Tag: pescadores artesanais

  • Governo regulamenta coleta de ovas de peixe-voador no Nordeste

    Governo regulamenta coleta de ovas de peixe-voador no Nordeste

    A atividade de coleta embarcada de ovas de peixe-voador no Nordeste passará a contar, pela primeira vez, com regras específicas. O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) publicaram a Portaria Interministerial nº 62, que regulamenta a exploração das espécies Hirundichthys affinis e Cheilopogon cyanopterus.

    A medida entra em vigor nesta segunda-feira (8) e estabelece critérios para uma atividade tradicional realizada há décadas por pescadores artesanais do Rio Grande do Norte e da Paraíba, especialmente voltada à produção de ovas conhecidas internacionalmente como tobiko ou “golden caviar”.

    O tobiko é muito utilizado na culinária japonesa, com forte potencial de exportação — Foto: Istock/Kool99

    Durante o anúncio da regulamentação, a governadora Fátima Bezerra destacou a importância da medida para o setor.

    “Essa é uma conquista construída por meio do diálogo e da articulação entre o Governo do Estado, o Governo Federal, parlamentares, representantes do setor pesqueiro e órgãos ambientais. É uma medida que traz segurança para os trabalhadores e reconhece a importância econômica e cultural dessa atividade para o Rio Grande do Norte”, afirmou.

    Regras para a atividade

    A nova portaria disponibiliza 140 autorizações para a coleta embarcada no Nordeste. As permissões serão destinadas exclusivamente a embarcações artesanais registradas no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) dos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba.

    Além disso, o recolhimento das ovas deverá ser realizado manualmente, e as embarcações serão obrigadas a acompanhar continuamente os atratores utilizados na pescaria, sendo proibido o abandono de materiais no ambiente marinho.

    Os interessados terão prazo de 15 dias após a publicação da norma para solicitar autorização junto ao MPA.

    O peixe-voador não voa de verdade, mas é um exímio planador aquático — Foto: Reprodução/Governo Federal

    Rastreabilidade e controle

    A regulamentação também cria mecanismos de rastreabilidade da produção, exigindo que empresas adquirentes registrem as operações no sistema PesqBrasil e mantenham a documentação por pelo menos cinco anos.

    Segundo o ministro Édipo Araújo, a construção da norma envolveu diálogo com pescadores, setor produtivo e órgãos ambientais.

    “O processo se deu por meio de muita escuta, reforçando a participação social nos processos de gestão pesqueira e a construção de soluções compatíveis com a realidade das comunidades pesqueiras tradicionais”, declarou.

    As medidas serão avaliadas até dezembro de 2027 e poderão resultar em novos critérios de gestão, como limites de produção, cotas e restrições de áreas ou temporadas de pesca.

    “A regulamentação busca organizar uma atividade que já ocorre historicamente na região, permitindo ampliar a capacidade de monitoramento, rastreabilidade e acompanhamento da produção, ao mesmo tempo em que reconhece a importância socioeconômica da pescaria para as comunidades artesanais envolvidas”, afirmou a coordenadora-geral de Gestão Participativa Costeira e Marinha do MPA, Adayse Bossolani.

  • Como o manejo do pirarucu virou fonte de renda e esperança na Amazônia

    Como o manejo do pirarucu virou fonte de renda e esperança na Amazônia

    Comunidades indígenas, pescadores artesanais e povos tradicionais da Amazônia poderão receber pagamento do governo federal pelo trabalho de conservação do pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo e símbolo da biodiversidade amazônica. O programa Pagamento por Serviços Ambientais do Pirarucu (PSA Pirarucu) abriu nesta semana sua primeira chamada pública, com até R$ 15 milhões em recursos disponíveis para organizações comunitárias do Amazonas.

    O lançamento ocorreu durante a “Oficina PSA Pirarucu: Valorização do Manejo Comunitário na Amazônia”, realizada em Manaus e organizada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), por meio do Projeto Floresta+ Amazônia. O evento reuniu cerca de 150 pessoas, entre beneficiários, representantes de associações, cooperativas e organizações parceiras. E contou com o apoio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Ibama.

    O que é o PSA Pirarucu e quem pode receber

    O programa reconhece e remunera financeiramente atividades que já são realizadas pelas comunidades, mas que até então não eram compensadas pelo poder público. São considerados serviços ambientais o zoneamento de lagos, a vigilância territorial, a contagem e manutenção dos estoques, a pesca controlada e a gestão territorial comunitária.

    Podem se inscrever associações, cooperativas e colônias de pescadores vinculadas a unidades de manejo autorizadas pelo Ibama. Desde que tenham CNPJ ativo, estatuto social registrado, ata de eleição da diretoria vigente e tenham entregado os relatórios anuais de manejo. O cadastramento deve ser feito em duas etapas: no Portal Gov.br e no Sistema de Cadastro Nacional de Produtores Rurais (Sican), da Conab.

    Uma política construída junto com as comunidades

    Para a diretora de Política Agrícola e Informações da Conab, Naiara Bittencourt, que participou do evento, o lançamento representa um marco histórico. “É a primeira chamada pública do programa, tendo o pirarucu como primeiro produto, um alimento fundamental para a segurança alimentar de quem maneja e de quem consome. É uma política pública inovadora, construída junto com as comunidades. E que fomenta a geração de renda e reconhece o trabalho socioambiental na preservação da natureza”, afirmou.

    A diretora do Departamento de Políticas de Estímulo à Bioeconomia do MMA, Bruna De Vita, reforçou que o PSA complementa um trabalho de conservação construído ao longo de 26 anos de manejo do pirarucu. “A gente espera que, ao final do projeto, as organizações estejam ainda mais preparadas para acessar outras políticas públicas da agricultura familiar, como o Programa de Aquisição de Alimentos e o Sociobio Mais”, disse.

    Números que mostram a dimensão do manejo comunitário

    O impacto do manejo sustentável do pirarucu na Amazônia é expressivo. Atualmente, a atividade envolve cerca de 5.500 pessoas e 60 organizações, distribuídas em 41 áreas protegidas que somam mais de 20 milhões de hectares. Todos os anos, o programa mobiliza aproximadamente 2.500 ambientes aquáticos e permite o monitoramento de cerca de 1,2 milhão de peixes por meio de contagens participativas realizadas pelas próprias comunidades.

    Para a cacica do Povo Apurinã, Maria Dione, o programa chega como uma resposta concreta a décadas de esforço coletivo. “É mais uma renda para todos nós, manejadores, que estamos lutando para preservar o nosso rio, o nosso peixe e a nossa floresta. Antes, o peixe estava acabando e pensávamos nos nossos filhos e netos, que talvez não vissem mais pirarucu. Hoje, conseguimos tirar nossa cota e sobreviver bem do manejo”, relatou a liderança indígena.

    De onde vêm os recursos

    Os R$ 15 milhões destinados ao programa são provenientes de resultados de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) alcançados pelo Brasil na Amazônia em 2014 e 2015, oriundos do Fundo Verde para o Clima.

    A iniciativa integra ainda a Missão 2 do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). E prevê salvaguardas socioambientais, com incentivo à participação das mulheres no manejo. A meta do governo é alcançar 300 mil beneficiários com pagamentos por serviços ambientais até 2036.

  • Santa Catarina anuncia financiamento para recuperar produção de ostras

    Santa Catarina anuncia financiamento para recuperar produção de ostras

    O Governo de Santa Catarina lançou uma linha de crédito emergencial para apoiar maricultores afetados por perdas na produção de ostras. A iniciativa, coordenada pela Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (SAPE) e pela Secretaria Executiva da Aquicultura e Pesca (SAQ), oferece até R$ 50 mil por produtor.

    Para solicitar o financiamento, o maricultor deve procurar um escritório da Epagri no município onde atua.

    O crédito permite pagamento em até cinco parcelas anuais, com desconto de 40% em cada prestação quitada dentro do prazo. A medida integra o Projeto Emergencial Aquicultura e Pesca, vinculado ao Pronampe Especial Aquicultura e Pesca SC, e amplia o alcance da política pública para atender demandas específicas da ostreicultura catarinense.

    Segundo o secretário da Aquicultura e Pesca, Fabiano Müller Silva, o governo estruturou a linha após diálogo direto com produtores prejudicados. “Criamos essa linha emergencial para apoiar o custeio da atividade, incluindo a compra de sementes de ostras e outros insumos. A ação reforça o compromisso com os produtores e reconhece a importância econômica e cultural da ostreicultura no estado”, afirmou.

    Caráter excepcional

    Em caráter excepcional para 2026, o programa passou a incluir o financiamento de itens diretamente ligados à produção, como sementes e insumos essenciais. A mudança responde às perdas provocadas por fatores climáticos adversos, que causaram mortalidade nos cultivos.

    Desde 2023, o projeto atende pescadores artesanais e aquicultores impactados por eventos extremos, com apoio para recuperação ou substituição de embarcações, equipamentos e estruturas produtivas.

    Com a ampliação, o governo estadual busca garantir a continuidade da atividade aquícola em regiões litorâneas. A produção de ostras se destaca como uma das principais cadeias do setor, com forte impacto na geração de renda e emprego em Santa Catarina.

  • Agricultores familiares recebem novo impulso com aporte do Governo Federal

    Agricultores familiares recebem novo impulso com aporte do Governo Federal

    A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) anunciou um investimento de R$ 14,6 milhões para comprar arroz, uva e pescados de agricultores familiares por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Compra Institucional. Cooperativas e associações podem enviar as propostas até 25 de dezembro.

    O programa busca garantir renda aos pequenos produtores e fortalecer o abastecimento de equipamentos públicos de alimentação. Segundo a Conab, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) repassará os recursos e coordena as ações de combate à insegurança alimentar.

    No Paraná, o órgão destinará cerca de R$ 4 milhões para a compra de 705 toneladas de arroz polido de agricultores familiares, conforme o Comunicado Compra Institucional nº 11/2025. As entregas ocorrerão nas unidades armazenadoras da Conab e nas estruturas do PAA no estado, seguindo cronograma acordado entre as partes.

    O Rio Grande do Sul será outro estado beneficiado. De acordo com o Comunicado nº 12/2025, o investimento previsto de R$ 2 milhões financiará a aquisição de 606 mil unidades de suco de uva integral (200 ml cada). Os produtos serão entregues nas unidades da Conab gaúchas e direcionados a programas de segurança alimentar.

    Pescadores artesanais

    Já os pescadores artesanais de São Paulo e do Rio de Janeiro contarão com R$ 8 milhões para fornecer mais de 200 toneladas de pescado, segundo o Comunicado nº 13/2025. As entregas serão feitas ao longo de 12 meses às cozinhas solidárias cadastradas pelo MDS. Os preços de referência estão disponíveis nas superintendências regionais da Conab em ambos os estados.

    Cada família participante do programa pode comercializar até R$ 30 mil por ano. Mesmo que também forneça produtos ao PNAE ou a outras modalidades do PAA. Já as cooperativas e associações podem participar com até R$ 6 milhões por ano, e mulheres devem apresentar pelo menos 50% das propostas.

    O site da Conab reúne os comunicados oficiais e permite consultar os critérios de pontuação, os prazos e os valores de referência. A estatal deve divulgar o resultado da classificação das organizações inscritas em 26 de dezembro.

    A Compra Institucional permite que o governo adquira alimentos diretamente da agricultura familiar, garantindo preços justos e apoio à produção local.

  • Pescadores ganham barcos com motor e reforçam produção local

    Pescadores ganham barcos com motor e reforçam produção local

    Pescadores da Colônia Z-5, em São Luiz do Anauá, estão reforçando sua produção e segurança no trabalho. Eles receberam 16 barcos equipados com motor de popa e rabeta. A ação valoriza quem vive da pesca, gera renda direta e fortalece a economia local, dando mais autonomia aos profissionais do rio.

    A entrega dos equipamentos ocorreu na sexta-feira, 19, em um encontro que reuniu a comunidade, produtores rurais e autoridades. A iniciativa faz parte de um conjunto de esforços para fortalecer a pesca artesanal no estado.

    Inclusão em programa federal amplia mercado

    Uma das principais novidades para a categoria é a inclusão no cardápio e na tabela de preços da Conab, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). O técnico do Iater, Rafael Pinheiro, destacou que um contrato de R$ 98,5 mil já está executado e um novo edital, no valor de R$ 150 mil, permitirá o fornecimento de mais 35 toneladas de peixe no sul de Roraima.

    “Cada pescador pode acessar até R$ 15 mil pelo PAA, com pagamento ágil. Os CRAS fazem a distribuição do pescado para as famílias”, explicou Pinheiro. Ele também citou uma emenda parlamentar de R$ 100 mil, do senador Chico Rodrigues, que distribuiu cerca de 10 toneladas de peixe por meio dos CRAS de dois municípios, beneficiando mais de 500 pessoas com o trabalho de sete pescadores.

    Governo entrega equipamentos e fomenta produção

    O Governo de Roraima, por meio da Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi), realizou a entrega dos barcos. O secretário Marcio Grangeiro afirmou que a ação fortalece quem produz alimentos e atende a população. “É do campo que sai o alimento que chega à mesa”, pontuou.

    Grangeiro também listou outras ações dos últimos anos voltadas ao meio rural, como o fomento a tratores, caminhões, casas de farinha e kits de irrigação. O objetivo é ampliar a capacidade produtiva da agricultura familiar e da pesca.

    Além do acesso ao PAA, os pescadores artesanais contam com o seguro-defeso durante o período da piracema. O apoio da bancada federal também é um fator crucial, segundo Rafael Pinheiro, para o fortalecimento contínuo da atividade em Roraima.

  • Câmara aprova crédito para pesca artesanal e aquicultura familiar com juros reduzidos

    Câmara aprova crédito para pesca artesanal e aquicultura familiar com juros reduzidos

    Na beira do rio, o pescador artesanal faz conta no caderno antes de jogar a rede na água. O motor da embarcação está velho, o tanque de piscicultura precisa de reforma, e o crédito rural quase nunca conversa com a realidade dele. Essa cena, comum em comunidades pesqueiras pelo país, motivou um movimento em Brasília. A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados aprovou uma proposta que cria uma linha especial de crédito rural para pesca artesanal e aquicultura familiar.

    Na prática, o texto abre uma porta de financiamento mais barata para pescadores artesanais e aquicultores familiares. A nova linha de crédito oferece recursos tanto para custeio do dia a dia da produção quanto para investimentos maiores, com juros menores e prazos mais folgados que os tradicionais. A ideia é tirar o setor da margem do sistema financeiro e colocá‑lo no mapa do crédito rural em condições menos sufocantes.

    Pelo projeto, o crédito de custeio pode chegar a até R$ 50 mil por beneficiario, com juros de 4% ao ano e prazo mínimo de oito anos. Nesse caso, o produtor poderá ter até três anos de carência antes de começar a quitar o financiamento.

    Quem poderá se beneficiar

    O projeto não abre para qualquer perfil. Apenas pescadores artesanais e aquicultores familiares com inscrição regular no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) terão acesso ao crédito. A exigência tenta equilibrar o jogo. De um lado, garantir que o dinheiro chegue mesmo a quem vive da pesca e da aquicultura em pequena escala. De outro, evitar desvio do benefício para grandes operadores que já navegam com mais facilidade no sistema financeiro.

    Na lista do que o pescador ou aquicultor pode comprar com o novo crédito cabem praticamente todos os equipamentos essenciais da atividade. Os recursos podem financiar embarcações, motores, redes, sistemas de aeração, tanques, fábrica de gelo, equipamentos de refrigeração e outros insumos ligados diretamente à pesca artesanal e à aquicultura familiar. É o tipo de investimento que, na prática, decide se o peixe chega fresco na banca da feira ou se perde no meio do caminho por falta de gelo e estrutura adequada.

    O texto aprovado na comissão não é exatamente o mesmo apresentado no início. Os deputados aprovaram um substitutivo do relator, deputado Messias Donato (Republicanos‑ES), ao Projeto de Lei 4643/24, de autoria do deputado Raimundo Costa (Pode‑BA). Donato mexeu em pontos centrais do projeto original. Entre as mudanças, tirou a vinculação da nova linha de crédito do Plano Safra 2024/2025 e redesenhou prazos e taxas de juros para tornar as operações mais atrativas.

    “Os ajustes buscam garantir condições favoráveis aos financiamentos pretendidos. E manter o interesse das instituições financeiras em operar a nova linha de crédito”, afirmou o relator, ao defender o texto. A fala revela uma preocupação dupla: aliviar a vida do pescador artesanal e, ao mesmo tempo, convencer os bancos de que vale a pena colocar dinheiro nesse segmento, frequentemente tratado como de alto risco.

    Recursos

    A engenharia financeira da proposta também vem desenhada no texto. A nova linha de crédito para pesca artesanal e aquicultura familiar terá apoio dos fundos constitucionais nas operações que usarem esses recursos. Já nas operações subvencionadas pela União, o governo federal pretende bancar o custo por meio da realocação de parte do dinheiro hoje usado para equalizar juros de outras modalidades de crédito rural. Em outras palavras, o projeto não cria, pelo menos no papel, uma despesa totalmente nova, mas reorganiza o que já existe.

    Apesar do avanço na Comissão de Agricultura, o caminho até virar lei ainda segue longo. A proposta ainda precisa passar pela Comissão de Finanças e Tributação e pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), em caráter conclusivo. Depois disso, o texto só ganha força de lei se a Câmara dos Deputados e o Senado Federal aprovarem a medida. Até lá, o pescador continua na expectativa. Torce para que, dessa vez, a linha de crédito saia do papel e chegue de verdade no cais, no viveiro escavado e na pequena fábrica de gelo da comunidade.

  • Projeto da Unesp une pescadores para salvar espécie de tubarão

    Projeto da Unesp une pescadores para salvar espécie de tubarão

    A sobrevivência do tubarão mangona nas águas brasileiras depende de uma improvável aliança entre ciência e tradição. Em Iguape, no litoral sul paulista, pescadores artesanais trabalham lado a lado com pesquisadores da Unesp para desenvolver técnicas que protejam uma das espécies marinhas mais ameaçadas do Atlântico Sul.

    Apreciado por sua carne saborosa, o mangona enfrenta um futuro incerto. Dados alarmantes indicam queda de 80% na população global nos últimos 74 anos. No Brasil, onde a espécie praticamente desapareceu entre as décadas de 1980 e 1990, sua pesca é proibida desde 2014,  mas a captura acidental continua sendo um problema grave.

    Ciência e comunidade tradicional juntas

    Santiago Montealegre Quijano, biólogo da Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira da Unesp, lidera há três anos um projeto pioneiro que envolve diretamente os pescadores locais. A iniciativa busca conscientizar sobre a importância ecológica do mangona e, principalmente, desenvolver alternativas de pesca mais seguras.

    “Agora, os pescadores passaram a ver a Unesp como um apoio científico, especialmente por compreenderem que estavam sendo injustamente enquadrados por um crime quando ocorria uma captura acidental”, explica Quijano.

    Covos: uma solução que encontrou obstáculos

    Durante três anos, o grupo realizou mais de 30 expedições para testar covos, que são armadilhas subaquáticas posicionadas no leito marinho, feitas com malha e isca para atrair peixes. A vantagem é clara: tubarões mangona, que podem atingir três metros de comprimento e pesar 250 quilos, são grandes demais para entrar nessas estruturas.

    O pescador Lucas Gabriel reconhece os benefícios ambientais: “A ideia de usar os covos foi maravilhosa. É uma técnica que não agride outras formas de vida e consegue capturar apenas peixes pequenos, sem colocar em risco tartarugas, golfinhos, raias ou tubarões”.

    Quijano e um dos pescadores do projeto montando um covo. Foto: Conservation Connect.

    Porém, a geografia local apresentou desafios inesperados. A região de Iguape e Juréia caracteriza-se por estuários com fundo lamacento, que enchiam os covos de lama e dificultavam enormemente sua retirada manua. Lembrando que se trata de pesca artesanal, sem equipamentos mecânicos.

    Aprendizado para o futuro

    Embora os covos não tenham vingado neste formato, o projeto estabeleceu algo ainda mais valioso: confiança mútua entre universidade e comunidades tradicionais. Quijano planeja testar novos modelos de armadilhas que acumulem menos sedimentos.

    Enquanto isso, os pescadores implementam protocolos de liberação quando ocorre captura acidental: manter o mangona sempre de barriga para baixo, cortar rapidamente a rede para minimizar estresse, e evitar áreas e épocas do ano com maior concentração da espécie.

    “O mangona está presente em toda a Juréia, mas existem locais e épocas do ano que estão presentes em maior quantidade”, explica Lucas Gabriel, demonstrando o conhecimento tradicional que agora se soma à pesquisa científica.

    Um problema transnacional

    O tubarão mangona habita áreas costeiras ao redor do mundo, exceto a Antártica e a costa oeste das Américas. No Atlântico Sul, distribui-se do Sudeste brasileiro até a Argentina, dentro do chamado “mar patagônico”, um grande ecossistema marinho transnacional reconhecido oficialmente em 2004.

    Foto: Amaury Laporte

    A vulnerabilidade da espécie tem razões biológicas: maturação sexual tardia e baixa fecundidade dificultam a recuperação populacional. Some-se a isso o habitat próximo à costa, que facilita a captura, e o resultado é uma espécie classificada como “criticamente ameaçada”.

    Desafios além das fronteiras brasileiras

    Enquanto o Brasil proíbe pesca e comercialização desde 2014, países vizinhos mantêm políticas mais permissivas. Na Argentina, a pesca esportiva é permitida com devolução obrigatória. No Uruguai, a pesca comercial segue legal, e a carne do animal mantém consumidores fiéis em todo o cone sul.

    “O mangona era um prato muito apreciado. Inclusive, muitas pessoas nem sabiam que é um tubarão. Chegam aos restaurantes e pedem por ‘mangona’ diretamente”, relembra Quijano, que colaborou com Renato Freitas, da Universidade Federal de Santa Catarina, em pesquisas sobre o habitat da espécie.

    Freitas complementa: “Até pouco tempo atrás, nas praias de Santa Catarina, o pessoal enfileirava na areia os mangonas pescados”.

    A experiência de Iguape demonstra que a conservação marinha depende tanto de políticas públicas quanto do engajamento de quem vive do mar. Para o tubarão mangona, essa pode ser a última chance de sobrevivência.

  • Nova usina fortalece pesca artesanal na Baía de Todos-os-Santos

    Nova usina fortalece pesca artesanal na Baía de Todos-os-Santos

    A Baía de Todos-os-Santos agora conta com uma Usina de Beneficiamento de Pescados que promete revolucionar a pesca artesanal da região. O governo da Bahia inaugurou o equipamento nesta quinta-feira (16) na ilha de Bom Jesus dos Passos, em uma cerimônia que reuniu pescadores, marisqueiras e representantes de instituições nacionais e internacionais.

    A Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura (Seagri) e a Bahia Pesca entregaram a estrutura que resultou da parceria entre a Fundação Baía Viva, a Associação Amigos da Sardenha (Itália) e a Colônia de Pescadores Z3.

    Governo baiano prioriza desenvolvimento sustentável da pesca

    André Cavalcanti, diretor-geral da Seagri, representou o secretário Pablo Barrozo no evento e destacou o compromisso do Estado com a pesca artesanal.

    “A implantação da usina representa um avanço estratégico para agregar valor à produção local e fortalecer a economia da pesca artesanal. A Bahia tem uma extensa faixa litorânea e o nosso desafio é transformar esse potencial em projetos que irão agregar valor aos produtos da pesca, desenvolvimento sustentável e geração de renda para quem vive da economia do mar”, afirmou.

    Estrutura completa para beneficiamento e capacitação

    A usina ocupa 100 m² e reúne toda a infraestrutura necessária para o processamento de pescados. O espaço conta com bancadas, pias, depurador, freezers, fogão e área de apoio com banheiros e recepção.

    Além de processar a produção para venda, o complexo abrigará uma loja no espaço de restaurantes da ilha e funcionará como escola de capacitação para a comunidade pesqueira.

    Parceria internacional traz conhecimento e inovação

    Isabela Suarez, presidente da Fundação Baía Viva, celebrou a conquista como exemplo de cooperação efetiva. “A usina de beneficiamento é um sonho que se torna realidade. É a prova de que, quando sociedade civil, poder público e iniciativa privada se unem, o resultado transforma vidas, garantindo estrutura, dignidade e oportunidades para quem sempre viveu da pesca”, declarou.

    O projeto incluiu 200 horas de capacitação teórica com educadores brasileiros e italianos. A cooperação com a Associação Voluntária Italiana Amigos da Sardenha trouxe experiências internacionais para modernizar a pesca artesanal local.

    “Essa união entre Brasil e Itália mostra que solidariedade e compromisso com o desenvolvimento sustentável não tem fronteiras”, destacou Isabela.

    Processo rigoroso garante qualidade do pescado

    Jonatas Spínola, engenheiro ambiental e coordenador do projeto Baía Viva, explica que a usina segue etapas rigorosas de qualidade e segurança alimentar. O marisco pescado passa por limpeza com água corrente, cozimento, seleção e embalagem antes do armazenamento em câmaras frias.

    “Outros pescados de baixo valor comercial poderão se transformar em subprodutos como linguiça, hambúrguer, quibe e salgados, ampliando as possibilidades de renda para a comunidade”, explica o coordenador.

    Comunidade celebra dignidade e oportunidades

    As marisqueiras da ilha veem a usina como símbolo de reconhecimento profissional. Tatiane Santos, marisqueira local, comemora os benefícios que o espaço trará.

    “Esse espaço vai fortalecer o trabalho das mulheres, melhorar o beneficiamento do pescado e garantir mais renda para as famílias que tiram o sustento do mar”, celebrou.

    Antônio Jorge Teixeira, presidente da Colônia de Pescadores Z3, ressaltou o papel da mobilização coletiva na conquista.

    “Essa conquista é de todos nós que lutamos por melhores condições para quem vive da pesca. Quando a gente se junta, a gente vence. A união da comunidade foi decisiva para que o projeto se tornasse realidade”, afirmou.

    Antes da inauguração, a Seagri participou de encontros com a Associação Amigos da Sardenha, a Fundação Baía Viva e a Associação Comercial da Bahia. O governo baiano acredita que a experiência italiana impulsionará projetos existentes e inspirará novas iniciativas na Baía de Todos-os-Santos.