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  • Conheça a raça africana que está transformando a pecuária tropical

    Conheça a raça africana que está transformando a pecuária tropical

    Poucos nomes no universo da genética bovina carregam uma história tão precisa quanto o Bonsmara. O nome não é acidental. Ele une “Bons”, referência ao Rio Bonspruit, na África do Sul, onde a raça foi desenvolvida a partir da década de 1930, à palavra “Mara”, derivada de “Mahura”, termo em língua sesotho que significa “gordura”. Uma alusão direta à qualidade da carne que os criadores sul-africanos buscavam fixar.

    O Bonsmara é classificado como Bos Taurus Africanus do tipo Sanga, um grupo genético distinto tanto dos zebuínos (Bos indicus) quanto das raças britânicas convencionais como o Angus e o Hereford. Essa posição singular no mapa genético bovino não é um detalhe menor. É justamente ela que torna o Bonsmara tão atraente para os sistemas de produção tropical, especialmente no Brasil.

    Uma raça construída para o calor

    O desenvolvimento do Bonsmara foi conduzido pela Estação Experimental de Mara, no então Transvaal sul-africano, sob coordenação do pesquisador Jan Bonsma. O objetivo era claro: criar um animal capaz de prosperar no clima quente e semiárido da África subsaariana sem abrir mão da qualidade de carcaça típica das raças europeias de corte.

    Para atingir isso, Bonsma cruzou sistematicamente três raças: Afrikaner (gado nativo africano, adaptado ao calor e às condições locais), Shorthorn e Hereford (raças britânicas reconhecidas pela qualidade de carne e precocidade). Após décadas de seleção rigorosa, chegou-se a uma proporção genética que se tornou marca registrada do Bonsmara: 5/8 de sangue Afrikaner e 3/8 de sangue europeu. Uma fórmula que equilibra rusticidade e produção.

    O que diferencia o Bonsmara das demais raças

    Do ponto de vista fenotípico, o Bonsmara é um animal de porte médio a grande, com pelagem variando entre tons de vermelho e marrom, pele pigmentada, uma característica essencial para resistência à radiação solar intensa, e mucosas escuras. Apresenta chifres relativamente curtos e perfil corporal musculoso, com traseiro bem desenvolvido, o que favorece o rendimento de carcaça.

    Do ponto de vista produtivo, os atributos que mais chamam atenção são:

    • Adaptação térmica: a presença do sangue Afrikaner confere ao Bonsmara capacidade de termorregulação eficiente, com menor estresse calórico em comparação às raças europeias puras. Um fator decisivo em regiões tropicais como o Brasil central e o Nordeste.
    • Fertilidade: as fêmeas Bonsmara se destacam pela ciclagem precoce, alta taxa de concepção e boa habilidade materna, com produção de leite suficiente para garantir desenvolvimento adequado dos bezerros.
    • Qualidade de carne: o Bonsmara produz carne com marmoreio relevante, maciez, suculência e sabor diferenciados. Estudos sul-africanos e brasileiros apontam resultados consistentes em parâmetros como força de cisalhamento e perdas por cozimento. Portanto, métricas que definem a experiência sensorial do consumidor.
    • Eficiência alimentar: animais Bonsmara convertem alimento com eficiência acima da média, o que reduz o tempo no ciclo produtivo e melhora a viabilidade econômica dos sistemas a pasto.
    • Docilidade: o temperamento manso é um traço selecionado ativamente na raça, com reflexos positivos tanto no bem-estar animal quanto na facilidade de manejo.
    • Distância genética estratégica: por não ser zebuíno nem raça britânica pura, o Bonsmara apresenta distância genética relevante em relação às raças mais comuns no Brasil, como Nelore, Angus e Senepol, por exemplo. Isso amplia o efeito de heterose nos cruzamentos, gerando ganhos de desempenho superiores nos animais resultantes.

    O Bonsmara no Brasil: chegada tardia, impacto crescente

    Apesar de consolidado na África do Sul desde a segunda metade do século XX, onde ocupa posição de destaque entre as raças mais utilizadas no país, o Bonsmara chegou ao Brasil apenas nas últimas décadas, impulsionado pela demanda por genética alternativa ao zebu para cruzamentos industriais em ambientes tropicais.

    O potencial imediato era evidente: um país com mais de 230 milhões de cabeças de bovinos, predominância de Nelore e seus cruzamentos, clima quente em boa parte do território e uma demanda crescente por carne de qualidade superior tanto no mercado interno quanto externo. O Bonsmara entrava nesse cenário com uma proposta específica: oferecer heterose expressiva em cruzamentos com zebuínos e fêmeas meio-sangue Angus, sem os problemas de adaptação das raças europeias puras sob altas temperaturas.

    Fazenda Santa Silvéria: pioneira e referência na genética Bonsmara no Brasil

    A introdução do Bonsmara no Brasil está diretamente ligada à trajetória da Fazenda Santa Silvéria. Pioneira na raça no país, a propriedade construiu ao longo dos anos um programa de melhoramento genético que hoje serve de referência para criadores em todas as regiões brasileiras e em países da América Latina e da África.

    Foto: Divulgação

    O trabalho nasceu de uma demanda prática. A proprietária Clélia Pacheco buscava uma solução para um desafio recorrente na pecuária tropical de alto desempenho: preservar a precocidade das fêmeas meio-sangue Angus, reconhecidas pela qualidade de carne e eficiência reprodutiva, sem perder a adaptação ao ambiente tropical que as raças zebuínas oferecem naturalmente.

    O Bonsmara respondeu a essa equação. Como Bos Taurus Africanus, a raça apresenta distância genética tanto dos zebuínos quanto das raças britânicas. O que favorece cruzamentos com ganhos expressivos de heterose. O resultado são animais que combinam desempenho produtivo, resistência ao calor e qualidade de carne, em sistemas simples, a pasto e com touros em monta natural.

    “Nosso foco sempre foi produzir animais adaptados, férteis e produtivos. Capazes de gerar carne de alta qualidade em sistemas simples, a pasto e com touros em monta natural. O grande diferencial do Bonsmara é permitir que o produtor obtenha os benefícios da heterose em praticamente todo o território nacional. Com animais dóceis, resistentes e preparados para diferentes ambientes”, afirma Clélia Pacheco.

    Seleção que vai além do desempenho

    O programa de melhoramento da Santa Silvéria combina avaliações de desempenho, características funcionais e critérios de adaptação. A seleção não prioriza apenas números de ganho de peso ou rendimento de carcaça. Ela considera a capacidade dos animais de expressar produtividade em diferentes condições climáticas e de manejo. O que amplia a aplicabilidade da genética para criadores com realidades distintas.

    Entre os atributos que a fazenda seleciona e difunde estão fertilidade, rusticidade, docilidade, capacidade de conversão alimentar e produção de carne reconhecida por maciez, sabor e suculência. Essa combinação amplia as possibilidades de uso do Bonsmara tanto em cruzamentos industriais sobre matrizes zebuínas quanto em acasalamentos com fêmeas meio-sangue Angus. Em ambos os casos com resultados consistentes de desempenho e rentabilidade.

    Genética, sustentabilidade e eficiência: o tripé da Santa Silvéria

    A eficiência produtiva que o Bonsmara proporciona também dialoga com as demandas crescentes por sustentabilidade na pecuária. Animais de alta performance permanecem menos tempo no ciclo produtivo, o que reduz a pressão sobre pastagens e recursos naturais. Sistemas com pastagens bem manejadas, por sua vez, contribuem para maior retenção de carbono no solo. Um fator que ganha relevância no contexto de rastreabilidade e certificação de carne para mercados exigentes.

    Para Clélia Pacheco, genética, nutrição e manejo formam um tripé indissociável para conciliar viabilidade econômica e responsabilidade ambiental. É esse equilíbrio que a fazenda busca transmitir não apenas nos animais que vende. Mas na cultura de produção que dissemina para criadores em todo o Brasil e no exterior.

    22º Leilão Bonsmara Santa Silvéria

    No dia 1º de julho, às 20h, a Fazenda Santa Silvéria realiza o 22º Leilão Bonsmara Santa Silvéria. O evento acontece em formato 100% virtual, com transmissão pela Central Leilões, e reúne reprodutores selecionados para atuação a campo. São animais desenvolvidos dentro do programa de melhoramento genético da fazenda e preparados para as demandas da pecuária tropical brasileira.

    Interessados podem se cadastrar antecipadamente pelo site oficial da fazenda: www.fazendasantasilveria.com.br

  • Sindi ganha espaço no Nordeste e impulsiona nova fase da pecuária no semiárido

    Sindi ganha espaço no Nordeste e impulsiona nova fase da pecuária no semiárido

    A pecuária nordestina vive uma transformação importante diante dos desafios climáticos da região. Em meio às longas estiagens e à escassez de pastagens, produtores passaram a investir em modelos mais eficientes e sustentáveis. Assim, a raça Sindi ganhou protagonismo e se consolidou como símbolo da nova pecuária do semiárido.

    Originária da região de Sindh, no atual Paquistão, a raça chegou ao Brasil no século passado e encontrou no Nordeste condições ideais para demonstrar sua rusticidade.

    Os primeiros exemplares da raça Sindi desembarcaram no Brasil há décadas e ajudaram a fortalecer a pecuária em regiões de clima mais seco — (Foto: Reprodução/ABF)

    Além disso, o avanço do Sindi acompanha a evolução técnica da pecuária regional. Com mais investimentos em genética, manejo nutricional e seleção de animais, produtores nordestinos passaram a conquistar maior valorização no mercado nacional.

    Rusticidade e eficiência elevam interesse pela raça

    Em tempos de mudanças climáticas e alta nos custos de produção, a rusticidade virou vantagem econômica. O Sindi se destaca justamente pela elevada tolerância ao calor, boa conversão alimentar e capacidade de aproveitar pastagens mais simples.

    Dessa forma, os produtores conseguem reduzir custos e manter a produtividade mesmo em ambientes mais severos. Outro diferencial importante é o porte moderado dos animais, que favorece a manutenção corporal durante períodos críticos de seca.

    Criadores apostam no Sindi para ampliar produtividade e sustentabilidade da pecuária — (Foto: Reprodução/ABF)

    Além disso, a raça apresenta boa fertilidade e precocidade sexual, fatores diretamente ligados à rentabilidade das fazendas. Não por acaso, especialistas consideram o Sindi uma das raças zebuínas mais promissoras para a pecuária tropical brasileira.

    Sindi fortalece pecuária moderna no semiárido

    Embora tenha forte presença na produção leiteira, o Sindi também vem ganhando espaço na pecuária de corte, principalmente em programas de cruzamento industrial e seleção genética.

    Ao mesmo tempo, o crescimento da raça acompanha uma mudança mais ampla no Nordeste, com produtores investindo cada vez mais em tecnologia, gestão e produtividade.

    Hoje, o Sindi representa muito mais do que resistência. A raça virou referência de eficiência produtiva no semiárido e deve ampliar ainda mais sua presença nos próximos anos, impulsionada pelo interesse crescente dos criadores e pelo fortalecimento dos programas de melhoramento genético.