A Amazônia se torna referência para sistemas agroflorestais que combinam conhecimento tradicional e ciência. A Verthic, empresa que atua há mais de uma década na região, já implantou mais de 110 Sistemas Agroflorestais (SAFs) a partir dessa combinação.
Segundo a empresa, o segredo está em entender as características de cada território. Por isso, a Verthic constrói projetos que unem saberes locais, capacidade técnica e planejamento.
Além disso, cresce o interesse por sistemas produtivos que povos indígenas e comunidades tradicionais desenvolvem há gerações. Na Amazônia, essas comunidades combinam espécies agrícolas e florestais e criam experiências que servem de referência para modelos mais adaptados aos territórios. Contudo, isso não significa substituir o conhecimento científico nem transformar práticas tradicionais em soluções universais.
A própria Embrapa reconhece que comunidades indígenas, caboclas e ribeirinhas desenvolveram diferentes sistemas agroflorestais na Amazônia. A partir dessas experiências, pesquisadores sistematizaram conhecimentos agronômicos, ecológicos e econômicos. Assim, desenvolveram novos arranjos adaptados às necessidades das comunidades rurais.
O conceito também encontra respaldo em iniciativas internacionais. A FAO define a agrofloresta como a integração deliberada de árvores, cultivos agrícolas e animais. Segundo a organização, essa integração diversifica a produção e a renda, melhora a saúde do solo e a gestão da água, e aumenta a resiliência às mudanças climáticas.
“Conhecimento não é receita pronta”, diz Verthic
Para Fernando Vincenti, fundador da Verthic, o conhecimento tradicional funciona como uma fonte de informação sobre o território, e não como uma fórmula pronta.
“O conhecimento das comunidades não deve ser tratado como uma receita pronta, mas como uma fonte importante de informação sobre o território. Temos o desafio de criar projetos que consigam integrar esse conhecimento à ciência e às necessidades econômicas e ambientais de cada região, sempre com participação efetiva das comunidades”, afirma Vincenti.
Projetos recentes ampliam a abordagem
Essa lógica já orienta iniciativas em curso. Em 2024, a Embrapa iniciou, em parceria com o Fundo Vale e outras instituições, um projeto em território indígena no Maranhão. A iniciativa busca conhecer experiências locais de sistemas agropecuários e conservação florestal, além de mapear desafios de produção a partir do conhecimento tradicional.
Já em 2025, FAO, MCTI e Instituto Mamirauá se uniram para desenvolver, com comunidades locais, metodologias para recuperar cerca de 26 mil hectares de florestas alagáveis da Amazônia. O projeto também prevê capacitação das comunidades e o desenvolvimento de iniciativas ligadas à cadeia produtiva da restauração.
Participação local aumenta chances de continuidade
Para a Verthic, essas experiências mostram que o desenvolvimento sustentável na Amazônia depende de conectar conhecimento territorial, ciência, políticas públicas, financiamento e execução em campo.
“Quando um projeto é construído com participação de quem vive no território, aumentam as possibilidades de que ele seja adequado à realidade local e tenha continuidade. O objetivo não é romantizar o conhecimento tradicional, mas reconhecê-lo como um dos elementos que podem contribuir para projetos tecnicamente consistentes e economicamente viáveis”, completa Vincenti.
Um novo estudo técnico mapeou 121 mil hectares de cacau plantados nos estados do Pará e Rondônia. E traçou pela primeira vez um retrato detalhado da produção cacaueira na Amazônia brasileira. O levantamento multitemporal combina sensoriamento remoto, imagens de radar, inteligência computacional e auditoria em campo para qualificar a expansão da cultura sob a ótica da sustentabilidade, da restauração ambiental e da rastreabilidade exigida pelos mercados internacionais.
Cacau em área de sistemas agroflorestais (SAF). Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
A equipe responsável atualizou os dados do Pará para 2024, já que o último levantamento datava de 2022. Em Rondônia, o estudo estabeleceu a primeira linha de base territorial da cacauicultura estadual. Pesquisadores cruzaram as informações geográficas do cacau com as bases do TerraClass e do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). E concluíram que o avanço do cacaueiro não derruba floresta nativa: ele ocupa principalmente pastagens e vegetação secundária já alteradas no passado.
Pesquisadores apresentam resultados na ExpoCacau 2026
A equipe apresentará os resultados completos em 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus (BA). O evento reúne mais de 6 mil participantes e cerca de 60 expositores entre produtores, técnicos, especialistas, empresas e organizações da cadeia do cacau.
Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental (PA) e autor principal do trabalho, defende que a cacauicultura ocupa papel estratégico na Amazônia contemporânea. Segundo ele, a cultura gera renda para milhares de famílias rurais e recupera solos alterados, devolvendo produtividade a paisagens antes ocupadas por pastagens degradadas.
Norte concentra metade da produção nacional de cacau
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a região Norte responde por 50% de toda a safra nacional de cacau, com produção regional de aproximadamente 148 mil toneladas em um total de 297 mil toneladas colhidas no país. O Pará lidera a produção nacional com cerca de 137,5 mil toneladas de amêndoas secas, volume que representa 46% do cacau brasileiro e 92% do total produzido na região Norte.
Rondônia ocupa a segunda posição na região Norte e a quarta no país, com colheita estimada em 8,6 mil toneladas de amêndoas. Embora cultive uma área menor que o Pará, o estado se destaca pela eficiência técnica. Sua produtividade média supera 1.250 kg por hectare, uma das maiores do Brasil.
Metodologia combina satélites, radar e validação em campo
Mapear cacaueiros em meio à densa vegetação amazônica representa um desafio para a ciência geoespacial, já que as copas das plantas, especialmente em sistemas sombreados, apresentam semelhança espectral com florestas nativas ou vegetações secundárias.
Para superar essa barreira, a equipe técnica estruturou uma metodologia híbrida de alta precisão, combinando imagens e dados de múltiplos satélites. Imagens com resolução de 50 centímetros permitiram identificar detalhes de meio metro no terreno, diferenciando o cacau cultivado a pleno sol daquele integrado em Sistemas Agroflorestais (SAFs).
Para confirmar as informações extraídas das imagens, os pesquisadores realizaram expedições de campo em dez municípios das regiões da Transamazônica e Nordeste Paraense, além de municípios de Rondônia. Venturieri explica que a integração entre imagens de radar, satélites de alta resolução e validação em solo gerou informações georreferenciadas de elevada acurácia.
Pará registra salto de 33% na área plantada
O mapeamento de 2024 identificou 116.436 hectares cultivados com cacau no Pará, distribuídos em 61 municípios. Em comparação com a linha de base de 2022, que somava 87.309 hectares, a área cultivada cresceu 33,26%, um incremento líquido de 29.128 hectares em apenas dois anos.
O estudo, no entanto, alerta para a composição tecnológica desse crescimento. Do total expandido entre 2022 e 2024, os produtores implantaram 63% (18.350 hectares) em sistemas de monocultivo a pleno sol. E apenas 37% (10.777 hectares) em Sistemas Agroflorestais, que consorciam o cacaueiro com espécies florestais e frutíferas.
Venturieri pondera que ambos os sistemas fortalecem a economia rural, mas a maior expansão do cultivo a pleno sol indica que os produtores têm respondido a estímulos econômicos de curto prazo. Para o pesquisador, esse cenário reforça a necessidade de ampliar incentivos públicos para os Sistemas Agroflorestais, que garantem maior diversificação e serviços ecossistêmicos.
A agricultura familiar sustenta a cacauicultura paraense. O mapeamento identificou 31.843 áreas produtivas, das quais 84,65% têm até 5 hectares e 74,55% não ultrapassam 50 hectares. Medicilândia lidera a produção municipal com 35.203 hectares, seguida por Uruará (17.024 hectares), Brasil Novo (10.162 hectares) e Altamira (7.301 hectares), todos no eixo da Transamazônica e Oeste do Pará. Tomé-Açu, com 6.981 hectares, se consolida como polo de referência em Sistemas Agroflorestais no nordeste paraense.
Rondônia surge com vocação natural para agrofloresta
Rondônia passa a contar, pela primeira vez, com um mapeamento territorial completo de sua cacauicultura. O estudo estabeleceu a linha de base estadual em 5.340 hectares cultivados em 51 municípios.
Diferentemente do Pará, Rondônia concentra sua produção em Sistemas Agroflorestais. Nas áreas antropizadas mapeadas com cacau no estado, que somam 5.339,83 hectares, os produtores cultivam 62% (3.310 hectares) em SAFs e 38% (2.029 hectares) a pleno sol.
Foto: Adriano Venturieri/Embrapa
A cacauicultura rondoniense também se apoia fortemente na agricultura familiar: o levantamento identificou 38.108 áreas produtivas, e 75% delas ocupam até 5 hectares. Jaru lidera a produção estadual com 832,13 hectares, seguido por Porto Velho (352,87 hectares), Theobroma (305,43 hectares), Ouro Preto do Oeste (297,41 hectares) e Mirante da Serra (260,28 hectares). Juntos, 11 municípios respondem por 62,6% da área cultivada no estado.
Para Venturieri, Rondônia trilha uma trajetória singular e promissora. O mapeamento mostra que sistemas agroflorestais sob gestão da agricultura familiar sustentam mais de 60% da cacauicultura estadual. O pesquisador considera esse cenário um ativo estratégico para estruturar uma cadeia produtiva orientada por padrões socioambientais desde sua origem.
Dados reforçam conformidade com regras ambientais internacionais
Bases de monitoramento ambiental mostram que 96% das áreas cultivadas no Pará e 98% em Rondônia ocupam locais desflorestados antes de 2020. Venturieri destaca que essa informação ganha relevância diante da legislação da União Europeia, já que o cacau é uma commodity sujeita a controles rígidos de origem.
O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) proíbe a importação de commodities provenientes de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. O mapeamento identificou que produtores implantaram apenas 3,9% do cacau antropizado no Pará e 2% em Rondônia em áreas desmatadas após 2021, dados que permitem aos exportadores gerenciar riscos e comprovar conformidade socioambiental.
O levantamento ainda identificou 11.444 hectares no Pará e 148,78 hectares em Rondônia de cacau cultivado sob cobertura de florestas nativas, aproveitadas como sombreamento natural.
Foto: Adriano Venturieri/Embrapa
Venturieri conclui que a expansão do cacau na Amazônia não impulsiona novo desmatamento. Ela representa, segundo ele, uma solução concreta para reabilitar terras alteradas e gerar renda. O pesquisador define o mapeamento como instrumento indispensável de rastreabilidade para atender tanto à legislação brasileira quanto às exigências do mercado internacional. Para a Amazônia, ele defende que o desafio estratégico não está apenas em ampliar a área cultivada. Mas em garantir que essa expansão ocorra com qualidade territorial, sustentabilidade e competitividade.
Vitor Stella, do CocoaAction Brasil, reforça que entender a dinâmica de expansão da cacauicultura na Amazônia ajuda a antecipar o futuro da cadeia produtiva. Segundo ele, conhecer para onde a cultura avança, em quais sistemas produtivos e sob quais condições permite identificar gargalos, orientar políticas públicas e direcionar investimentos e assistência técnica para onde são mais necessários. Stella destaca que o objetivo final é fazer a expansão do cacau acontecer de forma sustentável, com mais produtividade, conservação e geração de renda para o produtor rural.
A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 4107/25, que cria a Política Nacional de Proteção, Manutenção e Incentivo ao Cultivo de Cacau em Sistemas Agroflorestais Cabruca. A proposta fortalece a cacauicultura sustentável ao estimular o cultivo sob sombra de árvores nativas.
O texto define o sistema cabruca como o cultivo de cacau integrado à vegetação nativa, com manutenção mínima de espécies por hectare e respeito à biodiversidade local. A prática é comum em regiões como o sul da Bahia e combina produção agrícola com conservação ambiental.
O relator do projeto, deputado Domingos Sávio (PL-MG), defendeu a aprovação e destacou o potencial do modelo. Segundo ele, o sistema cabruca comprova que é possível unir produção econômica e preservação ambiental.
A proposta estabelece uma série de instrumentos de apoio à produção em cabruca. Entre eles estão:
Crédito rural específico para o sistema agroflorestal
Programas de assistência técnica e extensão rural
Capacitação de produtores
Subsídios financeiros
Criação de um fundo para pesquisa científica e tecnológica na cacauicultura
O texto também prevê pagamento por serviços ambientais. O valor mínimo anual será equivalente a uma arroba (15 kg) de cacau por hectare cultivado, considerando o maior preço do produto no ano vigente. Pequenos e médios produtores terão prioridade no acesso aos incentivos.
Proteção ambiental e biodiversidade
Além do estímulo à produção sustentável, a política busca proteger recursos naturais e conservar a biodiversidade da Mata Atlântica. O modelo cabruca mantém a cobertura vegetal e contribui para a preservação de ecossistemas sensíveis.
Autor do projeto, o deputado Neto Carletto (PP-BA) ressaltou a relevância do sistema, especialmente na Bahia. Segundo ele, a cabruca desempenha papel estratégico tanto na conservação ambiental quanto no desenvolvimento econômico e social das comunidades produtoras.
O projeto segue em análise na Câmara dos Deputados e ainda passará pelas comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, o texto precisa de aprovação na Câmara e no Senado.
O Brasil apresentou ao mundo novos dados sobre a viabilidade econômica da produção de cacau em sistemas agroflorestais durante o Partnership Meeting 2026, em Amsterdã, principal conferência internacional do setor cacaueiro. O estudo foi conduzido pelo Instituto Arapyaú em parceria com o CocoaAction Brasil. E indica que o modelo agroflorestal oferece retorno financeiro competitivo, reduz riscos e amplia o acesso a investimentos sustentáveis.
Foto: Divulgação
A delegação brasileira é composta por representantes do Arapyaú, AIPC, Abicab, produtores rurais e outras entidades do setor. E participa de uma missão institucional entre 16 e 20 de fevereiro, com compromissos nas Embaixadas do Brasil na Bélgica e na União Europeia.
Durante o evento, os representantes apresentam experiências nacionais em cultivo sustentável, novos mecanismos de financiamento e iniciativas de fortalecimento da cadeia produtiva, integrando o movimento Cacau Brasileiro, que busca reposicionar o país como líder global em produção de cacau sustentável e de qualidade.
O estudo, intitulado “Viabilidade econômica de sistemas agroflorestais com cacau – Modelagens na Amazônia e na Mata Atlântica”, analisou 11 modelos produtivos em Pará e Bahia. Em todos os cenários, os índices financeiros mostraram desempenho positivo, com Taxa Interna de Retorno (TIR) superior à taxa de desconto e Valor Presente Líquido (VPL) positivo. As modelagens associaram o cacau a culturas como banana, mandioca, açaí, cupuaçu, coco e dendê. Além de espécies florestais de alto valor, como seringueira, mogno e ipê.
Segurança a investidores
Segundo Vinicius Ahmar, diretor de programas do Instituto Arapyaú, o levantamento oferece segurança a investidores e formuladores de políticas públicas. “Os resultados ampliam a previsibilidade econômica dos sistemas agroflorestais e orientam o desenvolvimento de instrumentos de financiamento e políticas mais adequadas ao setor”, afirma.
A versão atualizada do estudo incorporou fatores recentes, como a volatilidade dos preços internacionais, o aumento dos custos de produção e as novas exigências de mercados internacionais, como o Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). As conclusões reforçam que o modelo agroflorestal está em linha com as metas climáticas e de biodiversidade. Além de se integrar ao Plano Inova Cacau 2030, que posiciona o Brasil como fornecedor global de cacau sustentável e rastreável.
Apesar das perspectivas favoráveis, os pesquisadores apontam desafios à expansão. Como a falta de mudas e insumos, o crédito rural limitado e a carência de assistência técnica especializada. O relatório sugere ampliar o acesso a modelos inovadores de financiamento, como o Fundo Kawá, que combina recursos de mercado e filantrópicos em formato de blended finance.
Evidências científicas do estudo
Um relatório técnico complementar, elaborado pela professora Deborah Faria, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), reforça as evidências científicas do estudo. Encomendado pelo Governo dos Países Baixos em parceria com o Arapyaú e a Conservação Internacional, o documento reúne dados atualizados, entrevistas e análises sobre os sistemas agroflorestais de cacau no Brasil.
Deborah destaca que a falta de assistência técnica contínua ainda limita a produtividade dos pequenos produtores. “A escassez de profissionais e os altos custos de acompanhamento dificultam o manejo adequado das lavouras e o controle de pragas e doenças”, explica.
A Amazônia consolidou sua liderança na produção de cacau de alto valor agregado neste sábado (6), durante a sétima edição do Concurso Nacional de Cacau Especial do Brasil, realizada em Cacoal (RO). Pequenos e médios produtores da região conquistaram os principais prêmios nas categorias Varietal e Mistura, demonstrando o avanço da qualidade na cacauicultura amazônica.
O produtor paraense Robson Brogni, de Medicilândia, levou o primeiro lugar na categoria Mistura, dedicada a blends de variedades. Brogni acumula vitórias em edições anteriores do concurso e alcançou o segundo lugar no Cacao of Excellence Award em 2024, a principal competição global do segmento.
Mauro Celso Tauffer, agricultor familiar de Buritis (RO), venceu a categoria Varietal pelo terceiro ano consecutivo. O produtor representa a consolidação do modelo amazônico de produção, baseado em sistemas agroflorestais (SAFs) que integram o cacau com espécies nativas.
A produção amazônica cresce a partir de modelos agrícolas integrados ao ecossistema. Os sistemas agroflorestais aproveitam a característica natural do cacaueiro, planta de sub-bosque que se desenvolve à sombra. Essa técnica reduz danos ambientais e recupera áreas degradadas, combinando produtividade com preservação florestal.
Evento reúne 500 participantes e autoridades do setor
O Cacoal Selva Park sediou o evento, que reuniu cerca de 500 pessoas, incluindo o governador de Rondônia, Marcos Rocha, representantes do setor produtivo e da indústria do chocolate.
“Receber o Concurso Nacional em Rondônia reforça a importância do nosso estado no cenário agrícola nacional. Temos investido no fortalecimento da produção, na valorização do produtor rural e no incentivo às boas práticas”, destacou o governador.
O concurso recebeu 108 amostras de cacau de todo o país. Os organizadores selecionaram 20 amostras para a etapa final, quando especialistas degustaram às cegas líquor (massa de cacau sem açúcar) e chocolates 70% produzidos pelo Centro de Inovação do Cacau (CIC).
Júri técnico e especialistas externos definem vencedores
A comissão julgadora padronizou todo o processo de fabricação, embalagem e codificação para eliminar interferências. Especialistas do setor avaliaram o líquor, enquanto um júri externo — composto por nomes como a jornalista e cacauicultora Ticiana Villas Boas e a crítica gastronômica da Folha de S.Paulo, Priscila Pastre — definiu os três melhores de cada categoria.
Adriana Reis, especialista em análise sensorial de cacau e chocolate e gerente de qualidade do CIC, explica que os resultados refletem características únicas da Amazônia.
“O cacau amazônico é complexo, com notas suaves e frutadas, baixo amargor e nuances florais e de especiarias. É um cacau que celebra a nossa diversidade e nos coloca de forma competitiva no cenário de qualidade”, afirma a especialista.
Premiação de R$ 100 mil reconhece excelência dos produtores
Os vencedores dividiram R$ 100 mil em prêmios, valor que reconhece o trabalho de qualidade desenvolvido nas propriedades amazônicas.
O concurso incorporou critérios socioambientais baseados no Currículo de Sustentabilidade do Cacau, ferramenta que mede a aderência dos produtores a boas práticas de manejo, uso racional de insumos e condições de trabalho. A avaliação incluiu questionários e visitas técnicas às propriedades.
“O mercado já diferencia quem entrega qualidade com responsabilidade. A responsabilidade ambiental deixou de ser custo e se tornou diferencial competitivo”, afirma Cristiano Villela, diretor do CIC.
O crescimento do segmento bean-to-bar, focado em rastreabilidade e narrativa de origem, tem impulsionado o interesse no cacau especial. Embora ainda represente um nicho, o setor oferece margens mais altas e eleva o padrão de produção no campo.
O CIC organiza o concurso desde 2018 em parceria com entidades da indústria, como AIPC e Abicab. Nesta edição, o evento contou com apoio do Governo de Rondônia, Mars, Netafim, Cacau Show, Lacta, Dengo e Instituto Arapyaú, entre outras empresas e instituições públicas e privadas.
VENCEDORES – VII CONCURSO NACIONAL DE CACAU ESPECIAL
A Nestlé Brasil anunciou nesta segunda-feira (10), durante a abertura da COP30 em Belém, um acordo de cooperação estratégica com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) para impulsionar a agricultura regenerativa no país. A parceria tem como foco principal o desenvolvimento de pesquisas e tecnologias sustentáveis voltadas às cadeias produtivas de leite e cacau.
O acordo já conta com dois projetos de pesquisa definidos. O primeiro vai avaliar as emissões de gases de efeito estufa em vacas leiteiras submetidas a diferentes tipos de dieta. O segundo projeto concentra-se no desenvolvimento de sistemas agroflorestais mais eficientes para a produção de cacau na Amazônia.
“Este acordo representa um passo importante da Nestlé rumo à neutralidade de carbono até 2050”, destacou Marcelo Melchior, CEO da Nestlé Brasil. Segundo ele, a ciência aplicada à prática tem papel fundamental na construção de sistemas alimentares mais sustentáveis e resilientes.
Brasil como protagonista na agricultura regenerativa
O país é considerado estratégico para a Nestlé global. Sendo um dos principais produtores de ingredientes para a multinacional. As cadeias de leite, cacau e café formam o núcleo das operações da empresa no território brasileiro.
Para a produção de cacau, a parceria prevê investimentos em pesquisa genética e práticas regenerativas. O objetivo é aumentar a produtividade e tornar o Brasil novamente autossuficiente na produção do ingrediente, aproveitando as condições climáticas favoráveis do país.
Parceria entre setor público e privado
Silvia Massruhá, presidente da Embrapa, ressaltou a importância da colaboração entre instituições públicas e empresas privadas. “É possível conciliar produtividade, competitividade e sustentabilidade, criando valor para toda a sociedade e contribuindo para a agenda de descarbonização do país”, afirmou.
A aliança entre Nestlé e Embrapa já dura cerca de três décadas. Em 2006, as instituições lançaram o Programa de Boas Práticas em Fazendas de Leite, que se tornou referência nacional e, até 2017, alcançou todas as propriedades parceiras da companhia.
Meta: 50% de matérias-primas de fontes regenerativas até 2030
O acordo recebeu aval do Nestlé Institute of Agricultural Sciences (NIAS), centro de pesquisa inaugurado na Suíça em 2023. A meta da empresa é garantir que 50% das principais matérias-primas utilizadas globalmente venham de práticas regenerativas até 2030.
Foto: Divulgação
“A parceria com a Embrapa conecta a ciência global da Nestlé à realidade brasileira, permitindo validação local e adaptação às condições tropicais”, concluiu Melchior.
A Amazônia Legal acaba de receber um centro inovador dedicado à recuperação de áreas desmatadas e degradadas. Coordenado pela Embrapa, o Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental da Amazônia (Capoeira) reúne mais de 100 pesquisadores de 33 instituições nacionais e internacionais, incluindo universidades, órgãos governamentais, ONGs, empresas privadas e comunidades locais.
Com um investimento de R$ 14 milhões, o projeto foi aprovado pelo CNPq no âmbito do programa Pró-Amazônia, que visa fomentar pesquisas estratégicas para o desenvolvimento sustentável da região.
O Capoeira terá um hub na Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, e atuará de forma virtual, integrando laboratórios e grupos de pesquisa em estudos socioeconômicos, ecológicos e bioculturais.
Fragmentos de floresta em plantações de soja no município de Belterra. Foto Marizilda Cruppe/Divulgação
Segundo Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa e coordenadora do centro, o objetivo vai além da produção científica: “Queremos articular uma transformação positiva na região, substituindo a cultura da destruição pela da restauração.”
Amazônia em crise: desmatamento e degradação
A Amazônia já perdeu 18% de sua cobertura original (846 mil km²), área equivalente a quase todo o estado de Mato Grosso, segundo dados do Inpe. Além disso, 370 mil km² (mais que o território da Alemanha) sofrem com degradação por incêndios, extração ilegal de madeira e fragmentação florestal.
Esses distúrbios causam:
Emissões massivas de gases de efeito estufa
Perda de biodiversidade
Alterações no regime de chuvas
Aumento de conflitos socioambientais
Estratégias de restauração em foco
Os pesquisadores analisarão dados de mais de 100 áreas de estudo na Amazônia Legal, incluindo:
Florestas secundárias
Áreas degradadas
Sistemas Agroflorestais (SAFs)
Recuperação de sistemas aquáticos
As técnicas avaliadas incluem:
Regeneração natural
Regeneração assistida (plantio de espécies nativas)
Plantio total (em áreas sem cobertura vegetal)
Os SAFs são a estratégia mais estudada (37,88%), combinando produção agrícola e recuperação ambiental.
Laboratórios vivos
O projeto inclui “living labs” (laboratórios vivos) em três regiões estratégicas:
Santarém (PA) – Floresta Nacional do Tapajós e Resex Tapajós-Arapiuns
Mosaico do Gurupi (PA/MA) – Unidades de Conservação e Terras Indígenas
Nordeste Paraense – Municípios como Bragança, Paragominas e Tomé-Açu
Esses espaços promoverão troca de conhecimentos entre cientistas e comunidades locais, fortalecendo ações de restauração biocultural.
Restauração como solução para as mudanças climáticas
O Brasil assumiu no Acordo de Paris o compromisso de recuperar 12 milhões de hectares até 2030, sendo 38% na Amazônia. A COP 30, que ocorrerá em Belém em 2025, deve ampliar o debate sobre o tema.
“A restauração florestal é crucial para reduzir emissões e combater as mudanças climáticas”, afirma Joice Ferreira.
Um levantamento da Aliança pela Restauração (2020) identificou 2.773 iniciativas de recuperação na Amazônia, cobrindo 113,5 mil hectares. A maioria (59%) são SAFs, seguidos por plantio de mudas (26%).
“Laboratórios vivos” vão promover trocas de experiências e conhecimentos em três territórios amazônicos. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
Apesar de avanços em políticas como o Planaveg, os pesquisadores destacam a necessidade de esforços conjuntos entre governo e sociedade para ampliar a escala da restauração.
O Capoeira surge como uma esperança para a Amazônia, integrando ciência, comunidades e políticas públicas em busca de um futuro sustentável. Com a COP 30 no horizonte, o centro pode se tornar um modelo global de recuperação ambiental.