Um estudante de engenharia elétrica registrou, na madrugada da última sexta-feira (27/2), um confronto raro entre um tamanduá-bandeira e uma onça-pintada no Pantanal mato-grossense. Olavo Arruda capturou as imagens nas proximidades da rodovia Transpantaneira, em Poconé (MT). E o vídeo rapidamente surpreendeu internautas, principalmente pelo desfecho: o tamanduá saiu vencedor.
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Nas imagens, os dois animais se encaram antes de iniciarem o embate. O tamanduá avança e consegue afastar o felino, que recua e segue em direção à mata.
O fotógrafo e gestor ambiental Ailton Lara divulgou o registro em seu perfil no Instagram e classificou o encontro como “raro”. Segundo ele, o resultado desse tipo de confronto depende menos de força bruta e mais de técnica.
“A onça-pintada está no topo da cadeia alimentar, mas confrontos com tamanduás são raros. De um lado, a onça possui mordida extremamente forte; do outro, o tamanduá conta com garras enormes e afiadas. O vencedor depende muito mais de técnica e estratégia do que apenas força”, afirmou Ailton.
O tamanduá-bandeira: o gigante sem dentes que não tem medo de nada
O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é o maior das quatro espécies de tamanduás existentes. O animal mede entre 1,8 e 2,1 metros de comprimento e pode pesar até 41 kg. Apesar do porte imponente, um detalhe surpreende: o animal não possui dentes. Sua língua, porém, pode chegar a 1 metro de comprimento, com saliva viscosa e pegajosa. Isso é essencial para capturar os insetos de que se alimenta.
O tamanduá consome cerca de 35 mil insetos por dia, principalmente formigas e cupins. Para capturá-los, consegue esticar e retrair a língua até 150 vezes por minuto. Ao se locomover, dobra as garras para dentro e pisa sobre o dorso das patas, evitando desgastá-las, pois são sua principal arma de defesa.
E armas não faltam: quando se sentem ameaçados, os tamanduás sentam sobre as patas traseiras e atacam com suas imensas garras. A expressão “abraço de tamanduá” vem justamente dessa técnica de ataque, em que o animal encrava as garras nas costas do adversário.
Os filhotes ficam nas costas da mãe durante os primeiros meses de vida, parecendo uma mochila. E o padrão de pelagem os camufla com o corpo da progenitora. A espécie é solitária, vista em duplas apenas no acasalamento e durante a amamentação.
Apesar da aparência lenta e pacata, o tamanduá-bandeira consegue nadar e, com suas imensas garras, também sobe em árvores. Seu olfato é altamente desenvolvido, o que compensa a visão precária.
Em termos de conservação, o cenário é preocupante. A população de tamanduás diminuiu cerca de 30% nos últimos 26 anos, com a perda de quase 50% do Cerrado, bioma que abriga a maior parte da espécie. Desmatamento, caça, atropelamentos em estradas e incêndios florestais figuram entre as principais ameaças.
A onça-pintada: o maior felino das Américas e símbolo de poder
Do outro lado do confronto estava um dos animais mais icônicos do Brasil. A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, ficando atrás apenas do tigre e do leão.
Considerada predadora do topo da cadeia, a onça se alimenta de pequenos tatus e cutias a jacarés e antas, controlando populações de presas e sendo fundamental para o equilíbrio dos ecossistemas. Sua mordida é a mais forte entre todos os felinos do planeta, força suficiente para perfurar o crânio de presas como os jacarés.
Os animais têm hábitos predominantemente crepusculares e noturnos, com pico de atividade ao fim da tarde e início da noite. Isso explica o horário do confronto registrado na Transpantaneira.
Cada onça-pintada tem um padrão único de manchas, funcionando como uma verdadeira “impressão digital”. São animais solitários e territorialistas, demarcando sua área com urina, excrementos e marcas de garras nas árvores.
Cerca de 50% da população mundial de onças-pintadas vive no Brasil. O Pantanal concentra cerca de 20 mil indivíduos, a maior densidade da espécie no mundo. Mesmo assim, a espécie enfrenta sérias ameaças: a perda de habitat, a caça e a demanda crescente por partes do animal para uso na medicina tradicional chinesa colocam as onças em risco.
Dois ícones ameaçados
O confronto registrado em Poconé vai além do espetáculo visual. Reúne dois dos animais mais emblemáticos da fauna brasileira em um momento que especialistas classificam como excepcional. Ambas as espécies enfrentam pressão crescente pela destruição de habitats e, paradoxalmente, dividem o mesmo território cada vez mais reduzido.
O vídeo serve como lembrete de que o Pantanal ainda guarda cenas que surpreendem até os mais experientes pesquisadores. E de que preservar esse bioma é essencial para que encontros como esse continuem acontecendo.