Tag: Serra da Canastra

  • Queijo Canastra: estudo mostra o que realmente conquista o consumidor

    Queijo Canastra: estudo mostra o que realmente conquista o consumidor

    Mais do que um selo de autenticidade na embalagem, é a história por trás do produto que tem conquistado os consumidores brasileiros. Essa foi a principal conclusão de uma pesquisa sobre estratégias de divulgação do queijo Canastra nas redes sociais.

    O estudo, desenvolvido pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, apontou que o chamado storytelling (técnica de contar histórias sobre o produto, sua tradição e seus produtores) gera mais conexão emocional e influencia mais a decisão de compra do que os selos de Indicação Geográfica (IG).

    Segundo o pesquisador Leonardo Barretta, autor principal do levantamento, o storytelling se mostrou uma ferramenta mais eficiente para os produtores.

    “Storytelling é uma estratégia mais acessível, de baixo custo, personalizável para cada produtor; já o selo é importante, pois é a certificação oficial do produto, atestando sua autenticidade e legitimidade”, afirmou.

    O queijo Canastra possui maturação artesanal e sabor marcante reconhecido em todo o país — Foto: Aprocan

    Consumidores conhecem pouco os selos de IG

    A pesquisa também revelou que muitos brasileiros ainda não entendem o significado dos selos de Indicação Geográfica, usados para certificar a origem e autenticidade de produtos regionais.

    Para avaliar o impacto dessas estratégias, os pesquisadores ouviram 347 consumidores brasileiros, que visualizaram diferentes publicações sobre o queijo Canastra no Instagram. Alguns posts utilizavam storytelling, enquanto outros destacavam apenas o selo de IG.

    O resultado mostrou que as narrativas tiveram desempenho superior em todas as dimensões analisadas: percepção do produto, conexão emocional e intenção de compra.

    “Digamos que é o ‘pacote completo’. Nem toda estratégia consegue despertar essas três dimensões ao mesmo tempo, e o storytelling se provou capaz disso”, explicou Barretta.

    Já o uso isolado do selo de IG não provocou impacto significativo entre os participantes.

    Narrativas despertam mais interesse do que certificações

    Outro ponto observado foi que consumidores que já conheciam o queijo Canastra demonstraram maior intenção de compra, independentemente da estratégia utilizada.

    Para os pesquisadores, os resultados indicam que produtores precisam investir mais em comunicação emocional e menos apenas na exposição do selo de certificação.

    “Os produtores devem investir em boas narrativas sobre o produto, a região e a produção, mais do que apenas estampar o selo na embalagem”, destacou o pesquisador.

    Apesar disso, Barretta reforça que o selo de IG continua sendo importante para garantir autenticidade e combater fraudes envolvendo produtos que usam indevidamente o nome “queijo Canastra”.

  • Apicultura: pecuarista mineiro transforma curiosidade em negócio

    Apicultura: pecuarista mineiro transforma curiosidade em negócio

    Osmério Fernandes Moreira trabalha há 30 anos com pecuária e agricultura em Guapé, no Sul de Minas Gerais. Há cinco anos, uma conversa casual com um hóspede transformou sua rotina e abriu portas para um novo mercado: a apicultura.

    Agricultor Osmério Fernandes, ao centro. Foto: Arquivo Pessoal

    “Aluguei meu rancho para três casais. Um dos rapazes me falou que aqui na região seria ideal para a criação de abelhas. Acatei a ideia por curiosidade e daí em diante fui montando os apiários e continuo até hoje”, conta o produtor.

    O agricultor iniciou a atividade com apenas uma colmeia. Atualmente, gerencia mais de 100 colmeias distribuídas entre Capitólio, Guapé e Pimenta. A produção anual ultrapassa 1,5 mil quilos de mel.

    Produtor supera desafios e conquista Selo Arte

    O desconhecimento sobre apicultura e a regularização da agroindústria Reserva do Imperador representaram os principais obstáculos na trajetória de Osmério. Com apoio técnico e dedicação, o apicultor venceu as adversidades.

    “Possuímos o Selo Arte, somos cadastrados no Cicanastra (Consórcio Intermunicipal da Serra da Canastra, Alto São Francisco e Médio Rio Grande), que assegura a qualidade do nosso mel e do própolis. Agora a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Paranaíba) me convidou para viabilizar um projeto de entreposto de mel e própolis no território da Canastra”, revela o produtor.

    Emater-MG presta assistência técnica e inspira outros apicultores

    Belchior Teixeira de Souza, coordenador técnico regional de pecuária da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), acompanha o desenvolvimento do negócio de Osmério.

    O técnico explica que a regularização valoriza o produto, atesta a qualidade sanitária e abre portas para o mercado formal. A certificação também permite o acesso a programas institucionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

    “A história de Osmério inspira outros apicultores da região. Nós o convidamos para ministrar uma palestra durante o concurso de qualidade do mel que realizamos no ano passado. Os participantes conheceram sua trajetória, principalmente como superou os desafios e legalizou a agroindústria. Destaco ainda que ele demonstra grande envolvimento com as pautas ambientais”, afirma Belchior.

    Serra da Canastra reúne condições ideais para apicultura

    A Emater-MG incentiva a produção de mel e própolis na região da Serra da Canastra, principalmente por meio do Concurso Regional de Qualidade. Segundo Belchior, a flora preservada e o alto fluxo turístico criam condições favoráveis tanto para a criação de abelhas quanto para a comercialização dos produtos.

    A região atrai cada vez mais apicultores interessados em produzir mel de qualidade certificada e conquistar novos mercados no Sul de Minas Gerais.

  • Queijo da Canastra é produzido “debaixo de floresta”

    Queijo da Canastra é produzido “debaixo de floresta”

    Na região da Serra da Canastra, em Minas Gerais, uma queijaria familiar está redefinindo a produção do tradicional queijo artesanal mineiro. A Queijaria Faz o Bem, localizada em Piumhi, às margens do Ribeirão Araras, afluente do Rio São Francisco, tornou-se referência nacional ao combinar técnicas sustentáveis de produção com preservação ambiental e qualidade premiada.

    Criada em 2021 pelo engenheiro agrônomo Vinícius Soares, a propriedade de 25 hectares mantém 44% da área preservada com mata nativa. Nos demais espaços, implementa um sistema de manejo regenerativo que integra pastagem, agrofloresta e bem-estar animal, demonstrando que é possível produzir queijo artesanal de forma sustentável.

    Da carreira corporativa ao empreendedorismo sustentável

    Natural de Piumhi, Vinícius construiu carreira sólida em grandes empresas do setor lácteo, como Danone e Itambé, após se formar em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa. Durante a pandemia, tomou a decisão de deixar a estabilidade corporativa para retornar às raízes familiares e investir integralmente no projeto da queijaria.

    “Estar perto dos meus pais e poder almoçar com minha filha tem muito valor. Ver o que construímos até aqui é muito gratificante”, destaca o produtor, que aplica sua experiência profissional na qualidade dos produtos artesanais.

    Produção agroecológica sem agrotóxicos

    A Faz o Bem produz queijos com leite cru e fermento natural, processo que permite a degradação natural da lactose durante a maturação, resultando em produtos zero lactose. A queijaria possui o Selo Queijo Artesanal, que autoriza a comercialização em todo o território nacional.

    O diferencial está no manejo completamente agroecológico: não se utiliza agrotóxico no pasto nem medicamentos químicos nos animais. As práticas regenerativas focam na melhoria do solo, preservação da água, aumento da biodiversidade e equilíbrio do microclima local.

    Vinícius Soares conduz uma propriedade agroecológica que combina produção artesanal, recuperação ambiental e integração de sistemas produtivos. Foto: Arquivo Pessoal

    Um exemplo da sustentabilidade praticada na propriedade é o reaproveitamento do soro do queijo. Em vez de descartá-lo, o subproduto alimenta porcos da raça crioula Piau, criados soltos em quase dois hectares integrados ao sistema produtivo.

    “O soro deixa de ser um passivo ambiental e passa a fazer parte do sistema”, explica Vinícius, ressaltando a economia circular aplicada na fazenda.

    Floresta produtiva: 800 árvores plantadas

    O grande destaque é o sistema silvipastoril intensivo implementado em 3,4 hectares. Essa técnica sustentável integra árvores, pastagem e gado na mesma área, combinando gramíneas, leguminosas, arbustos e cerca de 800 árvores já plantadas.

    “Daqui a cinco ou dez anos, poderemos dizer que produzimos queijo debaixo de uma floresta”, projeta o produtor, visualizando a transformação ambiental em andamento.

    Certificação orgânica e desafios do mercado

    Entre 2023 e 2025, a Faz o Bem produziu o primeiro e único queijo Canastra com certificação orgânica da região, selo concedido pelo Instituto de Biodinâmica (IBD) com apoio do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Agroindústria do Sebrae.

    Apesar do pioneirismo, a certificação orgânica apresentou desafios econômicos. As restrições de insumos, especialmente a proibição de milho e soja transgênicos, impactaram a produção de leite, que aumentou de 8,5 para 14 litros por vaca ao dia após a saída do programa. Mesmo sem o selo, o manejo permanece agroecológico e regenerativo.

    Prêmios nacionais reconhecem qualidade

    A qualidade dos queijos artesanais da Faz o Bem foi reconhecida em competições nacionais. Em 2022, com apenas um ano de produção, a queijaria conquistou medalhas de Prata e Bronze no Mundial do Queijo do Brasil.

    “Foi como passar no vestibular. Tivemos certeza de que estávamos no caminho certo”, relembra Vinícius. Em setembro de 2025, a propriedade ficou em segundo lugar na categoria Queijos de Casca Florida Natural no 18º Concurso de Queijos Artesanais de Minas Gerais.

    O empreendedor destaca o papel fundamental do Sebrae Minas na estruturação da marca da queijaria e no fortalecimento da Indicação de Procedência do queijo da Canastra. A Faz o Bem também integra o projeto de turismo Rotas da Canastra, participando da rota do café, queijo e cachoeiras.

    “É um suporte constante para colocar nossos produtos no mercado e manter viva a tradição do Queijo Minas Artesanal”, afirma.

    Visão de futuro: referência em impacto positivo

    Para os próximos anos, o foco não está no volume de produção, mas em consolidar a queijaria como referência em impacto ambiental positivo e bem-estar animal. O objetivo é inspirar outros produtores e, potencialmente, transformar a propriedade em uma fazenda modelo para visitação de estudantes e interessados em práticas regenerativas.

    A experiência da Faz o Bem demonstra que é possível aliar tradição, qualidade e sustentabilidade na produção do queijo artesanal da Serra da Canastra, preservando o território e valorizando as futuras gerações.