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  • Falta de presas ameaça extinção da onça-pintada na Mata Atlântica

    Falta de presas ameaça extinção da onça-pintada na Mata Atlântica

    A onça-pintada (Panthera onca) enfrenta, na Mata Atlântica, uma ameaça que vai além da destruição de habitat e da caça direta ao animal: a escassez de alimento. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou que a disponibilidade de presas do maior felino das Américas caiu a níveis críticos mesmo dentro de áreas protegidas do bioma, que cobre cerca de 15% do território nacional e se estende por 17 estados nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, além de partes da Argentina e do Paraguai.

    Os pesquisadores apontam que espécies fundamentais para a dieta da onça, como o porco-do-mato (Tayassu pecari), o cateto (Dicotyles tajacu) e os cervídeos, sofrem pressão intensa de caça humana. A situação já chegou a um nível que provavelmente não sustenta populações viáveis do felino no bioma, que hoje abriga menos de 300 exemplares. Se o quadro piorar, a Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma do mundo a perder um predador de topo da cadeia alimentar.

    Os resultados foram publicados na revista Global Ecology and Conservation com apoio da FAPESP. E contaram com a participação de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Cananeia (IPeC), do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e do Projeto Onças do Iguaçu – Instituto Pró-Carnívoros.

    Armadilhas fotográficas revelam cenário alarmante

    A equipe combinou dados sobre a dieta e os hábitos alimentares da onça-pintada com um levantamento de campo realizado em nove áreas protegidas da Mata Atlântica, usando armadilhas fotográficas. A partir dessas informações, os pesquisadores estimaram a abundância e a biomassa de 14 espécies de presas em regiões com diferentes densidades populacionais do felino.

    Os resultados expõem uma disparidade brutal. No Corredor Verde, a biomassa de presas chega a 638 kg, enquanto nas áreas costeiras, como a Serra do Mar, o índice despenca para míseros 8,2 kg. Não por acaso, é justamente nessas regiões costeiras que a onça-pintada está ausente ou ocorre em densidades extremamente baixas.

    “Constatamos uma situação alarmante de baixa abundância de espécies-chave de presas da onça-pintada. Mesmo em áreas protegidas, onde se esperava que a situação fosse melhor em termos de conservação”, afirma Katia Ferraz, professora da Esalq-USP e coordenadora do estudo. “Muito provavelmente, o declínio dessas presas é uma das principais causas para a situação crítica em que a onça-pintada se encontra nesse bioma.”

    Acesso humano às áreas protegidas explica a escassez

    O estudo identificou um padrão claro: as presas são mais abundantes onde o acesso humano é mais difícil. Regiões de relevo acidentado e distantes de centros urbanos concentram mais animais. Já as áreas próximas a vilas e cidades, ou com relevo que facilita a entrada de pessoas, apresentam drasticamente menos presas. Sinal direto da pressão da caça ilegal, que persiste mesmo dentro das unidades de conservação.

    “A baixa disponibilidade de presas está relacionada ao maior acesso das pessoas às áreas protegidas. Isso sugere uma relação direta com a pressão de caça”, explica Ferraz. “Além da pressão sobre a própria onça, há uma pressão muito forte sobre as populações de presas, o que leva ao declínio do felino.”

    No Corredor Verde, a combinação de áreas mais isoladas, melhor conectividade entre parques e iniciativas contínuas de combate à caça ilegal, como o Projeto Onças do Iguaçu, ajuda a manter uma base de presas capaz de sustentar populações viáveis. Já na faixa costeira, a proximidade de metrópoles como São Paulo e Curitiba e o histórico de pressão humana explicam a escassez persistente, apesar dos esforços de conservação em curso.

    Parque Nacional do Iguaçu: um oásis em meio à crise

    Entre as áreas analisadas, o Parque Nacional do Iguaçu se destacou como um dos últimos refúgios da Mata Atlântica onde predador e presas coexistem em níveis relativamente saudáveis. A menor altitude do parque favorece maior abundância de fauna , padrão observado em outras áreas do bioma. E a atuação do Projeto Onças do Iguaçu faz diferença concreta no campo.

    O projeto atua em três frentes. A primeira é a pesquisa aplicada sobre ecologia alimentar e corredores de vegetação. Depois, engajamento comunitário para transformar o medo em conhecimento. E por fim coexistência, com orientações a produtores rurais sobre manejo do gado para reduzir conflitos com o felino.

    Os resultados são visíveis. “Em 2009, tínhamos entre 9 e 11 animais no parque. Nos últimos 15 anos, a população quase dobrou”, conta Yara Barros, coordenadora-executiva do projeto. O avanço da agricultura e a redução da pecuária no entorno também contribuíram, já que diminuíram as mortes por retaliação de fazendeiros. “A caça representa uma grande ameaça porque, muitas vezes, quem entra na floresta para caçar as presas da onça acaba matando o animal incidentalmente”, explica Barros.

    A iniciativa já inspira vizinhos. “Estamos criando uma rede trinacional com parceiros do Paraguai e da Argentina para compartilhar e replicar nossa experiência”, afirma a coordenadora.

    Para os autores do estudo, os dados apontam um caminho claro. Enquanto algumas regiões ainda funcionam como refúgios ecológicos, outras exigem ações urgentes de controle da caça, recuperação da fauna e gestão do uso humano. Sem isso, o maior predador das Américas corre o risco real de desaparecer definitivamente da Mata Atlântica.

    Elton Alisson | Agência FAPESP

  • Tamanduá-bandeira enfrenta onça-pintada no Pantanal; veja o vídeo

    Tamanduá-bandeira enfrenta onça-pintada no Pantanal; veja o vídeo

    Um estudante de engenharia elétrica registrou, na madrugada da última sexta-feira (27/2), um confronto raro entre um tamanduá-bandeira e uma onça-pintada no Pantanal mato-grossense. Olavo Arruda capturou as imagens nas proximidades da rodovia Transpantaneira, em Poconé (MT). E o vídeo rapidamente surpreendeu internautas, principalmente pelo desfecho: o tamanduá saiu vencedor.

    https://www.instagram.com/p/DVUxwcmEuQc/

    Nas imagens, os dois animais se encaram antes de iniciarem o embate. O tamanduá avança e consegue afastar o felino, que recua e segue em direção à mata.

    O fotógrafo e gestor ambiental Ailton Lara divulgou o registro em seu perfil no Instagram e classificou o encontro como “raro”. Segundo ele, o resultado desse tipo de confronto depende menos de força bruta e mais de técnica.

    “A onça-pintada está no topo da cadeia alimentar, mas confrontos com tamanduás são raros. De um lado, a onça possui mordida extremamente forte; do outro, o tamanduá conta com garras enormes e afiadas. O vencedor depende muito mais de técnica e estratégia do que apenas força”, afirmou Ailton.

    O tamanduá-bandeira: o gigante sem dentes que não tem medo de nada

    O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é o maior das quatro espécies de tamanduás existentes. O animal mede entre 1,8 e 2,1 metros de comprimento e pode pesar até 41 kg. Apesar do porte imponente, um detalhe surpreende: o animal não possui dentes. Sua língua, porém, pode chegar a 1 metro de comprimento, com saliva viscosa e pegajosa. Isso é essencial para capturar os insetos de que se alimenta.

    O tamanduá consome cerca de 35 mil insetos por dia, principalmente formigas e cupins. Para capturá-los, consegue esticar e retrair a língua até 150 vezes por minuto. Ao se locomover, dobra as garras para dentro e pisa sobre o dorso das patas, evitando desgastá-las, pois são sua principal arma de defesa.

    E armas não faltam: quando se sentem ameaçados, os tamanduás sentam sobre as patas traseiras e atacam com suas imensas garras. A expressão “abraço de tamanduá” vem justamente dessa técnica de ataque, em que o animal encrava as garras nas costas do adversário.

    Os filhotes ficam nas costas da mãe durante os primeiros meses de vida, parecendo uma mochila. E o padrão de pelagem os camufla com o corpo da progenitora. A espécie é solitária, vista em duplas apenas no acasalamento e durante a amamentação.

    Apesar da aparência lenta e pacata, o tamanduá-bandeira consegue nadar e, com suas imensas garras, também sobe em árvores. Seu olfato é altamente desenvolvido, o que compensa a visão precária.

    Em termos de conservação, o cenário é preocupante. A população de tamanduás diminuiu cerca de 30% nos últimos 26 anos, com a perda de quase 50% do Cerrado, bioma que abriga a maior parte da espécie. Desmatamento, caça, atropelamentos em estradas e incêndios florestais figuram entre as principais ameaças.

    A onça-pintada: o maior felino das Américas e símbolo de poder

    Do outro lado do confronto estava um dos animais mais icônicos do Brasil. A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, ficando atrás apenas do tigre e do leão.

    Considerada predadora do topo da cadeia, a onça se alimenta de pequenos tatus e cutias a jacarés e antas, controlando populações de presas e sendo fundamental para o equilíbrio dos ecossistemas. Sua mordida é a mais forte entre todos os felinos do planeta, força suficiente para perfurar o crânio de presas como os jacarés.

    Os animais têm hábitos predominantemente crepusculares e noturnos, com pico de atividade ao fim da tarde e início da noite. Isso explica o horário do confronto registrado na Transpantaneira.

    Cada onça-pintada tem um padrão único de manchas, funcionando como uma verdadeira “impressão digital”. São animais solitários e territorialistas, demarcando sua área com urina, excrementos e marcas de garras nas árvores.

    Cerca de 50% da população mundial de onças-pintadas vive no Brasil. O Pantanal concentra cerca de 20 mil indivíduos, a maior densidade da espécie no mundo. Mesmo assim, a espécie enfrenta sérias ameaças: a perda de habitat, a caça e a demanda crescente por partes do animal para uso na medicina tradicional chinesa colocam as onças em risco.

    Dois ícones ameaçados

    O confronto registrado em Poconé vai além do espetáculo visual. Reúne dois dos animais mais emblemáticos da fauna brasileira em um momento que especialistas classificam como excepcional. Ambas as espécies enfrentam pressão crescente pela destruição de habitats e, paradoxalmente, dividem o mesmo território cada vez mais reduzido.

    O vídeo serve como lembrete de que o Pantanal ainda guarda cenas que surpreendem até os mais experientes pesquisadores. E de que preservar esse bioma é essencial para que encontros como esse continuem acontecendo.