A inclusão do nome do cantor Amado Batista na chamada “lista suja” do trabalho escravo reacendeu o debate sobre condições de trabalho no campo. O cadastro, atualizado pelo Governo Federal nesta semana, reúne empregadores flagrados explorando trabalhadores em condições análogas à escravidão.
De acordo com informações do Ministério do Trabalho e Emprego, fiscalizações realizadas em novembro de 2024 identificaram irregularidades em duas propriedades do artista, localizadas em Goianápolis, na Região Metropolitana de Goiânia.
Condições precárias e jornadas extensas
Durante as inspeções, equipes relataram condições consideradas degradantes. Trabalhadores dormiam em colchões no chão, sem acesso a camas ou roupas de cama. Além disso, o local não oferecia estrutura adequada para refeições, já que faltavam mesas e cadeiras. Segundo os auditores, também não havia armários individuais para guardar pertences, e as condições de higiene eram consideradas precárias.

“O local não dispunha de camas, sendo que os trabalhadores dormiam sobre colchões no chão; não eram fornecidas roupas de camas e nem disponibilizados armários individuais para guarda de objetos pessoais; as condições de higiene do local eram precárias, sendo que sequer havia local para se tomar refeições, com mesas e cadeiras”, informou o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Além disso, as jornadas chamaram atenção. Em alguns casos, a carga de trabalho chegava a até 18 horas diárias. Outros trabalhadores relataram rotinas entre 12 e 16 horas por dia, ao longo de toda a semana.


Cozinha improvista de galpão onde estavam alojados trabalhadores e outro cômodo da propriedade com colchões Foto: Reprodução/MTE
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Número de trabalhadores envolvidos
Ainda conforme o governo, 14 trabalhadores teriam sido submetidos a condições irregulares. Desse total, 10 estavam no Sítio Esperança e quatro no Sítio Recanto da Mata, propriedades vizinhas situadas na BR-060.
No Sítio Recanto da Mata, fiscais apontaram condições degradantes e jornada exaustiva. Já no Sítio Esperança, os indícios se concentraram principalmente na carga excessiva de trabalho.
Além disso, parte das atividades ocorria sem registro formal. Alguns trabalhadores afirmaram que ainda não haviam recebido salários referentes ao mês anterior.
Área arrendada e terceirização
Outro ponto relevante envolve uma área arrendada para cultivo de milho. Nesse local, um prestador de serviços terceirizado foi responsável pela contratação de operadores de máquinas.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, esses trabalhadores pernoitavam em um galpão sem estrutura adequada. Quando a fiscalização chegou, parte das atividades já havia sido interrompida.
Esse cenário reforça um problema recorrente no setor: a responsabilidade sobre condições de trabalho em contratos terceirizados.
Defesa contesta e cita acordo
A defesa de Amado Batista contesta a versão apresentada pelos órgãos públicos. Em nota, os representantes afirmam que não houve resgate de trabalhadores nas propriedades e classificam essa informação como inverídica: “Primeiramente, a informação veículada de que houve o resgate de 14 trabalhadores na propriedade do senhor Amado é completamente falsa e inverídica. Não houve nenhum trabalhador nas propriedades. Ocorreu uma fiscalização em uma fazenda arrendada para o plantio de milho, na qual foram identificadas irregularidades na contratação de 4 colaboradores que eram empregados em uma empresa terceirizada.”
Os advogados também informaram que foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público do Trabalho. Segundo a nota, todas as obrigações trabalhistas foram quitadas.
Por fim, a equipe jurídica afirma que já adotou medidas administrativas para encerrar os processos relacionados ao caso.
Impactos da “lista suja”
A inclusão no cadastro de empregadores associados ao trabalho análogo à escravidão costuma gerar consequências relevantes. Empresas listadas enfrentam restrições de crédito em bancos públicos e podem sofrer barreiras comerciais.
Além disso, o impacto reputacional tende a ser significativo, especialmente em setores ligados ao agronegócio, onde práticas trabalhistas têm ganhado cada vez mais atenção de consumidores e investidores.

