Tag: tambaqui

  • Tambaqui vira espécie ameaçada no Brasil e divide opiniões

    Tambaqui vira espécie ameaçada no Brasil e divide opiniões

    O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) incluiu o tambaqui (Colossoma macropomum), um dos peixes mais consumidos na Amazônia brasileira, na lista nacional oficial de espécies da fauna aquática ameaçadas de extinção, publicada em abril.

    Tambaqui
    Foto: Josiane Tada/Flickr

    A Portaria nº 1.666, divulgada no mesmo dia 27 de abril, estabeleceu um prazo de 180 dias para a aprovação de um plano de recuperação populacional da espécie, prazo que termina em 25 de outubro. Caso o plano não avance até lá, a pesca do tambaqui poderá ser proibida em todo o território nacional. A entrada na lista, porém, não implica proibição imediata, desde que especialistas, sob coordenação do MMA, aprovem o plano de recuperação a tempo.

    Queda populacional motiva classificação como vulnerável

    O Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), coordenado pelo ICMBio, projetou uma queda de 43,4% na população de tambaqui ao longo de três gerações. E assim classificou a espécie como vulnerável. O peixe sofre forte pressão pesqueira em seu habitat natural há décadas. E ocorre naturalmente nas várzeas do rio Amazonas e na maioria de seus principais afluentes, distribuindo-se pelos estados do Acre, Rondônia, Amazonas e Pará.

    A piscicultura espalhou o tambaqui por outras regiões da América do Sul. E nos últimos 20 anos, compensou parcialmente as perdas populacionais nos estoques naturais. Isso ainda que o ICMBio não consiga precisar o real impacto da criação em cativeiro sobre essa recuperação.

    Pescadores da Amazônia contestam a decisão

    Vice-presidente da Colônia de Pescadores Z-23 de Alvarães, Castro teme que uma eventual proibição afete de forma desigual os pescadores artesanais, que trabalham com peixe de lago e não possuem viveiros, enquanto produtores de piscicultura poderiam seguir comercializando o tambaqui criado em cativeiro.

    Pescadores familiares se uniram a pesquisadores para pedir ao Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) a reversão da medida ou, ao menos, sua flexibilização em situações específicas.

    Igor Hister Lourenço, analista de pesquisa e desenvolvimento do Instituto Mamirauá, aponta a complexidade de aplicar uma restrição uniforme a toda a bacia amazônica: enquanto algumas áreas mantêm estoques abundantes, o rio Madeira registrou o desaparecimento do tambaqui e viu a espécie reaparecer recentemente após um longo período sem registros. Para Lourenço, estoques menores tornam a captura mais difícil e mais cara, o que naturalmente leva à diversificação da produção pesqueira, processo que já ocorre há anos, sem indicar necessariamente risco de desaparecimento da espécie. Ele também considera um erro o governo não ter consultado os pescadores antes da decisão, diante da escassez de dados sobre a dinâmica da pesca de pequena escala em toda a bacia.

    Falta de dados sobre comunidades tradicionais gera controvérsia

    O ICMBio reconhece uma limitação relevante na avaliação de risco: os dados de desembarque pesqueiro usados no estudo cobrem apenas áreas não protegidas, que correspondem a 61% da área de ocorrência do tambaqui.

    Tambaqui
    Foto: Derwisz/Flickr

    Unidades de conservação e terras indígenas, que somam os 39% restantes e apresentariam baixo risco de extinção, não contam com dados formais de desembarque. Uma lacuna que alimenta as críticas de pescadores e pesquisadores à decisão.

    Plano de recuperação avança sob pressão de prazo

    Roberto R. Gallucci, coordenador-geral do departamento de gestão compartilhada dos recursos pesqueiros do MMA, trata a conclusão do plano de recuperação até outubro como prioridade. O cronograma já definido prevê cooperação com o MPA e a participação de pescadores, gestores e pesquisadores. Um rascunho considerado crucial já foi apresentado, em 12 de junho. O MPA informou, por e-mail, que está reunindo contribuições técnicas para o plano, mas não disponibilizou o documento preliminar solicitado pela reportagem.

    A mesma atualização incluiu o peixe marinho peroá (Balistes capriscus) entre as espécies ameaçadas. A medida também gerou reação entre pescadores artesanais e o setor pesqueiro. Especialmente em Guarapari (ES), onde a associação local de pescadores (Aspeg) considera desproporcional penalizar quem usa métodos de baixo impacto. Aliás, um plano de recuperação para o peroá também está entre as prioridades do MMA.

    Nem sempre esses planos surtem o efeito esperado. O pargo (Lutjanus purpureus) teve seu status agravado de vulnerável para ameaçado mesmo com um plano de recuperação em vigor, segundo o Coletivo Nacional da Pesca e Aquicultura. A entidade atribui o resultado à disputa de protagonismo entre MMA e MPA. E defende repensar a gestão pesqueira com participação direta de quem pesca e de quem decide onde pescar.

    Atualmente, 490 espécies integram a lista de fauna aquática ameaçada no Brasil. O bagre-branco (Genidens barbus) e a corvina (Micropogonias furnieri), incluídos em atualizações anteriores, têm sua situação em revisão após recurso apresentado pelo MPA.

  • De São Pedro à granja aquícola: panorama da piscicultura no Dia do Pescador

    De São Pedro à granja aquícola: panorama da piscicultura no Dia do Pescador

    Todo ano, o mês de junho reserva dois marcos que, à primeira vista, parecem distantes: os festejos juninos e o Dia do Pescador, celebrado em 29 de junho. A data homenageia São Pedro, o apóstolo pescador, e lembra que a pesca figura entre as atividades mais antigas da humanidade e permanece estratégica para a segurança alimentar do país.

    Em 2026, o setor chega à data com números que animam e com questões que preocupam.

    Consumo crescente, mercado externo em dúvida

    A Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR) divulgou recentemente um panorama deste primeiro semestre. O Anuário da entidade registra expansão do consumo interno de proteína de peixe – movimento que a Quaresma, entre março e abril, tradicionalmente impulsiona. No cenário externo, porém, persistem incertezas ligadas ao ambiente internacional e às disputas tarifárias, especialmente com os Estados Unidos.

    Dois outros pontos concentram a atenção do setor. O primeiro envolve o tambaqui: a Portaria GM/MMA nº 1.667, publicada em abril, incluiu a espécie na categoria de risco, o que levanta dúvidas sobre os impactos produtivos e para a cadeia de comercialização. O segundo diz respeito à tilápia, alvo de discussões na Conabio (Comissão Nacional de Biodiversidade) sobre sua eventual inclusão na Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras – debate que ainda corre em Brasília sem desfecho definido.

    A tilápia e sua trajetória de expansão

    Nenhuma espécie domina a piscicultura brasileira como a tilápia. Segundo o Anuário da Peixe BR, ela responde por 70% de toda a produção nacional. Uma liderança construída ao longo de anos e sustentada por uma combinação singular: sabor, valor nutritivo, versatilidade na cozinha e facilidade de preparo.

    Os números confirmam a preferência do consumidor brasileiro. Em 2015, o país consumiu 285 mil toneladas de tilápia. Em 2024, esse volume chegou a 662.230 toneladas – um crescimento de 132% em menos de uma década.

    É justamente essa trajetória que torna o debate regulatório tão sensível. Qualquer restrição à criação ou à comercialização da espécie afetaria diretamente a maior fatia da produção aquícola do país.

    Mais do que estatística

    Os números e os desafios não apagam o que está nas celebrações do 29 de junho: a relação (sagrada) entre o trabalho, a água e o alimento que ela produz. No Dia do Pescador, vale lembrar que por trás de cada tonelada produzida existem comunidades e uma cultura econômica e alimentar que o Brasil construiu às margens dos seus rios, lagos e reservatórios.

    Feliz Dia do Pescador!

  • Piscicultura brasileira avança no primeiro semestre

    Piscicultura brasileira avança no primeiro semestre

    A piscicultura brasileira fechou o primeiro semestre de 2026 com saldo positivo no mercado interno. Impulsionado pela Quaresma, o consumo de peixes de cultivo cresceu e reforçou a trajetória de expansão observada no Brasil ao longo da última década. Mas o setor entra no segundo semestre sob atenção, diante de uma série de questões regulatórias e comerciais que podem definir os rumos da atividade nos próximos anos.

    Segundo a PEIXE BR, a tilápia, que responde por cerca de 70% da produção aquícola nacional, manteve a liderança entre os pescados mais consumidos pelos brasileiros. No segmento de peixes nativos, o tambaqui figurou como a principal preferência dos consumidores.

    “Esse desempenho demonstra a consolidação da piscicultura como uma importante fornecedora de proteína animal à população”, avaliou Francisco Medeiros, presidente executivo da PEIXE BR.

    Exportações em compasso de espera

    No mercado internacional, o cenário é de cautela. Medeiros explicou que a redução temporária da tarifa para 10% não gerou o retorno esperado, pois beneficiou todos os países exportadores de forma indistinta. Com a nova tarifa de 25%, o mercado esfriou. Um movimento que ele considera “normal, dentro da dinâmica comercial”.

    “Acreditamos em uma possível retomada nos volumes de exportação no segundo semestre, porém, tudo depende das decisões de política externa entre Brasil e Estados Unidos”, destacou o dirigente.

    No campo regulatório, a inclusão do tambaqui na lista federal de espécies em risco de extinção acendeu um sinal de alerta. Embora a medida tenha caráter conservacionista, a PEIXE BR avalia que a classificação pode gerar restrições à importação do pescado cultivado em alguns mercados internacionais. Justamente quando o governo brasileiro e o setor produtivo investem na internacionalização da espécie.

    Tilápia como espécie invasora: debate mobiliza setor

    A tilápia também enfrentou turbulências regulatórias. A proposta discutida na CONABIO, no IBAMA e no Ministério do Meio Ambiente para enquadrá-la como espécie exótica invasora mobilizou produtores, entidades do setor e parlamentares.

    Para a PEIXE BR, caso a classificação avance, o setor pode enfrentar restrições ao crescimento da atividade e dificuldades na produção, comercialização e exportação da tilápia. Isso em razão dos compromissos internacionais do Brasil para o controle de espécies invasoras.

    Importação de tilápia vietnamita pressiona produtor nacional

    Outro ponto de tensão é a abertura do mercado brasileiro para a tilápia importada do Vietnã. A entidade avalia que a medida integrou negociações comerciais mais amplas, relacionadas à exportação de carnes brasileiras, sem considerar as assimetrias de competitividade entre os dois países.

    “A importação, nos moldes atuais, está impactando muito a comercialização de filé de tilápia no Brasil. Os custos de produção entre Vietnã e Brasil são semelhantes, mas a política de estímulos e subsídios do governo vietnamita permite que o produto chegue ao mercado brasileiro por um preço inferior ao custo da matéria-prima produzida aqui. Além disso, permanecem preocupações relacionadas aos riscos sanitários”, ressaltou Medeiros.

    Perspectiva positiva para o segundo semestre

    Apesar do cenário de incertezas, a entidade mantém expectativas positivas para os próximos meses. Historicamente, o consumo de pescado cresce no fim do terceiro trimestre, acompanhando a elevação das temperaturas nas regiões Sul e Sudeste do país.

    “O consumo continua aquecido e confirma o comportamento observado na última década para os peixes de cultivo. É um mercado que segue em expansão, mas os riscos sanitários e regulatórios também aumentaram. Para o segundo semestre, esperamos uma recuperação natural do consumo com a elevação das temperaturas e, se houver estabilidade nas questões regulatórias e comerciais, também uma retomada das exportações”, concluiu o presidente executivo.

  • Piscicultura: novo protocolo revela como doenças de peixes se espalham por rios e igarapés

    Piscicultura: novo protocolo revela como doenças de peixes se espalham por rios e igarapés

    Uma pesquisa inédita no Brasil revelou que pisciculturas localizadas em uma mesma bacia hidrográfica podem contaminar umas às outras por meio da água, mesmo a grandes distâncias. O estudo, conduzido pela Embrapa Pesca e Aquicultura em parceria com um instituto veterinário italiano, aplicou pela primeira vez no país um protocolo baseado em Sistemas de Informação Geográfica (SIG) para mapear o risco de propagação de doenças entre fazendas aquícolas. Os resultados foram publicados na revista científica Frontiers in Marine Science.

    Peixes em uma rede de pesca
    Foto: Jefferson Christofoletti/Embrapa

    A ferramenta gera mapas que classificam cada propriedade aquícola em nível alto, médio ou baixo de risco sanitário, de acordo com sua posição no curso d’água em relação a focos de infecção conhecidos. O objetivo é viabilizar um sistema de alerta precoce capaz de orientar ações de contenção antes que surtos se alastrem pela cadeia produtiva.

    Como funciona o mapeamento

    O protocolo foi desenvolvido pelo Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália. A instituição tem histórico consolidado no controle de emergências sanitárias animais, incluindo a influenza aviária. E foi adaptado para a realidade da aquicultura brasileira em parceria com a Embrapa.

    A lógica do sistema é simples, mas poderosa: a água é um vetor natural de transmissão de patógenos. Quando uma propriedade está posicionada a montante de outra e existe conectividade hídrica entre elas, o fluxo do rio pode carregar ovos, cistos, bactérias ou vírus de um viveiro ao seguinte. O protocolo analisa exatamente essa rede de conexões.

    “A saúde na aquicultura não depende apenas do que acontece dentro de uma única fazenda. Ela também está ligada à rede hidrográfica, ao fluxo de água e à forma como o espaço de produção é organizado no território”, explica o geógrafo Rodrigo Macario, do IZSVe.

    O mapeamento começa pela identificação e georreferenciamento de todas as propriedades aquícolas em uma bacia hidrográfica. Em seguida, calcula-se a conectividade hídrica entre elas. Com base nessa análise, cada fazenda recebe uma classificação de risco:

    • Alto risco: propriedades a jusante de um foco de infecção confirmado, diretamente conectadas pelo fluxo da água
    • Médio risco: propriedades em áreas de conectividade indireta ou sazonal
    • Baixo risco: propriedades sem conectividade hídrica com focos conhecidos da doença

    O parasita escolhido para o teste

    A validação do protocolo no Brasil utilizou como objeto de estudo o acantocéfalo, um dos parasitas mais comuns em tambaquis (Colossoma macropomum), principal espécie da piscicultura amazônica. A escolha se deveu à abundância de dados disponíveis e à relevância econômica da enfermidade. Em 2015, houve um surto significativo no estado de Rondônia.

    Os pesquisadores conhecem relativamente bem o ciclo de vida do parasita: os peixes infectados eliminam os ovos nas fezes, pequenos crustáceos chamados ostracodes ingerem esses ovos e, em seguida, transmitem o parasita aos peixes saudáveis que se alimentam deles. O ciclo completo dura cerca de dois meses.

    O impacto econômico é expressivo. “Peixes parasitados deixam de ganhar até 20% do peso esperado em comparação com animais saudáveis, o que, em escala comercial, representa perda considerável de produtividade”, destaca Marta Ummus, geógrafa da Embrapa Amazônia Oriental e uma das líderes do estudo. Para produtores da Amazônia, que já enfrentam desvantagens logísticas frente a outras regiões, cada ponto percentual de perda pesa no orçamento.

    Risco ampliado na Amazônia

    Na Bacia do Rio Machado, em Rondônia, área escolhida para o estudo de caso, os pesquisadores identificaram uma particularidade preocupante: produtores da região costumam escavar tanques de piscicultura diretamente no leito dos igarapés. Isso cria uma conectividade hídrica praticamente permanente entre as propriedades, ampliando significativamente o risco de propagação de patógenos.

    “Se uma propriedade está a montante de outra e há conectividade hídrica entre elas, o fluxo de água carrega consigo ovos, cistos, bactérias ou vírus”, alerta a pesquisadora Patricia Oliveira Maciel, especialista em sanidade da Embrapa Pesca e Aquicultura.

    Obstáculo: falta de dados oficiais

    Um dos principais entraves encontrados pela equipe foi a dificuldade de obter dados primários junto aos órgãos estaduais de defesa sanitária animal. Por questões de segurança e de política institucional, os responsáveis não disponibilizaram as informações georreferenciadas sobre a ocorrência de doenças. Os pesquisadores precisaram recorrer a dados secundários extraídos de artigos científicos publicados.

    A situação expõe uma lacuna crítica na política de vigilância sanitária do país. “Precisamos de uma política de dados mais transparente”, defende Ummus. “Na Itália, há um controle muito maior no georreferenciamento de pisciculturas e seus problemas de sanidade. Aqui, há muitas criações funcionando na informalidade, o que prejudica o acesso a dados espaciais e sanitários.”

    Na União Europeia, as normas sanitárias impõem obrigações específicas aos produtores aquícolas: em casos de mortalidade anormal ou de queda significativa na produção sem causa conhecida, eles devem acionar um veterinário, que pode encaminhar o caso às autoridades oficiais.

    Um protocolo universal

    Embora os pesquisadores tenham testado o protocolo SIG com foco no acantocéfalo, a ferramenta permanece neutra em relação ao agente infeccioso. A mesma estrutura metodológica permite monitorar qualquer patógeno transmitido pela água, desde que os usuários ajustem parâmetros como tempo de sobrevivência no ambiente, período de incubação e dose infectante mínima.

    Peixe Tambaqui fora da agua não mão se uma pessoa
    Foto: Alily Melo/Embrapa

    “Não se trata de uma solução para um problema específico, mas de uma plataforma metodológica que pode ser empregada continuamente, adaptada a diferentes contextos e patógenos, e incorporada a políticas públicas de sanidade aquícola”, afirma Ummus.

    Próximos passos

    Para que a ferramenta chegue efetivamente ao campo, os pesquisadores apontam três desafios a superar: o acesso restrito a dados primários dos órgãos estaduais; a informalidade de uma parcela expressiva dos produtores aquícolas amazônicos, que operam sem licenciamento ambiental ou registro oficial; e a fragmentação da cadeia produtiva, que dificulta a rastreabilidade sanitária entre os elos de produção de alevinos, engorda, abate e processamento.

    “A aquicultura brasileira tem potencial para crescer de forma sustentável e competitiva, mas isso passa necessariamente pelo fortalecimento dos sistemas de vigilância sanitária. E, nesse campo, a inteligência geográfica pode ser uma aliada poderosa. Desde que haja dados, política pública e vontade institucional para colocá-la em prática”, conclui Ummus.

    A revista Frontiers in Marine Science publicou a pesquisa. E resulta de acordo de cooperação técnico-científica entre a Embrapa e o Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália.

  • Ibama e Polícia Rodoviária Federal apreendem 700 kg de pescado

    Ibama e Polícia Rodoviária Federal apreendem 700 kg de pescado

    Uma operação conjunta do Ibama e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) resultou na apreensão de cerca de 700 quilos de pescado transportado ilegalmente em rodovias do Acre, na manhã da última sexta-feira (27). O carregamento não possuía a documentação de origem exigida pela legislação ambiental.

    De acordo com o Decreto nº 6.514/2008, transportar pescado sem comprovação de procedência é infração ambiental grave. A penalidade pode variar de R$ 700 a R$ 100 mil, com acréscimo de R$ 20 por quilo do produto apreendido.

    Durante a inspeção, os agentes identificaram espécies como tambaqui (Colossoma macropomum), surubim (Pseudoplatystoma spp.) e caparari (Pseudoplatystoma tigrinum). A legislação pesqueira define tamanhos mínimos para captura e comercialização. 55 centímetros para o tambaqui e 80 centímetros para surubim e caparari, critérios que garantem a sustentabilidade dos estoques naturais.

    A fiscalização destacou que o transporte de pescado deve ser acompanhado de nota fiscal ou Guia de Trânsito Animal (GTA). São documentos que comprovam a origem legal e permitem a rastreabilidade do produto. Segundo a Instrução Normativa nº 04/2015 do Ministério da Pesca e Aquicultura, a GTA é obrigatória para o transporte de pescado vivo e fundamental para o controle sanitário e ambiental.

    Destino

    Todo o pescado apreendido foi destinado ao programa Mesa Brasil, que distribui alimentos a instituições socioassistenciais no estado.

    Com a aproximação da Semana Santa, período de aumento no consumo de peixe, o Ibama intensificará as ações de fiscalização em todo o Acre para combater irregularidades e garantir a procedência legal e sustentável do pescado comercializado.

    Além disso, os agentes reforçam que produtores e comerciantes devem declarar corretamente a origem dos produtos e respeitar os tamanhos mínimos de captura para evitar autuações e preservar os recursos pesqueiros do estado.

  • Pescado brasileiro ganha destaque na Seafood Expo North America 2026

    Pescado brasileiro ganha destaque na Seafood Expo North America 2026

    O Brasil marca presença na Seafood Expo North America 2026, a maior feira de pescados da América do Norte, que acontece em Boston (EUA) entre os dias 15 e 17 de março. A PEIXE BR (Associação Brasileira da Piscicultura) lidera a participação brasileira no evento, com o objetivo de fortalecer as exportações de pescado nacional, especialmente para o mercado norte-americano, principal destino de produtos como tilápia e tambaqui.

    De acordo com o presidente da PEIXE BR, Francisco Medeiros, o evento chega em um momento estratégico para o setor. “A tilápia é o pescado mais exportado pelo Brasil, e os Estados Unidos são o principal comprador, com destaque para o filé de tilápia fresco”, afirma Medeiros.

    O dirigente ressalta que a nova tarifa de importação de 10% reacende as oportunidades no mercado americano. “Voltamos com força em função da qualidade do nosso pescado. É hora de dialogar com os compradores e reforçar parcerias comerciais”, destacou.

    A participação na feira também evidencia o trabalho contínuo de promoção do pescado brasileiro no exterior. Sempre valorizando atributos como rastreabilidade, sustentabilidade e competitividade da piscicultura nacional. Além de Medeiros, o vice-presidente do Conselho de Administração da entidade e diretor da Fider Pescados, Juliano Kubitza, também integra a missão brasileira em Boston.

    Presença brasileira

    Empresas associadas à associação participam com estandes próprios, ampliando o alcance da presença brasileira no evento. Entre as companhias confirmadas estão Ayamo, Brazilian Fish, Copacol, Zaltana e Mar & Terra, que apresentarão suas linhas de produtos a compradores, importadores e distribuidores internacionais.

    A Seafood Expo North America é considerada o principal ponto de encontro global do setor de pescados, reunindo fornecedores de cerca de 50 países. O evento funciona como um grande centro de negócios, conectando empresas e compradores do mercado norte-americano a produtos, serviços e soluções da cadeia global da aquicultura e pesca.

  • China assume liderança mundial na produção de tambaqui

    China assume liderança mundial na produção de tambaqui

    A China ultrapassou o Brasil e assumiu a liderança mundial na produção de tambaqui, transformando o peixe amazônico em mais uma commodity da aquicultura global. O país asiático aplicou ao Colossoma macropomum o mesmo modelo industrial que já o consolidou como maior produtor mundial de proteína aquática: planejamento de longo prazo, forte apoio estatal, integração logística e produção em larga escala.

    A mudança ocorreu de forma silenciosa nos últimos anos, reposicionando a espécie dentro das cadeias globais de proteína animal. O Brasil produziu 113 mil toneladas de tambaqui em 2024, representando um crescimento de 3,92% em relação ao ano anterior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    A ascensão chinesa contrasta com a trajetória brasileira. Enquanto o país sul-americano concentra a produção no consumo interno e em feiras regionais, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a China estruturou cadeias completas que incluem processamento industrial de filés, produtos congelados e logística voltada à exportação contínua.

    Características biológicas atraem mercado internacional

    O sucesso do tambaqui fora do Brasil está diretamente ligado às suas características biológicas. O peixe apresenta crescimento rápido, rusticidade e excelente conversão alimentar, fatores essenciais para sistemas de aquicultura intensiva. Além disso, a espécie tolera variações ambientais, adapta-se bem a altas densidades de cultivo e possui carne branca de sabor suave, com ampla aceitação do consumidor.

    Essas características despertaram o interesse de países com forte tradição em aquicultura industrial. Para a China, que busca espécies eficientes para atender seu gigantesco mercado interno e manter fluxo constante de exportações, o tambaqui encaixou-se de forma quase ideal no modelo produtivo.

    Modelo industrial chinês versus produção brasileira

    A entrada do tambaqui na matriz aquícola chinesa ocorreu por meio de programas controlados de introdução, adaptação genética e aprimoramento dos sistemas de cultivo. Em pouco tempo, a espécie passou a ser criada em tanques escavados, estruturas semi-intensivas e sistemas altamente tecnificados, com controle rigoroso de alimentação, sanidade e processamento pós-abate.

    O diferencial chinês está na escala produtiva, na logística integrada, no processamento com valor agregado e na capacidade de manter fornecimento estável ao mercado global. No Brasil, o tambaqui é ainda majoritariamente associado ao consumo fresco, comercializado em feiras locais e mercados regionais, o que limita volumes e padronização para exportação.

    Foto: Frank Nery/Secom Rondônia

    Dados de organismos internacionais como a FAO indicam que a expansão da aquicultura chinesa ocorre de forma consistente desde os anos 2000, com forte apoio estatal, investimentos em pesquisa aplicada e políticas voltadas à segurança alimentar.

    Brasil mantém protagonismo científico e genético

    Mesmo tendo sido superado em volume de produção, o Brasil continua sendo a principal referência mundial em genética, pesquisa e desenvolvimento tecnológico do tambaqui. O país concentra os principais bancos genéticos da espécie e domina tecnologias de reprodução, larvicultura e engorda em clima tropical.

    Universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras foram responsáveis por avanços decisivos nessas áreas, muitos deles posteriormente adotados em outros países. Na prática, parte relevante do conhecimento aplicado hoje na Ásia tem origem em pesquisas conduzidas no território brasileiro.

    Produção nacional em números

    O IBGE apurou que o volume total de peixes de água doce para consumo alcançou, em 2024, a marca de 724,8 mil toneladas. Desse total, a tilápia contribuiu com 499 mil toneladas (68,89%) e os peixes redondos (tambaqui, pacu, pirapitinga e seus híbridos) contribuíram com 177 mil toneladas (24,4%).

    A Região Norte se mantém como principal produtora, respondendo por 62,3% do total de peixes redondos, com destaque para Rondônia, que concentra 33,5% da produção nacional. No estado, o tambaqui representa 93,8% do pescado cultivado.

    O Mato Grosso aparece em segundo lugar com 16,3% da produção, onde predominam o tambacu e a tambatinga. O Maranhão responde por 12,3% da produção nacional, com divisão equilibrada entre o tambaqui e os híbridos.

    Desafios  para o Brasil

    A mudança no eixo da produção mundial de tambaqui evidencia um movimento maior da aquicultura contemporânea:. Quem domina escala, logística e industrialização lidera o mercado, mesmo quando a espécie tem origem em outro país.

    Enquanto a China transforma o tambaqui em uma proteína global, o Brasil enfrenta o desafio de converter seu protagonismo científico em maior competitividade industrial, agregando valor, ampliando escala e fortalecendo sua presença internacional.

    tambaqui
    Foto: Siglia Souza/Embrapa

    Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura, o tambaqui é a espécie nativa mais produzida no país por seu rápido crescimento e sua ótima qualidade. O peixe que nasceu na Amazônia agora circula pelo mundo. E o futuro dessa cadeia depende de como o país de origem irá se posicionar nesse novo cenário globalizado.

    A produção aquícola de tambaqui aumentou de 13 mil toneladas em 2000 para 142 mil toneladas em 2016, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A FAO destaca que existe enorme potencial para o cultivo da espécie em grande e pequena escala.

    A aquicultura mundial tem crescido de forma consistente. A produção global de pesca e aquicultura em 2022 atingiu 223,2 milhões de toneladas, um aumento de 4,4% em relação a 2020. Pela primeira vez na história, a aquicultura de animais aquáticos superou a pesca extrativa em volume de produção.

  • Tambaqui com curimba aumenta produção em 25% na Amazônia

    Tambaqui com curimba aumenta produção em 25% na Amazônia

    A criação integrada de tambaqui com curimba representa uma revolução sustentável para a piscicultura amazônica. Levantamento inédito da Embrapa Pesca e Aquicultura demonstra que esse modelo de produção é 25% mais produtivo do que o cultivo isolado de tambaqui, além de reduzir significativamente os impactos ambientais da atividade.

    Foto: Embrapa

    Publicado na revista científica Aquaculture, o estudo avaliou os benefícios da aquicultura multitrófica integrada (AMTI) – sistema que cultiva diferentes espécies aquáticas no mesmo ambiente, imitando ecossistemas naturais para otimizar o aproveitamento de nutrientes.

    Vantagens ambientais superam outras atividades agropecuárias

    Os números impressionam quando comparados a outras formas de produção de proteína animal. Para gerar 1 kg de proteína, a pecuária bovina demanda 434,88% mais terra do que a piscicultura de tambaqui. A avicultura requer 48,84% a mais de espaço, enquanto a suinocultura necessita de 72,09% além do utilizado pela aquicultura.

    “A aquicultura pode ser uma alternativa para a diminuição da pressão de abertura de novos espaços para a produção agropecuária no bioma amazônico”, afirma a pesquisadora Adriana Ferreira Lima, da Embrapa Pesca e Aquicultura.

    Os dados corroboram pesquisa publicada pela revista Nature Sustainability em janeiro de 2025, conduzida por cientistas brasileiros e americanos, que identificou vantagens da criação de peixes na região amazônica em comparação ao gado.

    Por que curimba e tambaqui formam a dupla ideal

    A escolha da curimba como espécie complementar ao tambaqui não foi aleatória. De formato alongado e comercializada entre 500g e 1kg em mercados do Pará e regiões ribeirinhas, a curimba é atualmente a segunda espécie de peixe mais exportada pelo Brasil.

    “A curimba possui um perfil ecológico que complementa a função do tambaqui. É um peixe de fundo, responsável por consumir as sobras de ração e alimentos presentes no sedimento do viveiro”, explica Lima.

    O diferencial está na sinergia entre as espécies: enquanto o tambaqui se alimenta na coluna d’água, a curimba aproveita recursos do fundo do viveiro, transformando em proteína animal aquilo que seria descartado no monocultivo. Essa complementaridade não afeta o crescimento do tambaqui – pelo contrário, potencializa a produção total.

    Mesma ração, mais proteína

    Um dos achados mais relevantes da pesquisa foi constatar que a curimba se desenvolve com a mesma quantidade de ração destinada ao monocultivo do tambaqui. Com proporção de aproximadamente 50% de alevinos de cada espécie, o viveiro produziu 25% a mais de proteína por hectare, sem necessidade de aumentar insumos.

    No experimento realizado em viveiros de 600 metros quadrados, o tambaqui atingiu 1,8kg (peso de comercialização no Tocantins e outros estados do Norte), enquanto a curimba chegou a 200g. Para pequenos produtores, essa diferença não representa problema, já que as espécies têm mercados distintos e é possível realizar despescas em momentos diferentes.

    Impacto ambiental reduzido em diversos indicadores

    A análise de ciclo de vida (ACV) revelou que o cultivo integrado supera o monocultivo em múltiplos aspectos ambientais:

    • Emissões de carbono: redução de 4,27kg para 3,9kg de CO2 por quilo de peixe produzido
    • Uso da terra: diminuição de 17%
    • Acidificação: redução de 12%
    • Dependência de água: queda de 38,57%
    • Demanda de energia: redução de 13,30%
    • Eutrofização de água doce: diminuição de 21%
    • Impacto nas mudanças climáticas: redução de 9%

    “Esses resultados destacam o sistema AMTI como uma alternativa mais sustentável à monocultura convencional de tambaqui”, ressalta a pesquisadora.

    Metodologia científica robusta

    A pesquisa considerou todos os custos ambientais da produção, incluindo recursos necessários para fabricação de insumos como ração (plantio de soja e milho), construção de viveiros e outros fatores. A avaliação abrangeu desde a alevinagem até a comercialização, em condições próximas às do setor produtivo comercial.

    Mesmo computando todos esses custos, o impacto da piscicultura mostrou-se substancialmente menor do que outras atividades agropecuárias.

    Futuro promissor para sistemas integrados

    Lima destaca que o Brasil ainda possui poucas iniciativas de cultivo integrado na aquicultura, diferentemente de países como China e Índia, onde a prática é comum. A falta de dados científicos tem sido o principal obstáculo para a adoção do modelo.

    Pesquisadora Adriana Lima. Foto: Embrapa

    “Nós acreditamos que demos um passo importante para o estudo do cultivo integrado, o que abre portas para a combinação de outras espécies, como tambaqui, curimba e camarão”, afirma a cientista.

    Atualmente, a produção de tambaqui aproveita apenas 30% a 40% do nitrogênio e fósforo disponíveis – o restante é perdido para a atmosfera ou água. Com o sistema integrado, a eficiência de recuperação de biomassa animal aumenta significativamente, transformando resíduos em proteína de qualidade.

    Perspectivas para o setor

    A pesquisa responde dúvidas comuns dos produtores sobre o cultivo integrado: se a curimba prejudica o crescimento do tambaqui, se é necessário aumentar a quantidade de ração e qual proporção ideal de cada espécie no viveiro.

    Experiências de integração já existem em outras regiões do Brasil, como o cultivo de tilápia com camarão-gigante-da-Malásia no Paraná e Sudeste, além de sistemas que integram pecuária com fruticultura utilizando água da aquicultura para irrigação.

    “Há um longo caminho pela frente”, conclui Lima, apontando a necessidade de estudos que avaliem todos os impactos dos sistemas integrados, incluindo o aproveitamento da água para irrigação agrícola.

    Para o bioma amazônico, a mensagem é clara. A piscicultura integrada representa solução viável, produtiva e sustentável para a produção de proteína animal. Com potencial para reduzir pressões sobre novas áreas de floresta.

  • Técnica acelera crescimento do tambaqui em 104%

    Técnica acelera crescimento do tambaqui em 104%

    Uma pesquisa coordenada pela Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) demonstrou como mais que dobrar a produtividade do tambaqui criado em tanques-rede. Cientistas do projeto Monotamba obtiveram um ganho de peso de 1,7 kg em apenas dez meses, uma taxa 2,04 vezes superior ao resultado padrão da atividade, que é de cerca de 1 kg em doze meses. O avanço pode revolucionar a cadeia produtiva deste peixe nativo, o mais produzido no Brasil.

    O segredo do sucesso combinou duas estratégias principais: o uso de populações apenas de fêmeas, que naturalmente crescem mais. E um rigoroso condicionamento alimentar desde a fase de recria. As fêmeas receberam o hormônio estradiol por seis semanas e se acostumaram a comer apenas ração em um Sistema de Recirculação de Água (RAS) indoor.

    “O treinamento alimentar fez com que os peixes fossem treinados a comer ração mais cedo, tornando-os muito mais ávidos pela comida”, explicou a pesquisadora Flávia Tavares, líder do projeto. Esse condicionamento fez uma diferença crucial quando os animais foram transferidos para os tanques-rede no Lago de Palmas. Com o apetite aguçado, os tambaquis atingiram a marca de 1 kg em aproximadamente seis meses e meio, um tempo muito próximo ao alcançado pela tilápia, espécie dominante no mercado.

    Impacto na aquicultura familiar

    Melhorar a produção de tambaqui em tanque-rede é uma prioridade para a pesquisa, pois oferece uma forma eficiente e ambientalmente responsável de cultivo. A técnica pode impulsionar a inclusão socioprodutiva de piscicultores familiares, especialmente em regiões ribeirinhas, ao facilitar o acesso a mercados locais e reduzir custos de logística.

    tambaqui
    Foto: Siglia Souza/Embrapa

    Os resultados zootécnicos são promissores, mas a equipe agora busca consolidar um pacote tecnológico completo para a espécie, algo que já existe para a tilápia. “Precisamos calcular os indicadores econômicos para ver se o tempo em sistema indoor compensa o custo para o produtor”, pondera Tavares. Outro foco é testar densidades de povoamento ainda maiores, potencialmente elevando para 50 kg/m³.

    O potencial do tambaqui no Brasil

    O tambaqui lidera a produção de peixes nativos no país. Dados do IBGE de 2023 mostram uma produção de 113,6 mil toneladas, que movimentou mais de R$ 1,2 bilhão. Rondônia, Roraima e Maranhão foram os maiores produtores. Apesar dos números expressivos, o potencial brasileiro, especialmente na Região Norte, é ainda maior.

    Iniciativas como o Monotamba e o projeto BRS Aqua, que já havia reduzido o tempo para atingir 1 kg para nove meses, representam passos importantes. “Estamos avançando… Teremos espécies melhoradas e edição genômica. Tem tudo para dar certo, é um baita potencial que o tambaqui tem”, conclui a pesquisadora da Embrapa, traçando um futuro otimista para a cadeia produtiva desta espécie genuinamente brasileira.

  • Avaliação por inteligência artificial indica nível de estresse de tambaquis

    Avaliação por inteligência artificial indica nível de estresse de tambaquis

    Pesquisadores da Unesp com colaboração da Embrapa desenvolvem ferramenta que pode ser usada para aumentar bem-estar animal ao avaliar tambaquis por meio da coloração da metade inferior do corpo; Brasil é o maior produtor mundial da espécie

    Um grupo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal, em colaboração com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial (IA) para avaliar o estresse do tambaqui (Colossoma macropomum), peixe nativo mais produzido no Brasil. O estudo foi publicado na revista Aquaculture.

    Os resultados podem ter impacto tanto para o aumento do bem-estar dos animais quanto para a seleção de exemplares mais tolerantes ao ambiente de cultivo. O tambaqui é uma espécie amazônica cultivada sobretudo nos Estados da região Norte. O Brasil é o maior produtor mundial da espécie, fornecendo 110 mil toneladas em 2022 (leia mais em: agencia.fapesp.br/54167 e agencia.fapesp.br/37902).

    “Primeiro verificamos que, em uma condição estressante, ou seja, em um ambiente mais confinado do que o normal, os peixes ficavam mais escuros. Depois, que a adição de um hormônio ligado ao estresse também alterava a coloração nas escamas. Então treinamos um software com mais de 3 mil imagens para chegarmos num limiar de estresse que pudesse orientar piscicultores e programas de seleção genética, pois vimos que essa é uma característica herdável”, explica Diogo Hashimoto, professor do Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp), que coordenou o estudo.

    Celma Lemos

    O trabalho tem como primeira autora Celma Lemos, que realiza doutorado na instituição, e integra projeto apoiado pela FAPESP no âmbito de um acordo com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

    Para desenvolver a ferramenta, os pesquisadores fotografaram 3.780 tambaquis de duas populações. Uma do Caunesp (1.280 indivíduos) e outra da Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas, no Tocantins (2.500 indivíduos). E contou com a colaboração da equipe coordenada pela pesquisadora Luciana Shiotsuki.

    Em seguida, cada imagem teve marcada a região que deveria ser avaliada pelo software, a metade inferior do corpo. O contraste com a coloração da parte superior é bastante comum em peixes, provavelmente um atributo da seleção natural, que resultou numa espécie de camuflagem. O “countershading”, como é chamado em inglês, pode ser observado, por exemplo, em tubarões, que têm o ventre mais claro do que as costas.

    Os pesquisadores treinaram então um modelo de aprendizado profundo (deep learning) para chegar a um limiar que indica, pelo número de pixels pretos em relação aos brancos da imagem, o grau de estresse dos tambaquis.

    Uma vez que os exemplares do Tocantins tinham sido marcados quanto à sua ascendência, foi possível saber quanto a característica pode ser passada adiante. “Calculamos que a tolerância ao estresse é uma característica moderada a altamente herdável. Isso se reflete em ganho de peso e tolerância a doenças. Abrindo caminho para termos gerações com cada vez mais bem-estar em ambiente de cultivo”, avalia Hashimoto.

    Mecanismos fisiológicos

    A mudança na coloração sob estresse é uma característica encontrada em diversas espécies de peixe, mas ainda não havia sido comprovada no tambaqui. No caso das que se tornam mais escuras à medida que estão mais estressadas, como a tilápia (Oreochromis niloticus), um hormônio envolvido no estresse promove a expansão dos melanóforos, células que, a olho nu, são pequenas pintas pretas.

    Para comprovar o efeito no tambaqui, os pesquisadores coletaram escamas de seis indivíduos, da população de Jaboticabal, e as mergulharam em duas soluções. Numa delas, havia uma solução neutra e o α-MSH, uma versão do hormônio estimulante de melanóforos. Na outra, apenas a solução neutra. Depois de 30 minutos, os autores observaram que as banhadas no hormônio estavam mais escuras, com os melanóforos expandidos.


    Escamas antes e depois de 30 minutos mergulhadas em solução com hormônio ligado a estresse: indicado pela seta, expansão de melanóforos gera coloração mais escura (foto: Celma Lemos/Caunesp</em>)</p>

    Em outro experimento, seis tambaquis foram retirados dos tanques normais de criação, de 200 metros quadrados, fotografados e divididos em três reservatórios redondos muito menores, de 2 mil litros (85 centímetros de altura e 1,66 metro de diâmetro). Depois de dez dias, foram novamente fotografados e a diferença de coloração era evidente, confirmando que a espécie também fica mais escura à medida que se estressa.

    “A ferramenta de IA pode ser usada para monitorar o estresse dos peixes cultivados, num momento em que se cobra cada vez mais bem-estar animal. Apenas avaliando as fotos dos animais, seria possível obter essa medida e melhorar as práticas quando necessário, como reduzir o número de indivíduos por tanque, por exemplo”, diz o pesquisador.

    Por André Julião | Agência FAPESP