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  • Cientistas da UFRN transformam vinhaça em matéria-prima para bioplásticos

    Cientistas da UFRN transformam vinhaça em matéria-prima para bioplásticos

    Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) criaram um processo inovador que transforma a vinhaça, um resíduo problemático da produção de etanol, em compostos químicos de alto valor comercial. A tecnologia permite a produção de insumos para bioplásticos biodegradáveis, biocombustíveis e produtos farmacêuticos e cosméticos.

    O processo gera o ácido 2,5-furandicarboxílico (FDCA), que a indústria utiliza como precursor de bioplásticos biodegradáveis, como o polietileno furanoato (PEF). Este material representa uma alternativa sustentável ao polietileno tereftalato (PET), plástico comum em embalagens. A tecnologia também produz o 5-hidroximetilfurfural (HMF), insumo essencial para a fabricação de biocombustíveis e bioquímicos.

    “São exemplos de compostos químicos de alto valor agregado, os quais conseguimos obter com o uso de tecnologias eletroquímicas que dispensam reagentes perigosos”, explica Elisama Vieira dos Santos, professora da Escola de Ciência e Tecnologia (ECT) e orientadora da pesquisa.

    Cada litro de álcool gera até 13 litros de vinhaça

    A vinhaça consiste em um resíduo líquido da produção de etanol, rico em matéria orgânica. A indústria sucroalcooleira gera esse subproduto em grande volume. A cada litro de álcool produzido, as usinas descartam de 12 a 13 litros de vinhaça. Atualmente, esse resíduo representa um sério desafio ambiental para o setor.

    Elisama destaca que o processo patenteado resolve parte desse problema ao valorizar o resíduo e transformá-lo em insumos úteis e sustentáveis. “Além disso, utiliza energia renovável, como a energia fotovoltaica, e oxidantes produzidos de forma verde, sem gerar subprodutos tóxicos, reforçando os princípios da química verde e da economia circular”, afirma.

    Invenção recebe patente e integra Vitrine Tecnológica

    A UFRN depositou o pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em agosto. A invenção recebeu o nome “Processo verde para extração de compostos furânicos e fenólicos a partir de vinhaça com S₂O₈²⁻ ou H₂O₂ eletrossintetizados”.

    O desenvolvimento contou com a participação de Thalita Medeiros Barros, Jussara Câmara Cardozo e Carlos Alberto Martínez Huitle. A colaboração reuniu o Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ/UFRN) e o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química (PPEQ/UFRN), com apoio de projetos aprovados pelo CNPq.

    Thalita Medeiros Barros, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da UFRN, atualmente realiza estágio doutoral no Max Planck Institute for Chemical Energy Conversion, na Alemanha. A pesquisadora executou os experimentos, realizou análises cromatográficas e definiu as condições ideais para a conversão seletiva dos compostos derivados da vinhaça.

    Jussara Câmara Cardozo, que atualmente realiza pós-doutorado na Universidad de Castilla-La Mancha, na Espanha, concebeu e otimizou os parâmetros eletroquímicos e térmicos do processo. A pesquisadora também interpretou os resultados e aprimorou as etapas de extração.

    Carlos Alberto Martínez Huitle e Elisama Vieira dos Santos desenvolveram o sistema de eletrossíntese dos oxidantes verdes, persulfato e peróxido de hidrogênio, fundamentais para promover reações de oxidação seletivas e ambientalmente sustentáveis.

    Aplicações comerciais em diversos setores

    A tecnologia desenvolvida possui potencial de impacto em diversos setores industriais. A indústria de embalagens plásticas pode utilizar o FDCA como principal precursor do PEF, biopolímero que substitui o PET em garrafas de refrigerante, embalagens de alimentos e filmes plásticos.

    O HMF, outro produto de destaque no processo, funciona como composto-plataforma na produção de biocombustíveis líquidos, solventes ecológicos e precursores de polímeros. Já o ácido vanílico, que o processo também produz, possui ação antioxidante e antimicrobiana. As indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica empregam amplamente esse composto em cremes, perfumes, sabonetes, loções e protetores solares.

    Grupo trabalha na transição para escala piloto

    Carlos Alberto Martínez Huitle, docente do Instituto de Química, destaca que o grupo comprovou experimentalmente o processo em escala laboratorial no Laboratório de Eletroquímica Ambiental e Aplicada (LEAA) da UFRN. A unidade possui ampla experiência no desenvolvimento e validação de tecnologias eletroquímicas.

    O professor assinala que a tecnologia atualmente se encontra em fase de prova de conceito, com TRL entre os níveis 3 e 4. Nesse estágio, os pesquisadores comprovaram os fenômenos fundamentais em laboratório e o sistema opera de forma estável em condições controladas.

    “No momento, o grupo trabalha na transição para a escala piloto, desenvolvendo protótipos modulares capazes de operar com maiores volumes de vinhaça e diferentes configurações de eletrodos”, explica Carlos Alberto. A equipe realiza testes comparativos de durabilidade e eficiência de diferentes eletrodos e membranas, simulando condições reais de operação.

    “Esses experimentos visam aprimorar o desempenho do sistema e reduzir os custos de manutenção, garantindo viabilidade técnica, econômica e ambiental em futuras aplicações comerciais. Cabe destacar que o processo é modular, podendo ser aplicado de maneira descentralizada em sistemas de eletrorefinaria de biomassa”, descreve.

    Pesquisadores aprimoram geração de oxidantes verdes

    O grupo concentra esforços no aprimoramento da geração eletroquímica dos oxidantes verdes. Os pesquisadores utilizam diferentes configurações e materiais com o objetivo de aumentar a eficiência energética, a seletividade das reações e o rendimento dos produtos de interesse.

    “Outro foco de atuação do Laboratório é a integração da eletrossíntese verde com processos de geração de hidrogênio, aproveitando a eletrólise simultânea como estratégia para aumentar a eficiência energética global”, explica Elisama. O grupo explora a sinergia entre a produção de oxidantes e de hidrogênio dentro de um mesmo sistema, alinhando-se às tendências atuais da química sustentável e da economia circular.

    Essas pesquisas fazem parte de uma linha contínua de investigação do LEAA voltada à valorização de resíduos agroindustriais e à produção de insumos químicos sustentáveis.

    Patente representa marco acadêmico para a UFRN

    Para o grupo do LEAA, o depósito dessa patente representa um marco acadêmico e científico para a UFRN. A conquista reflete a capacidade da instituição de transformar pesquisa de laboratório em inovação tecnológica concreta.

    Elisama dos Santos, professora da ECT/UFRN, e Karen Magalhães, mestranda do programa de Pós-graduação em Engenharia Química. Elas integram o grupo que está focado no aprimoramento da geração eletroquímica dos oxidantes verdes. Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN

    Do ponto de vista científico, o invento representa um avanço importante ao propor uma rota sustentável para a valorização da vinhaça por meio da eletrossíntese verde de oxidantes. A abordagem combina química verde, engenharia eletroquímica e economia circular.

    O pedido integra a Vitrine Tecnológica da UFRN, grupo de ativos industriais protegidos pela Universidade, que conta atualmente com mais de 800 itens.

    Agência de Inovação oferece suporte aos pesquisadores

    Cientistas interessados em patentear uma descoberta devem fazer a notificação de invenção por meio do Sigaa, na aba Pesquisa. Na UFRN, a Agência de Inovação da Reitoria (Agir) oferece suporte aos inventores durante o processo de pedido de patenteamento.

    “Aqui na Agência damos suporte nesse processo, bem como intermediamos a participação de pesquisadores em mentorias do INPI”, afirma Jefferson Ferreira de Oliveira, diretor da Agir/UFRN. O apoio que a agência oferece a alunos, docentes e pesquisadores abrange orientações sobre o que pode ou não ser patenteado, de acordo com a Lei nº 9.279/96.

    A unidade também apoia a transferência da tecnologia desenvolvida para empresas interessadas na sua comercialização. Mesmo as tecnologias que não podem ser patenteadas podem ser transferidas por meio do licenciamento de know-how. Um conceito que abrange um conjunto de experiências, conhecimentos e habilidades voltadas à produção de um produto ou artefato.

    Jefferson acrescenta que a unidade conta com a parceria dos inventores para a proteção dos ativos de propriedade industrial. Os cientistas aproveitam suas listas de contatos e o conhecimento acumulado nas áreas tecnológicas em que atuam, o que os coloca em situação privilegiada na identificação de potenciais licenciados.

    “A Agir irá trabalhar para expandir a rede de relacionamentos nas áreas de interesse da UFRN, por meio do cultivo de uma boa relação com os parceiros e licenciados existentes, networking pessoal, pesquisas de mercado, eventos do setor, entre outras ações”, afirma Jefferson de Oliveira.

  • Biomassa de cortiça  usado na produção de compostos fenólicos

    Biomassa de cortiça usado na produção de compostos fenólicos

    Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolveram um método pioneiro e sustentável para a produção de compostos fenólicos utilizando biomassa de cortiça. A inovação, detalhada em uma patente recentemente depositada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), promove o aproveitamento de resíduos agroindustriais e fortalece a economia circular.

    O método utiliza eletrossíntese de persulfato como agente oxidante para transformar biomassa de cortiça em compostos de alto valor agregado. Como por exemplo ácido vanílico, vanilina e ácido siríngico. Segundo a professora Elisama Vieira dos Santos, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química (PPGQ/UFRN), o processo combina avanços em eletroquímica e química verde, substituindo métodos convencionais mais poluentes e custosos.

    Essa tecnologia destaca-se por sua flexibilidade e escalabilidade, podendo ser adaptada para diferentes volumes de produção e demandas industriais. Além disso, o método permite o uso de outras fontes de biomassa local e regional, ampliando as possibilidades de aplicação.

    Benefícios ambientais e industriais

    A tecnologia desenvolvida pelo Laboratório de Eletroquímica Ambiental e Aplicada (LEAA) e pelo Laboratório de Análises Ambientais, Processamento Primário e Biocombustíveis (LABPROBIO) utiliza sistemas eletroquímicos avançados para gerar oxidantes como persulfato, peróxido de hidrogênio e percabonato. Isso garante um processo de alta precisão, maior rendimento e pureza dos compostos extraídos, enquanto reduz a dependência de produtos químicos agressivos e minimiza resíduos tóxicos.

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    Os compostos produzidos têm aplicações amplas nas indústrias alimentícia, cosmética, farmacêutica e química, oferecendo uma alternativa ambientalmente amigável e alinhada às exigências da química verde.

    Avanços tecnológicos e maturidade da inovação

    O método patenteado já alcançou um elevado nível de maturidade tecnológica (TRL 7). Isso indica validação em escala laboratorial e proximidade com a aplicação comercial. A equipe do LEAA, liderada pelos professores Elisama Vieira dos Santos e Carlos Alberto Martínez Huitle, possui vasta experiência em estudos de reatores eletroquímicos com aplicação industrial.

    Descrição da foto, (Da esquerda para a direita) Professora Elisama Vieira, Doutoranda Thalita Medeiros Barros, Doutora Jussara Câmara Cardozo e Professor Carlos Alberto Martínez Huitle. Divulgação UFRN.

    A professora Elisama destaca que o interesse da indústria em processos sustentáveis, alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), tem impulsionado conversas com possíveis investidores. “Estamos em busca de parcerias para implementar a tecnologia em escala comercial e já tivemos diálogos com empresas interessadas”, revela.

    Impacto acadêmico e colaborações internacionais

    O desenvolvimento da tecnologia faz parte da pesquisa de doutorado de Thalita Medeiros Barros, aluna do PPGQ/UFRN, sob orientação de Elisama Vieira dos Santos. A pesquisa combina áreas como eletroquímica, química orgânica, engenharia de processos e ciência de materiais, evidenciando a importância de abordagens multidisciplinares para desafios científicos.

    O projeto também conta com uma dimensão internacional. Thalita realizará um estágio de 12 meses no Instituto Max Planck for Chemical Energy Conversion, na Alemanha. Lá ela aprofundará o uso da eletrossíntese orgânica para converter biomassa em compostos de alto valor agregado. A parceria reforça a relevância global da pesquisa e a colaboração científica entre instituições.

    A inovação da UFRN é um marco no aproveitamento de resíduos agroindustriais para gerar produtos químicos de forma sustentável,. Isso promove a economia circular e reduz impactos ambientais. Com uma aplicação robusta em diferentes indústrias e alinhamento com as metas globais de sustentabilidade, a tecnologia tem potencial para transformar a produção de compostos fenólicos. E também atrair investimentos estratégicos para sua expansão comercial.