Tag: meliponicultura

  • Cientistas revelam truque simples para evitar que abelhas invadam ninhos errados

    Cientistas revelam truque simples para evitar que abelhas invadam ninhos errados

    Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Universidade de Bristol, no Reino Unido, comprovaram que mudanças simples e de baixo custo diminuem os erros de navegação de abelhas-sem-ferrão dentro dos meliponários.

    A proximidade e a semelhança visual entre os ninhos confundem as operárias, que às vezes entram na colônia errada ao voltar do campo, um fenômeno conhecido como drifting.

    O erro parece inofensivo à primeira vista, mas, quando se repete com frequência, o drifting favorece a disseminação de patógenos, parasitas e até resíduos de defensivos agrícolas entre as colônias. Isso compromete a saúde dos ninhos e reduz a produção de mel.

    Ana Paula Cipriano, doutoranda da universidade britânica e integrante do Bristol Bee Group, conduz a pesquisa sob supervisão do professor Christoph Grüter e coorientação do pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Cristiano Menezes.

    A equipe avaliou duas espécies brasileiras de abelhas-sem-ferrão, a Scaptotrigona depilis e a Melipona quadrifasciata, ambas polinizadoras importantes de culturas agrícolas.

    Pequenas mudanças, grandes resultados

    Os testes compararam diferentes configurações de caixas de M. quadrifasciata, a abelha mandaçaia. Quando todos os ninhos tinham a mesma cor e as entradas apontavam para a mesma direção, a taxa de drifting chegou a 59,5%. Ao manter as caixas iguais e apenas alternar a orientação das entradas, o índice caiu para 48,1%. Já quando os pesquisadores pintaram as caixas com cores distintas, mantendo as entradas voltadas para o mesmo lado, a taxa recuou para 37,6%.

    As caixas coloridas reduziram o drifting em 21,9% na comparação com o arranjo tradicional, enquanto a alternância na direção das entradas cortou os erros em 11,4%.

    Segundo os pesquisadores, a orientação das abelhas depende não só da distância entre os ninhos. Mas também de referências visuais e espaciais usadas no retorno à colônia.

    “É a primeira vez que analisamos o efeito do arranjo dos meliponários sobre o comportamento de drifting. Apenas pintando as caixas ou invertendo a orientação das entradas já observamos uma redução significativa dos erros de navegação.”

    A descoberta abre caminho para benefícios práticos entre os meliponicultores. Além de reduzir a circulação de doenças e parasitas entre colônias, o uso de pistas visuais e diferentes orientações facilita o manejo dos ninhos em espaços reduzidos.

    “Esse resultado mostra que não é apenas a distância entre as caixas que reduz o drifting. As abelhas também utilizam pistas visuais e a orientação das entradas para encontrar sua colônia. Isso pode facilitar a organização dos meliponários e até a extração de recursos produzidos pelas abelhas, como o mel”, acrescenta o pesquisador.

    Tecnologia acompanha o voo das abelhas

    Outra frente do estudo emprega microetiquetas de radiofrequência, tecnologia ainda pouco explorada no Brasil para pesquisas com abelhas-sem-ferrão de pequeno porte. Fabricadas na Alemanha, as micro tags grudam individualmente no dorso dos insetos e representam cerca de 11% do peso corporal das abelhas.

    Os sensores registram horários de saída e retorno, duração dos voos, frequência de entradas em colônias vizinhas e períodos de maior atividade. Os pesquisadores cruzam essas informações com dados ambientais, como temperatura e umidade.

    Cipriano explica que o objetivo é entender como diferentes estressores, químicos e ambientais, interferem na capacidade de orientação das abelhas e aumentam a chance de elas confundirem as colônias.

    “Quando isso acontece com frequência, o drifting deixa de ser um evento isolado e passa a representar um risco coletivo”, constata.

    Pesticidas alteram o comportamento dos insetos?

    Entre fevereiro e abril de 2025 e 2026, os pesquisadores avaliaram também os efeitos do inseticida imidacloprido e do herbicida glifosato, dois produtos amplamente usados na agricultura. A equipe expôs as abelhas S. depilis a doses realistas, compatíveis com as encontradas em condições de campo.

    Os resultados preliminares, ainda não publicados, mostram que a exposição química altera o padrão de voo das operárias. Mesmo quando retornam aos ninhos, elas realizam menos viagens e permanecem menos tempo em atividade.

    “Com os pesticidas, elas continuam errando, mas passam a fazer menos viagens. Quando combinamos inseticida e glifosato, observamos viagens pelo menos 34% mais curtas”, observa Cipriano.

    Os dados mostram que a orientação das abelhas depende da distância entre os ninhos e também de referências visuais e espaciais durante o retorno à colônia (Foto: Ana Paula Cipriano/Embrapa)

    Além da desorientação, a redução no número e na duração das viagens pode significar menor entrada de alimento nos ninhos.

    Na próxima etapa, os pesquisadores pretendem recapturar as abelhas monitoradas para avaliar peso corporal, quantidade de pólen transportado, qualidade do néctar e possíveis reflexos sobre a nutrição das colônias.

  • Feira do Mel de Santa Catarina reúne 300 produtores

    Feira do Mel de Santa Catarina reúne 300 produtores

    Florianópolis recebe a 25ª Feira do Mel de Santa Catarina entre 10 e 13 de junho, no Largo da Alfândega. O evento reúne produtores, associações e instituições da apicultura e meliponicultura e deve movimentar até 55 mil quilos de mel e derivados.

    Foto: Cristina Gallo

    A feira funciona das 8h às 19h, com encerramento antecipado no sábado (13), às 16h. Considerada uma das principais vitrines do setor no estado, a iniciativa conecta produtores diretamente ao consumidor, fortalece a agricultura familiar e amplia o acesso a produtos com origem garantida.

    Organização e expectativa de vendas

    A Faasc, Epagri, Secretaria de Estado da Agricultura e Prefeitura de Florianópolis organizam o evento, com apoio de Sebrae/SC, Faesc/Senar, UFSC, Cidasc e Alesc. A atuação conjunta dessas instituições consolida Santa Catarina como referência nacional na produção de mel.

    A estrutura contará com cerca de 600 m² e 35 estandes, representando mais de 300 produtores catarinenses. A organização projeta a comercialização entre 45 mil e 55 mil quilos de mel e produtos da colmeia durante os quatro dias.

    Preços e acesso ao consumidor

    Os visitantes encontrarão preços tabelados. O mel silvestre será vendido a R$ 40/kg e o mel de melato de bracatinga a R$ 55/kg. A venda direta elimina intermediários e favorece preços mais acessíveis.

    A programação inclui atividades gastronômicas, lançamentos de produtos e ações de difusão de conhecimento. O público também poderá conhecer colmeias de abelhas sem ferrão, ampliando o espaço da meliponicultura no evento.

    A feira ainda apresenta bebidas e alimentos produzidos à base de mel, reforçando o potencial de agregação de valor da cadeia produtiva.

    Produtos disponíveis

    Entre os principais itens comercializados estão:

    • Mel multifloral e monofloral
    • Mel composto
    • Mel de melato de bracatinga
    • Méis de abelhas sem ferrão
    • Mel em favos e mel cremoso
    • Própolis (extrato e in natura)
    • Pólen e geleia real
    • Cera de abelha e velas artesanais

    Também haverá produtos derivados e alimentos como bolos, cucas, pães, bolachas, trufas, alfajores e mel com nozes, além de cosméticos como sabonetes, shampoos, cremes e pomadas.

    Entre as bebidas, o público encontrará hidromel, cervejas, licores, cachaças, steinhaeger, chás e bebidas energéticas.

    Santa Catarina se destaca na apicultura

    Santa Catarina ocupa posição estratégica na produção nacional de mel. Dados da Cidasc (2024) indicam 13.401 apicultores e mais de 358 mil colmeias distribuídas pelo estado.

    Segundo o IBGE (2023), o estado é o 8º maior produtor do país, com 4.234 toneladas anuais. No mercado externo, ocupa a 3ª posição entre os exportadores brasileiros, com 5.476,8 toneladas embarcadas.

    A produtividade também chama atenção: 68 kg/km², muito acima da média nacional de 4,8 kg/km².

    Esse desempenho resulta da tradição dos produtores e do suporte técnico de instituições como Epagri, Cidasc, Senar e Sebrae, além da atuação da Faasc, que reúne 50 associações e representa mais de 2 mil produtores.

    Serviço

    • Evento: 25ª Feira do Mel de Santa Catarina
    • Data: 10 a 12 de junho, das 8h às 19h; 13 de junho, das 8h às 16h
    • Local: Largo da Alfândega, Florianópolis (SC)
    • Entrada: gratuita
  • Conheça a abelha que produz mel vermelho

    Conheça a abelha que produz mel vermelho

    A abelha uruçu-nordestina vem chamando atenção por um detalhe que foge do comum: o mel avermelhado. A cor, que circulou nas redes sociais e despertou curiosidade, não aparece por acaso. Ela está ligada a uma combinação de fatores naturais que envolve a espécie, o ambiente e as plantas visitadas pelas abelhas.

    Um grupo essencial para os ecossistemas

    Essa espécie pertence ao grupo das abelhas sem ferrão, tão importantes para o equilíbrio dos ecossistemas. No Brasil, esse conjunto reúne mais de 250 espécies nativas e desempenha um papel essencial na polinização de culturas agrícolas e plantas silvestres. Além disso, também é responsável por produzir méis com características bem diferentes entre si.

    Onde vive a uruçu-nordestina

    A uruçu-nordestina, conhecida cientificamente como Melipona scutellaris, aparece em estados do Nordeste, como Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe e Ceará. Por isso, sua presença fica mais restrita a essas regiões, onde o clima e a vegetação ajudam a explicar parte da identidade da espécie.

    O que muita gente chama de mel vermelho, no entanto, também passa pela forma como a colmeia é construída. Segundo especialistas, as abelhas sem ferrão não usam apenas cera pura, como ocorre com algumas outras espécies. Elas produzem uma mistura chamada cerume, formada por cera e resinas vegetais coletadas no ambiente.

    Como a vegetação influencia a cor?

    Essa combinação muda bastante o aspecto das estruturas internas da colmeia. O cerume é usado para formar potes de armazenamento de mel, além de abrigar áreas de criação das larvas. Como as resinas variam conforme a vegetação disponível, a cor final também pode mudar.

    A tonalidade avermelhada aparece com mais frequência em áreas próximas a manguezais e restingas. Nesses locais, as abelhas visitam plantas específicas e coletam resinas que puxam essa coloração para o material da colmeia. Assim, o tom do mel ou do cerume acaba refletindo, em parte, o ambiente em que a abelha vive.

    Além disso, pesquisadores apontam uma relação direta entre essa coloração e a chamada própolis vermelha, outro produto natural bastante valorizado. Como ambos dependem da resina coletada nas plantas, a cor acaba funcionando quase como uma assinatura do território visitado pelas abelhas.

    Um sinal da biodiversidade local

    No fundo, o caso da uruçu-nordestina ajuda a mostrar como a natureza trabalha com detalhes que nem sempre passam despercebidos por quem observa com atenção. Um mel vermelho não é apenas uma curiosidade visual. Ele também revela a ligação entre biodiversidade, vegetação e os recursos que cada região oferece.

    Por outro lado, o interesse crescente por esse tipo de abelha reforça a importância da meliponicultura e da conservação das espécies nativas. Quando uma abelha sem ferrão ganha visibilidade, também ganha espaço a discussão sobre preservação, manejo adequado e valor ambiental.

    Muito além de uma curiosidade viral

    A uruçu-nordestina, portanto, chama atenção não só pelo mel raro, mas também pelo papel que desempenha na natureza. E é justamente essa mistura de beleza, função ecológica e particularidade local que explica por que ela voltou a viralizar.

  • Colheita de mel no RS chega ao fim e produtividade reduz em várias regiões

    Colheita de mel no RS chega ao fim e produtividade reduz em várias regiões

    A colheita de mel no Rio Grande do Sul se aproxima do fim ou já encerrou na maior parte do estado. Os apicultores enfrentam redução gradual da entrada de néctar, o que diminui a produtividade em algumas regiões.

    De acordo com o Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar, divulgado nesta semana, os produtores intensificaram os manejos para preparar as colmeias para o período de escassez. As ações incluem controle de enxameação e organização dos apiários. Apesar do cenário, algumas áreas ainda registram boa atividade das abelhas e resultados produtivos satisfatórios.

    Bagé e Pelotas mantêm bom desempenho

    Na região de Bagé, os apiários apresentam boas condições sanitárias. As abelhas continuam recebendo néctar e pólen de espécies do campo nativo e de alguns eucaliptos. Os produtores aproveitam os poucos dias secos para monitorar os enxames e realizar a colheita do mel acumulado durante o verão.

    Em Pelotas, a produção já superou a do ano anterior em cidades como Amaral Ferrador e Pinheiro Machado. Os enxames mostram alta atividade e intensificação da enxameação, o que indica bom desenvolvimento das colmeias. No Chuí e em Piratini, a extração de mel continua em andamento.

    Caxias do Sul e Passo Fundo registram queda

    O tempo seco predominante em Caxias do Sul favoreceu o trabalho das abelhas campeiras, mas a entrada de néctar diminuiu consideravelmente. Isso reduziu a postura das rainhas e deixou os enxames menos populosos. Os produtores que colheram mel no período observaram menor produtividade.

    Em Passo Fundo, a redução gradual das floradas, como carqueja, mata-campo, eucalipto e cipós, causa menor acúmulo de mel. Nas regiões de Ijuí e Frederico Westphalen, a colheita também se aproxima do fim, e os apicultores já manejam as colmeias para as temperaturas mais baixas e a escassez de floradas.

    Na região de Porto Alegre, a produção de mel aumentou devido à maior movimentação das abelhas e à boa entrada de néctar nas colmeias.

    Meliponicultura avança com mel de Jataí e própolis

    As condições climáticas favoráveis e a abundância de alimentos também beneficiam a meliponicultura na região de Porto Alegre. Os enxames seguem fortes, o que favorece a multiplicação das colônias.

    Municípios como Santo Antônio da Patrulha já comercializam mel de Jataí. O quilo do produto chega a R$ 230,00. Os preços variam conforme a espécie produtora e a oferta regional.

    A própolis também ganha espaço no mercado. Alguns meliponicultores estão produzindo extrato de própolis de abelhas sem ferrão. O produto apresenta potencial de crescimento devido aos compostos bioativos e aos benefícios à saúde.

  • Biólogo transforma 1.200 colmeias em negócio sustentável e mira expansão global

    Biólogo transforma 1.200 colmeias em negócio sustentável e mira expansão global

    A apicultura paulista cresceu 22% em 2024, atingindo 6.772 toneladas de mel produzidas no estado. Por trás desse número, histórias como a de Celso Ribeiro Cavalcanti de Souza ajudam a explicar por que o setor virou estratégico para o desenvolvimento rural de São Paulo. Fundador da Estação do Mel, em Pindamonhangaba, ele construiu um modelo de negócio que une pesquisa de ponta, agronegócio e experiência ao consumidor.

    Foto: Divulgação

    A relação de Celso com as abelhas começou aos 10 anos, quando manejava uma pequena colmeia de abelhas sem ferrão no quintal de casa. Criado em uma região vizinha ao atual Instituto Biológico, antes chamado de Centro de Apicultura Tropical, ele transformou a curiosidade infantil em carreira. Formou-se técnico em agropecuária pelo Colégio Agrícola de Jacareí e, mais tarde, graduou-se em Biologia e Farmácia.

    O diferencial de Celso foi circular entre dois mundos que raramente se encontram: a pesquisa acadêmica e o trabalho braçal no campo. Durante 14 anos, ele atuou na Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), conduzindo o plantel de seleção genética de abelhas rainhas.

    “Trabalhei na prática como produtor e, simultaneamente, dentro do maior centro de pesquisa de abelhas africanizadas do mundo”, conta Celso. Enquanto avançava na ciência apícola, ele estruturava seus próprios apiários, chegando a manejar 1.200 colmeias com tecnologia de ponta.

    Estação do Mel: verticalização, turismo e inovação

    Localizada próxima ao eixo turístico de Santo Antônio do Pinhal e Campos do Jordão, a Estação do Mel não se limita à produção de mel, pólen e própolis. A empresa aposta no turismo de experiência: visitantes participam de “um dia de apicultor”, com cafés da manhã temáticos e dias de campo.

    Foto: Divulgação

    Com a formação farmacêutica como trunfo, Celso desenvolveu linhas exclusivas de bebidas, vinho, cachaça e vinagre de mel, cosméticos como shampoos, cremes e sabonetes à base de produtos da colmeia, e tratamentos de apiterapia, que incluem ingestão de própolis, inalação do ar da colmeia e massagens detox com mel.

    São Paulo lidera, biodiversidade agradece

    Dados do Instituto de Economia Agrícola e da Defesa Agropecuária, da Secretaria de Agricultura, apontam mais de 235 mil colmeias de abelhas africanizadas distribuídas em 1.926 apiários, com produção anual de 5,15 mil toneladas. As abelhas nativas somam mais de 30 mil colmeias em mais de 3 mil meliponários.

    Para Carolina Matos, especialista ambiental da CATI, o avanço do setor combina geração de renda e conservação: “São Paulo vem mostrando que é possível crescer com responsabilidade ambiental. A apicultura e a meliponicultura geram emprego no campo, fortalecem a economia local e contribuem diretamente para a conservação ambiental, por meio da polinização e da preservação da biodiversidade.”

    Aos 56 anos, Celso não reduz o ritmo. “O futuro é transformar isso em uma grande empresa em nível mundial”, projeta. Sua trajetória comprova que o agronegócio paulista ganha força quando a ciência de laboratório encontra o suor do produtor rural . E quando um biólogo decide, desde criança, escutar o zumbido das abelhas.

  • Paraná consolida liderança na produção de mel

    Paraná consolida liderança na produção de mel

    O 19º Seminário Paranaense de Meliponicultura, realizado no último fim de semana em Prudentópolis, tornou-se um termômetro do crescimento explosivo do setor no estado. Com mais de 500 participantes, o evento superou expectativas. E evidenciou a meliponicultora, criação de abelhas nativas sem ferrão, como uma lucrativa frente de negócios no agronegócio paranaense.

    O seminário, o primeiro na cidade desde 2018, contou com palestras e oficinas que focaram na geração de renda, sustentabilidade e equilíbrio ambiental. A organização foi da Câmara Técnica do setor, que reúne associações de produtores, universidades e entidades públicas como o IDR-Paraná (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná).

    Ouro líquido: o valor estratégico do mel sem ferrão

    Diferente da apicultura tradicional (com abelhas com ferrão do gênero Apis), a meliponicultura produz um mel mais raro e valorizado. Embora a produção por enxame seja menor (de 0,5 kg a 3 kg, contra uma média de 25 kg da Apis), o preço no mercado é significativamente maior.

    De acordo com extensionistas do IDR-Paraná, o mel das abelhas sem ferrão pode ser comercializado pelo produtor a preços entre R$ 70 e R$ 150 o quilo. Em comparação, o mel da abelha comum (Apis) chega à indústria em torno de R$ 10 o quilo. Esse valor agregado, somado aos menores custos de manejo, transforma a atividade em uma poderosa fonte de renda complementar para a agricultura familiar.

    “Os temas abordados foram ótimos, cumprindo os objetivos de transmitir conhecimentos sobre a promoção e geração de renda. O feedback foi muito positivo”, afirmou Marlon Tiago Hladczuk, extensionista do IDR-Paraná.

    Paraná: líder nacional na produção de mel

    O fortalecimento da meliponicultura ocorre em um momento em que o Paraná se consolida como potência no mercado do mel. Dados da Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, compilados pelo Deral/Seab, mostram que o estado assumiu a liderança na produção nacional em 2024, com 9,82 mil toneladas. O equivalente a 14,6% da produção brasileira.

    Na esteira do sucesso, o estado também é o terceiro maior exportador do produto em 2025, com 5,57 mil toneladas vendidas ao exterior, gerando uma receita de US$ 18,64 milhões. Os Estados Unidos são o principal destino, absorvendo 82,5% do mel exportado pelo Paraná.

  • Inovação: pesquisadores da Unicamp criam mel sabor chocolate

    Inovação: pesquisadores da Unicamp criam mel sabor chocolate

    Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma inovação que une sustentabilidade e gastronomia. O grupo criou um mel com sabor de chocolate ao combinar mel de abelhas nativas brasileiras com cascas de amêndoa de cacau, material que a indústria normalmente descarta durante a fabricação de chocolate.

    A revista científica ACS Sustainable Chemistry & Engineering publicou os resultados do estudo na capa de sua edição, destacando o caráter inovador da pesquisa.

    “A depender da proporção de mel e cascas, o produto tem bastante sabor de chocolate”, afirma Felipe Sanchez Bragagnolo, primeiro autor do estudo. O pesquisador realizou o trabalho durante seu pós-doutorado na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira, com apoio da FAPESP.

    Tecnologia extrai compostos bioativos do resíduo

    O processo utiliza mel de abelhas nativas como solvente natural para extrair compostos bioativos das cascas de cacau. A técnica de extração assistida por ultrassom captura teobromina e cafeína – estimulantes naturais que cientistas associam à saúde cardíaca – além de compostos fenólicos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

    “Claro que o apelo maior para o público é o sabor, mas nossas análises mostraram que ele tem uma quantidade de compostos bioativos que o tornam bastante interessante do ponto de vista nutricional e cosmético”, explica Bragagnolo.

    O produto serve tanto para consumo direto quanto como ingrediente para as indústrias alimentícia e cosmética. Os pesquisadores depositaram uma patente do processo e buscam, em parceria com a Inova Unicamp, empresas interessadas em licenciar a tecnologia.

    Cinco espécies de abelhas brasileiras participam da pesquisa

    Os cientistas testaram méis de cinco espécies de abelhas nativas do Brasil: borá (Tetragona clavipes), jataí (Tetragonisca angustula), mandaçaia (Melipona quadrifasciata), mandaguari (Scaptotrigona postica) e moça-branca (Frieseomelitta varia).

    A escolha das abelhas nativas vai além do apelo pela valorização da biodiversidade. Esses méis apresentam características físico-químicas superiores para o processo: possuem maiores teores de água e menor viscosidade que o mel da abelha-europeia (Apis mellifera), o que aumenta seu potencial como solvente natural.

    A equipe escolheu inicialmente o mel da mandaguari para otimizar o processo devido aos valores intermediários de água e viscosidade. Posteriormente, os pesquisadores adaptaram a técnica para os demais méis analisados.

    A Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) de São José do Rio Preto cedeu as cascas de cacau utilizadas no estudo.

    Ultrassom acelera extração e reduz impacto ambiental

    A técnica de extração assistida por ultrassom emprega uma sonda metálica que emite ondas sonoras dentro do recipiente contendo mel e cascas. O método forma microbolhas que implodem, rompem o material vegetal e facilitam a migração dos compostos das cascas para o mel. O processo também aumenta pontualmente a temperatura, melhorando a eficiência da extração.

    “A técnica é considerada ambientalmente amigável para a indústria de alimentos, pois é mais rápida e eficiente do que outras”, destaca o estudo.

    Processo recebe nota positiva em avaliação de sustentabilidade

    O professor Mauricio Ariel Rostagno, da FCA-Unicamp, coordenou o estudo e supervisionou o pós-doutorado de Bragagnolo. Seu grupo desenvolveu o software Path2Green, ferramenta que avaliou a sustentabilidade do produto.

    As cascas das amêndoas de cacau contêm teobromina e cafeína, compostos que o uso de extração assistida por ultrassom pode transferir para o mel de abelhas sem ferrão. Foto: Felipe Bragagnolo/FCA-Unicamp

    A análise verificou a concordância com 12 princípios da química verde, considerando fatores como transporte, pós-tratamento, purificação e aplicação. O uso de um solvente comestível, local e pronto para uso pesou positivamente na avaliação. Numa escala de -1 a +1, o produto alcançou +0,118.

    “Acreditamos que com um aparelho desses, numa cooperativa ou pequena indústria que já trabalhe tanto com o cacau quanto com o mel de abelhas nativas, seria possível aumentar o portfólio com um produto de valor agregado inclusive para a alta gastronomia”, sugere Rostagno.

    Ultrassom pode aumentar durabilidade do mel

    Os pesquisadores preparam novos estudos para avaliar os efeitos do ultrassom na microbiologia do mel. A hipótese é que a técnica, além de romper o material vegetal, também destrua a parede celular de microrganismos como bactérias que podem degradar o produto.

    O mel de abelhas nativas geralmente requer conservação em geladeira, maturação, desumidificação ou pasteurização, diferentemente do mel de abelha-europeia, que tolera armazenamento em temperatura ambiente.

    “Suspeitamos que, apenas por terem passado pelo ultrassom, os microrganismos contidos sejam eliminados, aumentando a estabilidade e o tempo de prateleira do produto”, explica Bragagnolo.

    A equipe planeja testar outras aplicações da técnica, utilizando o mel de abelhas nativas como solvente para processar diferentes resíduos vegetais por meio da extração assistida por ultrassom.

    O grupo também pretende realizar testes sensoriais formais para avaliar detalhadamente o sabor e outras propriedades do produto antes da comercialização.

    Com informações de André Julião | Agência FAPESP

  • Abelhas sem ferrão: paixão e renda para agricultoras no Pará

    Abelhas sem ferrão: paixão e renda para agricultoras no Pará

    No coração do Pará, uma revolução silenciosa está transformando a vida de agricultoras. O curso “Meliponicultura para Mulheres”, realizado em Paragominas, despertou a paixão pela criação de abelhas nativas sem ferrão, uma atividade promissora para a economia local e a preservação ambiental.

    Antes vistas como ameaças, as abelhas sem ferrão agora encantam as mulheres da zona rural. “A minha visão das abelhas mudou completamente. Hoje eu quero me aproximar cada vez mais delas e conhecê-las mais”, relata Núbia de Souza, da comunidade Vila Formosa. A admiração é compartilhada por outras participantes, que destacam a importância das abelhas na produção de alimentos e na manutenção da floresta.

    Meliponicultura: atividade inclusiva e sustentável

    A meliponicultura – criação de abelhas sem ferrão do gênero Melipona – é uma atividade acessível e promissora. O Brasil abriga mais de 250 espécies nativas, sendo 119 encontradas no Pará.

    Em cada colônia – ou caixa de abelha, as mulheres observaram a organização social e o trabalho de diferentes espécies de abelhas nativas sem ferrão. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    A pesquisadora Márcia Maués, da Embrapa Amazônia Oriental, ressalta que a atividade dispensa equipamentos sofisticados, apresenta um processo simples e pode ser realizada perto de casa. Além disso, contribui para a segurança alimentar, gera renda e auxilia na conservação da biodiversidade.

    Embrapa impulsiona conhecimento e renda

    O curso, promovido pela FAO em parceria com a Associação Abelha e com execução técnica da Embrapa, abordou a biologia das abelhas, sua relação com as plantas e técnicas de manejo e criação racional. As participantes receberam colônias de abelhas e a expectativa é que multipliquem o conhecimento e as colônias, gerando renda e desenvolvimento local.

    Pesquisas da Embrapa mostram que a introdução de colmeias em plantios de açaí pode aumentar a produtividade dos açaizeiros de 30% a 70%. Criadores de abelhas podem explorar esse serviço de polinização comercialmente, impulsionando ainda mais a economia da região.

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  • Novas espécies de abelhas-sem-ferrão são identificadas

    Novas espécies de abelhas-sem-ferrão são identificadas

    Pesquisadores identificaram novas espécies de abelhas-sem-ferrão no Refúgio Biológico Bela Vista (RBV), localizado no oeste do Paraná. O estudo, realizado entre 2021 e 2023 por instituições como a Embrapa Florestas, Itaipu Binacional e Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), resultou na criação de coleções vivas e de referência, além de estabelecer protocolos para o manejo e identificação das abelhas nativas.

    Os dados coletados evidenciam a importância das abelhas-sem-ferrão, também conhecidas como meliponíneos, na manutenção dos ecossistemas por meio da polinização de plantas. Além disso, o levantamento permite direcionar políticas públicas voltadas à criação de abelhas nativas, contribuindo para a conservação da biodiversidade e o fortalecimento da meliponicultura no estado.

    Estudo detalhado e avanços científicos

    O projeto analisou espécies presentes em cerca de dois hectares no RBV, abrangendo vegetações naturais e áreas reflorestadas pela Embrapa Florestas. Linhas de amostragem (transectos) foram traçadas para capturar abelhas em todas as estações do ano, utilizando redes de mão e iscas-ninho. O levantamento também incluiu registros históricos e biológicos, possibilitando um mapeamento completo das espécies na região.

    “A análise ampla das abelhas-sem-ferrão no Paraná gera dados fundamentais para a conservação e gestão de ecossistemas locais. Esse conhecimento pode ser usado para monitoramento ambiental e até estudos moleculares futuros”, afirma Guilherme Schühli, pesquisador da Embrapa Florestas.

    A pesquisa resultou em duas coleções de abelhas-sem-ferrão: uma viva, localizada no RBV, e outra de referência, armazenada no Parque Tecnológico Itaipu. Essas coleções são essenciais para futuras pesquisas, como análises moleculares e a extração de DNA, permitindo uma melhor compreensão das interações ambientais e do comportamento das abelhas na região.

    Além disso, mais de 100 colônias foram instaladas no refúgio, utilizando técnicas de manejo sustentável, como a divisão de colônias. Essa prática ajuda a ampliar as populações de abelhas e pode beneficiar projetos ambientais e sociais, como o Poliniza Paraná, que utiliza abelhas nativas em praças e escolas.

    Educação ambiental e impactos na biodiversidade

    O projeto também promoveu ações de educação ambiental, destacando a importância das abelhas-sem-ferrão na manutenção de ecossistemas. Um exemplo curioso é a relação entre essas abelhas e a harpia, uma ave de rapina. As abelhas auxiliam na limpeza das narinas da harpia, prevenindo infecções e promovendo sua saúde.

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    Além disso, as caixas de abelhas registram uma linha cronológica das espécies vegetais da região. O pólen coletado pelas abelhas pode revelar informações sobre a flora local e possíveis contaminações ambientais, servindo como ferramenta de monitoramento ambiental.

    Entre as espécies catalogadas estão:

    • Borá (Tetragona clavipes)
    • Jataí (Tetragonisca fiebrigi)
    • Guiruçu (Schwarziana quadripunctata)
    • Canudo (Scaptotrigona depilis)
    • Arapuá (Trigona spinipes)
    • Mirim Droryana (Plebeia droryana)
    • Mirim Nigriceps (Plebeia nigriceps)

    O futuro da conservação e da meliponicultura

    O estudo reforça a importância de iniciativas de manejo sustentável para a preservação das abelhas nativas, que desempenham papel fundamental na polinização e na manutenção da biodiversidade. Além disso, a meliponicultura abre oportunidades de geração de renda, já que o mel produzido por essas abelhas pode alcançar valores até dez vezes superiores ao mel tradicional.

    Com dados robustos e contribuições significativas, o Refúgio Biológico Bela Vista se consolida como um espaço de referência para estudos sobre abelhas-sem-ferrão, servindo de modelo para iniciativas de conservação em outras regiões do Brasil.