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  • Bayer fecha acordo bilionário sobre Roundup: o que muda para o agro

    Bayer fecha acordo bilionário sobre Roundup: o que muda para o agro

    A Bayer, por meio de sua controlada Monsanto, anunciou um acordo coletivo de até US$ 7,25 bilhões (cerca de R$ 38 bilhões) para resolver dezenas de milhares de processos nos Estados Unidos que acusam o herbicida Roundup de causar linfoma não Hodgkin em usuários. O pacote ainda precisa ser aprovado por um tribunal em St. Louis, Missouri. E foi apresentado como uma tentativa de “virar a página” após anos de litígios que afetaram fortemente o valor de mercado da companhia.

    Segundo a proposta, a indenização cobriria tanto casos atuais quanto futuras reivindicações de pessoas que tenham utilizado o produto até uma data de corte em 2026. Criando um fundo com pagamentos anuais decrescentes por até 21 anos. A Bayer afirma que o acordo busca dar previsibilidade financeira ao grupo. Além de reduzir a incerteza jurídica que paira sobre o negócio de glifosato nos EUA.

    Como funciona o acordo coletivo do Roundup

    O acordo foi estruturado como um programa nacional de compensação para usuários de Roundup diagnosticados com linfoma não Hodgkin. Sobretudo aplicadores residenciais, jardineiros, trabalhadores de manutenção e agricultores. A proposta prevê tabelas de pagamento com faixas de valores baseadas em critérios como tipo de câncer, idade, tempo de uso e intensidade de exposição ao herbicida.

    Os participantes poderão aderir ao programa ou optar por ficar de fora e seguir com ações individuais, preservando a possibilidade de buscar veredictos de júri em tribunais estaduais. A Bayer já havia fechado, em anos anteriores, acordos que somam cerca de US$ 11 bilhões para resolver aproximadamente 100 mil ações. E agora tenta encerrar um novo bloco de cerca de 67 mil processos pendentes com esse pacote de US$ 7,25 bilhões.

    Roundup, glifosato e a controvérsia sobre câncer

    O Roundup é um herbicida à base de glifosato, substância que se tornou pilar no manejo de plantas daninhas em sistemas com soja, milho e algodão tolerantes ao produto, além de ser amplamente usado em áreas não agrícolas. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, classificou o glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos” (grupo 2A), destacando evidências limitadas em humanos e suficientes em animais.

    Essa avaliação foi um gatilho importante para a onda de processos nos EUA, que acusam a Monsanto de falha em alertar adequadamente consumidores e trabalhadores sobre o possível risco de câncer. Por outro lado, agências reguladoras como a EPA, nos Estados Unidos, têm mantido a posição de que o uso de glifosato dentro das recomendações de rótulo não apresenta risco inaceitável à saúde. Portanto, criando um contraste entre avaliações de risco regulatórias e estudos independentes citados nos tribunais.

    Impactos para o agro: riscos, custos e oferta de glifosato

    Para a agricultura, o acordo não significa, ao menos por enquanto, o fim do Roundup ou do glifosato. Mas sinaliza que o risco jurídico dessa molécula passou a ser um fator estratégico no planejamento de médio e longo prazo. A Bayer já retirou o glifosato das formulações de Roundup para o mercado residencial nos EUA a partir de 2023, substituindo por outros ingredientes, em uma decisão explicitamente motivada por gestão de risco jurídico, não por nova evidência de segurança.

    No segmento agrícola, porém, o glifosato continua sendo uma das principais ferramentas de controle de plantas daninhas. E é peça-chave em sistemas de plantio direto e agricultura conservacionista. Analistas alertam que qualquer movimento da Bayer de reduzir a produção de glifosato poderia retirar até cerca de 40% da capacidade global. Assim, pressionando a oferta, aumentando a dependência de fabricantes asiáticos e elevando custos para produtores.

    O que o produtor brasileiro deve observar

    No Brasil, o glifosato segue autorizado, com regras específicas de registro, limites máximos de resíduos e classificações toxicológicas definidas por Anvisa e demais órgãos reguladores. Dados recentes mostram que produtos à base de glifosato continuam entre os defensivos com novas autorizações de registro. Inclusive em formulações de diferentes sais e marcas genéricas, reforçando a importância econômica do ingrediente para o agro brasileiro.

    Apesar de o acordo da Bayer estar focado no mercado dos EUA, ele tende a alimentar o debate global sobre segurança de herbicidas, transparência em rotulagem e responsabilidade das empresas no gerenciamento de risco. Para o produtor, pontos de atenção incluem:

    • acompanhar mudanças regulatórias,
    • diversificar estratégias de manejo de plantas daninhas (para reduzir dependência de uma única molécula),
    • cobrar clareza de informações de risco dos fornecedores
    • se atentar ao uso correto de EPIs e às recomendações de bula.
  • Revista científica retira estudo sobre segurança do glifosato após 25 anos

    Revista científica retira estudo sobre segurança do glifosato após 25 anos

    A revista científica norte-americana Regulatory Toxicology and Pharmacology despublicou oficialmente um artigo de 2000 que defendia a segurança do glifosato, agrotóxico mais utilizado no mundo. A decisão expõe problemas éticos, falta de integridade científica e levanta dúvidas sobre os resultados da pesquisa que influenciou políticas regulatórias em diversos países, incluindo o Brasil.

    Gary M. Williams, Robert Kroes e Ian C. Munro assinaram o estudo publicado em abril de 2000, que concluía que o glifosato não representava risco de desenvolvimento de câncer em humanos. No entanto, documentos internos da Monsanto divulgados em 2017 durante processos judiciais nos Estados Unidos, conhecidos como “Monsanto Papers”, revelaram que funcionários da empresa ajudaram a redigir o artigo sem o devido reconhecimento como coautores.

    Em um e-mail de 2015, William Heydens, executivo da Monsanto, sugeriu repetir a estratégia adotada no artigo de 2000. “Uma opção seria manter os custos baixos fazendo nós mesmos a redação e eles apenas editariam e assinariam seus nomes, por assim dizer. Lembre-se que foi assim que lidamos com Williams, Kroes e Munro, 2000”, escreveu Heydens, segundo documentos judiciais.

    O editor-chefe da revista, Martin van den Berg, destacou em comunicado de dezembro de 2025 várias “preocupações” e “problemas críticos” no estudo. Entre eles, a falta de clareza sobre os verdadeiros autores do texto e a ausência de menção ao envolvimento de funcionários da Monsanto, atualmente parte do grupo Bayer, na redação do artigo.

    O artigo também baseou suas conclusões exclusivamente em estudos não revisados por pares e fornecidos pela própria Monsanto. Portanto, ignorando pesquisas já publicadas à época que contradiziam suas conclusões. Além disso, investigações indicam que os autores podem ter recebido compensações financeiras não divulgadas da empresa.

    Estudo influenciou regulamentação do glifosato no Brasil e no mundo

    A pesquisa exerceu influência significativa em debates regulatórios sobre o uso de agrotóxicos globalmente. No Brasil, o artigo foi um dos estudos científicos citados no processo de reavaliação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que manteve a substância autorizada no país. O processo iniciou em 2008 e concluiu em 2019, quando a Anvisa determinou que o agrotóxico não causava prejuízos à saúde.

    Pesquisadores Alexander Kaurov, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, e Naomi Oreskes, historiadora da ciência da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, solicitaram formalmente a retratação do artigo. Em análise publicada em setembro de 2024, eles descobriram que o artigo está entre os 0,1% mais citados na literatura acadêmica sobre glifosato.

    Van den Berg tentou, sem sucesso, obter esclarecimentos do único autor ainda vivo, Gary M. Williams. Robert Kroes faleceu em 2006 e Ian Munro em 2011. A despublicação seguiu uma análise cuidadosa das diretrizes do COPE (Committee on Publication Ethics), que regem o comportamento acadêmico.

    Anvisa utilizou estudo controverso na reavaliação do agrotóxico no Brasil

    O glifosato serve como base para mais de cem produtos disponíveis no mercado brasileiro, com uso em plantações agrícolas e também em jardins. Em 2015, durante o processo de reavaliação no Brasil, a IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), ligada à OMS (Organização Mundial da Saúde), classificou a substância como “provavelmente cancerígena” em humanos.

    Procurada pela imprensa, a Anvisa informou que “qualquer consideração seria necessário a avaliação da área técnica”. E destacou que o artigo em questão “não foi o único dado, pesquisa ou informação utilizada para avaliação da Anvisa”. A agência afirmou que, para o processo de reavaliação, analisa um conjunto extenso de dados e estudos relacionados ao tema.

    Karen Friedrich, toxicologista do Grupo Temático de Saúde e Ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), observa que a prática de “ghostwriting” aparece diversas vezes nos Monsanto Papers. Indicando que funcionários da Monsanto teriam escrito outros artigos assinados posteriormente por cientistas e publicados em revistas científicas.

    Bayer afirma que glifosato é seguro e usado há mais de 40 anos

    A Bayer, em nota enviada à imprensa, afirmou que o glifosato tem sido usado “com segurança e sucesso em todo o mundo há mais de 40 anos”. A empresa declarou ainda acreditar que “o envolvimento da Monsanto foi adequadamente citado nos agradecimentos”. E que “o consenso entre órgãos reguladores em todo o mundo que conduziram suas próprias avaliações independentes baseadas no peso das evidências é que o glifosato pode ser usado com segurança conforme orientado e não é cancerígeno”.

    A Bayer adquiriu a Monsanto em 2018 por US$ 63 bilhões e herdou um passivo de mais de 67 mil processos judiciais nos Estados Unidos. Ações movidas por vítimas de câncer resultaram em bilhões de dólares em indenizações, e a empresa já pagou US$ 11 bilhões para resolver extrajudicialmente mais de 100 mil processos.

    Em janeiro de 2024, um júri da Pensilvânia condenou a Bayer ao pagamento de US$ 2,25 bilhões após concluir que a Monsanto “não alertou sobre os perigos” do Roundup. A empresa aguarda decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a admissibilidade de um novo recurso relacionado aos litígios do glifosato.

    Especialistas pedem nova reavaliação do produto no país

    Alan Tygel, membro da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, afirma que a despublicação do artigo “coloca em xeque o próprio resultado da reavaliação da Anvisa”. Ele defende que a reavaliação de agrotóxicos no Brasil deve ser iniciada quando há informações científicas novas sobre os produtos que estão em uso. E propõe que a venda desses agrotóxicos seja liminarmente suspensa para proteger a saúde das pessoas.

    Karen Friedrich também defende que “a Anvisa deveria colocar o glifosato em reavaliação novamente, porque as pessoas estão adoecendo e morrendo por conta desse agrotóxico”.

    A despublicação reforça as suspeitas sobre os danos da substância à saúde humana. E abre caminho para novos questionamentos à comercialização do produto no Brasil e no mundo. O advogado Brent Wisner, que representou vítimas em processos contra a Monsanto, classificou o estudo como “o exemplo por excelência de como empresas como a Monsanto podem minar fundamentalmente o processo de revisão por pares através de ghostwriting, seleção tendenciosa de estudos não publicados e interpretações enviesadas”.

  • Crise judicial: Bayer negocia novo acordo sobre Roundup

    Crise judicial: Bayer negocia novo acordo sobre Roundup

    A Bayer, multinacional alemã do setor químico e farmacêutico, enfrenta uma crise sem precedentes desde a aquisição da Monsanto em 2018. Após comprar a empresa por US$ 63 bilhões, a Bayer passou a responder por mais de 67 mil processos judiciais nos Estados Unidos. A maioria relacionada ao herbicida Roundup, acusado de causar câncer em usuários.

    Desde o início das ações, a Bayer já desembolsou mais de US$ 11 bilhões em indenizações, valor que representa o maior acordo da história da indústria farmacêutica. Apesar disso, milhares de processos seguem ativos, principalmente no Missouri, estado onde a Monsanto tem sede. A empresa ainda mantém cerca de US$ 6,2 bilhões em provisões legais. Mas o montante pode não ser suficiente diante do volume de litígios e das recentes derrotas em tribunais americanos, incluindo sentenças superiores a US$ 1,5 bilhão em danos punitivos.

    Estratégias: acordo judicial ou recuperação judicial da Monsanto

    A Bayer negocia um novo acordo coletivo para encerrar as ações pendentes. Mas caso não obtenha sucesso, prepara-se para solicitar a recuperação judicial da Monsanto nos EUA, utilizando o Chapter 11, mecanismo semelhante à recuperação judicial brasileira. Essa estratégia permitiria concentrar os processos em um tribunal de falências, suspendendo temporariamente as ações e ganhando tempo para reestruturação financeira.

    Grandes empresas como Johnson & Johnson e 3M já tentaram manobras semelhantes, mas enfrentaram resistência da Justiça americana. O cenário para a Bayer é desafiador. O valor de mercado da empresa caiu para cerca de US$ 25 bilhões, menos da metade do que foi pago pela Monsanto.

    Desde a aquisição, o valor de mercado da Bayer despencou 80%. Em 2024, a empresa registrou prejuízo líquido de € 2,55 bilhões, com queda nas vendas da divisão agrícola e forte concorrência dos genéricos asiáticos. Para enfrentar a crise, a Bayer obteve autorização dos acionistas para diluir suas ações em até 35%. E assim,  captar US$ 9 bilhões, buscando recursos para lidar com as indenizações e manter suas operações.

    Roundup no centro da controvérsia

    O Roundup é um herbicida à base de glifosato. Ele é amplamente utilizado em lavouras de soja, milho e algodão nos EUA. Segundo o Serviço Geológico dos EUA, cerca de 300 milhões de libras de glifosato são aplicadas anualmente no país. A Bayer defende a segurança do produto, citando pareceres da Agência de Proteção Ambiental (EPA), que não encontrou evidências conclusivas de relação entre o glifosato e o câncer. No entanto, tribunais americanos têm decidido em sentido contrário, responsabilizando a Monsanto por não alertar sobre possíveis riscos à saúde.

    A Bayer aguarda uma decisão da Suprema Corte dos EUA, prevista para junho de 2025, sobre a admissibilidade de um novo recurso relacionado aos processos do glifosato. Paralelamente, a empresa intensifica o lobby junto ao Congresso americano para aprovar leis que limitem sua responsabilidade civil futura. A expectativa é encerrar ou estabilizar os litígios nos próximos 12 a 18 meses, segundo executivos da companhia.

    Posição no Brasil

    Entramos em contato com a assessoria da Bayer no Brasil, para saber se essa mudança afetaria o Brasil. Publicamos a resposta na integra abaixo.

    “Apesar do histórico científico claro, a indústria de litígios dos EUA continua a usar informações enganosas para questionar a segurança do glifosato em busca de retornos financeiros. A luta contra a indústria de litígios já custou mais de US$ 10 bilhões até o momento, sem uma resolução clara. Uma coisa é certa: não podemos continuar a vender um produto já aprovado e perder bilhões de dólares fazendo-o. Infelizmente, estamos nos aproximando de um ponto em que os esforços da indústria de litígios vão nos forçar a parar de vender este produto.

    E por mais que glifosato seja o assunto hoje, não há dúvidas de que todos os produtos de proteção de cultivos podem ser alvo da indústria de litígios. É por isso que, nos EUA, estamos ativamente engajados em esforços legislativos, nas esferas federal e estaduais, para apoiar políticas que protejam o acesso de agricultores a um produto essencial de proteção de cultivos. A agência regulatória americana (EPA) tem afirmado repetidamente que o glifosato é seguro para uso conforme instruções de bula. E a legislação que apoiamos reforça o a autoridade da EPA em suas decisões rigorosas e embasadas em ciência. Essa consistência garante que o rótulo segue a lei, ajudando a eliminar as premissas infundadas dos ataques legais que têm solicitado uniformidade nos rótulos nos EUA.

    Nenhuma decisão foi tomada até aqui. E nós não trabalhamos com um cronograma específico. Conforme mencionamos na nossa mais recente divulgação de resultados, estamos focados em uma série de itens prioritários neste ano para contermos o litígio relacionado a glifosato. Esperamos que possamos encontrar uma solução para que não sejamos obrigados a interromper as vendas desse produto.”

    Desafio

    A crise envolvendo Bayer, Monsanto e Roundup representa um dos maiores desafios jurídicos e financeiros já enfrentados por uma multinacional do setor químico e agrícola. O desfecho das negociações e possíveis mudanças na legislação americana devem definir o futuro da empresa e do mercado global de defensivos agrícolas nos próximos anos.

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