Tag: Três Marias

  • Lambari vira grande negócio e produtor revela margem de 35%

    Lambari vira grande negócio e produtor revela margem de 35%

    Pequeno, resistente e conhecido por muitos brasileiros desde a primeira pescaria, o lambari encontrou um mercado lucrativo longe dos rios: a criação em cativeiro para ser vendido como isca viva.

    Embora ainda represente menos de 1% da piscicultura brasileira, segundo dados do IBGE, a lambaricultura cresce de 5% a 8% ao ano. A expansão é impulsionada principalmente pela procura de pescadores por iscas destinadas à captura de espécies maiores, como o tucunaré.

    O zootecnista Fábio Sussel, pesquisador do Instituto de Pesca de São Paulo, considera a atividade extremamente rentável. No entanto, os resultados variam de acordo com a escala, o manejo, a mortalidade dos peixes e o mercado atendido.

    O que é a lambaricultura?

    Lambari não é o nome de uma única espécie. A denominação popular abrange mais de 80 espécies de pequenos peixes da família Characidae, encontradas em rios da América do Sul.

    Na criação comercial, os peixes podem ser vendidos como alevinos, iscas vivas, alimento para espécies de aquário ou produto destinado ao consumo humano.

    A venda por unidade, em vez de peso, é um dos fatores que tornam a atividade interessante para produtores menores. Pesquisas do Instituto de Pesca também indicam que sistemas de baixo custo podem viabilizar o cultivo em pequena escala.

    Produtor cria 20 milhões de lambaris por ano

    Maior produtor de lambaris do Brasil, Jomar Delefrate começou a investir na atividade ainda na década de 1990.

    Na época, ele criava pacu, tilápia e outras espécies em sua fazenda, localizada em Buritizal, no interior de São Paulo. Ao perceber que havia muitos lambaris nos tanques e uma procura crescente pelo peixe como isca viva, decidiu mudar o foco do negócio.

    “Na década de 1990, comecei a migração para a criação comercial de lambaris. Hoje, crio exclusivamente lambaris em 12 fazendas integradas em Buritizal, com um produção anual de pelo menos 20 milhões de unidades, que são comercializadas como iscas vivas para a pesca desportiva em São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.”

    Jomar mantém 42 tanques na própria fazenda, mas administra aproximadamente 170 estruturas com produtores parceiros. Parte desses viveiros estava desativada após antigos criadores abandonarem a produção de peixes maiores.

    Tentativa de vender o peixe para consumo

    Em 2017, Jomar construiu um frigorífico para processar os lambaris e entrar no mercado de alimentação.

    A unidade utilizava uma máquina desenvolvida a partir de pesquisas de Fábio Sussel para automatizar a evisceração. O equipamento reduzia um dos principais gargalos do processamento: a dificuldade de limpar manualmente um peixe tão pequeno.

    O frigorífico, porém, encerrou as atividades depois de dois anos e meio. Jomar concluiu que sua principal especialidade era a produção de iscas vivas. O prédio foi desativado e os equipamentos, vendidos para uma indústria de Goiás.

    Como funciona a produção

    A reprodução dos lambaris é induzida em laboratório. Depois da fecundação, os embriões seguem para o berçário, onde passam pela fase inicial de desenvolvimento.

    Posteriormente, os peixes são transferidos para tanques escavados, nos quais ocorre a engorda. O ciclo até a fase adulta leva de três a quatro meses durante o verão, dependendo de fatores como:

    • Temperatura;
    • Qualidade da água;
    • Alimentação;
    • Densidade dos tanques;
    • Condições ambientais.

    Embora seja considerado resistente, o lambari cresce mais lentamente durante o inverno.

    Margem relatada chega a 35%

    Jomar afirma que a rentabilidade atual de sua operação é de aproximadamente 35%. O percentual diz respeito ao negócio do produtor e não deve ser interpretado como uma margem garantida para toda criação.

    Segundo ele, o resultado chegou a ser maior até 2015, quando o lambari teria perdido para os peixes de aquário a posição de atividade mais rentável da piscicultura.

    Outra vantagem observada pelo criador é o menor risco de furto. Por ser pequeno e exigir muito trabalho para limpeza, o peixe não costuma despertar o mesmo interesse criminoso que espécies maiores.

    “Meus parceiros cederam os tanques que estavam desativados em suas fazendas, onde criavam peixes grandes. Muitos sofreram perdas com furtos e desistiram do negócio. Já o lambari não tem esse problema. Ninguém quer limpar o peixinho. Em 30 anos, nunca tive furtos.”

    As iscas deixam as propriedades com peso entre 15 e 30 gramas. Jomar também vende alevinos para outros criadores e trabalha com o filho, Thiago Delefrate, engenheiro agrônomo especializado em piscicultura.

    Além da criação, a família faz o transporte até revendedores e pousadas. Durante a entressafra, também compra lambaris de terceiros para manter o fornecimento aos clientes.

    Jovem investe R$ 150 mil na atividade

    Em Morada Nova de Minas, o produtor Rian Gabriel Alves de Souza começou a criar lambaris artesanalmente quando ainda trabalhava com o pai em um provedor de internet.

    Após conseguir capital e um sócio, ele investiu R$ 150 mil na compra de matrizes e na instalação de tanques escavados. As estruturas recebem as larvas durante os primeiros 30 dias.

    “Escolhi o lambari porque é um peixe que não precisa de muito investimento e dá uma margem de lucro disparada na comparação com os outros.”

    A etapa de engorda acontece em tanques-rede instalados na represa de Três Marias. A propriedade fica em Morada Nova de Minas, município que ocupa posição de destaque na produção brasileira de tilápia.

    Com orientação técnica, Rian passou a realizar a reprodução induzida e a seguir protocolos de manejo.

    “Antes eu era um aventureiro. Busquei orientação com o pesquisador Sussel, passei a fazer a reprodução induzida e seguir os protocolos para a criação e engorda. Já cheguei a produzir 120 mil lambaris em um mês, mas a média é de 50 a 60 mil.”

    O custo informado pelo criador varia entre R$ 0,10 e R$ 0,15 por peixe. A isca viva, com aproximadamente sete a oito centímetros, é repassada por R$ 0,50.

    Essa diferença não corresponde automaticamente ao lucro líquido. Mortalidade, alimentação, mão de obra, manutenção, transporte e demais despesas também precisam ser consideradas.

    Rian pretende instalar novos tanques e quadruplicar a produção. O plano inclui ainda a entrada na engorda de tilápias. Apesar das boas perspectivas, ele diz que a atividade ainda sofre com falta de reconhecimento.

    “Ninguém te leva a sério quando você diz que é criador de lambari.”

    Mão de obra e transporte são desafios

    Apesar do ciclo curto e da possibilidade de aproveitamento de tanques menores, a criação comercial exige conhecimento técnico.

    A mão de obra precisa ser treinada para alimentação, manejo, despesca e transporte. Como o produto é vendido vivo, qualquer falha pode provocar mortalidade e prejuízo antes da entrega.

    No estado de São Paulo, o Decreto nº 60.582, de 2014, reconhece a aquicultura como atividade de interesse social e econômico. A norma também estabelece regras de licenciamento e condições para o desenvolvimento sustentável da produção aquícola.

    Para Fábio Sussel, os lambaris que aparecem espontaneamente em viveiros de espécies maiores não devem ser encarados apenas como invasores.

    “Mas o lambari não é um problema e sim uma solução. Oferece uma grande oportunidade de renda para o produtor porque não demanda grande estrutura para criação, mas a produção comercial exige muito profissionalismo, com uso de técnicas e protocolos.”

    — Fábio Sussel, pesquisador do Instituto de Pesca.

    A diversificação mostra que, apesar de pequeno, o peixe pode abrir diferentes fontes de receita. O potencial, entretanto, depende de manejo profissional, mercado próximo e controle rigoroso dos custos.

  • Família de apicultores transforma tradição em negócio sustentável

    Família de apicultores transforma tradição em negócio sustentável

    O apicultor Rogério Rodrigo de Freitas Gouvêa descobriu sua vocação aos sete anos. Naquela época, observava o avô manejar as abelhas na propriedade rural do município de Três Marias, região Central de Minas Gerais. Hoje, três décadas depois, comanda um dos apiários mais produtivos da região.

    “Observar meu avô era uma experiência gratificante. Já nascia em mim uma vontade fervorosa de dar continuidade ao negócio”, conta o produtor. Seu pai também trabalhava na atividade, mas nenhum dos dois teve a iniciativa de montar um entreposto próprio de mel.

    Há 18 anos, Rogério Rodrigo iniciou a construção de seu próprio entreposto. O investimento transformou completamente os negócios da família. “Com a ajuda da minha esposa pude realizar meu sonho. Deixei de atuar como atravessador, registrei minha marca e me tornei protagonista no mercado”, celebra.

    A família recebeu apoio técnico da Emater-MG para concretizar o projeto. A extensionista Poliana Guimarães Ribeiro acompanha os apicultores nos processos de rotulagem, comercialização e gestão da agroindústria instalada na propriedade.

    Apiário Apis Bela Flor sustenta família com produção diversificada

    O casal obtém crescimento constante no negócio. Atualmente, mantém mais de 600 colmeias ativas. A apicultura familiar sustentável representa o principal diferencial do apiário Apis Bela Flor, segundo a extensionista.

    A produção anual alcança 20 mil quilos de mel e 300 quilos de extrato de própolis e derivados. A família comercializa os produtos através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), farmácias e mercados locais e estaduais.

    Setor enfrenta desafios mas apresenta perspectivas positivas

    Rogério Rodrigo identifica dois principais desafios no setor: a escassez de mão de obra qualificada e o uso inadequado de agrotóxicos em propriedades vizinhas. Apesar das dificuldades, avalia a experiência como gratificante.

    “A vantagem da atividade é trabalhar no campo, em contato direto com a natureza, contribuindo para a preservação ambiental”, destaca o apicultor.

    O mercado da apicultura permanece aquecido. A maior demanda acontece durante os períodos de outono e inverno, quando o consumo de mel e própolis aumenta significativamente.

    Três Marias produz 40 toneladas de mel anualmente

    O município de Três Marias produz cerca de 40 toneladas de mel por ano, revelando tradição consolidada na atividade. A Associação dos Apicultores de Andrequicé (APIS Minas) fortalece o empreendedorismo sustentável e gera renda para 16 apicultores da cidade.

    O técnico agropecuário da Emater-MG, Magno Gomes da Rocha, orienta os produtores sobre o manejo correto do apiário. Ele acompanha a trajetória de Rogério Rodrigo há vários anos.

    Segundo Magno, a instalação do apiário deve ocorrer em local seco, arejado e protegido de ventos fortes. As proximidades precisam ter água limpa e plantas que produzem néctar e pólen em abundância.

    O técnico ressalta a importância de manter o ambiente roçado para facilitar o manejo. Esta prática evita incêndios e ataques de pragas e invasores às colmeias.

    Cuidados essenciais para o sucesso da atividade

    Outros pontos fundamentais destacados pelo especialista incluem a verificação de alergias do apicultor ao veneno das abelhas. As colmeias não podem ficar próximas a residências ou instalações destinadas a animais domésticos.

    O planejamento adequado do apiário e o acompanhamento técnico constante garantem a sustentabilidade do negócio e a geração de renda no campo, mantendo viva a tradição familiar na apicultura mineira.