Tag: SUS

  • Herbicida banido na Suíça e na UE avança no Brasil. Saiba qual

    Herbicida banido na Suíça e na UE avança no Brasil. Saiba qual

    Um agrotóxico proibido na Europa vem ampliando sua presença no mercado brasileiro desde que autoridades nacionais baniram, há oito anos, outro pesticida da mesma família química por riscos associados a mutações genéticas e à doença de Parkinson.

    O Brasil proibiu o paraquate em 2017, após avaliação toxicológica da Anvisa apontar riscos de mutagenicidade e associação com Parkinson entre trabalhadores expostos ao produto. A decisão colocou o país na lista de mais de 70 nações que já haviam banido o herbicida.

    Produtores rurais brasileiros passaram então a recorrer ao diquate, herbicida quimicamente aparentado ao paraquate e também fabricado pela Syngenta. A substância, no entanto, segue proibida na Suíça e no restante da União Europeia por preocupações semelhantes com a saúde humana. Segundo o monitoramento do Ibama, o uso do diquate multiplicou-se por dez no Brasil entre 2017 e 2024.

    SUS registra 250 casos de intoxicação e ao menos 40 mortes

    Dados oficiais do SUS, levantados por uma investigação conjunta da Repórter Brasil e da organização suíça Public Eye, mostram que o país registrou 250 casos de intoxicação por diquate entre 2018 e 2025. Do total, ao menos 40 pessoas morreram. Foram seis em acidentes e 34 por ingestão intencional do produto, em casos de suicídio.

    Uma apuração anterior, publicada pela Unearthed e pela Public Eye em parceria com a Repórter Brasil, já havia identificado 36 casos oficiais de intoxicação por diquate no Brasil entre 2018 e 2022, dos quais 17 eram tentativas de suicídio e quatro resultaram em morte. Pesquisadores ouvidos pela reportagem descreveram uma mudança no perfil das notificações, com o diquate substituindo progressivamente o paraquate nos registros de intoxicação em regiões agrícolas.

    Caso semelhante já se repetiu na China

    O Brasil não é o único país a enfrentar esse padrão. A China baniu o paraquate em 2016 e, desde então, o diquate se consolidou como o substituto mais usado no país. Porém, com centenas de mortes por intoxicação relatadas por médicos chineses após a proibição do paraquate entrar em vigor.

    Especialistas apontam que o diquate provoca predominantemente quadros de baixa gravidade, afetando principalmente pele e olhos, mas a ingestão do produto continua representando risco grave à saúde, sobretudo em casos de autoextermínio, dada a facilidade de acesso ao produto em propriedades rurais.

    Syngenta mantém fabricação e exportação do produto

    A Syngenta, multinacional suíça responsável pela fabricação do diquate, segue produzindo o herbicida mesmo com a proibição de uso vigente em seu país de origem. A empresa também mantém unidades de produção do paraquate no Reino Unido, ainda que o uso doméstico britânico do produto esteja proibido há mais de 15 anos. Portanto, isso caracteriza um padrão de exportação de agrotóxicos vetados nos mercados de origem para países com regulação mais permissiva, como o Brasil.

    Passados oito anos da proibição do paraquate, o diquate segue autorizado para uso agrícola no Brasil, sem sinalização pública de reavaliação toxicológica por parte da Anvisa. Enquanto isso, o crescimento no número de registros de intoxicação reacende o debate sobre os critérios de liberação de agrotóxicos já vetados por autoridades sanitárias europeias.

    Nota: este texto trata de dados sobre suicídio em contexto informativo e jornalístico. Se você ou alguém que você conhece estiver passando por sofrimento emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

  • Brasil cria 1º porco clonado da América Latina para fornecer órgãos ao SUS

    Brasil cria 1º porco clonado da América Latina para fornecer órgãos ao SUS

    Criação de porco no Brasil sempre foi sinônimo de prato cheio e exportações recordes, mas agora o setor acaba de ganhar uma função nobre que vai muito além da gastronomia. O país acaba de anunciar o nascimento do primeiro porco clonado da América Latina focado especificamente em fornecer órgãos para seres humanos via SUS. Essa técnica, chamada de xenotransplante, utiliza o animal como um doador compatível, resolvendo um dos maiores gargalos da saúde pública: a fila de espera por um rim ou coração. A partir daí, o que era ciência de filme de ficção vira realidade dentro dos nossos laboratórios de genética.

    A elite da genética suína a serviço da vida

    Não se trata de um animal comum criado em qualquer granja. Esse suíno passou por modificações genéticas complexas para que seu organismo não sofra rejeição ao ser transplantado para um humano. O processo de clonagem garante que essas características especiais sejam replicadas com perfeição, criando uma linhagem de doadores padronizada. Além disso, a escolha do porco não é por acaso; a anatomia e o tamanho dos órgãos suínos são incrivelmente semelhantes aos nossos. Assim, a pecuária de precisão brasileira mostra que sua expertise em melhoramento genético pode salvar vidas em escala industrial.

    O marco histórico da ciência brasileira em 2026

    O nascimento deste animal é um divisor de águas para a biotecnologia nacional. No entanto, o desafio foi imenso, exigindo anos de estudos para “desligar” os genes que causariam ataques do sistema imunológico humano. O sucesso desse projeto coloca o Brasil em um grupo seleto de nações que dominam o ciclo completo da edição genética animal, provando que o conhecimento gerado no campo tem aplicações infinitas na cidade.

    Do laboratório ao sistema público de saúde

    O impacto dessa inovação no SUS será monumental nos próximos anos. Atualmente, milhares de brasileiros aguardam anos por um doador compatível, e muitos não sobrevivem à espera. Com a possibilidade de “produzir” esses órgãos em ambientes controlados e biosseguros, o cenário muda completamente. Em contraste com o sistema atual de doação voluntária, que é imprevisível, a clonagem para xenotransplante oferece uma oferta constante e segura. Por outro lado, o rigor sanitário na criação desses animais é dez vezes superior ao de uma granja comercial, exigindo instalações de isolamento total.

    O futuro do agro passa pela biotecnologia

    A consequência natural desse avanço é a abertura de um novo mercado para o agronegócio de alta tecnologia. O produtor que investe em genética e biosseguridade já entende que o valor agregado está no conhecimento técnico. Assim, o porco clonado brasileiro não é apenas um feito médico, mas um certificado de competência da nossa ciência animal. Além disso, esse projeto abre portas para que outros animais sejam utilizados na produção de biofármacos, consolidando o Brasil como o verdadeiro hub de soluções biológicas do planeta.

  • Pesquisadora brasileira lidera estudo inédito sobre canabinóides no tratamento da Doença de Parkinson

    Pesquisadora brasileira lidera estudo inédito sobre canabinóides no tratamento da Doença de Parkinson

    Um estudo inédito realizado por cientistas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) pode representar um avanço significativo no tratamento da Doença de Parkinson. Liderada pela farmacêutica Ana Carolina Ruver Martins, doutora em farmacologia e pós-doutoranda na instituição, a pesquisa investigou os efeitos da associação entre dois compostos canabinóides – o THC (tetrahidrocanabinol) e o CBD (canabidiol) – nos sintomas motores e não motores da doença. Trata-se do primeiro ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo com uma amostra significativa de pacientes e acompanhamento prolongado.

    A pesquisa foi desenvolvida no Laboratório Experimental de Doenças Neurodegenerativas (LEXDON), sob orientação do professor Rui Prediger, e se destaca por adotar um protocolo científico rigoroso. Ao todo, 68 pacientes participaram do estudo ao longo de seis meses. Eles foram divididos em dois grupos: um recebeu a combinação oral de THC e CBD, enquanto o outro utilizou placebo. O objetivo foi avaliar a eficácia e a segurança da combinação no tratamento de sintomas como rigidez muscular, tremores, distúrbios do sono, alterações cognitivas e dor crônica, característicos do Parkinson.

    Metodologia e resultados: inovação científica com potencial terapêutico

    A metodologia aplicada seguiu os padrões científicos internacionais, com randomização por software, controle por placebo e avaliação às cegas, evitando vieses e garantindo a confiabilidade dos resultados. A fórmula utilizada foi padronizada e administrada via oral, fator que diferencia o estudo de outras iniciativas internacionais que, em geral, utilizam extratos inalatórios ou não especificam a dosagem.

    canabinóides pesquisa
    Liderado pela Dra. Ana Ruver, o estudo se diferencia por metodologia rigorosa com análises mais aprofundadas e resultados inéditos. Foto: divulgação

    Os resultados preliminares indicaram melhora mais rápida nos sintomas motores dos pacientes tratados com canabinóides. Mulheres apresentaram respostas mais expressivas em termos de qualidade do sono, flexibilidade e gravidade da doença. Também foram observados níveis mais altos do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), o que reforça o potencial neuroprotetor da substância.

    Segundo a pesquisadora, o objetivo foi suprir a escassez de ensaios clínicos controlados e fornecer dados robustos para a comunidade científica. “Queríamos construir uma base sólida de evidências que permita compreender melhor o papel terapêutico dos canabinóides na Doença de Parkinson e contribuir para futuras diretrizes clínicas”, explica Ana Ruver.

    Impacto social e regulamentação

    De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 4 milhões de pessoas convivem com Parkinson no mundo. No Brasil, o número estimado é de 200 mil indivíduos. A condição neurodegenerativa compromete gradualmente os neurônios dopaminérgicos, resultando na diminuição dos níveis de dopamina, neurotransmissor essencial para o controle motor e outras funções cerebrais.

    A pesquisa está alinhada às diretrizes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), especialmente às resoluções RDC 327/2019 e RDC 660, que regulam o uso medicinal da cannabis no Brasil. O estudo também segue as normas internacionais da Conferência Internacional de Harmonização e a Declaração de Helsinki, assegurando a conformidade ética e científica da investigação.

    Segundo Ruver, os achados podem subsidiar futuras regulamentações, incentivar novos estudos e ampliar o acesso da população a tratamentos alternativos. “Se os resultados continuarem positivos, poderemos ter mais respaldo para incluir terapias com canabinóides no SUS, promovendo segurança e eficácia no uso medicinal da cannabis”, destaca.

    Qualidade de vida: o relato de uma paciente

    Entre os 68 participantes, a voluntária A.K. compartilhou os impactos positivos do tratamento. Diagnosticada com Parkinson em janeiro de 2023, ela relatava intensas dores musculares e dificuldade para dormir. “Após o ajuste da medicação, notei uma melhora significativa. A dor e a insônia diminuíram, e a adaptação ao tratamento foi rápida”, afirma. A paciente recomenda que mais estudos sejam conduzidos e acredita que o uso medicinal da cannabis, quando supervisionado, pode beneficiar muitos outros pacientes.

    A UFSC estuda há quase duas décadas os mecanismos da Doença de Parkinson e seus tratamentos. Agora, o Laboratório Experimental de Doenças Neurodegenerativas expande suas investigações para outras condições neurológicas e crônicas, como Alzheimer, Transtorno do Espectro Autista (TEA), Fibromialgia e Esclerose Múltipla (EM).

    A pesquisadora enfatiza que o estudo contribui para desmistificar o uso medicinal da cannabis. “Ainda há muito preconceito, mas quando olhamos para os benefícios documentados e para a segurança do uso clínico, percebemos o potencial que essa terapia pode oferecer”, afirma.

    A expectativa é de que os resultados finais sejam publicados em revistas científicas internacionais e que a pesquisa sirva de referência para novos protocolos de tratamento e regulamentações mais abrangentes no Brasil e no exterior.

    Mercado e tendências

    Dados da empresa de inteligência de mercado Kaya Mind revelam que, em 2023, o SUS gastou cerca de R$ 80 milhões com medicamentos à base de cannabis. No total, cerca de 219 mil brasileiros utilizam esses produtos por meio de importação, farmácias ou associações. A estimativa é que o mercado brasileiro de cannabis medicinal tenha ultrapassado R$ 1 bilhão em 2024. E mais, ele pode movimentar até R$ 26 bilhões até 2027, caso haja regulamentação mais ampla para uso medicinal, industrial e outros fins.

    Esse cenário promissor fortalece a importância de pesquisas como a conduzida pela UFSC, que colocam o Brasil na vanguarda científica sobre o uso de canabinóides no tratamento de doenças neurológicas e inflamatórias crônicas.

    Potencial para agricultura nacional

    O canabidiol (CBD), derivado da cannabis, está transformando não apenas a medicina, mas também a agricultura global. No Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) anunciou um ambicioso programa de 12 anos para desenvolver variedades de cannabis adaptadas ao clima tropical, visando impulsionar a produção nacional de forma sustentável. O projeto inclui a criação de um banco de sementes e o estudo de técnicas para integrar a planta em sistemas de rotação de culturas, além de explorar seu potencial para fixar carbono no solo.

    A iniciativa, inspirada no sucesso histórico da Embrapa com a soja — que elevou o país ao topo da produção mundial —, já atrai parcerias de empresas nacionais e internacionais interessadas em aplicações farmacêuticas, alimentícias e industriais. Enquanto isso, nos EUA, pesquisas do Departamento de Agricultura (USDA) investigam o uso de resíduos lignocelulósicos do cânhamo (subproduto da extração de CBD) para produzir bioprodutos, como biocombustíveis e materiais de construção, reduzindo o desperdício na cadeia agrícola.

    O cenário regulatório também avança. No Brasil, uma decisão judicial de 2024 permitiu o cultivo de cânhamo (com menos de 0,3% de THC) para fins medicinais. E assim, abrindo caminho para polos regionais de produção. Especialistas, como Kiara Cardoso, da DNA Soluções em Biotecnologia, preveem que a planta poderá abastecer indústrias têxteis, de papel e até de alimentos, seguindo o exemplo de países como China e França.

    Porém, desafios persistem. A Anvisa ainda debate normas para cultivo em larga escala, enquanto o mercado global de CBD — projetado para atingir US$ 46,25 bilhões até 2034 — pressiona por inovações agrícolas que equilibrem demanda e sustentabilidade.

    Aliança histórica posiciona América do Sul como polo de bioeconomia

    Brasil, Uruguai e Argentina uniram forças através da ABICANN, CECAM (Uruguai) e INTA (Argentina) para criar um corredor produtivo-tecnológico sem precedentes. O objetivo, organizado em março é grande. Transformar a região em líder global de Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial até 2026. O setor tem projeção de injetar R$ 190 bilhões/ano na economia brasileira. Além de impactar setores como saúde, agricultura regenerativa e exportações para mais de 100 países.

    Pilares estratégicos da cooperação
    • Harmonização regulatória: alinhamento de legislações entre os países para facilitar exportações e atrair investimentos trilaterais.
    • Transferência de tecnologia: expansão de centros de inovação brasileiros para Argentina e Uruguai, com foco em biotecnologias sustentáveis.
    • Desenvolvimento genético: criação conjunta de variedades adaptadas ao clima sul-americano, envolvendo técnicos do INTA, ABICANN e CECAM.
    • Certificação de sementes: implementação do modelo uruguaio – reconhecido como diferencial global – no Brasil e Argentina.

    Lideranças destacam potencial transformador

    Thiago Ermano, presidente da ABICANN, afirma: “Estamos testemunhando o nascimento de uma bioeconomia integrada, capaz de alavancar políticas públicas e destravar regulamentações engessadas”.

    Reunião da Comitiva Internacional da ABICANN com Sergio Vázquez (ao centro) do Ministério da Agricultura e IRCCA, o órgão que regulamenta a Cannabis no Uruguai

    Ricardo Páez, da CECAM, concorda: “O Uruguai compartilhará expertise em cultivos em larga escala e processamento industrial – áreas onde somos referência regional”.

    Gustavo Astuni, CEO da Litoral Hemp (Uruguai), acrescenta:“Nossa certificação de sementes é um divisor de águas. O desafio agora é replicar esse modelo com apoio tecnológico trinacional”.

    Oportunidades para investidores e produtores
    • Novos mercados: expansão para Europa, América do Norte e Ásia com produtos premium (fibras naturais, óleos medicinais e insumos veterinários).
    • Infraestrutura compartilhada: criação de unidades de processamento e centros logísticos binacionais.
    • Fomento à inovação: atração de Startups Deep Tech para desenvolver soluções em agricultura regenerativa e extração sustentável.

    O movimento surge enquanto Europa e EUA enfrentam limitações produtivas. Com biodiversidade única e capacidade industrial escalável, a Tríplice Aliança pode suprir até 15% da demanda global por cânhamo até 2030, segundo projeções setoriais.

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