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  • Centro de conservação registra nascimento de mico-leão-preto ameaçado

    Centro de conservação registra nascimento de mico-leão-preto ameaçado

    O primeiro filhote de mico-leão-preto de 2026 nasceu no Centro de Conservação da Fauna Silvestre (CECFau), em Araçoiaba da Serra (SP), consolidando mais um avanço no trabalho de preservação da espécie, considerada uma das mais ameaçadas da Mata Atlântica. O nascimento, divulgado após quatro semanas de vida, marca um momento delicado e decisivo para o fortalecimento da população mantida sob cuidados técnicos no local.

    O filhote é filho de Keila e Tupac, ambos oriundos da antiga Fundação Zoológico de São Paulo. Com ele, o CECFau soma 34 nascimentos de micos-leões-pretos desde o início do programa, que atualmente abriga 15 indivíduos. Ao longo dos anos, 16 exemplares foram encaminhados a outras instituições, ampliando o alcance das ações de conservação da espécie.

    O mico-leão-preto é endêmico de São Paulo e símbolo da biodiversidade do Estado. Especialistas estimam que apenas 1.600 indivíduos vivam na natureza e cerca de 80 estejam sob cuidados humanos, número que reforça a urgência de iniciativas de reintrodução e manejo populacional.

    Primeiros dias

    Nos primeiros dias, o recém-nascido permaneceu junto à mãe e, após esse período, passou a ser carregado principalmente pelo pai, comportamento típico da espécie, essencial para seu desenvolvimento. “O nascimento desse filhote é extremamente significativo. Cada indivíduo conta para a conservação, e ver o desenvolvimento saudável, com o comportamento natural dos pais, é um excelente sinal”, afirma Mayara Caiaffa, médica-veterinária do CECFau.

    A diretora de Biodiversidade e Biotecnologia da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), Patrícia Locosque Ramos, destaca o impacto do nascimento: “Esse resultado reforça o papel estratégico do CECFau na conservação de espécies ameaçadas em São Paulo. É um trabalho técnico e de longo prazo, essencial para manter a biodiversidade paulista”.

    A equipe técnica ainda confirmará o sexo do filhote nos próximos meses, durante exames e testes moleculares.

    Centro referência em conservação

    Instalado em Araçoiaba da Serra, o CECFau é referência nacional no manejo e reprodução de espécies ameaçadas sob cuidados humanos. Vinculado à Semil, o centro atua com foco na conservação de espécies prioritárias e na geração de conhecimento técnico-científico sobre biodiversidade.

    O local abriga programas dedicados ao mico-leão-preto, à arara-azul-de-lear, ao sagui-da-serra-escuro e à perereca-pintada-do-rio-pomba. Desde sua criação, já contabiliza mais de 450 nascimentos e reúne uma equipe multidisciplinar de cerca de 20 profissionais especializados em manejo, pesquisa e bem-estar animal.

    Entre os resultados expressivos, destaca-se o programa de reprodução da arara-azul-de-lear, espécie que já figurou entre as aves mais raras do planeta. Desde 2019, o centro registrou 27 nascimentos, com indivíduos destinados a programas de soltura. Ação que reforça a relevância do CECFau também em iniciativas nacionais e internacionais.

    Novos avanços com a perereca-pintada-do-rio-pomba

    Além do mico-leão-preto, o CECFau celebrou recentemente o nascimento de pererecas-pintadas-do-rio-pomba, espécie ameaçada e de distribuição restrita. O centro mantém cerca de 150 filhotes e diversos girinos em desenvolvimento. Portanto, fortalecendo uma população de segurança essencial para estudos sobre comportamento, biologia e saúde dos anfíbios.

    Pioneiro na reprodução da espécie sob cuidados humanos, o CECFau contribui diretamente para estratégias de conservação frente à perda de habitat e outros impactos ambientais que ameaçam a fauna brasileira.

  • Falta de diversidade genética ameaça conservação do mico-leão-preto

    Falta de diversidade genética ameaça conservação do mico-leão-preto

    Pesquisadores brasileiros e internacionais descobriram um problema crítico na conservação do mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus). A espécie, que existe apenas em São Paulo, pode perder diversidade genética essencial nas próximas duas décadas.

    O grupo científico analisou populações da espécie mantidas em cativeiro no Brasil e exterior. Os resultados mostram cenários preocupantes para a sobrevivência do primata nos próximos 100 anos.

    “Uma população menos diversa geneticamente será mais sensível a qualquer fator externo”, explica Laurence Culot, pesquisadora do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro. A cientista integrou o estudo publicado na revista PLOS ONE.

    O mico-leão-preto enfrenta ameaças desde o século passado. Entre 1900 e 1970, especialistas consideravam a espécie extinta. Apenas em 1973, programas de reprodução em cativeiro começaram a reverter esse quadro.

    O sucesso do mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) inspirou essas estratégias. Esta espécie saltou de 200 indivíduos em 1970 para 4.800 exemplares em 2023, segundo dados da Associação Mico-Leão-Dourado.

    Metodologia revela cenários críticos

    Nathalia Bulhões Javarotti conduziu a pesquisa durante seu mestrado na UFSCar. A orientação ficou a cargo de Patrícia Domingues de Freitas, do Departamento de Genética e Evolução.

    Os pesquisadores criaram projeções baseadas em dados genéticos das populações em cativeiro. Também incluíram informações da população selvagem do Morro do Diabo, origem dos primeiros animais levados para reprodução ex-situ.

    As projeções mostram dois cenários distintos. No primeiro, eventos críticos como doenças reduziriam a população. Neste caso, a diversidade genética duraria apenas 10 a 15 anos.

    O segundo cenário, sem eventos extremos, também preocupa. A expectativa indica perda significativa da diversidade genética após 20 anos.

    Solução passa por animais selvagens

    Os pesquisadores propõem uma estratégia específica para reverter o quadro. A inserção de micos-leões-pretos selvagens nas populações de cativeiro representa a principal alternativa.

    “Geralmente nós não queremos tirar um indivíduo de vida livre para colocar no cativeiro”, admite Culot. “Mas, quando isso ocorre, é ‘sangue novo’, é um indivíduo que pode ter material genético diferente dos outros.”

    A diversidade genética funciona como proteção natural da espécie. Populações diversas resistem melhor a doenças e mudanças ambientais.

    Quando todos os indivíduos compartilham características genéticas similares, qualquer ameaça externa afeta toda a população igualmente. Isso reduz drasticamente as chances de sobrevivência da espécie.

    Manejo demanda planejamento urgente

    As pesquisadoras enfatizam a necessidade de ações imediatas. O planejamento de medidas de manejo deve começar agora para evitar os cenários projetados.

    O intercâmbio entre instituições conservacionistas já acontece atualmente. Porém, essa prática precisa incluir animais selvagens para garantir maior variabilidade genética.

    A criação em cativeiro representa uma das principais ferramentas de conservação para espécies criticamente ameaçadas. O regime ex-situ permite manter populações estáveis enquanto os habitats naturais se recuperam.

    No caso do mico-leão-preto, essa estratégia tem funcionado desde os anos 1970. Contudo, o sucesso a longo prazo depende do monitoramento genético constante.

    Próximos passos da pesquisa

    O estudo publicado na PLOS ONE estabelece bases científicas para futuras decisões de manejo. Os dados genéticos coletados orientarão estratégias de conservação nas próximas décadas.

    A equipe continua monitorando as populações para acompanhar mudanças na diversidade genética. Essas informações são fundamentais para ajustar as estratégias conforme necessário.

    O trabalho demonstra como a ciência pode guiar ações de conservação eficazes. No caso do mico-leão-preto, decisões tomadas hoje determinarão o futuro da espécie nos próximos 100 anos.

    Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.