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  • O café bom vai todo para fora? Essa frase já foi verdade, mas o Brasil mudou completamente

    O café bom vai todo para fora? Essa frase já foi verdade, mas o Brasil mudou completamente

    Se você cresceu no Brasil, provavelmente ouviu isso em casa: o café bom vai todo para exportação e o refugo fica para o brasileiro. Durante décadas, essa afirmação tinha fundamento. Nos anos 80, a ABIC revelou que cerca de 30% do café vendido no mercado interno era fraudado com milho torrado, cevada e cascas. O consumidor brasileiro tomava uma bebida amarga achando que era café puro. Na maioria das vezes, não era.

    O Brasil produz café desde o século XIX. Contudo, a lógica comercial era simples: os melhores grãos iam para exportação, e o mercado interno ficava com grãos defeituosos, quebrados e misturados com matérias estranhas. Não havia fiscalização efetiva nem selo de qualidade. Muitos brasileiros cresceram convictos de que café era naturalmente amargo e ruim. Afinal, nunca tinham provado o verdadeiro.

    O programa que virou o jogo

    A virada começou nos anos 90, quando a ABIC criou o Programa de Qualidade do Café. O objetivo era combater fraudes, estabelecer padrões mínimos de pureza e oferecer um selo que identificasse produtos genuínos. Torrefadoras que vendiam café adulterado foram obrigadas a se adaptar ou perder espaço no mercado. O índice de fraude caiu drasticamente, e o café que chegava à mesa do brasileiro começou a ser, de fato, café.

    Enquanto a qualidade básica melhorava, os cafés especiais brasileiros ganhavam força. Regiões como Cerrado Mineiro, Alta Mogiana e Sul de Minas passaram a produzir grãos avaliados acima de 80 pontos na escala da Specialty Coffee Association. Cafeterias de terceira onda se espalharam pelas capitais e o consumidor brasileiro passou a valorizar origem, altitude e perfil sensorial. O mesmo país que misturava milho no café do próprio povo agora disputa, em igualdade, com cafés da Etiópia, Colômbia e Guatemala.

    A frase que ficou presa no tempo

    A crença de que o melhor café vai todo para fora tem raízes reais, mas ficou presa nos anos 80 enquanto o mercado evoluiu. Hoje, o Brasil é simultaneamente o maior produtor e o segundo maior consumidor da bebida do mundo. Cafés especiais que antes eram exclusivos para exportação estão disponíveis em torrefadoras locais, supermercados e cafeterias em todo o país. A narrativa ainda circula, mas os dados não a sustentam mais.

    Nos anos 80, até 30% do café vendido tinha adulteração. Em 2026, o consumidor brasileiro acessa cafés especiais premiados internacionalmente, com rastreabilidade de origem e perfil sensorial definido. Essa transformação foi resultado de fiscalização, programas de qualidade e um consumidor que passou a exigir mais. O maior produtor de café do mundo aprendeu a beber de verdade, e a história continua sendo escrita a cada nova safra.

  • Método promete mudar avaliação da qualidade do café

    Método promete mudar avaliação da qualidade do café

    Uma nova metodologia desenvolvida pela Embrapa e pela Universidade de Brasília (UnB) promete revolucionar a análise sensorial de cafés. Isso torna mais acessível para pequenos produtores e cooperativas avaliarem a qualidade do café. O nome do método é Perfil Descritivo Otimizado (PDO). Pesquisadores o adaptaram para o café e já descreveram todas as etapas do processo em um manual detalhado.

    O grande diferencial do PDO é a possibilidade de incluir consumidores e funcionários como avaliadores, eliminando a necessidade de especialistas altamente treinados. Com um treinamento mais simples, a metodologia permite que pequenas propriedades e cooperativas montem suas próprias equipes para análise. “Essa abordagem torna o processo mais ágil e reduz custos, sem comprometer a qualidade das informações obtidas”, explica Sônia Celestino, pesquisadora da Embrapa Cerrados e uma das responsáveis pelo projeto.

    Além disso, o método facilita a avaliação de atributos específicos, como aroma, acidez e amargor, e pode ser utilizado para selecionar amostras para concursos ou separar lotes especiais. A escala utilizada classifica os cafés em até 50 pontos, possibilitando identificar grãos ruins, bons e excelentes.

    Uma solução inspirada pela pandemia

    A adaptação do PDO surgiu durante a pandemia de Covid-19, que dificultou o uso de métodos tradicionais, mais complexos e demorados. A então mestranda Manuella Nascimento liderou o estudo com orientação de Celestino e da professora Lívia de Oliveira, no Departamento de Nutrição da UnB.  “Com o tempo reduzido, optamos por adaptar o método para o café, algo inédito até então”, relembra Oliveira.

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    Os pesquisadores apresentaram a metodologia no evento Coffee Brasília 2023, atraindo grande interesse de produtores e da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Segundo Celestino, o manual explica de forma didática todo o processo, permitindo que fazendas, cooperativas e universidades utilizem a ferramenta para melhorar seus processos e produtos.

    Entre as vantagens destacadas estão a redução do tempo necessário para as análises e o suporte na identificação de grãos com potencial para avaliação oficial pela Specialty Coffee Association (SCA). “Nosso método oferece uma análise inicial dos grãos, ajudando produtores a decidir quais amostras enviar para avaliações oficiais, que têm custo elevado”, destaca Celestino.

    Como funciona o treinamento dos avaliadores da qualidade do café

    O PDO exige uma equipe de 16 avaliadores, que passam por testes de sensibilidade para identificar gostos e aromas encontrados no café. A cada sessão, um atributo é avaliado em até seis amostras. O treinamento inclui referências para os principais atributos desejáveis (como aroma e doçura) e indesejáveis (como amargor residual).

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    Ao final do processo, os avaliadores calculam uma nota global que considera os atributos positivos e os defeitos. Produtores utilizam esses dados para ajustar técnicas de cultivo, enquanto empresas os empregam para aprimorar o controle de qualidade e atender às preferências dos consumidores.

    A Embrapa planeja utilizar a metodologia PDO em novos projetos de pesquisa para aprofundar o conhecimento sobre a qualidade sensorial do café. Com isso, o método promete se consolidar como uma ferramenta indispensável para a avaliação de cafés especiais. Democratizando o acesso a análises sensoriais de alta qualidade.