Tag: mutação genética

  • ‘Galo do amor’: ave viraliza com plumagem de corações

    ‘Galo do amor’: ave viraliza com plumagem de corações

    Um galo criado em uma propriedade de turismo rural ecológico em Xaxim (SC) tem despertado a atenção de internautas e de entusiastas da avicultura ornamental. À primeira vista, a ave parece comum. No entanto, um detalhe na plumagem transformou o animal em um verdadeiro fenômeno.

    Com apenas um ano de idade, o galo apresenta diversos desenhos em formato de coração preto espalhados sobre as penas brancas. A característica incomum fez com que um vídeo publicado por sua proprietária, a empresária Marciane Belini Puton, alcançasse mais de 700 mil visualizações em poucos dias.


    Criadora exibe plumagem repleta de corações — Foto: Reprodução/Instagram

    Espécie da Inglaterra

    A ave pertence à raça Sebright, originária da Inglaterra e bastante valorizada entre criadores de aves ornamentais por seu porte elegante e comportamento dócil. Além disso, a proximidade com o Dia dos Namorados, comemorado em 12 de junho, contribuiu para ampliar ainda mais a repercussão da história.

    “Ele é o galinho mais romântico que existe. Esses corações são a coisa mais fofa. Corações e mais corações, né? Ele é muito amado. Uma perfeição da natureza. Eu notei alguns corações e me perguntei se eram reais, porque o marido e os filhos vivem dizendo que vejo corações em tudo. As pessoas ficam encantadas e brincam que seria um bom presente para a data que está chegando”, relata Marciane.

    Diante da grande repercussão, a empresária decidiu envolver os seguidores em uma nova etapa da criação, lançando uma enquete para escolher o nome do animal. Entre as opções apresentadas estão Don Juan, Love, Roberto Carlos e Romeu.

    “Ele é um presente para nós. Os corações nele falam por si só. Não tem como vermos os corações e não sermos tomados por bons sentimentos”, afirma.

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    Interesse pela genética da ave

    Além da beleza diferenciada, a plumagem despertou curiosidade sobre a origem genética do animal. Isso porque a raça Sebright não costuma apresentar naturalmente desenhos em formato de coração nas penas.

    Por esse motivo, Marciane acredita que a característica possa estar relacionada a alguma mutação genética ou a cruzamentos realizados ao longo das gerações.

    A raça Sebright se destaca na avicultura, com penas que parecem obra de arte — Foto: Canva/Creative Commons

    O biólogo e criador de aves ornamentais Adriel Paloschi, proprietário do Criatório Paloschi, em Brusque (SC), considera mais provável que a ave seja resultado do cruzamento entre uma galinha caipira e um exemplar da raça Sebright.

    “Essa mistura modificou a coloração das suas penas, tornando a ave muito bonita, especial e com uma plumagem única”, explica.

    Filhotes já apresentam a mesma característica

    A raridade da plumagem também despertou interesse comercial. Segundo a família, surgiram propostas de compra tanto pelo galo quanto por seus descendentes.

    Além disso, alguns filhotes já começaram a demonstrar características semelhantes durante o processo de troca de penas, aumentando a expectativa sobre a possível transmissão genética do traço.

    “Temos oito pintinhos, e três deles são muito parecidos. Dois são praticamente semelhantes ao pai, com muitos corações desenhados nas penas, enquanto o terceiro possui um pouco menos. Agora, estamos na expectativa para ver como serão os próximos e se essa mutação vai continuar”, finaliza Marciane.

  • Duas caras: Lagosta rara de duas cores é capturada por pescadores

    Duas caras: Lagosta rara de duas cores é capturada por pescadores

    No dia 16 de abril, a tripulação do barco pesqueiro Timothy Michael lançou as redes na costa de Cape Cod, em Massachusetts, como faz qualquer outro dia de trabalho. O que saiu d’água, porém, parou todo o convés. Os pescadores capturaram uma lagosta com coloração bilateral dividida, um fenômeno tão raro que ocorre em apenas 1 a cada 50 milhões desses crustáceos.

    O animal chama atenção à primeira vista. Uma linha exata separa duas colorações completamente distintas na carapaça, e os usuários das redes sociais já apelidaram o crustáceo de “algodão-doce”, por conta dos tons pastel que lembram o doce de feira. No caso desta lagosta específica, uma metade apresenta tons alaranjados e a outra, uma coloração mais escura.

    O animal pesa mais de 1,3 quilo e foi doado ao Woods Hole Science Aquarium, gerenciado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA).

    Animal parece dividido ao meio por uma linha que separa as duas colorações. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

    O que há de errado no DNA dela

    A resposta para o visual surpreendente está nos genes, mas a história começa antes mesmo do nascimento do animal. Julia Studley, bióloga do aquário, explica que a divisão ocorre quando dois ovos fertilizados, ainda não liberados pela fêmea, se fundem e um acaba absorvendo o outro. O resultado é uma lagosta que carrega dois conjuntos de informações genéticas e, portanto, duas instruções de pigmentação diferentes, uma para cada lado da carapaça.

    Esse fenômeno tem nome: quimerismo. Em vez de originar organismos gêmeos, ele gera um único indivíduo com células geneticamente diferentes. Na prática, cada metade do corpo obedece a um “manual” distinto para produzir cor.

    O mecanismo envolve a astaxantina, o pigmento responsável pela coloração do crustáceo. Dependendo de como as camadas desse pigmento se combinam, o animal pode exibir tons que vão do vermelho ao azul, passando por amarelo, roxo e marrom. Neste caso, cada lado escolheu um caminho diferente.

    Quando a genética vai além da cor

    A divisão não para na aparência. Em alguns casos, essa anomalia genética pode resultar em ginandromorfismo, quando o organismo é metade macho e metade fêmea. O fenômeno já foi documentado em aves, abelhas, borboletas, aranhas e outros invertebrados, mas em lagostas ele carrega uma camada extra de raridade.

    Richard Wahle, diretor do Instituto da Lagosta da Universidade do Maine, afirma que o fato de uma lagosta ser bicolor sugere que ela pode ser hermafrodita, com características anatômicas tanto de macho quanto de fêmea. A equipe do Woods Hole ainda vai investigar se esse é o caso do novo espécime.

    Sobreviver já é um feito

    Há outro dado que impressiona os especialistas além da raridade genética. Lagostas com coloração incomum geralmente não têm camuflagem suficiente para sobreviver por muito tempo. O fato de esta ter chegado a mais de um quilo e meio representa uma conquista por si só. Sem a proteção visual que a coloração padrão oferece, o animal fica exposto a predadores desde cedo. Chegar ao tamanho adulto já é, por si só, uma história de sorte.

    O aquário como destino certo

    A empresa que operava o barco decidiu não levar a lagosta ao mercado. O diretor de operações Dan Brandt disse que, quando algo raro chega nos canais da empresa, eles consideram parte de sua responsabilidade compartilhar com a comunidade em geral. “O Aquário de Ciências de Woods Hole era o lugar perfeito para esta lagosta sortuda.”

    A lagosta ainda não tem nome. A equipe pretende conhecer melhor a personalidade do animal antes de batizá-lo, considerando que lagostas podem viver até 100 anos. Há tempo de sobra para isso. O Woods Hole Science Aquarium passa por uma grande reforma e, quando reabrir no início de 2027, o animal será exibido ao público.

    Studley resume bem o que o crustáceo representa além do visual incomum: “Este animal não é apenas fascinante de observar, mas também serve como um grande lembrete de como os mecanismos genéticos são intrincados e de quanto devemos agradecer pela diversidade que vemos no mundo ao nosso redor.”

  • Conheça o Fantasma de Ubajara: caso preocupa ciência

    Conheça o Fantasma de Ubajara: caso preocupa ciência

    Cientistas brasileiros registraram pela primeira vez um caso de leucismo em Sapajus libidinosus, espécie de macaco-prego que normalmente exibe pelagem variando entre marrom-escuro e amarelo-dourado claro. A descoberta, que ocorreu no Parque Nacional de Ubajara, no Ceará, acende um alerta sobre a saúde genética da população local.

    Os pesquisadores apelidaram o filhote de aproximadamente três meses de “Fantasma” devido às manchas brancas espalhadas pelo corpo. Diferentemente do albinismo, o leucismo causa perda parcial de melanina na pelagem enquanto mantém a coloração escura nos olhos.

    Descoberta durante trabalho de campo

    O primatólogo Tiago Falótico, pesquisador associado ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha, e presidente da Neotropical Primates Research Group (NeoPReGo), relata como encontrou o animal. “Eu estava instalando os gravadores de som na área, daí observei primeiro esse macaco branco ali, diferente, que nem era do nosso grupo de estudo. Fui atrás e vi esse filhote branquinho”, conta ao Jornal da USP.

    A equipe observou o Fantasma duas vezes em um intervalo de 30 dias. O filhote demonstrava comportamento típico de um infante saudável: a mãe o carregava e, ocasionalmente, sua curiosidade o levava a explorar o ambiente sozinho. O grupo o aceitava completamente, sem sinais de rejeição.

    Tiago Falótico. Foto: Lucas Ninno

    Outro caso levanta suspeitas

    Ao revisar bancos de dados antigos após descobrir o Fantasma, os pesquisadores encontraram registros de Jenipapo, um macho adulto que também apresenta mancha branca na cabeça, embora mais sutil. Os dois animais pertencem a grupos diferentes.

    Jenipapo é um macho adulto com uma mancha de pelo mais claro no topo da cabeça. Foto: Tiago Falótico / Extraída do artigo

    “O Jenipapo é de outro grupo, e provavelmente é o macho alfa de lá”, explica Tatiane Valença, coautora do artigo publicado durante seu doutorado no Instituto de Psicologia (IP) da USP. A pesquisadora atualmente coordena o trabalho de campo na base da NeoPReGo no parque cearense.

    Falótico revela ao Jornal da USP que o Jenipapo apresenta outra característica não mencionada no artigo: “Além da cabeça, o Jenipapo tem uma descoloração nos testículos”. A equipe não observou nenhum outro macaco-prego com esses padrões nessa população desde o início da pesquisa, há seis anos.

    Hipóteses: ambiente ou genética?

    O Parque Nacional de Ubajara, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), possui 6.300 hectares que englobam florestas, montanhas, cavernas e cachoeiras. A fragmentação territorial e a intensa ocupação humana nas extremidades inicialmente levantaram suspeitas sobre influências ambientais.

    Filhote leucístico de macaco-prego-barbudo (Sapajus libidinosus) do Parque Nacional de Ubajara e sua mãe. Ele tem membros e cauda com coloração esbranquiçada, diferente do padrão de coloração da pelagem da mãe. Fotos: NeoPReGo / extraídas do artigo

    “Uma das hipóteses dessa diferença de coloração seria o fator ambiental. O primeiro é o genético, alguma mutação aleatória que deu essa característica. A outra seria a questão da alimentação, alguma deficiência alimentar ou algum poluente”, explica Falótico.

    No entanto, os cientistas descartam a tese ambiental. “Se fosse alguma coisa mais ambiental, de poluição e de alimentação, a gente espera que veria muito mais [casos de leucismo] espalhados nos grupos”, argumenta o pesquisador.

    A hipótese genética ganha força. O leucismo pode resultar do cruzamento em uma população pequena onde a diversidade genética diminui significativamente, permitindo que genes recessivos raros se manifestem.

    Risco para tradição cultural dos macacos

    A presença de dois macacos-prego com padrões anormais de coloração funciona como sinal de alerta. Os pesquisadores enfatizam a necessidade de monitoramento de longo prazo não apenas para preservar a espécie, mas também tradições culturais únicas.

    Tatiane Valença. Foto: CV Lattes

    “Essa população é bem interessante porque, durante o meu doutorado, eu descobri que eles usam não só as pedras para quebrar coco, como boa parte dos macacos-prego, mas eles também usam pedras para cavar e usam varetas para tirar aranhas de alçapão de tocas. Um comportamento que a gente só tinha visto na Serra da Capivara”, destaca Tatiane Valença.

    Pressões ambientais e conservação

    O parque enfrenta pressões das mudanças climáticas e do desenvolvimento urbano. Animais domésticos também entram e interagem com os macacos selvagens, criando riscos adicionais.

    “Esse sinal de mutação, um bicho com cor diferente, pode ser um indicativo de endogamia de uma população que está restrita, ali, num fragmento, e não está tendo fluxo gênico”, aponta Tiago Falótico.

    Somente o acompanhamento sistemático desses animais confirmará se a característica aumenta na população. Tatiane Valença conclui: “Conservar essas populações é importante para a gente conservar a diversidade de tradições dos macacos-prego. Esses comportamentos são importantes para a sobrevivência desses animais, mas também nos ajudam, enquanto seres humanos, a entender mais sobre nós mesmos”.

    Sobre o Leucismo

    O leucismo é uma doença congênita que causa perda parcial ou total de melanina na pelagem ou nas penas dos animais. Diferentemente do albinismo, a cor dos olhos permanece escura. A condição é extremamente rara em primatas. Casos anteriores de albinismo ocorreram em um macaco-prego-preto e em um macaco-prego-das-guianas, ambos em cativeiro.

    Jornal da USP/Tabita Said