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  • Pesquisadores brasileiros desvendam enigma da ecologia que intriga cientistas há 70 anos

    Pesquisadores brasileiros desvendam enigma da ecologia que intriga cientistas há 70 anos

    Pesquisadores do ICTP-SAIFR desenvolveram um modelo matemático inédito que conecta os padrões de movimentação de animais com o crescimento e a estrutura de suas populações. O trabalho resolve um problema que desafia ecólogos desde a década de 1950 e promete orientar futuras políticas públicas de preservação ambiental.

    A revista científica Ecology Letters, uma das mais prestigiadas publicações da área, divulgou o estudo “O modelo logístico com áreas de vida” no dia 11 de dezembro. Rafael Menezes, pesquisador do ICTP-SAIFR e pós-doutorando com bolsa da Fapesp no Centro para Estudos de Sistemas Avançados (CASUS-HZDR), na Alemanha, assina o artigo como primeiro autor. Ricardo Martínez-García orienta a pesquisa.

    O ICTP-SAIFR funciona como um centro internacional de pesquisa no Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp. A Fapesp e outras instituições públicas e privadas financiam suas atividades. Menezes desenvolveu o modelo durante seu doutorado no Instituto de Biociências da USP.

    Como funcionam os modelos logísticos

    O matemático belga Pierre François Verhulst criou a equação logística em 1838. A fórmula estima com precisão o crescimento populacional e gera um gráfico em formato de “S”, que demonstra a existência de limites naturais para esse crescimento.

    “As populações não crescem indefinidamente”, explica Menezes. “Uma região atinge um ponto em que tantos animais a habitam que o alimento, o espaço e outros recursos se tornam insuficientes para todos. A população então alcança sua abundância máxima.”

    A inovação: áreas de vida e movimento animal

    O estudo relaciona, pela primeira vez de forma precisa, a movimentação animal com sua dinâmica populacional. Os pesquisadores descrevem como o crescimento ou declínio de uma população se conecta aos deslocamentos individuais de cada animal no espaço.

    Os cientistas alcançaram esse resultado ao considerar as chamadas “áreas de vida” – os espaços onde os animais vivem, encontram alimento e criam seus filhotes. A tecnologia moderna de rastreamento e as análises estatísticas avançadas permitem medir essas áreas com precisão extraordinária.

    Em 2020, Ricardo Martinez-Garcia liderou um estudo influente que já relacionava áreas de vida com a frequência de interações entre pares de indivíduos. Alguns coautores daquele trabalho também participaram da pesquisa atual. O novo estudo representa uma continuidade natural, explorando o caminho que o artigo de 2020 abriu.

    O desafio da complexidade

    A complexidade das interações entre indivíduos dificulta prever suas influências sobre a dinâmica populacional como um todo. A Física dos Sistemas Complexos contribui neste ponto, permitindo que os cientistas formulem modelos teóricos para explicar esses processos, além de desenvolver algoritmos e ferramentas computacionais para analisá-los.

    Os pesquisadores empregaram modelos estocásticos no trabalho de dezembro. Esses modelos representam de forma mais realista e menos simplificada aquilo que os cientistas observam na natureza.

    Além da equação original

    O artigo também avançou em relação à equação logística original de Verhulst. “O modelo original era determinístico. Nesses modelos, a história de uma população sempre se repete, desde que as condições iniciais permaneçam as mesmas”, explica Menezes. “No modelo estocástico, sempre existe um pouco de aleatoriedade, mesmo em condições idênticas.”

    O novo trabalho ampliou a perspectiva teórica em relação ao artigo de 2020. A análise expandiu de pares de animais para grandes quantidades de indivíduos e incluiu os efeitos dessas interações sobre as taxas de reprodução e mortalidade.

    Essa mudança de escala representou um desafio significativo. “Quando temos uma população inteira de animais, cada um possui seu próprio movimento e o número de interações cresce enormemente de forma rápida”, afirma Menezes.

    “A Física nos permitiu fazer uma síntese relativamente simples – e correta – disso. Identificamos e resumimos toda essa complexidade em apenas um número: o coeficiente de aglomeração para animais com áreas de vida. Os pesquisadores podem calcular esse coeficiente a partir de dados de rastreamento individual, como GPS”, descreve o cientista.

  • Palmeiras da Amazônia armazenam duas vezes mais água que eucalipto e mogno, revela pesquisa

    Palmeiras da Amazônia armazenam duas vezes mais água que eucalipto e mogno, revela pesquisa

    As palmeiras amazônicas (Arecaceae) armazenam duas vezes mais água do que árvores dicotiledôneas como ipê, mogno e eucalipto. A descoberta integra um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, vinculado ao Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças Climáticas (CBioClima).

    A professora Thaise Emilio, da Unesp e coordenadora do projeto, apresentou resultados preliminares da pesquisa durante o Fórum Brasil-França “Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas”, realizado entre 1º e 2 de outubro no auditório da FAPESP. “As palmeiras funcionam como grandes reservatórios ou caixas d’água da floresta”, afirmou a pesquisadora.

    Dominância das palmeiras na floresta amazônica

    Apesar de representar apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, as palmeiras dominam a paisagem florestal tanto no dossel quanto no sub-bosque. Os cientistas levantam a hipótese de que populações humanas antigas domesticaram essas plantas há milhões de anos durante a ocupação e manejo da região.

    “Ainda debatemos se os humanos enriqueceram a Amazônia com palmeiras ou se escolheram viver na floresta justamente pela abundância dessas plantas úteis, que possuem grande importância econômica”, explicou Emilio.

    Thaise Emílio, professora da Unesp, coordenadora do projeto e pesquisadora associada ao CBioClima: apesar de ser apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, as palmeiras são extremamente dominantes na floresta, tanto no dossel como no sub-bosque. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP

    Atualmente, cerca de 75% da produção brasileira de produtos florestais não madeireiros provém de palmeiras. O açaí (Euterpe oleracea) sozinho responde por 50% desse total.

    Capacidade única de retenção hídrica

    Desde 2017, Emilio colabora com pesquisadores do Soleil Síncrotron, de Paris, e da Universidade de Bordeaux para analisar a resistência do xilema das palmeiras à embolia induzida pela seca. O xilema constitui o tecido vascular que transporta água e sais minerais das raízes para o restante da planta.

    Os cientistas utilizaram o acelerador circular de partículas do Soleil Síncrotron para investigar seis espécies de palmeiras das subfamílias Arecoideae e Coryphoideae. A tecnologia permite examinar a composição e estrutura da matéria em escala molecular.

    “Constatamos que as palmeiras apresentam vulnerabilidade à seca similar a outras angiospermas ou gimnospermas. Porém, elas concentram mais água dentro dos troncos e conseguem mobilizar esse recurso, tornando essa a estratégia mais importante para minimizar os riscos de embolia”, detalhou a pesquisadora.

    Palmeiras retêm até 70% de água em seus troncos

    Pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, participaram de monitoramentos recentes que revelaram dados surpreendentes. Enquanto árvores dicotiledôneas armazenam no máximo 50% de seu volume em água, as palmeiras retêm até 70%. Durante períodos secos, essas plantas reservam ainda mais água do que nas estações chuvosas.

    “Isso gera enormes impactos na biodiversidade da floresta amazônica, que ainda precisamos estimar”, afirmou Emilio.

    Durante expedições na floresta em períodos de seca, a equipe observa que apenas as palmeiras produzem frutos. “Só elas dão frutos nessas épocas de seca. Isso mantém a alimentação dos animais e dos humanos que dependem desses recursos. Uma das hipóteses para explicar essa capacidade é justamente o funcionamento diferenciado dessas plantas, que armazenam mais água”, explicou a cientista.

    Mudanças climáticas ameaçam serviço ecossistêmico

    O serviço ecossistêmico prestado pelas palmeiras enfrenta ameaças devido ao declínio de espécies associadas a climas úmidos. A intensificação do ciclo hidrológico, marcada por secas e estações chuvosas mais extremas, compromete a abundância dessas plantas. “Isso terá um impacto muito importante para a dinâmica da floresta”, alertou Emilio.

    Um estudo em andamento avalia através de modelagem o risco de morte de palmeiras em diferentes ambientes e condições climáticas. Os resultados preliminares indicam que essas plantas morrem duas vezes mais do que outras árvores. “A combinação de anos chuvosos e secos está causando uma mudança na dinâmica e nas características de regiões da floresta”, concluiu a pesquisadora.

    Cooperação Brasil-França fortalece pesquisas ambientais

    O Museu Nacional de História Natural (MNHN) da França, a Universidade de São Paulo (USP) e a FAPESP organizaram o fórum que integrou a Temporada França-Brasil 2025. A programação celebra os 200 anos de relações diplomáticas entre os países.

    Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, destacou que a Amazônia Legal ocupa aproximadamente 4 milhões de quilômetros quadrados do Brasil, área equivalente a 40% do tamanho da Europa. A floresta também se estende ao território da Guiana Francesa.

    “Brasileiros e franceses compartilham a responsabilidade sobre essa floresta, uma das maiores reservas da biodiversidade do planeta. Portanto, seu destino pode determinar, em grande parte, o destino da humanidade”, avaliou Zago.

    O presidente do MNHN, Gilles Bloch, reforçou o compromisso da instituição com as questões ambientais. “Os desafios ambientais compartilhados pela França e pelo Brasil são muito sérios. Este fórum reforça a tradição de colaboração que existe entre nós e a USP”, afirmou.

    USP anuncia construção da Praça dos Museus

    A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, anunciou o projeto de construção da Praça dos Museus da USP, que reunirá acervos dos museus de Zoologia (MZ-USP) e de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP).

    “A Universidade de São Paulo possui acervos museológicos ímpares e coleções científicas e culturais entre as maiores do mundo. Estamos construindo um novo espaço, com um projeto notável do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Esse novo museu será uma referência para toda a cidade, para o país e para o mundo”, destacou a vice-reitora.

    Por Elton Alisson | Agência FAPESP

  • Drones transformam pesquisas ambientais

    Drones transformam pesquisas ambientais

    O uso de drones tem revolucionado o trabalho de campo na ciência, especialmente em projetos ambientais e de planejamento territorial no Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Desde 2019, a tecnologia tornou-se indispensável para a equipe, acelerando levantamentos de dados e ampliando a precisão das análises.

    Segundo Eduardo Vedor, coordenador-geral do Lageamb, “com esse tipo de equipamento, a gente consegue diminuir muito o tempo de levantamento de dados. Reduzir pra menos de uma semana um mapeamento que levaria um mês”. Os drones, ou Aeronaves Remotamente Pilotadas (ARP), como define o geógrafo Carlos Wrobleski. “São a base de praticamente todos os projetos atualmente. Viabilizando desde o monitoramento ambiental e territorial até o georreferenciamento de imóveis rurais e análises de riscos climáticos”.

    Aplicações avançadas e resultados práticos

    O laboratório opera sensores de última geração, como termal e LiDAR, permitindo análises detalhadas da vegetação, superfície terrestre e volume de biomassa. “Basicamente, não tem nada tão tecnológico quanto essas ferramentas, e a gente as opera de fato, produzindo muita ciência a partir dessas duas aeronaves”, explica Wrobleski. Além disso, a equipe utiliza ortomosaicos e Modelos Digitais do Terreno (MDTs) para regularização fundiária e gestão de áreas federais, em parceria com órgãos como INCRA e SPU.

    A doutora em Geografia Marianne Oliveira destaca: “Outra aplicação importante é no uso de ortomosaicos, que viabilizam um primeiro mapeamento detalhado em áreas de comunidades tradicionais, e Modelos Digitais do Terreno (MDTs), para extração de vértices no georreferenciamento de imóveis rurais, no Projeto TED/INCRA focado na regularização fundiária”.

    Capacitação e inovação contínua

    O laboratório investe na formação de pilotos e na experimentação de novas tecnologias. “A gente consegue ter vários pilotos, fazendo cursos para que as pessoas operem as aeronaves para tirar fotos, fazer algum tipo de relatório sobre suas próprias pesquisas. É uma operação muito mais simples, mas que traz um resultado absurdo”, ressalta Wrobleski.

    A geógrafa e mestranda Laura Krama complementa: “Houve um avanço muito grande, tanto metodológico quanto de conhecimento sobre os equipamentos, desde 2019. Aquisição de novos drones, aprimoramento da metodologia, teste de diferentes equipamentos. E, com o trabalho integrado, atuando, por exemplo, junto com agrimensores e geógrafos, conseguimos maior precisão nos estudos”.

    Drones como aliados do desenvolvimento sustentável

    A adoção dos drones potencializa pesquisas, otimiza processos de análise e planejamento e amplia significativamente a capacidade de mapeamento e levantamento de dados. O Lageamb/UFPR demonstra que, longe de serem apenas instrumentos de lazer, os drones são ferramentas estratégicas para o desenvolvimento científico-social e para a construção de políticas públicas baseadas em dados de alta qualidade e confiabilidade.

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