Tag: Tilapia Lake Virus

  • Vírus, dumping e concorrência desleal: por que a tilápia importada divide o Brasil

    Vírus, dumping e concorrência desleal: por que a tilápia importada divide o Brasil

    Um projeto de lei que pode mudar radicalmente o mercado do peixe mais consumido no Brasil está em análise na Câmara dos Deputados. O PL 6331/25, de autoria do deputado Dilceu Sperafico (PP-PR), propõe a proibição total da importação de tilápia no país, incluindo peixes vivos, alevinos, filés resfriados ou congelados e qualquer produto processado para consumo humano ou animal. A proposta chega num momento de forte tensão entre o governo federal e o setor produtivo nacional.

    Foto: divulgação – CNA

    O Brasil é o quarto maior produtor mundial de tilápia, atrás apenas de China, Indonésia e Egito. Em 2024, foram produzidas 662,2 mil toneladas do peixe, um crescimento de 14,3% em relação ao ano anterior. Portanto, representando 68% de toda a produção nacional de peixes cultivados, segundo o Anuário PeixeBR 2025. A cadeia sustenta cerca de 3 milhões de empregos diretos e indiretos.

    O valor da produção nacional mais do que dobrou entre 2020 e 2024, segundo o IBGE. O Paraná lidera a produção, respondendo por 36% do volume total do país.

    Foi justamente esse protagonismo que tornou ainda mais explosiva a decisão do governo Lula de autorizar a entrada de tilápia vietnamita no mercado brasileiro.

    Da autorização à revolta

    O impasse começou no final de 2023, quando um lote experimental de 25 toneladas de tilápia vietnamita desembarcou no Brasil, provocando reação imediata dos produtores locais. A pressão resultou na suspensão das importações em fevereiro de 2024. No entanto, o cenário mudou em abril de 2025, quando o Ministério da Agricultura reverteu sua própria decisão e reautorizou o comércio, com base em reavaliação técnica que classificou como “negligenciável” o risco de introdução do Vírus da Lagoa da Tilápia (TiLV) no país.

    A tensão aumentou ainda mais com o anúncio da JBS, gigante global de proteína animal, que passou a importar tilápia processada do Vietnã como resultado de um acordo bilateral firmado durante a Cúpula Ampliada do BRICS, em julho de 2025. Acordo pelo qual o Brasil abriu seu mercado à tilápia vietnamita em troca de acesso do boi brasileiro ao Vietnã.

    Dumping e concorrência desleal

    Para os produtores nacionais, a questão vai além da competição: trata-se de sobrevivência econômica. O peixe asiático chegou ao Brasil por um preço equivalente à metade do custo de produção local. “O valor que chegou é metade do nosso custo de produção. Hoje comercializamos o quilo da tilápia entre R$ 9,80 e R$ 10”, relatou um representante do setor.   O movimento é enquadrado por entidades do agronegócio como dumping, uma prática comercial predatória que consiste em vender produtos abaixo do valor justo para eliminar concorrentes locais.

    A PeixeBR classificou a decisão governamental como “imprudente”, alegando que a importação compromete a competitividade do setor, agrava os desafios econômicos da cadeia produtiva e coloca em risco a biossegurança dos tanques brasileiros, já que as condições de cultivo no Vietnã são distintas e podem introduzir doenças inexistentes no país.

    O fantasma do TiLV

    O risco sanitário é o ponto mais sensível do debate. A Análise de Risco de Importação elaborada pela Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) avalia especificamente os riscos de introdução e disseminação do Tilapia Lake Virus (TiLV). A doença é altamente contagiosa, com potencial de mortalidade expressivo, que ainda não existe no Brasil.

    Além da questão comercial, há receio sobre a qualidade e a sanidade do pescado vietnamita. “Ninguém sabe como a tilápia é produzida lá. Se obedece aos preceitos ambientais e sanitários corretamente”, alertou um dirigente sindical do setor. O temor é que o consumidor não consiga diferenciar a tilápia vietnamita da brasileira e, diante de um produto de qualidade inferior, acabe desistindo de consumir pescado.

    O projeto e suas punições

    O PL 6331/25 vai além de simplesmente vedar a entrada do produto. Proíbe também o desembaraço aduaneiro, a circulação, o armazenamento e a comercialização de qualquer lote de tilápia importada. E impede o governo de conceder novas licenças ou autorizações para importação. Infratores estarão sujeitos à apreensão ou destruição da carga, às suas próprias expensas, além de multas proporcionais ao volume e valor dos itens apreendidos, podendo ainda ter licenças sanitárias, ambientais e de comércio exterior suspensas ou cassadas.

    Deputado Dilceu Sperafico (PP-PR), autor do projeto. Foto: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados

    “A tilapicultura é hoje uma das cadeias mais organizadas, capazes e socialmente relevantes do agronegócio nacional”, afirmou o deputado Sperafico, autor da proposta.

    Próximos passos

    O projeto será analisado em caráter conclusivo pelas comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; de Desenvolvimento Econômico; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para se tornar lei, precisará ser aprovado tanto pela Câmara quanto pelo Senado.

    O setor nacional se prepara para uma batalha que deve envolver estratégias políticas, técnicas e, possivelmente, ações judiciais para proteger a sanidade e a economia da tilapicultura brasileira.  Com 3 milhões de empregos e uma cadeia produtiva que levou décadas para ser construída, o desfecho dessa disputa vai muito além das bancadas do Congresso.

  • Produção de tilápia exige monitoramento sanitário mais intenso

    Produção de tilápia exige monitoramento sanitário mais intenso

    A cadeia da tilapicultura em São Paulo vive um ciclo de expansão e reforça medidas de vigilância sanitária para proteger a produção e garantir a sustentabilidade do setor. O aumento do monitoramento técnico e epidemiológico acompanha o crescimento da atividade, que consolidou o Estado como um dos principais polos produtores do país.

    Segundo dados preliminares do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA), a produção paulista de tilápia atingiu 54,17 mil toneladas em 2025, crescimento de 4% em relação ao ano anterior. O faturamento chegou a R$ 494,11 milhões, sustentado por uma estrutura industrial robusta, com 21 frigoríficos responsáveis por 86% do abate total. Mais de 12 mil tanques-rede operam atualmente em reservatórios paulistas, respondendo pela maior parte do volume produzido.

    O avanço produtivo amplia a preocupação com o status sanitário da aquicultura, considerado essencial para a competitividade e a segurança alimentar. Especialistas do setor ressaltam que manter altos padrões de biossegurança é determinante para a estabilidade da cadeia e a proteção dos investimentos.

    “Preservar a sanidade da tilapicultura significa garantir crescimento sustentável, segurança alimentar e geração de empregos. As ações de pesquisa e defesa são fundamentais para a continuidade do setor”, afirma Geraldo Melo Filho, secretário da pasta agropecuária paulista.

    Riscos sanitários

    O monitoramento estadual avalia riscos sanitários relacionados ao comércio internacional de pescado e acompanha as análises conduzidas em nível federal. Em 2024, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) suspendeu temporariamente as importações de tilápia de alguns mercados e iniciou uma Análise de Risco de Importação (ARI) para determinar possíveis ameaças de agentes patogênicos exóticos no país.

    No Estado, instituições de pesquisa como o Instituto de Pesca (IP-APTA) e órgãos de defesa agropecuária intensificaram o acompanhamento técnico e epidemiológico. A coordenadora do Instituto de Pesca, Cristiane Neiva, destaca que a prevenção é um dos pilares da sustentabilidade do setor.

    “A introdução de enfermidades pode comprometer toda a estrutura industrial e os empregos ligados à aquicultura”, alerta.

    O trabalho da Defesa Agropecuária paulista inclui protocolos de biossegurança, rastreabilidade e avaliação contínua de riscos. “As ações preventivas visam manter a tilapicultura competitiva e segura, com benefícios diretos a produtores e consumidores”, explica João Gustavo Pereira Loureiro, coordenador do Centro de Inspeção de Produtos de Origem Animal e Vegetal (CIPOAV).

    Tilapia Lake Virus

    Entre os principais pontos de atenção está o Tilapia Lake Virus (TiLV), agente infeccioso altamente letal, já registrado em países da Ásia, África e Oriente Médio. O vírus pode causar mortalidade de até 90% nos peixes e representa uma ameaça significativa à produção global de tilápia.

    Para o presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, uma eventual introdução do TiLV no Brasil teria “efeitos expressivos” sobre a produção, em especial em regiões de alta densidade produtiva como São Paulo. Ele ressalta que os tanques-rede instalados em reservatórios favorecem a produtividade, mas exigem protocolos rigorosos de biossegurança.

    “O modelo brasileiro de produção demanda vigilância constante e medidas de controle robustas para evitar disseminação de doenças”, observa Medeiros.

    A tilápia passou, em 2025, a integrar o Valor da Produção Agropecuária (VPA) paulista, indicador usado para planejamento econômico e formulação de políticas agrícolas. A espécie mantém-se como a principal proteína de pescado consumida no Estado, com demanda crescente e boas perspectivas de expansão da produção e do processamento.