Tag: sucessão familiar

  • Mulheres agricultoras assumem gestão do campo

    Mulheres agricultoras assumem gestão do campo

    A produtora rural Elisiane Soster acorda cedo em Belmonte, no Extremo Oeste de Santa Catarina. Junto com a mãe, Salete Pasini Soster, ela toca uma propriedade com 70 hectares de lavoura, 45 vacas em lactação e toda a rotina da cria e recria de bezerras. A dupla faz parte de um grupo ainda restrito no Brasil: mulheres que exercem a gestão de negócios rurais.

    O último Censo Agropecuário do IBGE, realizado em 2017, contabilizou quase um milhão de mulheres na liderança de propriedades rurais,  18,7% do total. O número representa avanço em relação ao censo anterior, de 2006, quando a participação era de apenas 12,7%. Ainda assim, a sub-representação expõe um histórico de invisibilidade: as mulheres respondem por 45% da força de trabalho na agropecuária brasileira, mas raramente ocupam o posto de gestoras.

    Para ampliar esse protagonismo, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora, com foco na promoção de políticas públicas que fortaleçam o papel feminino no campo. Em Santa Catarina, a Epagri já caminha nessa direção há anos.

    Capacitação que transforma vidas e negócios

    Entre 2019 e 2025, o programa Flor-E-Ser, da Epagri, formou mais de 1.300 mulheres do campo e da pesca em gestão, empreendedorismo e liderança. Nos últimos dois anos, o número de capacitadas dobrou. A procura é tão alta que as turmas já não dependem de divulgação: as próprias participantes recrutam novas alunas.

    “Temos listas de espera enormes e nem precisamos mais divulgar as capacitações, porque as mulheres que participaram incentivam as demais a fazer”, afirma Cianarita Caron Figueiró, coordenadora do Programa Capital Humano e Social da Epagri.

    Os relatos recolhidos pela empresa apontam um impacto que vai além do profissional. Muitas participantes descrevem o curso como um divisor de águas em suas vidas. “Muitas mulheres relatam que, após o curso, sentem-se verdadeiramente integradas ao planejamento da propriedade, assumindo funções estratégicas na gestão e posições de liderança na comunidade”, destaca Ciana. Para ela, o principal ganho das capacitações é o resgate da autoestima, o combustível que leva as mulheres a tomar iniciativas e impulsionar o crescimento do negócio rural.

    Jovens mulheres e a sucessão familiar

    Outra frente de atuação da Epagri é o programa Ação Jovem Rural e do Mar, voltado à sucessão familiar nas propriedades rurais. De 2021 a 2025, mais de 320 mulheres passaram pelo curso. Homens ainda representam cerca de 75% dos participantes, mas a Epagri aposta em ações estratégicas para mudar esse cenário.

    No ano passado, a empresa assumiu a gestão compartilhada dos cinco Cedups Agrotécnicos com a Secretaria de Estado da Educação, integrando pesquisa, extensão rural e ensino técnico. Hoje, mulheres representam 30% dos estudantes das unidades. Uma das barreiras identificadas é estrutural: os Cedups oferecem alojamento apenas para homens. A construção de espaços femininos está prevista a médio prazo.

    “Os agricultores já conhecem a Epagri e confiam na empresa, presente em todos os municípios. A sensibilização por parte dos extensionistas é muito importante nesse sentido”, afirma Andréia Meira, diretora de Ensino Agrotécnico da Epagri. Ela também vê na parceria com o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e a Cooperativa Aurora um estímulo extra: a partir de 2025, alunos poderão atuar como jovens aprendizes com bolsas de R$ 750.

    “As mulheres têm um papel muito importante na sucessão familiar no campo, por isso a Epagri tem todo o interesse em estimular a profissionalização”, reforça Andréia.

    “Gestão não tem gênero”

    Elisiane Soster conhece esse caminho na prática. Quando o pai faleceu, há quatro anos, ela e a mãe assumiram integralmente a propriedade. Vieram com isso o ceticismo alheio e a determinação de provar o contrário.

    “Logo após o falecimento do meu pai, algumas pessoas duvidaram se daríamos conta. Mas transformamos isso em combustível. Hoje mostramos, na prática, que gestão não tem gênero. Tem competência e responsabilidade”, diz ela.

    Eliane Soster, acima ao lado da mãe Salete Pasini Soster. Foto: Arquivo pessoal

    Técnica em Agropecuária, Elisiane participou do Ação Jovem Rural da Epagri em 2016, aos 21 anos. Hoje cursa Tecnologia em Gestão Financeira, presta consultoria a famílias rurais em processos sucessórios e realiza palestras em empresas, cooperativas e instituições. É também coautora do livro Rainhas Internacionais do Agro, que reúne relatos de mulheres agricultoras de vários países.

    “Percebo que as mulheres estão buscando mais espaço e assumindo decisões estratégicas. Muitas fazem tudo, mas ainda não se reconhecem como gestoras. Acredito que estamos vivendo uma transição: a mulher sempre esteve no campo, mas agora ela está se posicionando como líder”, conclui Elisiane.

  • Mulheres do agro debatem governança e sucessão familiar em encontro no Tocantins

    Mulheres do agro debatem governança e sucessão familiar em encontro no Tocantins

    O município de Gurupi, no Tocantins, receberá no dia 24 de março a primeira edição itinerante do evento Elas na Pecuária, promovido pela Beckhauser em parceria com a Terra Boa. O encontro discutirá governança e sucessão familiar na pecuária brasileira, com o objetivo de fortalecer a participação feminina na gestão de propriedades e negócios rurais.

    Após três edições bem-sucedidas em Campo Grande (MS), o projeto inicia uma nova fase, levando às diferentes regiões do país um espaço de diálogo e integração entre mulheres que atuam em diversos elos da cadeia pecuária. Desde o início, o evento tem servido como plataforma para o compartilhamento de experiências, desafios e conquistas de lideranças femininas.

    “Desde a primeira edição, percebemos o quanto esse ambiente de troca faz diferença. As convidadas compartilham suas trajetórias, falam sobre desafios e conquistas, e isso desperta empatia e inspiração, especialmente em quem está construindo seu caminho na pecuária”, explica Carla Ferrarini, gerente de Comunicação e BEAH da Beckhauser.

    Tocantins inicia fase itinerante do projeto

    A escolha do Tocantins marca um passo estratégico da Beckhauser. O estado, que vem ampliando sua relevância na pecuária da região Norte, apresenta rebanho em expansão e crescente participação de mulheres na gestão rural. Além disso, a parceria com a Terra Boa, sediada em Gurupi, reforça a presença local do evento e valoriza uma empresa com forte representatividade feminina.

    “Diversas regiões já possuem grupos estruturados de mulheres que se reúnem para debater o setor. Nossa intenção é contribuir com esses movimentos, somando forças e ampliando as oportunidades de conexão. Começar por um parceiro estratégico, com liderança feminina e forte inserção local, foi uma escolha natural”, destaca Carla.

    O formato do evento permanece o mesmo: painéis de 20 a 30 minutos com convidadas que compartilharão suas experiências relacionadas ao tema central, sob mediação da CEO da Beckhauser, Mariana Beckheuser. Ao final, o público poderá interagir com perguntas, reforçando o caráter participativo do encontro.

    Fortalecimento da governança e da liderança feminina

    Para a Terra Boa, parceira anfitriã, o evento representa mais do que um debate setorial. Segundo Lívian Rocha dos Reis, diretora administrativa da empresa, a iniciativa reforça a importância da profissionalização da gestão rural e da formação de novas lideranças femininas.

    “Para a Terra Boa, iniciativas como o Elas na Pecuária têm importância estratégica e simbólica. Somos uma empresa familiar. E acreditamos que o fortalecimento do agro passa pela formação de lideranças preparadas, pela governança estruturada e pela valorização de diferentes perspectivas. A parceria com a Beckhauser amplia esse debate sobre o protagonismo feminino e contribui para um setor mais equilibrado e sustentável”, afirma Lívian.

    Com edições anuais previstas em diferentes regiões do país, o Elas na Pecuária consolida-se como um dos principais espaços de networking e valorização da mulher no agronegócio. E une inspiração, conhecimento e propósito em torno da transformação da pecuária brasileira.

  • Sucessão: apenas 30% das propriedades rurais chegam à 2ª geração

    Sucessão: apenas 30% das propriedades rurais chegam à 2ª geração

    O agronegócio é responsável por quase 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e tem um DNA predominantemente familiar: mais de 80% das propriedades rurais são administradas por famílias. No entanto, a longevidade desses negócios ainda é um desafio: apenas 30% chegam à segunda geração e menos de 5% resistem até a terceira.

    O Anuário Estatístico da Agricultura Familiar 2023, publicado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), reforça a relevância do setor. Segundo o levantamento, a agricultura familiar responde por 23% do valor bruto da produção agropecuária nacional. Também gera 67% das ocupações no campo e posiciona o Brasil como o oitavo maior produtor de alimentos do mundo. Além disso, contribui com 40% da renda da população economicamente ativa. E impulsiona a economia de 90% dos municípios com até 20 mil habitantes, que representam 68% do total.

    O índice de mortalidade das empresas rurais entre gerações chama a atenção para a necessidade de planejamento sucessório e de ferramentas de gestão que assegurem a continuidade das atividades. A sucessão no agronegócio envolve aspectos legais, financeiros e tributários. E a falta de preparo pode resultar em conflitos familiares, perda de patrimônio e até paralisação das operações.

    De acordo com Luiz Felipe de Carvalho Teixeira, CEO da contabilidade LF Accounting Services, o tema deve ser tratado como um processo permanente. “A sucessão familiar no agronegócio não é apenas uma questão de herança. Envolve organização contábil, avaliação patrimonial e definição de responsabilidades. Sem esse preparo, o risco de descontinuidade aumenta significativamente”, afirma.

    Impacto tributário

    Para o especialista, outro aspecto relevante é o impacto tributário. Isso porque a legislação brasileira impõe regras específicas para a transferência de bens e empresas familiares, o que exige acompanhamento técnico. “O contador pode orientar o produtor rural sobre regimes tributários mais adequados, avaliar a viabilidade da criação de holdings familiares e antecipar cenários para reduzir custos fiscais”, explica Teixeira.

    Luiz Felipe ressalta que a contabilidade também contribui para a análise da saúde financeira das propriedades, fornecendo relatórios que permitem uma visão clara do fluxo de caixa e dos investimentos necessários. “A gestão contábil oferece dados objetivos que ajudam a família a tomar decisões estratégicas, seja na modernização da produção, na expansão de áreas cultivadas ou na profissionalização da administração”, acrescenta o CEO.

    Ainda conforme a percepção do profissional, a profissionalização da gestão, com o apoio de contadores, advogados e consultores especializados pode reduzir conflitos familiares e aumentar as chances de perpetuação das propriedades. “Quando a família se prepara com antecedência, o processo de sucessão se torna mais transparente e menos conflituoso. E a contabilidade é a base desse preparo”, conclui Teixeira.