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  • O reino do Oink: Toledo (PR) tem quase 6 porcos por pessoa

    O reino do Oink: Toledo (PR) tem quase 6 porcos por pessoa

    O dia em Toledo, no oeste do Paraná, começa cedo, antes que o sol se desprenda do horizonte e espane a névoa sobre as plantações. O orvalho escorre das folhas de soja, o motor dos tratores rompe o silêncio, e o ar já carrega aquele cheiro inconfundível: mistura de ração, terra úmida e promessas de fartura. Seja bem-vindo(a) ao Reino do Oink.

    À distância, há quem jure ouvir um murmúrio que vem do campo. Um rumor ritmado, quase orquestral. É o som de 950 mil porcos respirando, comendo, crescendo, existindo.

    No mapa, a simpática Toledo é um ponto distante de Curitiba, no interior paranaense. Mas, na prática, é a capital invisível dos suínos. Um lugar onde há quase seis porcos para cada pessoa.

    Os 160.701 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2025, vivem cercados por um oceano de grunhidos e silos metálicos. Os animais são tantos que parecem se multiplicar no eco dos currais e no vapor que sai das granjas nas manhãs frias.

    O trono dos porcos

    Foto: Ari Dias/AEN

    Há uma ironia silenciosa na paisagem. A cidade foi erguida por gente, mas quem reina por aqui é o porco. O IBGE confirma: 950 mil suínos dividem o território com pouco mais de 160 mil moradores. Se cada habitante decidisse adotar um, ainda sobrariam quase 790 mil focinhos sem dono. É a cidade brasileira com a maior quantidade de suínos.

    O contraste é poético e brutal. O mesmo animal que já foi símbolo de fartura nas mesas do interior hoje sustenta uma indústria de bilhões. Toledo produz proteína como quem produz destino, no compasso dos caminhões frigoríficos que cruzam a BR-467, levando o cheiro e a riqueza do campo para longe.

    O império do oink

    Dizem que é fácil saber quando se está chegando a Toledo. O vento entrega. Ele sopra carregado de um aroma ácido, mistura de vida, trabalho e exaustão. Para uns, é incômodo; para outros, é sinal de prosperidade. Aqui, o cheiro do ar é o cheiro do sustento.

    Entre as faixas de milho e soja, surgem granjas que mais parecem fortalezas: portões automáticos, silos reluzentes, sistemas de ventilação que nunca param. Lá dentro, máquinas alimentam, climatizam e registram cada movimento. O que era natureza virou cálculo. O que era instinto virou estatística.

    Foto: Ari Dias/AEN

    Mesmo assim, há uma harmonia discreta nesse cotidiano. É como se homem e animal tivessem firmado um pacto silencioso. Cada porco alimentado é uma engrenagem da economia, uma batida no coração do município, uma pequena parte do futuro que Toledo constrói com paciência e precisão.

    O cheiro, o som e o sustento

    Com o tempo, os moradores se acostumaram. A suinocultura não é apenas um negócio, é uma espécie de identidade. O caminhoneiro sabe o caminho de cor; o agricultor reconhece no ar quando as granjas estão cheias; o comerciante mede as vendas pelo número de abates da semana.

    Toledo respira em oinks. O som é constante, mas não ensurdece. É o bater de um coração coletivo, pulsando do campo para o centro, atravessando os milharais e as ruas largas da cidade.O Paraná é o segundo estado que mais abate suínos no Brasil, responsável por 21,5% da produção nacional. Mas Toledo é um caso à parte. Nenhum outro município reúne tantos animais por habitante. Aqui, o porco é mais presente que o poste, mais numeroso que as janelas e tão essencial quanto a chuva que molha o milho.

    Entre o barro e o brilho

    Nada disso seria possível sem as mãos que trabalham na sombra. Homens e mulheres que acordam antes do amanhecer, lavam as botas com pressa e entram nas granjas como quem entra num templo. O cheiro forte que muitos evitam é, para eles, o perfume da estabilidade.

    Foto: Ari Dias/AEN

    Cada porco adulto produz de cinco a sete litros de dejetos por dia. É muito e Toledo aprendeu a lidar com o excesso. Biodigestores transformam o que antes era problema em energia. O que era sujeira, por exemplo, hoje ilumina casas, move motores e fertiliza plantações.

    O ciclo se fecha com uma elegância quase poética: o porco alimenta o homem, e o homem devolve o que sobra à terra.

    O futuro em tom de rosa

    Toledo carrega um desafio constante: crescer sem sufocar. O mundo exige carne, mas também cobra sustentabilidade. A cidade aposta em tecnologia, pesquisa e vigilância sanitária. A Embrapa Suínos e Aves desenvolve rações que reduzem emissões, enquanto cooperativas testam sistemas de reuso de água e manejo inteligente de resíduos.

    Foto: Ari Dias/AEN

    Mesmo assim, o risco ronda: a peste suína africana, as oscilações de mercado, as mudanças no clima. Tudo pode mudar de uma safra para outra. Ainda assim, Toledo segue firme — resiliente, teimosa, obstinada, como os próprios animais que cria.

    Entre o sol e o som

    Quando o entardecer cobre o oeste do Paraná de dourado, então a cidade parece suspensa no tempo. Enquanto isso, os silos brilham sob a luz oblíqua, e ao mesmo tempo os caminhões passam levantando poeira. Por fim, ao fundo, ainda se ouve o mesmo coro grave, contínuo, quase ritual.

    Toledo é mais que uma cidade. É uma metáfora viva do Brasil agrícola. Um lugar onde o homem e o porco dividem o mesmo destino. Ou seja, um produz, o outro sustenta; um respira, o outro transforma.

    E, no fim do dia, quando o vento muda de direção e traz de volta o cheiro do campo, fica clara a essência de tudo: é uma cidade de gente, movida a oinks.

  • Tecnologia da Embrapa avalia segurança sanitária de granjas

    Tecnologia da Embrapa avalia segurança sanitária de granjas

    A Embrapa Suínos e Aves desenvolveu um software que mede a biosseguridade das granjas de suínos no Brasil. A nova tecnologia, chamada BiosSui, foi testada no Paraná, um dos principais polos suinícolas do País.

    O sistema avalia 23 critérios de biosseguridade externa e interna. Em geral, esses critérios incluem infraestrutura e procedimentos fundamentais para evitar a entrada de patógenos nas granjas. Ao mesmo tempo, com base nesses dados, o BiosSui gera indicadores, organiza recomendações e propõe melhorias na produção. A ferramenta pode orientar decisões de produtores, gestores, agroindústrias e órgãos sanitários.

    Software traz coleta digital e relatórios detalhados

    O BiosSui permite coletar informações por meio de um formulário web. Em seguida, disponibiliza dashboards interativos, mapas, relatórios de desempenho e sugestões técnicas. Ou seja, a ferramenta utiliza metodologia multicritério e classifica o grau de adequação das granjas. Portanto, isso facilita o ranqueamento das propriedades e orienta ações de correção. Além disso, o sistema funciona tanto para gestão individual quanto para grupos de granjas, como cooperativas e unidades agroindustriais.

    Validação contou com apoio de cooperativas e autoridades

    A Embrapa validou a ferramenta com parceiros estratégicos. Em 2024, organizou workshops e reuniões no Paraná com o apoio do Sistema Ocepar. Durante esse processo, firmou acordos com a Frimesa, a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) e a Associação Paranaense de Suinocultores (APS). Os testes em campo aconteceram em granjas ligadas a cooperativas filiadas à Frimesa, como Lar, Copacol, Copagril, C.Vale e Primato.

    A equipe da Embrapa realizou ajustes com base no uso prático. Também ofereceu orientações para gestores das cooperativas e fiscais da Adapar. “A interação com os parceiros foi essencial para adaptar os critérios à realidade das granjas”, afirma Marcos Morés, analista da Embrapa e especialista em patologia suína.

    Sistema possui três módulos principais

    O BiosSui conta com três módulos: Avaliação, Simulação de Melhorias e Dashboards. No primeiro, os dados coletados no campo permitem calcular os índices de biosseguridade da propriedade.

    No segundo, o sistema gera recomendações técnicas e simula os impactos de eventuais melhorias. Com isso, os produtores conseguem priorizar investimentos e decisões mais eficazes.

    O terceiro módulo apresenta os resultados por meio de dashboards e mapas interativos. Assim, os gestores visualizam dados gerais e detalhados por propriedade.

    Segundo Geordano Dalmédico, analista da Embrapa, “os dashboards ajudam a comparar dados e identificar padrões com facilidade”. O sistema ainda permite exportar dados para análises específicas em programas estatísticos.

    Brasil fortalece posição com foco em biosseguridade

    O Brasil é o quarto maior produtor e o terceiro maior exportador de carne suína do mundo. Ou seja, essa posição estratégica depende do rígido controle sanitário e da adoção de protocolos eficientes.

    O País é livre de doenças como a Peste Suína Africana (PSA) e a Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRS). Esse status é resultado da vigilância ativa e do investimento contínuo em biosseguridade.

    “A biosseguridade protege os rebanhos em várias camadas”, explica a pesquisadora Jalusa Kich. “O controle na importação de animais e material genético, por exemplo, tem abrangência nacional.” Segundo ela, o Ministério da Agricultura coordena a defesa sanitária, com execução a cargo dos estados. As normas de biosseguridade apoiam programas como o Programa Nacional de Sanidade Suídea (PNSS).

    Prática técnica se torna estratégia de mercado

    Além do cumprimento das normas, a biosseguridade também virou um diferencial competitivo. Portanto, para os pesquisadores, a suinocultura industrial precisa incorporar a prática como parte da gestão do negócio.

    “As agroindústrias e os produtores devem reforçar os protocolos em suas rotinas. A biosseguridade deixou de ser apenas uma exigência técnica”, afirma Franco Muller Martins, líder do projeto BiosSui. “Hoje, é uma estratégia nacional de proteção e competitividade.”

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  • Governo vai taxar pum de vaca

    Governo vai taxar pum de vaca

    A Dinamarca, pioneira em políticas ambientais, acaba de anunciar uma medida inovadora no combate às mudanças climáticas: a tributação das emissões de gases de efeito estufa provenientes de vacas, ovelhas e porcos. A medida ficou mundialmente conhecida como “imposto do pum da vaca”.

    A partir de 2030, criadores de gado no país serão taxados por cada tonelada de CO2 emitida por seus animais.O imposto, que começará em 300 coroas dinamarquesas (R$ 240) por tonelada e aumentará gradualmente até atingir 750 coroas (R$ 590) em 2035, visa reduzir as emissões de metano, um dos gases mais prejudiciais, em 70% até 2030.

    A Nova Tributação

    A ideia de tributar as emissões de metano, gás que tem um impacto climático significativamente maior que o dióxido de carbono, não é nova. No entanto, a Dinamarca é o primeiro país a concretizá-la de forma tão direta e abrangente. Segundo Jeppe Bruus, Ministro da Tributação da Dinamarca, “Se você investe em tecnologia que permite reduzir emissões, pode acabar não tendo que pagar”.

    Estima-se que uma vaca leiteira típica na Dinamarca emita em média 5,6 toneladas de CO2 por ano.

    Embora alguns produtores tenham se preocupado com os possíveis impactos econômicos, o governo dinamarquês planeja usar a receita arrecadada para incentivar práticas sustentáveis e subsidiar tecnologias que ajudem a diminuir as emissões.

    Isso inclui sistemas de alimentação que reduzem a fermentação entérica nos animais e digestores anaeróbicos para tratar dejetos.

    Um Olhar para o Futuro

    Essa abordagem inovadora coloca a Dinamarca como um exemplo global na luta contra as mudanças climáticas. A expectativa é que outros países acompanhem de perto os resultados dessa iniciativa e considerem medidas semelhantes em suas políticas ambientais. “Com o acordo de hoje, estamos investindo bilhões na maior transformação da paisagem dinamarquesa dos últimos tempos”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Lars Lokke Rasmussen, em comunicado.

    Foto: Divulgação – Danmarks Naturfredningsforening

    Enquanto isso, o setor agrícola dinamarquês se prepara para uma transição que promete não apenas reduzir as emissões. O objetivo é também aumentar potencialmente a eficiência e a sustentabilidade da produção.

    As mudanças poderão, a longo prazo, trazer benefícios tanto para o meio ambiente quanto para os produtores que adotarem as novas tecnologias​.

    Iniciativa em outros países

    A Nova Zelândia, que possui mais de 6 milhões de vacas, chegou a aprovar uma lei semelhante para taxar o pum da vaca, mas recuou após fortes críticas de fazendeiros. No entanto, a Dinamarca segue firme em sua decisão, posicionando-se como um exemplo global na luta contra as mudanças climáticas. Ou seja, essa iniciativa inovadora demonstra o compromisso do país em reduzir sua pegada de carbono e promover uma agricultura mais sustentável.

    À medida que outros países acompanham de perto os resultados dessa medida, a expectativa é que mais nações adotem abordagens semelhantes em suas políticas ambientais