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  • O que o consumo de carne de burro na Argentina revela sobre situação do país

    O que o consumo de carne de burro na Argentina revela sobre situação do país

    A Argentina sempre foi o país do bife. Durante décadas, nenhuma outra nação no mundo consumiu tanta carne bovina per capita, e isso nunca foi só uma questão de dieta. Era identidade, orgulho e cultura. Hoje, porém, algo está mudando nos hábitos alimentares do país, e um projeto piloto na Patagônia escancara essa transformação de um jeito que nenhum indicador econômico consegue fazer com tanta clareza.

    Na cidade de Trelew, na província de Chubut, o produtor rural Julio Cittadini lançou o projeto “Burros Patagones” e passou a vender carne de burro em açougues e restaurantes locais. O resultado surpreendeu até ele. “O que colocamos à venda acabou em um dia. Em um dia e meio não restou nada”, relatou Cittadini. A iniciativa virou notícia nacional, gerou debate e acabou se tornando um termômetro involuntário da situação econômica argentina.

    Um projeto regional que ganhou proporção nacional

    A base da repercussão está em matérias de veículos argentinos como o Infobae e o Clarín, que abordaram uma iniciativa específica na Patagônia: a introdução da carne de burro como alternativa produtiva em regiões com dificuldades para manter a pecuária tradicional. Cittadini afirma que o projeto não foi concebido como resposta à atual situação econômica. Segundo ele, a iniciativa surgiu a partir das dificuldades enfrentadas pela pecuária e pela criação de ovelhas na região, devido ao clima rigoroso, ao relevo irregular e à presença de predadores.

    Ou seja, não se trata de um colapso generalizado da alimentação argentina. Mas o timing do projeto e a velocidade com que ele repercutiu revelam algo que vai além da Patagônia. A receptividade foi alta demais para ser ignorada, e o preço explica boa parte disso.

    O quilo da carne de burro é vendido por cerca de 7.500 pesos (cerca de R$ 27), enquanto a bovina pode chegar a 18 mil ou 19 mil pesos (R$ 65 ou R$ 69), quase três vezes mais. Nesse cenário, a escolha deixa de ser gastronômica e passa a ser matemática.

    O bife que virou item de luxo

    O aumento dos preços tornou a carne bovina um item de luxo no país, frustrando promessas de campanha de redução de valores e alterando profundamente os hábitos alimentares da população. Cortes comuns chegaram a ultrapassar 25 mil pesos por quilo, com alta superior a 10% em apenas um mês.

    A inflação acumulada de carnes e derivados na Argentina atingiu 55,1% em março, o maior nível desde abril de 2025. Na Grande Buenos Aires, o quilo da carne bovina registrou alta anual de 55%, chegando a 61,5% na região Noroeste, sendo o item com a maior alta no período.

    O açougueiro Gonzalo Moreira, de Buenos Aires, descreveu o impacto no dia a dia do seu negócio com uma objetividade desconcertante. “As pessoas deixaram a carne bovina, que caiu cerca de 20% nas compras, e passaram para o porco ou o frango. Um quilo de carne bovina custa entre 15 mil e 18 mil pesos. Já o porco fica entre 8 mil e 9 mil pesos”, disse. E completou: “A comida também começa a ser paga em parcelas. A gente vai reorganizando as vendas.”

    Uma identidade que se transforma aos poucos

    A mudança vai além do bolso. Ela mexe com algo muito mais profundo na cultura argentina. Há 60 anos, o consumo per capita de carne bovina chegava a 82 quilos por habitante, contra apenas 12 quilos somados de frango e suína. Hoje, o total de carnes consumidas gira em torno de 115 a 116 quilos por pessoa ao ano, sendo cerca de 51 quilos de frango, 45 quilos de bovina e entre 19 e 20 quilos de suína. O frango, há décadas considerado a alternativa popular, ultrapassou a carne bovina no consumo total. Uma virada histórica.

    Mais do que uma curiosidade gastronômica, o fenômeno expõe uma realidade clara: quando o bolso aperta, até tradições históricas entram em transformação. Até o próprio Milei reconheceu o problema publicamente. “Normalmente, os políticos fingem demência ou falam de outra coisa quando recebem um dado negativo. Mas como eu sou Milei e detesto a maneira como fazem política tradicional, e como odeio a inflação, e como este dado me gerou repulsa, vou falar sobre a inflação”, disse o presidente em evento com empresários.

    O que isso significa para o agronegócio regional

    Para o setor produtivo, o fenômeno tem ao menos dois lados. De um lado, sinaliza oportunidades em cadeias alternativas de proteína, tanto para a criação de burros quanto para a produção de frango e suíno, que crescem em participação no mercado argentino. Em regiões como a Patagônia, a criação de burros apresenta vantagens importantes pelo ambiente, e produtores locais apostam na expansão desse mercado, tanto pela demanda crescente quanto pelo potencial de desenvolvimento econômico em regiões áridas.

    Por outro lado, o enfraquecimento do consumo interno bovino é um sinal de alerta. A autorização para expandir a comercialização da carne de burro a nível nacional ainda depende da aprovação do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina. A cadeia ainda engatinha, e especialistas como Victor Tonelli apontam que o impacto produtivo atual é pontual. Mesmo assim, o debate que o tema abriu não vai embora tão cedo.

    O Banco Mundial prevê que a economia argentina crescerá 3,6% em 2026 e 3,7% em 2027, com uma das maiores expansões da região. Porém, trata-se de um crescimento desigual, como reconhecem os próprios economistas. E enquanto os números do PIB melhoram no papel, o argentino médio ainda está decidindo se consegue pagar pelo bife de sempre, ou se vai experimentar algo diferente.

  • O que fez a carne bovina subir e a suína cair ao mesmo tempo?

    O que fez a carne bovina subir e a suína cair ao mesmo tempo?

    O mercado de proteínas animais iniciou 2026 com um cenário incomum: a diferença de preços entre a carne bovina e a suína atingiu o maior patamar dos últimos quatro anos.

    Levantamento do Cepea/USP mostra que a distância chegou a R$ 14,26 por quilo em março. Esse movimento reflete dinâmicas completamente opostas entre os dois setores.

    De um lado, a carne bovina segue em valorização. Do outro, a carne suína registra queda e ganha competitividade no mercado interno.

    Carne bovina sobe com oferta limitada

    A alta da carne bovina tem um fator central: a baixa oferta de animais prontos para abate.

    Com menos gado disponível, os frigoríficos enfrentam dificuldade para manter o ritmo de produção. Como resultado, os preços sobem. Em março, a carcaça casada bovina avançou 2,6% e atingiu média de R$ 24,32 por quilo na Grande São Paulo.

    Imagem gerada por IA

    Além disso, a demanda internacional reforça essa pressão. O Brasil registrou exportações recordes no primeiro trimestre de 2026, com valores pagos até 18,7% maiores na comparação anual.

    Esse cenário reduz ainda mais a disponibilidade de carne no mercado interno e sustenta a trajetória de alta.

    Exportações ampliam pressão nos preços

    O apetite externo pela carne brasileira continua aquecido. Países importadores mantêm forte demanda, o que incentiva frigoríficos a direcionarem parte da produção para o mercado internacional.

    Como consequência, o consumidor brasileiro sente o impacto direto no bolso.

    Além disso, essa combinação entre oferta restrita e exportações elevadas cria um ambiente de sustentação dos preços, sem sinais imediatos de recuo.

    Carne suína segue caminho oposto

    Enquanto a carne bovina sobe, a proteína suína enfrenta um cenário de pressão negativa.

    Em março, a carcaça especial suína recuou cerca de 2,8%, fechando em R$ 10,06 por quilo. Esse movimento ocorre principalmente por conta da queda na demanda interna.

    Durante a Quaresma, o consumo de carne suína tradicionalmente diminui. Como resultado, o mercado registra menor liquidez e dificuldade na comercialização.

    Quaresma derruba consumo e preços

    A sazonalidade exerce forte influência sobre o setor suíno.

    Nesse período, muitos consumidores reduzem o consumo de carnes, especialmente a suína. Consequentemente, a procura cai tanto no mercado do animal vivo quanto no atacado.

    Esse recuo gera acúmulo de oferta e pressiona os preços para baixo.

    Além disso, a indústria demonstra menor interesse na compra de novos lotes, o que intensifica ainda mais a desvalorização.


  • Mais produção, menos área: integração ganha espaço no campo

    Mais produção, menos área: integração ganha espaço no campo

    A Cargill Nutrição e Saúde Animal apresentou, nesta terça-feira (31), em Campinas (SP), cidade a aproximadamente 100 km da capital paulista, o Probeef ILP, nova formulação voltada a sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP). O produto chega ao mercado com a proposta de melhorar o desempenho nutricional de bovinos de corte em pastagens integradas, ampliando a eficiência produtiva por área e atendendo a uma demanda crescente por soluções sustentáveis no campo.

    O lançamento, exclusivo para imprensa especializada, ocorreu no Centro de Inovação da empresa e reuniu executivos e representantes do setor, em um momento que reforça o posicionamento estratégico da companhia no segmento de nutrição animal. Atualmente, essa área responde por cerca de 80% dos negócios da Cargill no Brasil, mercado considerado prioritário pela companhia devido ao potencial da pecuária nacional.

    Segundo o diretor de Negócios Probeef, Tiago Galafassi Zarpelon, o país reúne condições únicas para expansão da bovinocultura. “O Brasil está muito bem posicionado globalmente. A demanda por carne cresce, e temos capacidade de atender com eficiência e escala”, afirmou.

    Integração e tecnologia no centro da estratégia

    Desenvolvido especificamente para sistemas ILP, o Probeef ILP busca otimizar a absorção de nutrientes e o aproveitamento da fibra dos pastos, contribuindo para ganhos de produtividade tanto individuais quanto por área. A tecnologia também se insere em um contexto de expansão desses sistemas no país, que já ocupam milhões de hectares e permitem até três safras anuais na mesma área.

    De acordo com o gerente de Tecnologia para Gado de Corte, Felipe Bortolotto, a inovação parte de uma escuta ativa do campo. “Inovação é como um esporte coletivo, pautado no que o cliente precisa. Não existe uma solução única para a pecuária brasileira, que é diversa e desafiadora”, disse.

    Dados apresentados pela empresa indicam avanços significativos na eficiência da produção nas últimas décadas. Em cerca de 20 anos, o peso médio de abate aumentou em aproximadamente três arrobas, enquanto a idade dos animais caiu de forma relevante, refletindo ganhos em produtividade e manejo.

    Além do novo produto, a linha Probeef Pasto passa por ajustes nas formulações, com níveis otimizados de macro e microminerais, ampliando a cobertura para diferentes perfis de produtores, do pequeno ao altamente intensivo.

    Produtividade exige planejamento e gestão

    Para o pecuarista José Leandro Olivi Peres, da Fazenda Alegria, em Mato Grosso, a tecnologia só gera resultado quando alinhada a objetivos claros. “O produtor precisa saber onde quer chegar. Quando isso está definido, o técnico consegue entregar a solução certa, no momento certo”, afirmou.

    Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Ele destacou ainda que a busca por maior produtividade deve estar associada à sustentabilidade econômica da propriedade. “Eu queria aumentar a produção por área e agregar mais arrobas, desde que o negócio fosse sustentável”, disse.

    A empresa também aposta em ferramentas digitais para apoiar o produtor na tomada de decisão, incluindo softwares de gestão, monitoramento por imagens de satélite e tecnologias de ajuste nutricional. A proposta é integrar produtos, pessoas e plataformas, os chamados “três Ps”, como base da estratégia.

    Reorganização do portfólio e foco no mercado

    O lançamento do Probeef ILP faz parte de um movimento mais amplo de reorganização do portfólio da companhia. As marcas passam a ser segmentadas por cadeia produtiva, com foco em soluções completas para cada área.

    No segmento de bovinos de corte, a marca Probeef assume papel central, com a proposta de oferecer desde produtos até suporte técnico especializado. A estratégia também inclui a atualização da identidade visual, baseada no conceito de confiança, elemento considerado essencial na relação com o produtor.

    Segundo o diretor de Marketing e Tecnologia, Marcelo Dalmagro, o objetivo é contribuir para a evolução da pecuária brasileira. “Queremos ajudar o produtor a dar o próximo passo, independentemente do tamanho da operação”, afirmou.

    A expectativa da empresa é ampliar participação em um mercado ainda fragmentado, mas em crescimento contínuo, impulsionado pela demanda global por proteína animal. Nesse cenário, a integração entre lavoura e pecuária surge como caminho para aumentar a eficiência produtiva e atender às exigências ambientais e econômicas do setor.

  • Pesquisa deve impulsionar a produção do Ovino Pantaneiro

    Pesquisa deve impulsionar a produção do Ovino Pantaneiro

    Com a demanda por carne ovina em alta no Brasil, o Ovino Pantaneiro surge como uma alternativa promissora para o Pantanal. Pesquisas lideradas pela Embrapa Pantanal e Embrapa Caprinos e Ovinos indicam que essa raça, adaptada há séculos ao bioma, pode impulsionar a produção regional com sustentabilidade. O projeto “Estratégias para o desenvolvimento de soluções genéticas para sistemas de produção de carne de ovinos no Brasil” visa selecionar animais mais resistentes e produtivos, garantindo competitividade ao setor.

    Originário do ciclo das charqueadas no período colonial, o Ovino Pantaneiro descende de raças trazidas por portugueses e espanhóis. Por cinco séculos, sobreviveu a cheias, secas e geadas no Pantanal, desenvolvendo resistência a parasitas e eficiência nutricional. “São animais que dispensam suplementação intensiva e acumulam menos gordura, ideal para sistemas extensivos”, explica Adriana Mello, pesquisadora da Embrapa.

    Estudos iniciados em 2005 por uma rede de universidades e a Embrapa confirmaram seu potencial: a raça possui alta prolificidade, precocidade reprodutiva (criação ao longo de todo o ano) e adaptação a pastagens nativas, características que reduzem custos para pequenos produtores.

    Desafios da cadeia produtiva

    Apesar do potencial, a falta de abatedouros na região é um entrave. Corumbá, cidade com o maior rebanho de Mato Grosso do Sul, não tem infraestrutura para abate, obrigando produtores a depender de frigoríficos distantes. “Isso encarece o processo e limita a escala”, afirma Mello.

    Raça apresenta resistência a doenças e baixa exigência nutricional, o que reduz custos de produção da carne que é mais valorizada que a bovina. Foto: Raquel Brunelli /Embrapa

    Outro desafio é o manejo sanitário: vermifugações sem critérios técnicos geram resistência parasitária. Para resolver o problema, a Embrapa desenvolve protocolos específicos, incluindo alternativas naturais de controle.

    Carne premium e oportunidade de mercado

    A carne do Ovino Pantaneiro tem valor 30% superior à bovina, com custos de produção menores. “É uma oportunidade para agricultores familiares”, destaca João Pedro Rocha, produtor com 200 cabeças no Pantanal. O governo de MS já criou incentivos, como o Proape Ovinos, que viabiliza abates coletivos via Propriedades de Descanso de Ovinos para Abate (PDOA).

    Hoje, 50% da carne ovina consumida no Centro-Oeste é importada, segundo o produtor Carlos Henrique Evangelista. “Há espaço para substituir importações e consolidar a produção local”, reforça.

    A pesquisa também explora o conceito de “carne de terroir”, associando o sabor único do Ovino Pantaneiro às condições do bioma. “Chefs e consumidores premium buscam produtos rastreáveis e sustentáveis”, ressalta Adriana Mello. A estratégia pode agregar valor e abrir mercados internacionais.

    Características únicas da raça
    • Porte médio: adaptação à locomoção em áreas alagadas e vegetação densa.
    • Lã seletiva: concentrada no dorso, evitando umidade excessiva em pernas e pescoço.
    • Eficiência nutricional: menor exigência calórica e acúmulo de gordura.
    • Precocidade: cordeiros atingem 30 kg em 5 meses, aptos para abate.

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