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  • Alerta: parasita da alface que causa diarreia explosiva afeta milhares de pessoas

    Alerta: parasita da alface que causa diarreia explosiva afeta milhares de pessoas

    O número de infecções por ciclosporíase associadas ao consumo de alface contaminada ultrapassa 27 mil casos nos Estados Unidos, segundo estimativas de autoridades sanitárias americanas. A doença, causada pelo parasita microscópico Cyclospora cayetanensis, provoca sintomas gastrointestinais intensos, mas raramente evolui para óbito.

    “Você mal consegue chegar ao banheiro”, descreve o epidemiologista Alejandro Macías, da Universidade de Guanajuato, ao comentar os episódios de diarreia explosiva e vômitos que caracterizam o quadro clínico.

    O surto também ultrapassou as fronteiras americanas. A UKHSA (Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido) confirmou 67 casos entre viajantes britânicos que visitaram recentemente o território mexicano e retornaram ao país de origem já infectados, em 2026.

    Como o parasita contamina alimentos e provoca a infecção

    A contaminação humana acontece pela ingestão de água ou alimentos crus lavados de forma inadequada. Diferentemente de vírus e bactérias comuns, o Cyclospora cayetanensis precisa permanecer um período no ambiente depois de eliminado nas fezes antes de se tornar infeccioso. Essa característica torna a transmissão direta entre pessoas incomum, segundo especialistas.

    A ciclosporíase provoca diarreia intensa e aquosa, cólicas abdominais, náuseas, cansaço extremo e perda de peso. Em casos sem tratamento adequado, os sintomas podem persistir por semanas, com períodos de melhora seguidos de recaídas.

    A agência britânica orienta viajantes que visitam áreas de risco a consumir apenas água engarrafada e evitar vegetais crus ou frutas com casca. A recomendação vale especialmente para quem passa pelo México e por regiões dos EUA atingidas pelo surto, hoje concentrado sobretudo em Michigan e em estados vizinhos do Centro-Oeste americano.

    O Brasil corre risco de importar o surto?

    Segundo levantamento do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde de São Paulo, o Brasil não importa vegetais frescos de consumo cru dos Estados Unidos nem do México. O que reduz significativamente a chance de o país “importar” diretamente o surto atual. A alface suspeita de originar o surto, fornecida pela empresa Taylor Farms e distribuída, entre outras redes, à Taco Bell, circula apenas no mercado americano.

    Mesmo assim, o país já enfrentou um episódio semelhante: em 2000, um surto de ciclosporíase atingiu cerca de 350 pessoas na cidade de General Salgado, no interior paulista, com o parasita confirmado em análises do Hospital das Clínicas da USP.

    Especialistas também apontam um problema à parte: a subnotificação. Exames de fezes de rotina, usados na maior parte dos postos de saúde brasileiros, frequentemente não detectam o Cyclospora. A identificação exige colorações especiais de laboratório ou testes moleculares (PCR de painel gastrointestinal), pouco disponíveis fora de centros de referência. O que sugere que casos isolados no Brasil podem passar despercebidos mesmo fora de um cenário de surto.

    Grupos de maior risco e cuidados de prevenção

    Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas imunossuprimidas apresentam maior risco de desidratação e complicações. A lavagem cuidadosa de frutas e verduras reduz o risco de contaminação, mas não elimina totalmente o parasita, resistente aos desinfetantes de uso doméstico mais comuns.

    Para viajantes que se dirigem a áreas afetadas, a recomendação médica soma-se à da UKHSA: preferir água engarrafada, evitar saladas prontas ou vegetais crus de origem duvidosa e descartar folhas externas de hortaliças antes do preparo.

  • Praga reaparece nos EUA após 60 anos e ameaça pecuária do Texas

    Praga reaparece nos EUA após 60 anos e ameaça pecuária do Texas

    Autoridades americanas confirmaram o primeiro caso do verme da bicheira do Novo Mundo (screwworm) em solo americano em seis décadas. O diagnóstico positivo veio de uma amostra colhida em um bezerro de três semanas de idade em La Pryor, no condado de Zavala, próximo à fronteira com o México. A secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, anunciou o caso durante coletiva de imprensa em 3 de junho.

    A mosca, que deposita seus ovos em ferimentos abertos de animais vivos, representa uma ameaça direta à indústria pecuária do Texas, avaliada em cerca de US$ 15 bilhões por ano. Até o momento, as autoridades não registraram novos casos, mas o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) já mobilizou equipes em campo e trabalha em conjunto com parceiros locais para conter um possível avanço da praga.

    O órgão reforçou que a bicheira não contamina carne, frutas ou vegetais e não deve afetar diretamente a cadeia de abastecimento de alimentos. Ainda assim, estimativas do próprio USDA apontam que um surto pode gerar prejuízos de até US$ 1,8 bilhão apenas no Texas, pressionando ainda mais os preços da carne bovina, que já operam em patamares recordes.

    O que é o verme da bicheira?

    O verme da bicheira do Novo Mundo pertence a uma espécie de mosca varejeira que se diferencia das demais por depositar ovos em tecido vivo, e não em matéria em decomposição. Pequenos ferimentos, como picadas de carrapato, já atraem as fêmeas, que podem depositar entre 200 e 300 ovos por vez. E até 3 mil ao longo de uma vida que dura entre 10 e 30 dias.

    As bicheiras do Novo Mundo são a forma larval carnívora de Cochliomyia hominivorax, uma espécie de mosca varejeira — Foto: Michael Miller/Texas A&M

    Após a eclosão, as larvas penetram na ferida e se alimentam da carne viva do hospedeiro. No estágio final de desenvolvimento, elas formam estruturas semelhantes a ganchos e se aprofundam ainda mais no tecido, o que originou o nome “screwworm” (verme parafuso, em tradução livre). Depois de cerca de sete dias se alimentando, as larvas caem no solo, se enterram e emergem como moscas adultas, reiniciando o ciclo.

    Infestações múltiplas costumam ocorrer na mesma ferida, com larvas em diferentes estágios de desenvolvimento, o que acelera a destruição dos tecidos.

    Historicamente, a praga concentrava sua presença na América do Sul e em partes do Caribe. Desde 2023, porém, ela vem avançando para o norte, atravessando a América Central até chegar ao México, movimento que levou as autoridades a intensificar o monitoramento a partir do ano seguinte.

    A praga pode infectar humanos e animais domésticos?

    A maior parte dos casos atinge mamíferos como bovinos, animais domésticos e fauna silvestre, mas humanos também podem ser infectados.

    Cães e gatos apresentam vulnerabilidade especial, já que pequenos ferimentos já são suficientes para atrair as moscas. O Texas Farm Bureau recomenda que tutores inspecionem os animais diariamente, com atenção redobrada a áreas com picadas antigas, mau cheiro, lesões visíveis ou sinais de larvas. A entidade também orienta que os tutores avaliem o ambiente onde os pets circulam, evitando objetos que possam causar ferimentos, como cercas de arame ou vegetação cortante. Sem tratamento, a infestação pode matar o animal rapidamente.

    Em humanos, os casos permanecem raros e costumam estar associados a viagens para regiões onde a praga é comum, como América do Sul, Cuba, Haiti e República Dominicana. Pequenos ferimentos, picadas de insetos e até incisões cirúrgicas podem servir de porta de entrada, e a infestação também pode atingir nariz, boca e olhos. Entre os sinais estão feridas que não cicatrizam, dor, sangramento e, em alguns casos, a sensação de movimento causada pela presença das larvas. A prevenção passa por manter feridas limpas e cobertas e usar roupas que protejam a pele.

    Por que a bicheira preocupa tanto o setor pecuário?

    A presença do verme em um animal provoca danos severos, já que o ciclo contínuo de deposição de ovos amplia progressivamente a ferida e pode levar o animal à morte. Mesmo quando o animal sobrevive, a infestação costuma deixar prejuízos significativos à saúde e ao couro.

    vaca leiteira

    Os bovinos enfrentam risco particularmente alto, pois não conseguem proteger feridas abertas e seu porte físico permite o surgimento de múltiplos focos de infestação simultâneos.

    Embora os Estados Unidos tenham erradicado a praga na década de 1960, um ressurgimento entre 1972 e 1976 afetou dezenas de milhares de animais em seis estados e gerou custos milionários ao setor. Produtores americanos não enfrentam essa praga há mais de 40 anos, fator que aumenta a vulnerabilidade atual do setor. O Texas, maior produtor de bovinos do país, movimenta cerca de US$ 15 bilhões por ano com a atividade.

    Como a praga chegou até o Texas?

    A disseminação pela América Central ocorreu de forma rápida, avançando centenas de quilômetros em poucas semanas. Especialistas acreditam que esse deslocamento não se deu apenas por vias naturais, mas também por meio do transporte de animais já infestados. Uma hipótese reforçada pelo fato de a praga não tolerar bem climas muito secos, quentes ou frios por longos períodos.

    Após a confirmação de casos no México em novembro de 2024, os Estados Unidos chegaram a fechar a importação de gado vivo pela fronteira sul, medida que também impactou a oferta no Texas. As restrições passaram por ajustes ao longo de 2025. Até o momento, as autoridades ainda não determinaram exatamente como a infestação chegou ao sul do estado.

    Quais medidas as autoridades estão adotando?

    O governo federal já investiu US$ 100 milhões em pesquisas, armadilhas e reforço da vigilância na fronteira. A principal estratégia de combate continua sendo a técnica do inseto estéril: machos esterilizados são liberados no ambiente para cruzar com fêmeas, gerando ovos inviáveis e reduzindo gradualmente a população da praga. O método já provou eficácia ao longo de décadas, com base operacional no Panamá.

    Novas instalações estão em implementação no México e no Texas, incluindo centros de dispersão de moscas estéreis. As autoridades também estabeleceram uma zona de quarentena e intensificaram a vigilância, com monitoramento que inclui a fauna silvestre. Produtos veterinários emergenciais já foram autorizados para tratamento em diversas espécies.

    Quais sinais os produtores devem observar?

    Especialistas recomendam monitoramento constante dos animais. Entre os principais sinais de alerta estão:

    • Feridas com mau cheiro e presença de larvas
    • Animais lambendo ou mordendo ferimentos com insistência
    • Lesões visíveis e comportamento anormal, como agitação ou apatia

    As larvas podem ser identificadas por pequenos espinhos ao redor do corpo. O tratamento envolve a remoção manual das larvas, limpeza da ferida e uso de produtos prescritos por veterinários. Atualmente há 12 produtos aprovados nos EUA para esse fim, embora ainda não exista ração medicamentosa disponível no mercado.

    Produtores devem comunicar casos suspeitos a veterinários ou autoridades sanitárias imediatamente. Segundo o USDA, o controle da praga é possível com cooperação do setor e cumprimento rigoroso das medidas sanitárias, evitando que a bicheira volte a se estabelecer no país.

  • Vírus Oropouche sai da Amazônia e invade Sudeste

    Vírus Oropouche sai da Amazônia e invade Sudeste

    O Brasil enfrenta um surto sem precedentes de febre Oropouche. A doença, que até 2023 estava restrita à região amazônica, avançou para 22 das 27 unidades federativas do país, alarmando autoridades sanitárias e cientistas. Em 2024, foram registrados 13,8 mil casos confirmados no território nacional, 45% deles concentrados no Espírito Santo, que lidera o ranking com 6,3 mil infectados.

     

    Os números de 2025 mostram que o vírus mantém ritmo acelerado de contágio. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) apontam 12,7 mil casos confirmados nas Américas até agosto, sendo 11,8 mil apenas no Brasil. O Ministério da Saúde contabiliza 11.930 infectados até 30 de outubro, com cinco mortes confirmadas e duas sob investigação.

    São Paulo registra crescimento explosivo de casos

    No estado de São Paulo, o avanço da febre Oropouche impressiona: de apenas 8 casos em 2024, o número saltou para 161 até setembro de 2025, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. O crescimento de mais de 2.000% acende o alerta sobre a necessidade de vigilância epidemiológica reforçada.

    Um estudo publicado na revista científica PLOS One em julho identifica os principais fatores por trás da expansão geográfica do vírus Orthobunyavirus oropoucheense (OROV). Pesquisadores da Unesp, USP e Instituto Butantan descobriram que temperaturas elevadas e índices de precipitação acima da média criam condições ideais para a reprodução do mosquito-pólvora (Culicoides paraensis), vetor da doença.

    O fenômeno El Niño, ocorrido entre 2023 e 2024, combinado ao aquecimento global, intensificou as chuvas e o calor em regiões antes menos afetadas, facilitando a proliferação do inseto transmissor.

    Desmatamento reduz predadores naturais do mosquito-pólvora

    Tiago Salomão, pós-doutorando da Unesp e autor do estudo, explica que o desmatamento para criação de pastagens e monoculturas diminui a biodiversidade, eliminando predadores e competidores naturais dos maruins.

    “Em biomas preservados, há mais concorrência com outros insetos e os Culicoides não conseguem se multiplicar no mesmo ritmo”, afirma o pesquisador, que investiga a relação entre mudanças climáticas e doenças epidêmicas.

    A pesquisa revela ainda que cultivos de banana, dendê e algodão favorecem a subsistência das larvas do mosquito, devido ao acúmulo de matéria orgânica em decomposição no solo.

    O estudo identifica que regiões periurbanas — de transição entre campo e cidade — são mais afetadas que ambientes exclusivamente rurais ou urbanos. Indicadores socioeconômicos desfavoráveis também se associam a maior incidência de casos, destacando a dimensão social da epidemia.

    Nova variante pode ser 100 vezes mais transmissível

    Além dos fatores ambientais, evidências laboratoriais sugerem que uma mutação genética recente aumentou significativamente a transmissibilidade do vírus OROV. Experimentos com células de mamíferos mostram que a cepa atual atinge concentrações até cem vezes superiores à versão comum.

    Essa variante pode ainda driblar a memória imunológica de pessoas previamente infectadas, tornando-as vulneráveis a uma nova contaminação — um cenário que preocupa infectologistas e epidemiologistas.

    No contexto das Américas, o Brasil concentra 93% dos casos de febre Oropouche registrados em 2025. Panamá aparece em segundo lugar com 501 casos, seguido pelo Peru com 330 infecções.

    A expansão geográfica sem precedentes da doença demanda vigilância intensificada, investimento em pesquisa científica e ações de preservação ambiental para conter novos surtos.