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  • Cientistas descobrem “impressão digital” da tainha brasileira

    Cientistas descobrem “impressão digital” da tainha brasileira

    Uma pesquisa inédita conduzida por cientistas da Embrapa identificou uma espécie de “impressão digital química” da tainha brasileira (Mugil liza), capaz de apontar a origem geográfica do peixe a partir de pequenas moléculas presentes em seu músculo.

    A descoberta representa um avanço para a rastreabilidade, a autenticidade e a valorização de produtos pesqueiros no país.

    Aparelho de RMN (Foto: Pedro Coppi/Embrapa)

    Técnica funciona como um raio-X 

    Para conseguir esses resultados, a equipe utilizou a espectroscopia por Ressonância Magnética Nuclear de Hidrogênio (RMN de ¹H), que mapeia a posição dos átomos de hidrogênio nas moléculas, em conjunto com a metabolômica, ciência que estuda os metabólitos, pequenas moléculas produzidas pelo organismo durante as reações químicas cotidianas.

    Essa combinação permitiu aos pesquisadores diferenciar tainhas capturadas em três localidades brasileiras e detectar variações na composição do músculo ligadas ao ambiente, à salinidade, ao comportamento fisiológico e à alimentação dos peixes.

    Para Fabíola Fogaça, pesquisadora, o estudo representa um avanço para a ciência de alimentos e para a cadeia produtiva do pescado no país.

    “O grande diferencial desse estudo é demonstrar que é possível identificar a origem geográfica da tainha por meio de um perfil metabólico altamente específico, que atua como uma assinatura química do pescado. É uma ferramenta inovadora para autenticação, rastreabilidade e agregação de valor”, afirma.

    Rigor científico sustenta resultados

    Os cientistas envolvidos no trabalho coletaram amostras em diferentes estações do ano na Lagoa de Araruama (RJ), na Baía de Sepetiba (RJ) e no litoral de Santa Catarina.

    Além disso, um equipamento de Ressonância Magnética Nuclear de alta resolução mapeou a estrutura molecular das substâncias presentes no músculo do peixe com precisão elevada.

    Pesquisador Luiz Alberto Colnago durante experimentos (Foto: Pedro Coppi/Embrapa)

    Colnago, especialista em ressonância magnética nuclear na Embrapa Instrumentação, explica que a técnica identificou compostos químicos relacionados à alimentação, ao metabolismo e às condições ambientais às quais cada peixe esteve exposto ao longo da vida.

    “Diferentemente de métodos convencionais, que muitas vezes não fornecem informações detalhadas sobre as alterações bioquímicas do pescado, a RMN oferece uma análise rápida, abrangente e não destrutiva da amostra. O resultado é um perfil metabólico detalhado que funciona como um ‘código de barras químico’, capaz de diferenciar peixes de regiões distintas.”

    A equipe identificou 23 compostos químicos naturais no músculo das tainhas, entre eles lactato, creatina, taurina e aminoácidos relevantes para o metabolismo. Esses marcadores revelam informações sobre gasto de energia, atividade muscular, alimentação e adaptação ao ambiente.

    O tamanho do peixe e a sazonalidade tiveram pouca influência sobre o perfil metabólico geral, o que reforça a confiabilidade dos metabólitos como indicadores de origem.

    Lagoa de Araruama imprime assinatura química única

    As condições extremas da Lagoa de Araruama, a maior lagoa hipersalina permanente do mundo, com salinidade média de 52%, influenciam diretamente o metabolismo das tainhas.

    Essa cenário ambiental provoca adaptações fisiológicas específicas, refletidas no perfil químico detectado pela ressonância.

    Portanto, o estudo mostra que a hipersalinidade altera os mecanismos de osmorregulação, o metabolismo energético e o uso de aminoácidos pelos peixes.

    Lagoa de Araruana (Foto: Delano Campello/Wikimedia Commons)

    “O ambiente deixa marcas bioquímicas detectáveis nos peixes. A Lagoa de Araruama produz uma assinatura metabólica muito característica, associada à salinidade extrema e às adaptações fisiológicas da espécie”, destaca Fogaça.

    Descoberta pode combater fraudes

    Além do avanço científico, a pesquisa tem aplicação prática direta para o setor pesqueiro e para políticas de certificação de origem. Segundo os autores, a tecnologia pode ajudar a combater fraudes comerciais, a substituição de espécies e a falsificação de procedência no mercado de pescados.

    O estudo também vai servir de base técnica para o pedido de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Denominação de Origem, da tainha da Lagoa de Araruama junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

    Colnago, que atua há mais de 30 anos com ressonância magnética nuclear, avalia que o uso da técnica na rastreabilidade de peixes pode impactar diretamente o combate à adulteração geográfica e à comercialização irregular de espécies.

    “A identificação precisa da procedência ajuda a proteger consumidores, fortalecer sistemas de fiscalização e valorizar produtos regionais”, enfatiza o pesquisador.

    O estudo também incorporou ferramentas de inteligência artificial na análise e na organização dos resultados.

    “A integração entre metabolômica, ressonância magnética e inteligência artificial demonstra como diferentes áreas da ciência podem atuar de forma complementar na produção de conhecimento aplicado à segurança alimentar”, acrescenta Colnago.

    Como a Ressonância Magnética Nuclear analisa o perfil químico dos alimentos

    A RMN é conhecida como técnica de diagnóstico médico por imagem. No entanto, o que pouca gente sabe é que cientistas já a utilizavam desde a década de 1950 para determinar a estrutura de moléculas naturais e sintéticas, incluindo biomoléculas.

    Na Embrapa Instrumentação, pesquisas com RMN de baixo campo para análises de produtos agroindustriais motivaram a criação do aparelho SpecFit, desenvolvido em parceria com a startup Fine Instrument Technology (FIT), usado para medir o teor de óleo em frutos de dendezeiros.

    O estudo com as tainhas empregou um aparelho de RMN de alto campo, método analítico que usa ímãs potentes para gerar espectros detalhados de moléculas. Segundo Colnago, a técnica permite investigações estruturais complexas, autenticação geográfica e estudos de metabolômica, com princípio de funcionamento similar ao dos equipamentos médicos e laboratoriais.

    Em vez de gerar imagens, a técnica produz sinais eletrônicos interpretados a partir da composição química da amostra, como açúcares, aminoácidos, gorduras e ácidos orgânicos.

    O que é a metabolômica

    A metabolômica analisa pequenas moléculas produzidas pelo metabolismo dos organismos, os metabólitos. Aplicada ao sangue, por exemplo, ela indica em uma única análise a quantidade de compostos como glicose, creatinina e ácido úrico.

    Enquanto métodos convencionais dependem de um exame diferente para cada metabólito. Esses compostos funcionam como indicadores bioquímicos do estado fisiológico, da alimentação e das condições ambientais às quais um organismo foi exposto.

    No caso das tainhas, a metabolômica permitiu identificar compostos capazes de diferenciar peixes de regiões geográficas distintas, criando uma verdadeira “assinatura química” do pescado brasileiro.

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  • Pesquisadores padronizam uso de ressonância magnética nuclear nas plantas

    Pesquisadores padronizam uso de ressonância magnética nuclear nas plantas

    Pesquisadores de instituições paulistas desenvolveram um guia passo a passo que padroniza o uso da ressonância magnética nuclear (RMN) no estudo do metabolismo de plantas. O protocolo busca otimizar a análise metabolômica, essencial para entender como os vegetais reagem a estresses ambientais, como secas e inundações, agravados pelas mudanças climáticas.

    O metabolismo é o conjunto de transformações químicas que sustentam o crescimento e desenvolvimento dos organismos. Alterações metabólicas em plantas, provocadas por eventos climáticos extremos, podem comprometer a produção agrícola e ameaçar a segurança alimentar.

    A metabolômica, ciência que estuda os metabólitos produzidos nesses processos, permite investigar essas alterações e compreender as adaptações das plantas.

    Precisão

    A ressonância magnética foi escolhida como ferramenta devido à sua precisão em analisar amostras complexas, identificar compostos químicos e fornecer dados robustos sem destruir as amostras. O protocolo apresentado pelos pesquisadores detalha desde o preparo de amostras até a análise de dados. E destaca o uso de ferramentas quimiométricas e bancos de dados para identificação de metabólitos.

    Fluxograma com todas as etapas necessárias para obtenção de resultados significativos. Reprodução Embrapa

    A revista Frontiers publicou o estudo, que abordou avanços recentes na tecnologia de RMN e ressaltou sua utilidade em pesquisas agrícolas e científicas. Pesquisadores da Embrapa Instrumentação e de diversas instituições acadêmicas participaram do trabalho, com o objetivo de facilitar a aplicação da RMN em pesquisas agrícolas e ambientais.

    Metabolômica

    O guia também exemplifica a aplicação da RMN na metabolômica. Como no caso da planta medicinal pata-de-vaca, cujo metabolismo foi analisado após períodos de estresse hídrico. Esse tipo de análise contribui para entender como melhorar a resiliência das culturas agrícolas às mudanças climáticas.

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    Com o crescente número de publicações científicas na área — passando de 177 em 2014 para 610 em 2023 —, o estudo reflete o avanço e a relevância da metabolômica metabolômica na busca por soluções para os desafios ambientais e agrícolas.

    “São várias as vantagens da RMN para a investigação de produtos naturais e plantas. O nosso objetivo principal é inspirar e orientar interessados em explorá-la por meio de protocolos e práticas mais usados para aplicar em estudos de metabolômica baseados nessa técnica”, conta Fernanda Ocampos, pesquisadora de pós-doutorado na FMVZ. Ela desenvolve os experimentos na Embrapa Instrumentação, supervisionada pelo pesquisador Luiz Alberto Colnago. Foto Andrea Lima

    Participaram do trabalho pesquisadores da Embrapa Instrumentação (SP), da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), do Centro de Citricultura Sylvio Moreira do Instituto Agronômico (IAC) e do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (IQSC-USP).