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  • Projeto converte resíduos orgânicos em biometano de alta pureza

    Projeto converte resíduos orgânicos em biometano de alta pureza

    O Núcleo de Tecnologia e Qualidade Industrial do Ceará (NUTEC) comanda uma iniciativa pioneira para transformar resíduos orgânicos em biometano de alta pureza. O projeto, que recebe um investimento de R$ 1.433.042,55, utiliza uma combinação inédita de materiais adsorventes, microalgas e inteligência artificial para produzir um combustível renovável de padrão comercial. A Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) financia a pesquisa, que conta com o suporte da Fundepag e deve durar 24 meses.

    Unidade Piloto de Produção
    Interior da Unidade Piloto de Produção de biogás, com destaque pra três reatores de fibra de vidro. Foto: DIvulgação

    A equipe busca validar um sistema capaz de gerar biometano com 90% de pureza, nível equivalente ao gás natural comercializado atualmente. De acordo com a coordenadora do projeto, Antônia Fádia Valentim de Amorim, o biogás bruto contém impurezas como dióxido de carbono (CO₂) e sulfeto de hidrogênio (H₂S), que corroem equipamentos e reduzem a eficiência energética. Para resolver isso, o NUTEC desenvolve tecnologias de baixo custo que removem esses contaminantes.

    O Sistema Integrado de Biogás com Tratamento Avançado (SIBTA) integra várias frentes tecnológicas. Pesquisadores sintetizam nanopartículas e utilizam zeólitas produzidas a partir de resíduos industriais para capturar gases indesejados com eficácia superior a 90%. Além disso, o processo utiliza fotobiorreatores com microalgas para fixar o CO₂ residual e um “gêmeo digital” com inteligência artificial para monitorar e otimizar a produção em tempo real.

    Parcerias e impacto regional

    A iniciativa une o conhecimento de especialistas da Universidade Federal do Ceará (UFC), UNILAB, ITA e UECE. O trabalho ocorre na unidade piloto do NUTEC, em Fortaleza, que já possui infraestrutura de biodigestores e laboratórios analíticos.

    Imagem gerada por IA

    Além de solucionar problemas ambientais, como a poluição de solos e águas por dejetos agroindustriais e urbanos, o projeto fortalece a economia local. A produção de adsorventes no Ceará reduz a necessidade de importações e oferece uma alternativa energética para produtores rurais, agroindústrias e gestores municipais.

    A coordenadora do projeto no NUTEC, Antônia Fádia Valentim de Amorim. Foto: DIvulgação

    Ao final do cronograma, o NUTEC espera registrar patentes, publicar artigos científicos e lançar um software para o sistema de monitoramento. O projeto também prevê a capacitação de 150 profissionais e a realização de um Hackathon de inovação, visando estimular o surgimento de novas startups no setor de bioenergia cearense. “É a ciência cearense trabalhando para o Ceará”, define Antônia Fádia.

    Equipe do projeto
    Restos de alimentos (substrato) são coletados para a produção de biogás. Foto: Divulgação
  • HORTITEC 2026 espera movimentar R$ 750 milhões em Holambra

    HORTITEC 2026 espera movimentar R$ 750 milhões em Holambra

    A 31ª edição da HORTITEC – Exposição Técnica de Horticultura, Cultivo Protegido e Culturas Intensivas – será realizada entre os dias 17 e 19 de junho, em Holambra (SP). Com isso, a feira reforça sua posição como principal encontro do setor hortifrutícola brasileiro e um dos mais importantes da América Latina. Todos os espaços já foram comercializados. Além disso, a organização estima receber cerca de 32 mil visitantes e movimentar aproximadamente R$ 750 milhões em negócios durante os três dias de evento.

    Neste ano, a feira reunirá 520 empresas expositoras nacionais e internacionais. O público encontrará lançamentos voltados à horticultura, floricultura e culturas intensivas. Entre as novidades estarão novas variedades de frutas, legumes, verduras e flores. Além disso, serão apresentadas soluções para irrigação de precisão, manejo de mudas, cultivo protegido e uso eficiente de água e energia. Também haverá ferramentas digitais aplicadas à produção agrícola.

    Destaques

    Entre os destaques da edição está a participação do Grupo Casa Bugre, presente na HORTITEC desde a sétima edição. Ao longo de mais de 24 anos de participação contínua, a empresa acompanhou a evolução tecnológica do setor. Neste ano, apresentará novidades voltadas à agricultura de alta performance. O foco estará em nanotecnologia, microalgas e nutrifisiologia aplicada.

    Segundo Flavio Maia, CEO do Grupo Casa Bugre, a feira representa um ambiente estratégico para aproximar inovação e produção agrícola.

    “A Hortitec é um dos principais pontos de conexão entre ciência, inovação e o produtor rural. Para o Grupo Casa Bugre, estar presente nesse ambiente é a materialização do nosso propósito: conectar o conhecimento científico às necessidades reais do campo. É nesse contato direto com o produtor que conseguimos levar nossas novas tecnologias, soluções e inovações, contribuindo para uma agricultura mais eficaz, rentável e sustentável. Mais do que apresentar produtos, a feira nos permite ouvir, entender e evoluir junto com quem está no dia a dia da produção”, afirma.

    Inovação em nutrição vegetal e microalgas

    Entre os lançamentos anunciados está o AgLithis, solução nutricional baseada em nanotecnologia. O produto foi desenvolvido para fornecer cálcio de alta eficiência às plantas. Dessa forma, atua diretamente nos processos fisiológicos das culturas. Além disso, favorece a absorção e o aproveitamento dos nutrientes. Como resultado, contribui para ganhos de produtividade, uniformidade e qualidade.

    Outro destaque será o Argemiro, novo porta-enxerto da Bayer Seminis para pimentões. O material foi desenvolvido para proporcionar maior vigor vegetativo e estabilidade produtiva. Assim, busca atender às demandas dos produtores por mais segurança no manejo. Além disso, oferece melhor desempenho agronômico.

    O Grupo Casa Bugre também levará à feira sua linha de BioPotencializadores com tecnologia de microalgas. Entre os produtos apresentados estarão o AfiMax, o OrusMax e o MiMax, desenvolvidos para potencializar a eficiência dos manejos fitossanitários e ampliar o desempenho dos inseticidas.

    Na área de bioestimulantes, a empresa exibirá os produtos Stimulife Impetus, Stimulife Robust e Stimulife Rizogen. Já o Active31 será apresentado como uma solução prebiótica para o solo. O produto foi formulado para estimular a microbiota da rizosfera. Além disso, favorece o desenvolvimento de microrganismos benéficos próximos às raízes.

    De acordo com Everton Campos, diretor de Marketing e Inovação do Grupo Casa Bugre, as microalgas oferecem benefícios em diferentes frentes da produção agrícola.

    “As microalgas atuam como bioestimulantes e biopotencializadores, induzindo respostas fisiológicas que fortalecem a planta, aumentam a tolerância a estresses e melhoram a eficiência do manejo”, afirma.

    Além disso, compostos bioativos presentes nas microalgas auxiliam na redução do estresse oxidativo das plantas e favorecem a translocação de nutrientes, contribuindo para frutos mais firmes, uniformes e com maior vida pós-colheita.

    Agricultura 6.0 e eficiência no uso de nutrientes

    A Agrilife, empresa do Grupo Casa Bugre, também apresentará tecnologias voltadas à nutrifisiologia aplicada. Além disso, destacará o conceito de Nutrient Use Efficiency (NUE). Esse indicador mede a eficiência com que os nutrientes fornecidos são convertidos em produtividade.

    Entre as soluções que estarão em exposição estão os produtos AgBasis, AgFortis, AgMaturis e AgGranum. As tecnologias foram desenvolvidas para atuar em diferentes fases do ciclo produtivo, promovendo desde o desenvolvimento radicular até a maturação uniforme de frutos e o enchimento de grãos.

    Para Renato Opitz, diretor da HORTITEC, a feira desempenha papel estratégico para o desenvolvimento da cadeia hortifrutícola.

    “A edição 2026 apresentará soluções tecnológicas para toda a cadeia, em especial para o produtor que quer manter a produtividade elevada e ampliar sua competitividade no mercado. Isto porque a HORTITEC é um ecossistema hortifrutícola com muitas oportunidades de atualização, de novos negócios e, também, de network, ao atrair e reunir quem tem real interesse no setor”, destaca.

    Além das inovações tecnológicas, a HORTITEC 2026 contará com a presença de instituições financeiras. Elas oferecerão linhas de crédito voltadas ao investimento e ao custeio rural. Dessa maneira, os produtores poderão ampliar o acesso a recursos para modernização das propriedades. Também será possível acelerar a adoção de novas tecnologias.

    A feira também reunirá empresas ligadas à agricultura de precisão, inteligência artificial, bioinsumos, rastreabilidade, irrigação e automação. Além disso, estarão presentes companhias dos segmentos de genética, biotecnologia, defensivos, embalagens e maquinários. Assim, a HORTITEC reforça seu papel como um dos principais hubs de conhecimento e negócios do agronegócio brasileiro.

    Serviço

    HORTITEC 2026
    Data: 17 a 19 de junho de 2026
    Horário: 17 e 18 de junho, das 9h às 19h; 19 de junho, das 9h às 17h
    Local: Parque de Exposições da Expoflora – Holambra (SP)
    Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (estudantes e pessoas com mais de 60 anos)
    Informações: hortitec.com.br

  • Microalgas criadas com resíduo de cervejaria viram biofertilizante

    Microalgas criadas com resíduo de cervejaria viram biofertilizante

    Uma startup paulista e pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram um bioinsumo agrícola a partir de microalgas cultivadas em efluentes tratados de cervejarias e de criações de tilápia e camarão. O produto já passa por testes em lavouras de milho, banana, hortaliças e café nos estados de São Paulo e Minas Gerais. E promete chegar ao mercado mais barato que os fertilizantes químicos convencionais.

    A iniciativa é uma parceria entre a BiotecBlue, startup sediada em São Paulo, e o campus de São José dos Campos da Unifesp, com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP. O modelo funciona de forma circular: resíduos industriais que normalmente iriam para o esgoto alimentam as microalgas, e a biomassa resultante vira bioestimulante para o campo.

    Do esgoto ao biorreator

    Pequenos produtores de cerveja artesanal costumam descartar os resíduos da fabricação diretamente na rede de esgoto. O mesmo acontece com as sobras de pisciculturas de tilápia e camarão. Sem tratamento, esse material carrega nitrogênio, fósforo e carboidratos, nutrientes que, ao atingir rios e lagos, disparam a eutrofização: crescimento desordenado de algas, alteração da coloração da água e morte de peixes por falta de oxigênio.

    Cultivados de forma controlada, esses mesmos resíduos se tornam o meio ideal para o crescimento de microalgas de alto valor nutricional. “A água que sobra após o cultivo tem poucos nutrientes, ou seja, já pode retornar para o rio ou para um processo produtivo”, explica a engenheira química Danielle Maass, pesquisadora da Unifesp responsável pelo projeto.

    A equipe começou com efluentes da produção intensiva de camarão e tilápia. As microalgas não apenas cresceram de forma saudável como apresentaram concentrações nutricionais superiores às obtidas em meios sintéticos de laboratório. O fechamento da piscicultura fornecedora, porém, expôs a vulnerabilidade de depender de uma única fonte. E abriu caminho para uma solução mais escalável.

    A virada da cerveja artesanal

    Com o setor cervejeiro em expansão, a equipe testou resíduos de cervejarias e encontrou características nutricionais semelhantes às da aquicultura, incluindo carbono, nitrogênio e fósforo. A logística também ficou mais simples. “Hoje há muitas cervejarias artesanais de pequeno e médio porte. É muito mais fácil obter esse resíduo do que o da piscicultura”, compara Maass.

    Um diferencial do projeto é justamente o uso de resíduos reais, não de compostos simulados em laboratório. “O resíduo real tem uma enorme variedade de compostos que podem tanto ajudar quanto atrapalhar o processo”, diz a pesquisadora. Trabalhar com essa complexidade, segundo ela, é o que garante resultados aplicáveis na prática industrial.

    Proteína, betacaroteno e crédito de carbono

    As microalgas produzidas no processo são ricas em proteínas e betacaroteno, antioxidante natural com múltiplas aplicações. Além de virar bioinsumo agrícola, a biomassa pode retornar à cadeia produtiva como suplemento alimentar para peixes e camarões. No caso dos crustáceos, o betacaroteno intensifica a coloração avermelhada. Característica valorizada pelo mercado.

    O projeto ainda abre outra frente econômica: durante o crescimento, as microalgas realizam fotossíntese e capturam dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, o que cria potencial de geração de créditos de carbono.

    Testes no campo e escalonamento

    Desde 2024, o projeto está na fase de escalonamento. A equipe dimensiona equipamentos para uma escala piloto de 100 litros. Nos testes em lavouras de São Paulo e Minas Gerais, Maass relata melhora no desenvolvimento foliar e na saúde do solo.

    “Com uma dose pequena temos um efeito grande e, pelo levantamento de custos brutos que fizemos, o produto é de fato mais barato”, afirma a pesquisadora.

    Por que isso importa para o agronegócio brasileiro

    O Brasil gasta cerca de US$ 25 bilhões por ano para importar mais de 85% dos fertilizantes que consome, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). China e Rússia dominam o fornecimento. O Plano Nacional de Fertilizantes prevê reduzir essa dependência em 50% até 2050. Segundo a Embrapa, fertilizantes chegam a representar 50% dos custos de produção do milho e 40% dos da soja.

    Maass, que tem experiência em processos biotecnológicos e na recuperação de metais críticos de resíduos eletrônicos e de mineração, defende uma mudança de paradigma. “Processos biotecnológicos são um pouco mais demorados para desenvolver, mas, uma vez prontos, são muito mais sustentáveis que os físicos ou químicos”, diz.

    O mercado global de biotecnologia azul,  que inclui o aproveitamento de organismos aquáticos, deve crescer de US$ 14,5 bilhões em 2024 para US$ 29,5 bilhões até 2032, segundo a consultoria Markets and Markets. A equipe da BiotecBlue planeja ampliar o atendimento de pequenos para grandes produtores rurais à medida que a tecnologia avança para escala comercial.

    Roseli Andrion | Agência FAPESP