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    Cerrado: pastejo rotacionado reduz braquiária em 50% e restaura vegetação nativa

    O pastejo pelo gado, quando bem gerenciado, pode conter a braquiária (Urochloa decumbens), uma das maiores ameaças aos campos naturais do Cerrado. E abrir caminho para a recuperação da vegetação nativa. É o que indica estudo do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) publicado no periódico Agriculture, Ecosystems and Environment.

    A braquiária chegou ao Brasil na década de 1960, vinda das regiões tropicais da África Oriental. Desde então, tornou-se uma das principais invasoras do Cerrado: recobre completamente o solo, impede que outras plantas brotem e é extremamente difícil de eliminar. Herbicidas e capina manual são opções caras e pouco eficazes.

    Com o gado, essa dinâmica muda. “O pastejo controlado surge como um possível aliado na conservação e restauração dos campos naturais. Em determinados contextos, reduz a cobertura de espécies invasoras, abre espaço para a regeneração da vegetação nativa e contribui para a manutenção da diversidade”, explica Bruna Helena de Campos, autora principal do estudo.

    O experimento

    Para testar a hipótese, as pesquisadoras instalaram um experimento na Estação Ecológica de Santa Bárbara, no oeste do Estado de São Paulo. Elas escolheram uma área de campo nativo invadida por braquiária, cercaram parte dela e permitiram a entrada de gado apenas nessa seção. As áreas vizinhas, com solo e vegetação semelhantes, ficaram sem gado e serviram como grupo de controle, o que permitiu separar os efeitos do pastejo das mudanças naturais ao longo do tempo.

    Antes da entrada do gado, a equipe registrou a vegetação em 200 parcelas de 1 m², mapeando espécies presentes e a ocupação do solo por plantas nativas, braquiária, arbustos, árvores e solo exposto. Dois anos depois, repetiu o levantamento.

    Os resultados

    O pastejo em sistema rotacionado, com alternância entre períodos curtos de uso e períodos de descanso, reduziu em 50% a cobertura de braquiária. E aumentou o solo exposto a níveis semelhantes aos de campos naturais intocados. “A abertura de espaço no solo é fundamental nos campos, porque cria condições para que outras espécies germinem ou rebrotem, o que contribui para a diversidade e a manutenção da vegetação típica”, diz Campos.

    carbono cerrado
    Foto: Gabriel Faria/Embrapa

    Com menos braquiária e mais solo exposto, as espécies nativas do Cerrado reocuparam as áreas invadidas: a riqueza total de espécies nativas cresceu cerca de 20% nas parcelas pastejadas em comparação com as não pastejadas. “O aumento da riqueza da camada herbácea, aliado à redução da espécie invasora, indica que o ecossistema está recuperando parte de sua diversidade funcional”, afirma a pesquisadora.

    Uma relação antiga

    A conexão entre campos e pastejo não é novidade do ponto de vista ecológico. Ao longo de milhões de anos, as plantas do Cerrado desenvolveram adaptações para conviver com a herbivoria de grandes animais da megafauna sul-americana, hoje extintos. Essas características persistem e fazem com que os campos naturais dependam do pastejo para manter seu equilíbrio ecológico.

    “Na África, essa relação entre campos e pastejo é amplamente conhecida. Em regiões onde os grandes herbívoros são raros ou ausentes, o gado tem feito o papel de controlar o acúmulo exagerado de biomassa de capins”, explica a ecóloga Giselda Durigan, coautora do artigo e pesquisadora do IPA.

    Cuidados necessários

    O pastejo como ferramenta de restauração exige atenção para não reproduzir os impactos historicamente associados à pecuária convencional. O principal risco é o sobrepastejo. “Quando há mais carga do que o ambiente suporta, ocorre compactação do solo e aumento do pisoteio e do consumo de plantas, o que pode diminuir a cobertura vegetal e, consequentemente, reduzir a diversidade”, alerta Campos.

    A pesquisadora recomenda o acompanhamento por indicadores ecológicos, como cobertura do solo e riqueza de espécies, como forma de avaliar se o manejo contribui para a restauração ao longo do tempo sem gerar novos impactos negativos.

    Respaldo legal e científico

    No Brasil, a Lei de Proteção à Vegetação Nativa já prevê o “manejo sustentável”, que permite o uso econômico de vegetação nativa ou restaurada, desde que compatível com a conservação. No Estado de São Paulo, o pastejo em ecossistemas abertos já tem reconhecimento oficial como uso sustentável de Reserva Legal.

    Durigan destaca que o estudo valida essa política pública ao demonstrar, com dados experimentais, que o pastejo bem manejado favorece a vegetação nativa. Ainda assim, a adoção da prática como ferramenta de conservação exige atuação coordenada entre órgãos ambientais, gestores de unidades de conservação e proprietários rurais.

    A pesquisa conta com financiamento da FAPESP, por meio do Projeto Temático BIOTA Campos, e inclui contribuição de pesquisadoras do Instituto de Biologia da Unicamp. Parte do trabalho resultou de estágio de Campos na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

    Beatriz Ortiz | Agência FAPESP