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  • IA prevê produção de soja no Brasil com 72% de precisão antes da colheita

    IA prevê produção de soja no Brasil com 72% de precisão antes da colheita

    Um grupo de pesquisadores brasileiros desenvolveu um modelo de inteligência artificial capaz de estimar a produtividade das lavouras de soja no Centro-Oeste do país antes mesmo da colheita. O sistema, que combina imagens do satélite Sentinel-2, variáveis climáticas e dados históricos do IBGE, atingiu 72% de acurácia e margem de erro inferior a 302 quilos por hectare. Resultados que podem transformar o monitoramento agrícola em um país onde a soja movimentou US$ 52 bilhões em exportações entre 2024 e 2025.

    O estudo, intitulado Soybean yield estimation in the Brazilian Midwest using Sentinel-2 imagery, foi publicado na revista científica Big Earth Data e analisou municípios de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul durante três safras consecutivas, de 2019/2020 a 2021/2022. A pesquisa é fruto do projeto PreCISIA (Predição de Colheita por Imagem de Satélite e Inteligência Artificial), financiado pelo CNPq e desenvolvido em parceria com a empresa Espectro Ltda., pesquisadores da Unesp, da Universidade Estadual de Londrina e da Universidade de Pequim.

    Por que prever a safra de soja se tornou urgente

    O Brasil é o maior produtor mundial de soja há pelo menos uma década, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Na safra 2023/2024, no entanto, o setor enfrentou uma lição dura: estimativas iniciais da Conab projetavam 162 milhões de toneladas, mas o resultado final ficou em 147,7 milhões. Uma queda de quase 10%, atribuída a períodos de calor extremo e chuvas irregulares. O prejuízo estimado para o setor produtivo superou R$ 28 bilhões, de acordo com relatório da FAO.

    É justamente nesse contexto de crescente instabilidade climática que ferramentas preditivas como a desenvolvida pela equipe ganham relevância. “O momento na agricultura é uma era de ouro em comparação com o passado, quando faltavam dados para fazer análises”, afirma Michel Eustáquio Dantas Chaves, professor da Unesp e colaborador do estudo. “Dados de satélite permitem monitorar safras e ciclos de produção, algo que até pouco tempo era inviável, especialmente em nível de cultura.”

    Como o modelo funciona

    A pesquisa, desenvolvida como dissertação de mestrado de Ester de Carvalho Pereira, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), sob orientação da professora Ana Cláudia dos Santos Luciano, utilizou algoritmos de aprendizado de máquina para identificar quais variáveis tinham maior peso na estimativa de produtividade.

    Os resultados mostraram que precipitação acumulada, radiação solar e déficit hídrico foram os fatores climáticos mais determinantes. Entre os dados de satélite, destacaram-se bandas espectrais relacionadas ao infravermelho e ao chamado red edge, uma faixa altamente sensível à atividade fotossintética das plantas.

    A partir daí, os pesquisadores construíram seis modelos distintos, cada um correspondendo a uma janela temporal diferente do desenvolvimento da cultura, de 30 a 180 dias após o plantio. O melhor desempenho ocorreu no modelo de 150 dias, período coincidente com o enchimento de grãos — fase decisiva para a produtividade final da soja.

    “Considerando um modelo que utilizava todas as informações dos seis meses estudados, tínhamos aproximadamente 400 variáveis. Mas quando criamos um modelo de 30 dias, que já gerou um resultado bem interessante, trabalhamos com cerca de 80 variáveis”, explica Ester.

    Limitações e potencial de aplicação

    Os pesquisadores reconhecem que o modelo não substitui levantamentos de campo realizados por órgãos oficiais, mas pode complementá-los com monitoramento contínuo em larga escala. Uma das principais dificuldades encontradas foi a ausência de dados detalhados em nível de propriedade rural, o que levou o grupo a recorrer a mapeamentos do IBGE e do projeto MapBiomas.

    “Se você quiser um nível de detalhe para que o produtor veja de fato a área dele, o modelo não vai atender. Mas em nível de governo, município e política pública, o trabalho se aplica muito bem”, avalia Luciano.

    O estudo também evidencia um problema estrutural recorrente na ciência brasileira: a desvalorização de dados produzidos nacionalmente. “Temos tantos monitoramentos feitos por nós, com tecnologia brasileira, que muitas vezes são subutilizados aqui, mas utilizados por outros países”, diz Luciano. China, Estados Unidos e União Europeia mantêm sistemas próprios de monitoramento das lavouras brasileiras a partir de bases de dados do Brasil.

    Chaves reforça a crítica à falta de financiamento. “O dado é útil, acessível, cada vez mais preciso e existem cada vez mais pessoas que entendem de geoprocessamento, mas falta investimento condizente para ampliar o retorno à sociedade.” A limitação de recursos já levou ao encerramento de programas como o Cafésat e o Canasat, mantidos pelo INPE, e ameaça a continuidade de outros, como o TerraClass e o Prodes.

    Próximos passos

    Apesar dos desafios, o grupo segue aprimorando as ferramentas. Atualmente, os pesquisadores publicam boletins periódicos de monitoramento da soja em Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná, usando índices de vegetação obtidos por satélite. Em paralelo, Ester desenvolve seu doutorado com foco na cana-de-açúcar, próximo desafio da equipe.

    Para Chaves, o caminho passa necessariamente pela integração de diferentes bases de dados públicas. “Se não soubermos cruzar os dados do IBGE com os da Conab, do INPE ou da Embrapa, estaremos perdendo como cadeia produtiva e como Estado-nação.”

  • Monitoramento via satélite identifica áreas irrigadas a partir da umidade do solo

    Monitoramento via satélite identifica áreas irrigadas a partir da umidade do solo

    Imagine tentar descobrir se um campo foi irrigado olhando apenas para uma foto tirada do espaço. Parece simples, mas não é. Aquele círculo perfeito no solo, formado pelo pivô central, pode estar ali há anos sem que uma gota d’água tenha passado por ele na última safra. Era exatamente esse o problema que o governo federal precisava resolver, e a Embrapa Territorial acaba de entregar a solução.

    Um método desenvolvido pela Embrapa combina imagens do satélite Sentinel-2 com inteligência artificial para mapear, ano a ano, o crescimento ou a redução das áreas agrícolas efetivamente irrigadas no Brasil. Não as que têm estrutura de irrigação, não as que parecem irrigadas. As que, de fato, receberam água durante a safra.

    O problema que os círculos no solo não conseguem resolver

    O engenheiro agrônomo Rafael Mingoti, analista da Embrapa Territorial e responsável pelo mapeamento dos primeiros polos em Goiás, explica que o desafio inicial era gerar um mapeamento que permitisse verificar as diferenças entre as safras. E registrar os famosos círculos dos pivôs centrais simplesmente não funcionava para isso.

    “Registrar os tão conhecidos círculos formados no solo pelos pivôs centrais, por exemplo, não seria eficaz, pois são como uma cicatriz no solo que permanece de um ano para outro”, explica Mingoti.

    Além disso, buscar os equipamentos físicos de irrigação no campo também não resolvia o problema. Esses equipamentos podem estar presentes, mas desativados. “O objetivo é identificar as terras que foram efetivamente irrigadas no ano em questão e não as que apenas têm a infraestrutura”, enfatiza o pesquisador.

    Foi a partir daí que a equipe virou o jogo: em vez de procurar os equipamentos ou as marcas deixadas no solo, passou a analisar a umidade do solo diretamente. Os índices são extraídos de imagens do satélite Sentinel-2, de média resolução e acesso gratuito, fornecido pela Agência Espacial Europeia.

    Chuva ou irrigação? A IA entra em cena para distinguir os dois

    Resolver a questão da umidade trouxe um novo obstáculo, ainda mais sutil. Em Goiás, predominantemente, a irrigação não é utilizada no período de estiagem e sim durante o verão, quando as chuvas ocorrem e quando há vazão disponível nos cursos d’água. Especialmente por causa das mudanças climáticas e do aumento da duração dos veranicos, os agricultores recorrem à irrigação para evitar perdas.

    Mas se a irrigação acontece justamente quando chove, como saber de onde veio a umidade do solo?

    “Nós usamos outros indicadores. Geralmente as áreas irrigadas não são muito pequenas e têm formatos regulares, retângulos, círculos ou triângulos”, esclarece Mingoti. A inteligência artificial entra para cruzar esses padrões geométricos com os dados de umidade, separando o que é chuva do que é irrigação humana. Uma distinção que, antes desse método, simplesmente não existia em escala territorial.

    No entanto, identificar onde se irriga era só metade da demanda. O governo também precisa saber quanto, exatamente, está sendo irrigado.

    Vetorização: a técnica que mede com muito mais precisão

    Como inovação, o método utiliza recursos derivados do sensoriamento remoto com radar para chegar à área total. Diferentemente do método tradicional, que calcula a área somando pixels (quadros que compõem a imagem), a técnica de vetorização desenha o contorno real do terreno, como se seguisse a linha exata do local irrigado. Na contagem por pixels, o sistema considera o quadro inteiro, mesmo que parte do terreno que ele cobre não seja irrigada.

    O resultado, nas palavras do próprio Mingoti: “Quando os terrenos são vetorizados, eliminamos possíveis erros dentro e fora da área irrigada. Então, a medição é muito mais acurada.”

    Não é detalhe técnico por vaidade científica. Mais precisão significa políticas públicas melhores, investimentos mais bem direcionados e uso da água monitorado de verdade.

    7 mil hectares a mais: o dado que já chegou ao Ministério

    A Embrapa Territorial já aplicou o método no mapeamento de dois polos de irrigação em Goiás (Planalto Central e Vale do Araguaia) e de três no Mato Grosso (Sul, Médio Norte e Araguaia-Xingu). Os mapeamentos dos dois primeiros já foram entregues ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, e os outros estão em fase de validação.

    O mapeamento no polo Central de Goiás mostrou um aumento de 7 mil hectares nas áreas irrigadas entre 2023 e 2024. Houve crescimento em todos os 24 municípios que integram a região.

    Além de servir para a avaliação das políticas públicas, os dados do mapeamento têm um destino claro: a intenção é que sejam integrados ao Sistema Nacional de Informações sobre Irrigação, o Sinir.

    Coordenador-geral de sustentabilidade de projetos e polos de irrigação do MIDR, Antônio Guimarães Leite lembra ainda que a irrigação no período chuvoso cumpre um papel estratégico que vai além de compensar a falta de chuva. “Em algumas situações, isso permite estender a janela de cultivo e viabilizar até três colheitas no mesmo ano agrícola”, aponta.

    Com satélite, IA e dados precisos nas mãos, o agro brasileiro passou a enxergar o que antes ficava invisível. E o governo, finalmente, tem uma ferramenta à altura do desafio de gerir a água do campo.

  • Satélite identifica cultivos de banana e pupunha com 93% de precisão

    Satélite identifica cultivos de banana e pupunha com 93% de precisão

    Imagens de satélite estão revolucionando o mapeamento agrícola em uma das regiões mais desafiadoras do Brasil. Um estudo conduzido por pesquisadores da Unicamp e Embrapa no Distrito Agrotecnológico (DAT) de Jacupiranga, no Vale do Ribeira (SP), demonstrou que a tecnologia pode alcançar mais de 93% de precisão na identificação de áreas agrícolas e vegetação nativa, mesmo em ambientes tropicais complexos.

    A pesquisa, publicada na revista internacional Agriculture, utilizou imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, combinadas com técnicas de inteligência artificial para mapear cultivos de banana e pupunha – as principais produções da agricultura familiar local.

    Desafios tropicais superados com tecnologia acessível

    O Vale do Ribeira apresenta condições particularmente difíceis para análise por satélite: cobertura persistente de nuvens, relevo acidentado, alta umidade e mosaicos complexos de pequenas propriedades intercaladas com fragmentos de Mata Atlântica. Apesar disso, os resultados mostraram-se compatíveis com estatísticas oficiais e métodos mais caros, como levantamentos por drones.

    “Justamente por isso, o Vale do Ribeira é um território estratégico para aperfeiçoarmos métodos de mapeamento capazes de lidar com toda essa diversidade e, ao mesmo tempo, respeitar o contexto socioambiental local”, explica Victória Beatriz Soares, mestranda em geografia da Unicamp e uma das autoras do estudo.

    Pupunha ganha destaque no mapeamento digital

    Um diferencial importante da pesquisa foi incluir a pupunha como categoria independente. Tradicionalmente, levantamentos em regiões tropicais priorizam a banana devido à sua relevância comercial. Porém, o palmito de pupunha tem consolidado sua importância como alternativa sustentável à extração de palmeiras nativas.

    Cultivo de pupunha em Jacupiranga. Foto: Katia Nechet/Embrapa

    Para diferenciar as culturas, os pesquisadores testaram diversos índices espectrais. O destaque foi o NDWI, que mede a presença de água nas folhas e superou o tradicional NDVI (focado em vegetação verde) na precisão de identificação em ambientes úmidos.

    “Essa integração de dados do vigor vegetativo, da umidade e do solo provou ser um método mais robusto para mapear paisagens agrícolas heterogêneas, inclusive para diferenciar o cultivo da banana e da pupunha”, destaca Soares.

    Agricultura digital democratiza acesso à tecnologia

    O método viabiliza o monitoramento de paisagens agrícolas diversificadas a baixo custo e em grande escala. Isso pode apoiar políticas públicas, ampliar a assistência técnica e fortalecer programas voltados a pequenos e médios produtores rurais, que muitas vezes não têm acesso a tecnologias digitais.

    Segundo levantamentos da Embrapa, mais de 84% dos produtores rurais brasileiros já utilizam alguma tecnologia digital no campo, e 95% têm interesse em ampliar esse uso. O estudo mostra que essas ferramentas podem gerar benefícios concretos também para agricultores familiares e comunidades tradicionais.

    “A adoção de tecnologias digitais na agricultura brasileira, além de impulsionar a eficiência produtiva, também democratiza o acesso a ferramentas de gestão rural e amplifica ações de sustentabilidade”, afirma Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e coautor do trabalho.

    Sustentabilidade e conservação da biodiversidade

    A pesquisa demonstrou que sistemas produtivos diversificados são mais resilientes às mudanças climáticas. Além de gerar renda e garantir segurança alimentar, eles preservam serviços ambientais essenciais como conservação do solo, proteção de nascentes e manutenção da biodiversidade.

    Cultivo de banana em Jacupiranga. Foto: Graziella Galinari

    “O monitoramento digital permite ainda a detecção precoce de problemas fitossanitários em uma área extensa e de difícil acesso. Assim, subsidiando a tomada de decisão pelo poder público”, complementa Kátia Nechet, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

    O mapeamento digital pode ser usado para certificar práticas sustentáveis, valorizar a produção diversificada e abrir mercados para produtos diferenciados. Portanto, contribuindo para um futuro rural mais equilibrado entre produção e conservação.

    Projeto Semear Digital

    Os resultados integram as ações do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital). E é liderado pela Embrapa Agricultura Digital com financiamento da Fapesp. A iniciativa objetiva aumentar a participação de pequenos e médios produtores no processo de transformação digital no campo.

    Imagem do satélite Sentinel-2, município de Jacupiranga (SP), junho de 2025. Foto: Divulgação

    As pesquisas são desenvolvidas em 10 Distritos Agrotecnológicos em diferentes regiões do Brasil, funcionando como modelos de tecnologias e serviços digitais para solução de problemas reais. O projeto conta com instituições associadas como Esalq/USP, IAC, IEA, UFLA, Inatel e CPQD.

    O estudo completo “Mapping Banana and Peach Palm in Diversified Landscapes in the Brazilian Atlantic Forest with Sentinel-2” está disponível na revista Agriculture.