias atuam

    As chamadas bactérias endofíticas habitam os tecidos internos das plantas sem causar doenças. As linhagens identificadas produzem ácido indolacético (AIA) — hormônio que regula o crescimento vegetal — e sideróforos, compostos que capturam ferro no solo e o tornam mais acessível às raízes. Esse mecanismo explica os resultados expressivos obtidos nos experimentos realizados entre 2023 e 2024 na Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA).

    Estacas da variedade Singapura de pimenteira-do-reino submetidas à solução com Priestia sp. T2.2 cresceram até 75% mais em altura e registraram aumento de 136% na massa seca da parte aérea em relação às plantas de controle. Já a Lysinibacillus sp. C5.11 provocou um salto de 333% na massa seca das raízes. Uma terceira linhagem avaliada, Bacillus sp. C1.4, também apresentou efeitos positivos na parte aérea, porém em menor escala.

    “Esses resultados apontam para plantas com raízes mais vigorosas, ramificadas e pesadas. Isso é fundamental para a absorção de nutrientes do solo e, consequentemente, maior crescimento da planta, maior quantidade de galhos e folhas, mais fotossíntese, mais sanidade, maior longevidade dos pimentais e maior produtividade. É um ciclo benéfico de desenvolvimento”, afirma Oriel Lemos, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

    O gargalo das mudas na agricultura familiar

    A estaquia, técnica de reprodução que consiste em retirar pequenos galhos da planta-mãe e enraizá-los para gerar novas mudas, é o método preferido dos produtores porque preserva as características genéticas da matriz e reduz o tempo até a frutificação. O problema é que o baixo índice de pegamento das raízes compromete a qualidade das mudas e, por consequência, a produtividade das lavouras.

    “Um pimental produtivo se inicia com uma muda sadia. E uma das dificuldades dos produtores é ter estacas que tenham um enraizamento efetivo para a produção das mudas. Há ainda muitas perdas nesse processo. Então, essa descoberta revela o potencial de obtermos um bioinsumo que traga mais segurança aos pequenos produtores para a implantação ou ampliação de pimentais com mudas sadias e, consequentemente, plantas mais vigorosas e produtivas”, destaca Alessandra Nakasone, pesquisadora da Embrapa Florestas.

    A descoberta interessa especialmente à agricultura familiar, responsável pela maior parte da produção nacional. As bactérias também solubilizam nutrientes no solo, tornando-os mais disponíveis para absorção pelas raízes. Portanto pode reduzir a dependência de fertilizantes e defensivos químicos e aumentar a sustentabilidade da cadeia produtiva.

    Brasil lidera produção, mas desafios persistem

    O Brasil colheu quase 125 mil toneladas de pimenta-do-reino em 2024, segundo o IBGE, ocupando o segundo lugar no ranking mundial de produtores. Espírito Santo e Pará concentram mais de 90% da safra nacional. O estado paraense, com 41 mil toneladas produzidas no mesmo ano, se destaca pelo perfil de agricultura familiar e pelos processos sustentáveis de produção.

    Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    A pesquisa ganha ainda mais relevância com a aprovação da Lei Federal nº 15.070/2024, que trouxe mais segurança jurídica ao setor de bioinsumos. Pela nova norma, produtos biológicos desenvolvidos a partir de microrganismos como as cepas de Priestia e Lysinibacillus não se enquadram como pesticidas e têm uso agrícola liberado, desde que comprovada a segurança.

    “A expectativa é que, além de melhorar o crescimento das mudas, esses bioinsumos possam atuar no controle de doenças comuns à pimenta-do-reino, como as causadas por Fusarium, e assim reduzir perdas e fortalecer a cadeia produtiva”, projeta Katia Nechet, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

    Os próximos passos incluem testes em áreas de produtores, com outras variedades clonais e em sistemas de cultivo como o plantio em tutor vivo de gliricídia — alternativa sustentável ao uso de estacas de madeira como suporte para o crescimento da planta.

    A pesquisa reuniu pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, Embrapa Florestas, Embrapa Meio Ambiente e das universidades federais Unifesspa, UFLA, UFRPE e UFPA.

  • Leite de jumenta impulsiona pecuária brasileira e mira mercados premium

    Leite de jumenta impulsiona pecuária brasileira e mira mercados premium

    O leite de jumenta começa a despontar como uma alternativa promissora para diversificar e fortalecer a pecuária brasileira. Rico em proteínas e lactose em proporções semelhantes às do leite humano, o produto atende a uma demanda global crescente por alimentos funcionais e hipoalergênicos.

    Nos mercados europeu e asiático, o litro pode custar entre 30 e 50 euros, o que o torna um dos leites mais valorizados do mundo. Segundo Gustavo Carneiro, professor de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o leite de jumenta reúne propriedades nutricionais e imunológicas únicas. “O produto tem grande potencial no mercado nacional e internacional, especialmente para crianças com intolerância à proteína do leite de vaca”, afirma o pesquisador.

    Carneiro destaca que o nicho de alimentação infantil e de produtos funcionais pode aumentar a renda de pequenos produtores e fomentar novas cadeias produtivas no meio rural. Além de ser consumido como alimento, o leite de jumenta também ganha espaço na indústria cosmética, com resultados promissores em produtos naturais para pele.

    Benefícios

    Rico em vitaminas A, B1, B2, C e E, minerais e compostos bioativos, o leite contribui para hidratação e regeneração da pele. Cremes, loções, sabonetes e máscaras faciais feitos com a matéria-prima brasileira já despertam atenção de consumidores na Europa e na Ásia.

    Leite de jumenta tem grande procura na Ásia e Europa

    A asininocultura também abre oportunidades para a indústria farmacêutica. A indústria utiliza a pele do animal na fabricação de biofármacos, colágeno e gelatina, enquanto os resíduos da produção abastecem a geração de biogás e a produção de adubo, fortalecendo a lógica da economia circular. O setor ainda vislumbra novas frentes no turismo rural, com experiências voltadas à produção artesanal do leite.

    Pesquisas avançam no Nordeste

    Na Universidade do Agreste de Pernambuco (Ufape), em Garanhuns, equipes de pesquisadores desenvolvem estudos para uso terapêutico do leite de jumenta em UTIs neonatais. O coordenador do projeto, professor Jorge Lucena, prevê que os testes com bebês sejam finalizados até o primeiro semestre de 2026.

    “Todo o processo segue boas práticas de produção, com rebanho controlado, vacinação atualizada e pasteurização cuidadosa”, explica Lucena. Segundo ele, o modelo segue o exemplo da Itália, onde o leite de jumenta já integra protocolos hospitalares.

    Com pesquisas em avanço e o interesse do mercado em expansão, a asininocultura desponta como uma alternativa sustentável de geração de renda no campo. O setor combina inovação, valor agregado e aproveitamento total dos resíduos animais, o que pode consolidar uma nova cadeia produtiva para a pecuária brasileira nos próximos anos.