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  • Pênis bovino vira “ouro branco” da pecuária de MT

    Pênis bovino vira “ouro branco” da pecuária de MT

    Enquanto produtores focam em cortes nobres como picanha e filé-mignon para o mercado internacional, frigoríficos de Mato Grosso descobriram uma fonte inesperada de lucro: o vergalho bovino. O pênis do animal, antes descartado ou vendido a preços irrisórios, agora alcança US$ 6 mil por tonelada no mercado asiático, especialmente na China e em Hong Kong.

    A transformação do pênis bovino em produto de alto valor econômico reflete uma revolução no aproveitamento animal. Os frigoríficos mato-grossenses adotaram estratégias de aproveitamento integral da carcaça, eliminando desperdícios e maximizando lucros.

    “O mercado asiático valoriza partes do animal que o consumidor ocidental tradicionalmente rejeita”, explica um relatório da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). A entidade registrou crescimento de 340% nas exportações de miúdos bovinos para a Ásia nos últimos três anos.

    O abismo de preços justifica o foco das indústrias frigoríficas no mercado externo:

    • Mercado Interno (Brasil): valor do quilo: R$ 21,00
    • Mercado Externo (Hong Kong): valor da tonelada: até US$ 6.000 (aproximadamente R$ 30.000)

    Diferença percentual: mais de 1.400% de valorização

    Alan Gutierrez, gerente de marketing da SulBeef, um dos frigoríficos mato-grossenses autorizados a exportar o subproduto, confirma que as vendas movimentam entre quatro e cinco toneladas mensais, totalizando aproximadamente 60 toneladas anuais apenas dessa empresa.

    O produto segue rigorosos protocolos sanitários e chega in natura ao mercado asiático, onde os consumidores valorizam preparações cozidas, ensopados e pratos típicos que utilizam o vergalho pela sua textura cartilaginosa e capacidade de absorver temperos e caldos.

    Por que a China paga tanto?

    A valorização do pênis bovino no mercado asiático tem raízes culturais profundas. Diferentemente do Ocidente, onde miúdos frequentemente são descartados, a culinária chinesa tradicionalmente aproveita todas as partes do animal.

    Principais usos culinários na Ásia:

    • Ensopados de longa cocção que amaciam a textura cartilaginosa
    • Sopas medicinais tradicionais
    • Pratos que valorizam a capacidade do produto de absorver sabores complexos
    • Preparações que associam o consumo a propriedades nutricionais

    Competitividade e diversificação da pecuária mato-grossense

    Bruno de Jesus Andrade, diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), destaca que Mato Grosso possui uma pecuária robusta, eficiente e cada vez mais alinhada às exigências internacionais.

    A estratégia de diversificação de produtos vai além dos cortes tradicionais. Segundo Andrade, quando os frigoríficos ampliam o portfólio e atendem mercados com diferentes perfis de consumo, fortalecem a economia, reduzem riscos e aumentam a competitividade da carne produzida no estado no cenário global.

    O momento é estratégico para essa diversificação. A China impôs, a partir de janeiro de 2026, medidas de salvaguarda que estabeleceram uma cota de 2,7 milhões de toneladas para importação de carne bovina, com o Brasil recebendo 1,1 milhão de toneladas dessa cota.

    As importações que excederem a cota enfrentarão tarifa de 55%, o que torna ainda mais valiosa a estratégia de maximizar lucros através do aproveitamento integral da carcaça, incluindo subprodutos de alto valor como o vergalho.

    A comercialização do pênis bovino representa uma tendência crescente no setor: o aproveitamento total do animal abatido. O que antes era considerado descarte agora contribui significativamente para a rentabilidade dos frigoríficos.