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  • Pesquisa aponta fatores-chave para ampliar a agricultura 4.0 no Brasil de forma responsável

    Pesquisa aponta fatores-chave para ampliar a agricultura 4.0 no Brasil de forma responsável

    A tecnologia chega rápido ao agronegócio brasileiro, mas nem sempre alcança quem mais precisa. Um estudo publicado na revista Agricultural Systems identificou os principais fatores que impulsionam a adoção de tecnologias da agricultura 4.0 no Brasil e propõe estratégias para ampliar esse processo de forma responsável. A pesquisa integra as ações do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital, o Semear Digital, sediado na Embrapa Agricultura Digital, em Campinas.

    O ponto de partida é uma constatação recorrente no setor. “A gente ainda vê uma lacuna grande entre o que é desenvolvido na academia e o que de fato chega na ponta e traz resultados para o produtor”, afirma Jayme Barbedo, coautor do estudo.

    18 fatores que determinam a adoção tecnológica no campo

    Para entender esse descompasso, os pesquisadores analisaram 18 fatores determinantes da adoção tecnológica, chamados no estudo de drivers, organizados em dimensões sociais, políticas e tecnológicas. A partir de revisão da literatura e consulta a especialistas, os autores mapearam como esses fatores se influenciam mutuamente e quais exercem maior efeito sobre o sistema.

    “Nem todos têm o mesmo peso. Alguns provocam uma reação em cadeia dentro do ecossistema. São esses que mais nos interessam”, afirma Franco da Silveira, pesquisador de pós-doutorado apoiado pela FAPESP e também autor do estudo.

    Entre os fatores com maior capacidade de influência, o estudo destaca conectividade rural, juventude no campo, ação governamental, mecanismos de divulgação de informação e representatividade do ecossistema agroalimentar.

    Conectividade: a base que ainda falta

    A conectividade rural aparece como condição estruturante para qualquer avanço tecnológico no campo. Embora o acesso à internet tenha crescido nos últimos anos, ainda existem lacunas críticas nas áreas produtivas.

    “Boa parte dos produtores já tem internet em casa. Mas na área de produção, onde tecnologias do tipo internet das coisas precisam operar, a cobertura ainda é muito limitada”, diz Barbedo. Sem infraestrutura adequada, soluções digitais simplesmente deixam de funcionar como previsto.

    O jovem rural como agente de transformação

    Outro fator de destaque é o papel dos jovens no campo. O estudo os identifica como ponte entre o mundo digital e a realidade das propriedades rurais: “O jovem sente as dores do pai no dia a dia e ao mesmo tempo acompanha o que está acontecendo no mundo digital. Ele pode levar essa percepção para a esfera política e para dentro da propriedade”, afirma Silveira.

    Contudo, manter essa geração no campo depende de condições concretas. “Não é que o jovem não goste do campo. Ele quer se sentir parte do mundo. Se não tem acesso à infraestrutura e às oportunidades, ele vai embora para a cidade”, observa Barbedo. Nesse sentido, a tecnologia pode reduzir a carga de trabalho e tornar a atividade rural mais atraente para os mais jovens.

    Informação e políticas públicas diferenciadas

    A circulação de informação também aparece como fator crítico. O estudo aponta uma assimetria importante: há regiões onde produtores ainda não tiveram contato com determinadas tecnologias disponíveis há anos.

    “Se a informação não chega de forma adequada, a resistência aumenta”, afirma Silveira. Estratégias de demonstração em fazendas-modelo e laboratórios vivos ajudam a reduzir incertezas, permitindo que produtores vejam resultados concretos antes de decidir investir.

    Na dimensão de políticas públicas, o estudo defende ações diferenciadas para perfis distintos de produtores. “A política não pode ser a mesma para todo mundo”, diz Silveira. Enquanto grandes produtores costumam ampliar a fronteira tecnológica com mais facilidade, pequenos e médios enfrentam restrições financeiras e de capacitação. A pesquisa sugere incentivos regionais, criação de áreas experimentais, fortalecimento de parcerias entre governo, universidades e startups, além de integração de dados agrícolas a plataformas públicas.

    Escala responsável: não basta adotar, é preciso saber como

    Um conceito central do estudo é o de escala responsável. A proposta é que a disseminação das tecnologias da agricultura 4.0 leve em conta seus efeitos sociais, ambientais e econômicos, evitando ampliar desigualdades ou comprometer metas de desenvolvimento sustentável.

    “Precisamos falar em adoção de tecnologia, mas também preparar o caminho para ter essa expansão responsável”, afirma Silveira.

    Um exemplo prático seria a ampliação de plataformas digitais voltadas a pequenos produtores, acompanhada de políticas de inclusão. Além de ofertar sensores e ferramentas baseadas em inteligência artificial, a iniciativa deveria prever conectividade rural, capacitação contínua, acesso a crédito e regras claras sobre uso e propriedade dos dados.

    Pesquisa como bússola para o agro digital

    Para Barbedo, estudos como esse orientam decisões estratégicas tanto na formulação de políticas de desenvolvimento rural quanto em projetos como o Semear Digital, que desenvolve soluções voltadas a pequenas e médias propriedades. “Esses estudos fornecem subsídios para direcionar melhor os esforços e focar em tecnologias que realmente tragam impacto”, afirma.

    O cenário, contudo, é dinâmico. Com os avanços recentes em inteligência artificial, o ritmo de mudança acelera. “As coisas estão evoluindo muito rápido. Mesmo quem trabalha diretamente com inteligência artificial tem dificuldade de prever os próximos passos”, pondera Barbedo.

    Como próximo passo, Silveira prepara um estudo que incorpora fatores econômicos e ambientais e examina como a adoção tecnológica pode dialogar com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. “Se não pensarmos estratégias para esses fatores, podemos tensionar metas que a própria tecnologia se propõe a apoiar”, conclui.

  • Semear Digital une agricultura e biodiversidade em pequenas e médias propriedades rurais

    Semear Digital une agricultura e biodiversidade em pequenas e médias propriedades rurais

    A Embrapa Agricultura Digital e a C3 Ambiental iniciaram, em maio, uma parceria para valorizar pequenos e médios produtores rurais que preservam a floresta. A iniciativa foca no bioma Mata Atlântica e abrange propriedades em Lagoinha e Jacupiranga, municípios do interior paulista. Esses locais integram o projeto Semear Digital, coordenado pela Embrapa e financiado pela Fapesp, que promove tecnologias inovadoras e sustentáveis para pequenas e médias propriedades.

    Por meio do programa Floresta & Carbono, a C3 Ambiental incentiva a conservação e recuperação de matas nativas, remunerando agricultores via mercado de carbono pelos serviços ambientais prestados. O projeto faz parte do BioMA Carbono, que cobre todo o bioma Mata Atlântica. Em Lagoinha, no Vale do Paraíba, a iniciativa atua desde 2023 com 13 propriedades participantes. Apesar da presença da Serra Quebra-Cangalha, um dos maiores contínuos de floresta atlântica do vale, a região apresenta fragmentos florestais isolados por pastagens, resultado da pecuária leiteira, principal atividade local.

    Em Jacupiranga, no Vale do Ribeira, a iniciativa será apresentada oficialmente aos produtores em reunião na Câmara Municipal no dia 6 de junho, durante a Semana do Meio Ambiente. Jacupiranga abriga a porção mais preservada da Mata Atlântica paulista e conta com 505 estabelecimentos agropecuários, destacando-se a produção de banana e palmito pupunha.

    Débora Drucker, da Embrapa Agricultura Digital, explica que a parceria visa desenvolver soluções que incentivem a preservação da floresta em propriedades rurais, conservando a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos da Mata Atlântica. “A remuneração por créditos de carbono oferece uma oportunidade de renda para os produtores, aliada a outras ações que promovem a sustentabilidade agrícola”, afirma.

    O projeto inclui capacitação de agentes multiplicadores sobre conservação, uso sustentável do solo e biodiversidade, com conteúdo definido em conjunto com os atores envolvidos.

    Pagamento por serviços ambientais e mercado de carbono

    A Mata Atlântica perdeu grande parte da vegetação original e mantém apenas 12,4% da cobertura natural. Cerca de 80% desses remanescentes estão em propriedades rurais privadas, evidenciando a importância de iniciativas que protejam a biodiversidade, melhorem a qualidade da água e do ar, controlem a temperatura, sequestram carbono e promovam serviços ecossistêmicos como polinização e redução de gases de efeito estufa.

    Além dos benefícios ambientais, a conservação florestal pode gerar renda alternativa para produtores. O carbono estocado nas matas se converte em créditos de carbono, negociados com empresas e pessoas que buscam compensar emissões. O mercado voluntário de carbono segue regras rigorosas de certificação para garantir transparência e rastreabilidade.

    Vanessa Fuentes, diretora de Operações da C3 Ambiental, destaca que pequenos e médios produtores enfrentam dificuldades para entrar no mercado de carbono devido aos custos e complexidade da certificação, tanto nacionalmente, com a Lei nº 15.042/2024, quanto internacionalmente. “Esses processos exigem metodologias específicas e auditorias independentes, inviabilizando a participação individual. Por isso, iniciativas que promovem a inclusão são fundamentais”, explica.

    A C3 Ambiental usa um modelo agrupado que reúne diversos produtores em uma única certificação, diluindo custos, facilitando o acesso ao mercado e viabilizando a geração de créditos mesmo para propriedades menores.

    Uso de DNA ambiental para monitoramento da biodiversidade

    A parceria também prevê pesquisas para aplicar técnicas avançadas de avaliação e monitoramento da biodiversidade via DNA Ambiental. Essa técnica coleta amostras de solo, água e outros componentes para extrair fragmentos de DNA das espécies locais.

    A análise genética ajuda a mapear a biodiversidade e pode gerar indicadores de qualidade ambiental. Em áreas com agricultura integrada à conservação, esses indicadores podem futuramente apoiar processos de certificação e a criação de créditos de biodiversidade.

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