Tag: Mata Atlântica

  • Cientistas encontram vírus letal que dizima pererecas

    Cientistas encontram vírus letal que dizima pererecas

    Um vírus altamente letal dizimou girinos e derrubou a população de pererecas em uma reserva de Santa Catarina. Pesquisadores apoiados pela FAPESP comprovaram, pela primeira vez na América do Sul, que surtos recorrentes de ranavirose reduziram em 83% a reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim (SC). A doença também atinge répteis e peixes.

    perereca-macaco (Phyllomedusa distincta)
    Endêmica da Mata Atlântica, a perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) é uma das espécies que pode estar mais ameaçada do que se pensava pelo ranavírus. Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

    A equipe publicou o estudo ontem (20/08) na revista Biodiversity and Conservation. O trabalho traz a primeira evidência robusta de que o ranavírus pode provocar o colapso de populações silvestres na América do Sul, um risco já documentado na Europa. Os dados mostram ainda que a ameaça se agrava em períodos secos, já que a baixa umidade do ar favorece os surtos da doença.

    Vírus circula há décadas em rãs-touro

    O ranavírus infecta com frequência rãs-touro (Aquarana catesbeiana) criadas comercialmente ou soltas na natureza, geralmente sem causar doença aparente. Nas últimas décadas, porém, os registros de mortandades suspeitas de espécies nativas cresceram nas Américas do Sul e do Norte, e cientistas atribuem parte desses casos ao patógeno. Pesquisadores e ambientalistas temem que outros episódios de morte em massa causados pelo vírus ainda passem despercebidos.

    Nos girinos, a infecção avança rápido e destrói tecidos de órgãos vitais, como o fígado. Os animais infectados apresentam inchaço abdominal, vermelhidão extrema, úlceras e hemorragias múltiplas, que chegam a atingir os olhos.

    “Apesar de várias mortes suspeitas documentadas no continente americano, é a primeira vez que se comprova a ranavirose, por meio de análises dos tecidos histológicas dos fígados dos animais e da análise dos vírus isolados deles, como causa das mortes em uma espécie nativa”, afirma Aline Fonseca, autora do estudo, realizado durante seu doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

    Reserva registra ao menos três surtos em dois anos

    A lagoa da RPPN Santuário Rã-Bugio registrou o primeiro evento de mortandade em janeiro de 2024. Dois novos surtos se seguiram: um entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, e outro entre novembro de 2025 e março de 2026. Ao todo, os pesquisadores encontraram 324 girinos mortos, 315 de perereca-macaco e nove de perereca-de-pijama (Boana bischoffi).

    Em apenas uma lagoa de Santa Catarina, foram encontrados 324 girinos mortos entre 2024 e 2026, a imensa maioria confirmada como vítima de ranavirose. Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

    Os testes confirmaram o ranavírus em 279 pererecas-macaco (88,6%) e em oito pererecas-de-pijama (88,9%). As pererecas-macaco apresentaram carga viral elevada, com quase 10 bilhões de cópias do vírus por microlitro de amostra; nas pererecas-de-pijama, esse número ficou em cerca de 2 bilhões. Como o total de pererecas-de-pijama mortas foi pequeno, os cientistas não classificaram o episódio dessa espécie como mortandade em massa.

    Para confirmar os sinais clínicos da doença, a equipe analisou por histologia os fígados de 13 girinos, técnica que revela danos aos tecidos e às células por microscopia. As lesões encontradas confirmaram o quadro severo da infecção.

    O estudo integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, coordenado por Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp), com apoio da FAPESP, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.

    Monitoramento de 25 anos revela queda de 83% na população

    Além de confirmar a ranavirose como causa das mortes, os pesquisadores cruzaram dados climáticos das duas semanas anteriores a cada surto para identificar possíveis fatores associados aos óbitos.

    “Realizamos análises estatísticas que pudessem apontar mudanças ambientais e climáticas capazes de contribuir para as mortes, mas nenhum fator teve um peso tão significativo sobre o declínio da população como a ranavirose”, explica Karla Campião, professora da UFPR que orientou o doutorado de Fonseca e obteve o financiamento do CNPq para a pesquisa.

    girinos da perereca-macaco
    Os girinos da perereca-macaco apresentaram vermelhidão compatível com hemorragia, além de inchaço abdominal. Testes moleculares confirmaram infecção por ranavírus como causa da morte Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

    Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade, monitoram a lagoa continuamente desde 1999 e também assinam o estudo. Durante o período reprodutivo, entre junho e fevereiro, a dupla conta diariamente as massas de ovos depositadas ao redor da lagoa. As fêmeas dobram folhas da vegetação sobre os ovos para protegê-los do ressecamento, e os girinos caem na água assim que eclodem.

    Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, logo após as mortandades, o número de massas de ovos ficou muito abaixo do registrado nos mesmos meses entre 1999 e 2004. Com base nesses dados, os pesquisadores calcularam o declínio populacional em 83%.

    Baixa umidade dispara risco de surto

    Nenhum fator ambiental isolado explicou as mortes ao longo dos anos. Mas os cientistas identificaram um salto abrupto no risco de surto quando a umidade cai de 90% para 65% nas duas semanas anteriores à mortandade.

    “Provavelmente, o vírus está presente no ambiente o tempo todo, sem causar doença, mas a baixa umidade pode fazer com que ele aumente a própria replicação e cause um surto. É sabido ainda que o sistema imune dos anfíbios pode ficar comprometido em baixas taxas de umidade, o que facilita a infecção”, sugere Fonseca.

    A redução do volume de água na lagoa também concentra os girinos em uma área menor, o que facilita a transmissão do vírus entre os animais.

    Pesquisadores vão investigar museus e áreas vizinhas

    A equipe segue monitorando a lagoa do Santuário Rã-Bugio e planeja coletar amostras em áreas próximas para verificar a prevalência do ranavírus na região.

    “Esse vírus também pode ser uma grande ameaça para a conservação dos anfíbios. Há mais de uma década estamos estudando o fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis) como causador de mortandades e extinções de anfíbios. Porém, este vírus, que já está espalhado pela Mata Atlântica, pode também estar fazendo o mesmo. Assim, precisamos aprofundar os estudos para entender o real perigo decorrente da presença do ranavírus”, diz Toledo, da Unicamp.

    O pesquisador destaca ainda a importância de examinar anfíbios preservados em museus de zoologia para entender o impacto histórico do ranavírus. Em um trabalho recente, seu grupo já havia detectado que o fungo quitrídio infectava anfíbios brasileiros desde 1916. Ou seja, antes mesmo da introdução da rã-touro no país, espécie até então apontada como a principal porta de entrada do fungo no Brasil.

    “Talvez o ranavírus também esteja aqui há muito tempo. Resta saber o que mudou para ele se tornar uma ameaça”, conclui Toledo.

    André Julião | Agência FAPESP

  • Jurada do MasterChef Brasil abre as portas de sítio vintage onde vive

    Jurada do MasterChef Brasil abre as portas de sítio vintage onde vive

    Acostumada ao ritmo intenso das cozinhas profissionais e das gravações do MasterChef Brasil, Helena Rizzo encontra a paz em um refúgio que pouca gente imagina. A chef mantém um sítio em Piracaia, no interior de São Paulo, cercado pela natureza e pensado para receber amigos e familiares.

    Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, Helena abriu as portas do refúgio rural e mostrou detalhes da propriedade. A casa preserva características da construção original e reúne móveis reaproveitados, objetos de valor afetivo, muita madeira e espaços integrados.

    E é claro, no centro de tudo está, como não poderia deixar de ser na casa de uma chef, uma grande cozinha.

    https://www.instagram.com/reel/DUEYkm2iQSj/?igsi=MTNnbnQzaGI2MTYyNQ==

    Helena Rizzo preservou estrutura original do sítio

    A residência já estava construída quando Helena adquiriu a propriedade. Durante a reforma, a jurada do MasterChef decidiu evitar grandes interferências na estrutura existente.

    “Quando eu comprei esse sítio, essa casa já existia e eu reformei, mas mantive as paredes existentes e não quebrei nada. Eu acho que um ambiente precisa ter a nossa cara, e para isso eu acho que ele tem que ser ir se compondo aos poucos. Eu gosto de ir sentindo a casa e habitando ela com objetos, com arte, conforme eu vou sentindo”, contou.

    Essa ideia acabou determinando a estética da residência. Em vez de montar todos os cômodos de uma só vez, Helena foi preenchendo os espaços aos poucos, incorporando objetos que já faziam parte de sua história.

    Cozinha é o coração da propriedade

    Entre todos os espaços, a cozinha ganhou protagonismo.

    Integrada às outras áreas sociais, ela permite que quem esteja cozinhando continue participando das conversas e da movimentação da residência.

    A escolha combina com a profissão de Helena, mas também com a proposta do sítio: ser um lugar onde amigos e familiares possam passar longos períodos juntos.

    A madeira aparece com frequência nos acabamentos e móveis. Até a geladeira recebeu um revestimento que a integra visualmente ao restante da cozinha, preservando o aspecto rústico do ambiente.

    Móveis de família ganharam novas funções

    Outra característica da casa é o reaproveitamento de móveis e materiais.

    Helena não comprou uma mobília completamente nova para decorar o sítio. Sofás, tapetes, luminárias e outros objetos que acompanharam diferentes momentos de sua vida encontraram novos lugares na propriedade.

    Entre as peças de maior valor sentimental está uma poltrona herdada da avó. O móvel foi renovado com tecidos trazidos de uma viagem ao Peru e passou a integrar a decoração da casa.

    Até materiais que sobraram da reforma foram aproveitados. Madeiras remanescentes da obra viraram prateleiras e um rack, reduzindo o desperdício e acrescentando novos elementos à decoração.

    “Mobiliei a casa do sítio praticamente com coisas que já tinha. Uma poltrona que era da minha avó, forrada com panos que trouxe do Peru, o sofá da casa antiga, tapetes que carreguei de outras mudanças, luminárias que nunca instalei. Fui levando tudo! As prateleiras e rack, fizemos com madeiras que sobraram da obra. E aos poucos, tudo foi se acomodando”, contou a famosa.

    Lareira gigante chama atenção na sala

    Se a cozinha ocupa o coração da casa, outro elemento rouba a atenção na sala.

    Uma grande lareira metálica preta em formato de cone ocupa posição de destaque no ambiente. Além do desenho marcante, ela é utilizada para aquecer a residência nos períodos mais frios.

    Ao redor dela, a proposta continua sendo incentivar a convivência.

    As janelas amplas permitem a entrada de iluminação natural e mantêm os espaços internos conectados visualmente à vegetação que cerca a propriedade.

    Helena mantém uma horta em seu sítio, onde planta e colhe hortaliças (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

    Quadros, discos de vinil e um toca-discos ajudam a completar a decoração.

    Onde fica o sítio de Helena Rizzo?

    O refúgio de Helena Rizzo fica em Piracaia, município do interior paulista localizado em uma região marcada pela presença de vegetação e represas.

    O sítio é cercado por vegetação de Mata Atlântica e funciona como um contraponto à rotina profissional da chef em São Paulo.

     

  • Avistamento de onças-pardas cresce na Bahia

    Avistamento de onças-pardas cresce na Bahia

    A Reserva Ecológica Michelin (REM), no sul da Bahia, registrou o maior número de avistamentos de suçuaranas desde o início do monitoramento em 2018. No último mês, câmeras captaram 49 registros em vídeo do felino, também conhecido como onça-parda, indicando avanço consistente na recuperação da biodiversidade local.

    Considerada quase ameaçada no Brasil, a suçuarana ocupa o topo da cadeia alimentar e atua como indicador-chave da saúde ambiental. A presença frequente do predador revela equilíbrio ecológico e qualidade do habitat na área protegida.

    Os dados mostram que ao menos cinco indivíduos utilizam atualmente a reserva, que possui cerca de 4 mil hectares. Entre eles, três machos e duas fêmeas. A concentração de animais em uma área relativamente limitada reforça a eficácia das ações de conservação e restauração da Mata Atlântica conduzidas pela REM.

    Segundo Kevin Flesher, diretor da Reserva Ecológica Michelin, o resultado reflete mais de duas décadas de trabalho contínuo. “Esse recorde mostra que o ecossistema funciona como deveria. Ele confirma que as ações de proteção e restauração da Mata Atlântica criam condições reais para a biodiversidade prosperar”, afirma.

    Criada em 2004, a Reserva Ecológica Michelin protege quase 4 mil hectares de Mata Atlântica no sul da Bahia. A iniciativa atua com base em seis pilares: proteção, restauração, pesquisa, ecoturismo, educação ambiental e empoderamento feminino.

    Desde a fundação, a reserva reduziu em 96% a pressão de caça na região e ampliou em 117% a abundância de fauna silvestre. O projeto também expandiu as áreas ocupadas por diferentes espécies e contribuiu para a conservação de animais criticamente ameaçados.

  • Tipo de lavoura define quais mamíferos sobrevivem na Mata Atlântica

    Tipo de lavoura define quais mamíferos sobrevivem na Mata Atlântica

    Pesquisadores da Unesp, em colaboração com universidades da Espanha e do Reino Unido, identificaram que plantações de eucalipto abrigam maior diversidade de pequenos mamíferos do que culturas de ciclo curto, como soja e milho. O estudo foi publicado na revista Agriculture, Ecosystems & Environment. E aponta que a estabilidade da paisagem ao longo do tempo é o fator decisivo para a presença desses animais em áreas agrícolas da Mata Atlântica.

    Cuíca de três listras
    Cuíca de três listras. Foto: Viviane Brito Dias

    A pesquisa ocorreu no Corredor Cantareira-Mantiqueira, região de grande importância ecológica que conecta remanescentes da Mata Atlântica no nordeste do estado de São Paulo e ao sul de Minas Gerais. Os pesquisadores instalaram armadilhas em 63 locais distintos. Foram 35 em áreas florestais, 16 em pastagens, 6 em áreas agrícolas e 6 em eucaliptais. E capturaram 21 espécies de marsupiais e roedores de pequeno porte, entre cuícas, ratos-do-mato e gambás-de-orelha-preta.

    Satélites revelam o ritmo oculto das lavouras

    Para entender como cada tipo de uso do solo afeta a fauna, a equipe combinou os dados de captura com mapas de cobertura do solo e com índices de vegetação obtidos a partir de imagens de satélite. Essa combinação trouxe uma dimensão até então pouco explorada nos estudos de distribuição de fauna no bioma: a variação temporal das culturas ao longo do ano.

    Os índices de vegetação traduzem em dados quantitativos a luz absorvida ou refletida pelas plantas, revelando informações como saúde, produtividade e composição das lavouras. “Os índices de vegetação conseguem mostrar, por exemplo, o quão produtiva está uma vegetação, se elas são formadas por espécies parecidas ou diferentes, ou como esses espaços variaram ao longo do ano”, explica Viviane Brito Dias, bióloga e pesquisadora principal do artigo, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp no câmpus de São José do Rio Preto.

    Dias destaca que os mapas de uso e ocupação do solo, embora fundamentais, não capturam aspectos críticos para a biodiversidade, como a frequência com que a paisagem muda entre um ciclo de colheita e outro, ou a diferença qualitativa entre um pasto bem conservado e uma pastagem degradada. A análise temporal preencheu exatamente essa lacuna.

    Instabilidade afasta, eucalipto atrai

    Os resultados mostram uma relação direta entre a estabilidade da paisagem e a presença de pequenos mamíferos. “As áreas de mosaico, marcadas pela mudança constante do uso do solo, influenciaram de forma negativa, reduzindo a presença de pequenas espécies”, afirma Dias. O efeito contrário apareceu nos eucaliptais. Com ciclos que variam entre seis e nove anos, essas plantações oferecem estabilidade suficiente para atrair e manter uma diversidade maior de espécies.

    Brucepatersonius nebulosus, espécie, ainda pouco estudada e com escassos registros de captura, foi observado em áreas de silvicultura
    Brucepatersonius nebulosus, um dos indivíduos capturados no trabalho. A espécie, ainda pouco estudada e com escassos registros de captura, foi observado em áreas de silvicultura. Foto: Viviane Brito Dias

    A surpresa veio com a qualidade das espécies encontradas nessas áreas. “Nas áreas de eucalipto encontramos inclusive espécies endêmicas da Mata Atlântica, com poucos registros na literatura. Cuícas de solo terrestre, vulneráveis, que nós esperávamos encontrar apenas em áreas florestais. Isso nos surpreendeu”, destaca a pesquisadora.

    Os pequenos jardineiros da floresta

    Com peso médio de 100 gramas e máximo de dois quilos, esses animais vivem entre o solo e o dossel das árvores. Dependendo diretamente dos recursos imediatos ao seu redor. Roedores terrestres e escansoriais, que se deslocam tanto no chão quanto nos galhos,dependem de uma camada intermediária de vegetação e da serrapilheira para se alimentar e se camuflar.

    Qualquer alteração brusca da paisagem os afeta de imediato. “Se a paisagem muda muito, isso afeta imediatamente essas espécies”, ressalta Dias. Ao contrário de aves ou grandes mamíferos, esses roedores não têm capacidade de voar ou percorrer longas distâncias em busca de novos habitats.

    O papel ecológico desses animais vai além de ser presa para carnívoros. Ao se alimentar de frutos e sementes, eles funcionam como agentes ativos da regeneração florestal, regulando quais plantas germinam e evitando que certas espécies dominem o ambiente. Portanto, um serviço ecossistêmico essencial para a integridade da Mata Atlântica.

    Produção e conservação no mesmo território

    A pesquisa integra o projeto de longa duração Biodiversidade e serviços associados: PELD Corredor Cantareira-Mantiqueira, financiado pela Fapesp, que investiga como as paisagens florestais, agrícolas e urbanas influenciam a distribuição de fauna e flora e os processos ecossistêmicos da região.

    Uma cuica em uma arvore
    cuíca (Gracilinanus microtarsus), é um marsupial florestal arborícola de pequeno porte capturado durante a pesquisa. Foto: Viviane Brito Dias

    Para Dias, os resultados abrem caminhos práticos para o manejo agrícola com foco na conservação. A pesquisadora ressalta que, embora o eucalipto ofereça condições favoráveis agora, ainda não se sabe o que ocorre com a fauna depois do corte, ao final de um ciclo de nove anos. Mesmo assim, o trabalho já indica que é possível intercalar culturas mais estáveis com outras perenes para ampliar o número de espécies que compartilham o espaço com a produção agrícola.

    Assim, no estado de São Paulo, onde pastagens degradadas convertem-se rapidamente em áreas agrícolas, compreender esses impactos torna-se urgente. “Esse trabalho busca colaborar para que a gente consiga encontrar formas de equilibrar a necessidade de produção humana com a persistência das espécies. Que também nos prestam serviços ecossistêmicos”, conclui Dias.

  • Tarântulas brasileiras raras entram na mira do tráfico por aparência “de joia”

    Tarântulas brasileiras raras entram na mira do tráfico por aparência “de joia”

    As tarântulas do gênero Typhochlaena vivem grande parte da vida escondidas em árvores, porém a aparência exótica dessas aranhas tem despertado o interesse do mercado internacional de animais raros. Com cores metálicas que lembram joias, elas passaram a ser alvo constante de colecionadores e traficantes de animais exóticos.

    Além da beleza incomum, a raridade dessas espécies aumentou ainda mais a procura ilegal. Pesquisas apontam que o comércio internacional de pets exóticos se tornou um dos principais fatores responsáveis pela captura clandestina de espécies raras no Brasil.

    Aranhas que parecem “joias” são alvo de crimes — (Foto: jungledweller / iNaturalist)

    O gênero Typhochlaena possui apenas cinco espécies conhecidas, todas endêmicas do território brasileiro. Além disso, elas apresentam uma distribuição geográfica extremamente limitada. Em estudo publicado na revista científica ZooKeys, pesquisadores descreveram essas aranhas como pequenas caranguejeiras arborícolas com cores marcantes no abdômen e padrões considerados únicos.

    Segundo especialistas, a popularidade dessas aranhas representa um risco significativo para populações naturais já bastante reduzidas.

    Espécie criticamente ameaçada preocupa pesquisadores

    Entre os exemplos mais preocupantes está a Typhochlaena curumim, encontrada em remanescentes da Mata Atlântica do Nordeste brasileiro.

    Inicialmente, a espécie era conhecida apenas por três fêmeas coletadas sob cascas soltas de árvores na Paraíba. Posteriormente, novas expedições científicas localizaram outros exemplares nos estados do Ceará e do Rio Grande do Norte.

    Ainda assim, o conhecimento sobre a distribuição da espécie continua extremamente limitado. Por isso, ela foi classificada como criticamente ameaçada na lista brasileira de espécies ameaçadas de extinção.

    Registro de uma Caranguejeira-Joia-Brasileira (Typhochlaena seladonia) — (Foto: vsmjr / iNaturalist)

    Pesquisadores destacam que espécies com área de ocorrência restrita se tornam mais vulneráveis à coleta ilegal. “A presença de uma espécie no comércio pode afetar populações naturais, especialmente quando se trata de espécies com distribuição limitada que atraem demanda internacional”, alertaram os autores do estudo.

    Além disso, os cientistas reforçaram que muitas espécies são descritas a partir de poucos exemplares encontrados em um único local. Dessa forma, ainda é difícil estimar o tamanho real das populações existentes na natureza.

    Mercado ilegal cresce com facilidade de transporte

    A crescente demanda por tarântulas brasileiras também impulsiona o mercado clandestino internacional. Isso acontece porque esses animais podem ser transportados com facilidade para outros países.

    De acordo com os pesquisadores, as aranhas costumam ser enviadas em pequenas encomendas, muitas vezes sem qualquer identificação. Esse método é conhecido como brown-boxing, estratégia utilizada para despachar discretamente espécies capturadas na natureza até comerciantes estrangeiros.

    Muitos exemplares acabam comercializados na Europa e na América do Norte. “Uma vez fora do país, muitos espécimes brasileiros de tarântulas são vendidos no comércio de animais de estimação”, registrou o estudo científico.

    Outro fator que dificulta o combate ao tráfico é a diferença entre legislações internacionais. No Brasil, a coleta e comercialização dessas espécies são proibidas. Entretanto, alguns países ainda permitem a compra de animais exóticos sem grandes restrições.

    Tráfico de animais movimenta bilhões no mundo

    Segundo dados divulgados, o tráfico de animais silvestres está entre as atividades ilegais mais lucrativas do planeta. Relatórios da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS) indicam que o setor movimenta bilhões de dólares todos os anos e envolve organizações criminosas internacionais.

    Diante do crescimento desse mercado ilegal, pesquisadores buscam ampliar o conhecimento sobre a biologia das tarântulas brasileiras para criar medidas mais eficientes de conservação.

    Uma das propostas defendidas pelos especialistas é incluir o gênero Typhochlaena em acordos internacionais de proteção. Além disso, os cientistas sugerem inserir essas espécies na Lista Vermelha global da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), medida que poderia aumentar a atenção das autoridades internacionais para o problema.

  • Agricultores descobrem que o fruto da juçara vale mais do que o palmito ilegal

    Agricultores descobrem que o fruto da juçara vale mais do que o palmito ilegal

    Pequeno, roxo e nutritivo, o fruto da palmeira juçara (Euterpe edulis) conquista espaço crescente na gastronomia brasileira e desponta como alternativa econômica sustentável no litoral do Paraná. Historicamente devastada pelo corte ilegal para extração do palmito, a espécie, ameaçada de extinção, encontra no aproveitamento do seu fruto uma nova forma de protagonismo: gerar renda para agricultores familiares sem derrubar uma única árvore.

    O movimento ganha força com o projeto Paisagens Multifuncionais da Grande Reserva Mata Atlântica, conduzido pela SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) e financiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP). A iniciativa promove o uso sustentável da juçara no território da Grande Reserva da Mata Atlântica (GRMA), bioma do qual resta pouco mais de 7% da cobertura original, parte significativa localizada justamente no litoral paranaense.

    “O fruto da juçara tem potencial de se tornar o principal produto da bioeconomia do litoral paranaense”, afirma Rodrigo Condé, coordenador de projetos da SPVS. Segundo ele, a versatilidade e a disponibilidade da espécie na região permitem integrá-la a sistemas agroflorestais, reduzindo a pressão pelo corte ilegal, sua principal ameaça.

    De sorvete a drink espumante: a juçara chega às cozinhas criativas

    Na gastronomia, o fruto aparece em preparos que vão de bolos, pães e sorvetes a molhos, pratos com peixe e bebidas sofisticadas. A coloração intensa e o sabor marcante diferenciam os produtos e ampliam o apelo comercial.

    O barista e influenciador digital Léo Oliva é um dos que experimenta a juçara em drinks para comercialização. “Por ter muitas antocianinas e taninos, a juçara me remete ao vinho. Tentei trazer essa referência com uma acidez diferente, semelhante à de um espumante, dentro de uma soda de juçara”, explica.

    Em Antonina, a empresária Maristela Mendes, fundadora da Bananina, produtora de balas tradicionais de banana, acaba de lançar uma versão com juçara. “Buscamos valorizar a juçara, que é típica da região e traz sabor e tonalidade roxa. O que agrega valor e contribui para incluir pequenos agricultores familiares”, diz ela, que aceitou o convite da SPVS para desenvolver o produto.

    Preservar compensa mais do que cortar

    A lógica econômica favorece a conservação. Enquanto o corte ilegal da palmeira para extração do palmito rende cerca de R$ 10 ao extrativista e ainda exige mais de oito anos para a espécie se regenerar, a venda da polpa do fruto pode atingir R$ 40 o quilo, com ganhos recorrentes a cada safra.

    “Não compensa cortar a palmeira, compensa preservá-la e coletar o fruto para comercialização”, resume Antonio Ozaki, o Tiba, da Cooperativa dos Pequenos Produtores Rurais de Antonina (ASPRAN), pioneira na despolpa da juçara no Paraná.

    Phablo Bittencourt, do Instituto Juçara, parceiro da SPVS na região desde 2012, reforça a vantagem do modelo. “Ao trabalhar somente com o fruto, além de manter a planta em pé, é possível explorá-la por anos após a frutificação. Assim, gerando renda de forma regular, sem riscos e com retorno muito superior”, explica.

    Cada palmeira produz, em média, até 3,5 kg de frutos por safra, podendo ultrapassar 10 kg em alguns casos. A coleta acontece de forma artesanal entre março e maio, e o processamento da polpa exige rapidez para preservar a qualidade.

    Cozinha laboratório impulsiona cadeia produtiva local

    O fortalecimento da cadeia produtiva da juçara já gera infraestrutura concreta na região. O BLP financia a criação de uma cozinha laboratório em Antonina dedicada a estudos e treinamentos com frutas nativas. Portanto, ampliando as oportunidades para agricultores familiares do litoral paranaense.

    “Essa cozinha está se moldando para ser um espaço coletivo e comunitário para a juçara, que oferece um alimento riquíssimo”, comenta Rayen Mourão, agrofloresteira e moradora de Morretes, integrante do Coletivo de Convivências Agroecológicas do Litoral Paranaense (CCA) e participante do projeto de agroflorestas BioSAF, em parceria com a SPVS.

  • Como o cacau cabruca pode salvar a Mata Atlântica  e triplicar a renda de 3 mil famílias

    Como o cacau cabruca pode salvar a Mata Atlântica  e triplicar a renda de 3 mil famílias

    Um bioma que já perdeu 87,6% de sua cobertura original acaba de ganhar um reforço estratégico de escala global. Ilhéus, no sul da Bahia, sediou o lançamento do projeto “Conservação da Mata Atlântica por meio do manejo sustentável das paisagens agroflorestais cacaueiras”. A iniciativa aposta no cultivo tradicional do cacau cabruca para frear o desmatamento, restaurar a biodiversidade e melhorar a renda de milhares de famílias produtoras.

    Foto: FAO no Brasil/Divulgação

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), executa o projeto com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) financia a iniciativa, e a Sitawi Finanças do Bem atua como parceira operacional.

    O que é o sistema cabruca e por que ele importa

    A cabruca é uma técnica secular de cultivo do cacau sob o dossel de árvores nativas da Mata Atlântica. Em vez de desmatar para plantar, o produtor mantém a floresta em pé e introduz o cacaueiro à sua sombra. O resultado é um sistema que forma corredores biológicos, regula o ciclo hídrico local e aumenta a resiliência ecológica da região. Tudo isso enquanto gera renda.

    “A Mata Atlântica é um bioma de importância mundial. O projeto será um exemplo notável de conservação produtiva, onde a agricultura sustentável coexiste com a preservação de espécies nativas e endêmicas”, afirma Jorge Meza, representante da FAO no Brasil.

    Metas ambiciosas: floresta, clima e economia

    O projeto estabelece objetivos concretos para os próximos anos: restaurar 12.000 hectares de cacau em sistema cabruca; melhorar a gestão de mais de 203 mil hectares de áreas protegidas, incluindo as APAs Pratigi e Baía de Camamu; e mitigar 3,72 milhões de toneladas de gases de efeito estufa.

    Imagem gerada por IA

    No campo econômico, a iniciativa quer triplicar a produtividade média do cacau cabruca e elevar em 30% a renda das famílias beneficiárias, por meio de assistência técnica e acesso a mercados de cacau premium.

    Três mil produtores organizados nos consórcios CIAPRA, CIMA e CDS-LS participam do projeto. O compromisso é que ao menos 50% dos beneficiários sejam mulheres e jovens.

    Tecnologia, governança e formação

    Além das ações de campo, o projeto propõe revisão de marcos legais e novos mecanismos de política pública para o manejo sustentável em uma escala de 1,6 milhão de hectares. Garantindo ao produtor rural retorno econômico sem abrir mão da conservação florestal.

    Entre as inovações planejadas estão o uso de blockchain para rastreabilidade total do cacau, a criação da Escola do Cacau para formação de técnicos e produtores, e um Centro de Inteligência Territorial (CIT) para monitoramento da paisagem e da biodiversidade em tempo real. Os produtores também ganham acesso a um modelo de crédito rural sustentável, o CRA Sustentável, e a redes de comercialização nacionais e internacionais.

    “O que estamos lançando na Bahia vai além de um projeto ambiental ou produtivo. É um modelo concreto de inovação no campo”, diz Thiago Guedes, diretor da Ceplac. “Estamos posicionando a cacauicultura agroflorestal como um ativo estratégico para o futuro da agricultura mundial.”

    Para quem vive da terra, o significado é direto. “Trazer o processo de transição agroecológica para esse espaço de produção permite produzir uma amêndoa de cacau melhor, com mais qualidade, agregando valor ao produto para que as famílias possam melhorar sua qualidade de vida”, conta Luciano Ferreira, assentado da reforma agrária e produtor de cacau.

  • Búfalos destroem o solo do Vale do Ribeira e ameaçam a Mata Atlântica

    Búfalos destroem o solo do Vale do Ribeira e ameaçam a Mata Atlântica

    O Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, carrega dois títulos relevantes: é um dos maiores polos produtores de banana do Brasil e abriga os maiores remanescentes de Mata Atlântica do país. Agora, uma pesquisa da Unesp publicada na revista Geoderma Regional revela que a criação de búfalos na região ameaça os dois patrimônios ao mesmo tempo.

    A bubalinocultura chegou ao Vale do Ribeira na década de 1960, aproveitando os terrenos alagados e o clima úmido da região. Hoje, segundo o IBGE, São Paulo concentra o maior rebanho bubalino fora do Norte do Brasil, 118.824 cabeças , e aproximadamente 53% desses animais ficam no Vale do Ribeira. A atividade movimenta a economia local com a venda de leite e carne, mas o manejo inadequado gera um problema crescente: a destruição do solo.

    O peso do problema

    Cada búfalo adulto pode atingir 1,70 m de altura e pesar mais de 800 kg. Apoiado em quatro patas, o animal exerce uma pressão de contato em movimento de até 408 kPa (quilopascal). È um valor superior ao de máquinas agrícolas, já que toda a força se concentra em apenas quatro pontos de contato com o chão.

    O resultado é a compactação do solo. O pisoteio contínuo eleva a densidade e a resistência à penetração do terreno, que frequentemente ultrapassa o limite crítico de 2 a 3 MPa (megapascals). Acima desse limite, as raízes das plantas não conseguem se expandir, o que compromete o crescimento das culturas e a absorção de água e nutrientes.

    A degradação não para por aí. O solo compactado bloqueia a infiltração de água, agrava o encharcamento superficial e acelera a erosão. A diferença é expressiva: áreas de vegetação nativa absorvem entre 92% e 95% mais água do que terrenos danificados pelo pisoteio dos búfalos.

    Da fazenda para a floresta

    O estudo aconteceu em uma fazenda próxima ao rio Ribeira de Iguape, área de solo bastante argiloso. Conforme a água infiltra, o terreno perde resistência mecânica e fica mais maleável, o que intensifica ainda mais a compactação. Rodrigo Batista Pinto, primeiro autor da pesquisa e mestre em agronomia pela Unesp, observou animais que permaneciam até 21 dias seguidos na mesma área de pastagem durante o verão, prática que considera inadequada.

    O impacto direto para o agronegócio é a perda de produtividade agrícola. Mas o problema tem uma consequência mais ampla: fazendeiros com terras degradadas abrem novas áreas de cultivo e pastoreio, pressionando a Mata Atlântica nativa. Desde 1999, o Vale do Ribeira integra o Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco e reúne um mosaico de unidades de conservação, incluindo o PETAR e o Parque Estadual da Ilha do Cardoso.

    A solução já existe

    Pinto defende a bubalinocultura, mas cobra mudanças no manejo. A saída, segundo ele, é a rotação de pastagens: fazer os búfalos circularem com mais frequência entre diferentes áreas, reduzindo o tempo de permanência em cada espaço.

    “Com uma rotação bem planejada, o solo tem tempo para se recuperar, a compactação diminui e a vegetação se regenera”, afirma o pesquisador. A medida beneficia o produtor que preserva a produtividade da terra e o meio ambiente, ao reduzir a pressão sobre as reservas florestais da região.

  • Conheça a Quaresmeira: árvore simbólica e paisagística

    Conheça a Quaresmeira: árvore simbólica e paisagística

    O nome científico dessa árvore que apresenta altura entre 8 e 12 metros, troncos robustos
    e ramos quadrangulares é “Tibouchina granulosa”. Espécie que pode viver até cerca de 70
    anos, cujas floradas entre janeiro e abril, agosto a outubro, são inconfundíveis pela cor roxa
    atraente ao paisagismo.

    Foto: Eduardo Kataoka/Flickr

    Originária da mata atlântica, a Quaresmeira também nasce no Cerrado e em regiões do sul
    brasileiro, sobretudo se estas apresentarem temperaturas moderadas. Seus frutos são
    secos e pequenos, facilmente dispersos pelo vento. As folhas, de cor viva e nervuras
    definidas, contrastam com o roxo marcante das flores. É uma árvore prática e ornamental
    que pode ser cultivada com simplicidade, desde que encontre solo fértil ou seja enriquecida
    com nutrientes orgânicos.

    A beleza tem delicadezas. Os galhos da Quaresmeira podem ser facilmente quebrados,
    sobretudo em períodos de vento. Sua madeira é leve, portanto, adequada às pequenas
    confecções.

    O simbolismo da Quaresmeira

    O próprio nome e o tempo da floração indicam o simbolismo. A Quaresmeira é a árvore cuja
    florada coincide com o período da Quaresma, simbolizado pela cor roxa.

    A Quaresma é um período de quarenta dias da tradição cristã católica, cuja origem remonta
    ao século IV. É o tempo de recolhimento e meditação que conduz às celebrações da Paixão
    e Morte de Jesus, antes de proclamar a maior solenidade da Igreja: a Páscoa. Mas tal como
    o tempo da natureza, esse tempo ritual também encontra suas as floradas. Após o roxo
    quaresmal reflexivo, a cor predominante, entre abril e junho, será o dourado e o branco
    associados à alegria pascal.

    Vale lembrar que essa associação simbólica entre a Quaresmeira e o tempo ritual é cultural,
    ou seja, cultivada pela sociedade. O brasileiro com a sua herança religiosa, em algum
    momento, aproximou uma realidade à outra.

    Foto: Livia/Flickr

    Esta é uma das características da relação entre a natureza e o homem, que a ela atribui
    sentidos, narrativas e significados. As cores transformam-se em símbolos; eventos naturais
    viram lendas; e a riqueza da terra é convertida em memória e tradição. “A natureza, mãe
    bem atentada, um porto tão quieto, e tão seguro…” recordava um verso barroco.

  • Do fruto à inovação: jatobá vira farinha, licor e pomada cicatrizante

    Do fruto à inovação: jatobá vira farinha, licor e pomada cicatrizante

    Pesquisadores brasileiros estão impulsionando o uso do jatobá, fruto nativo de casca dura presente em cinco biomas; Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga. Tradicionalmente conhecido pelo uso de sua madeira, o jatobá começa a se firmar como uma planta alimentícia não convencional (PANC) de alto potencial econômico e sustentável.

    O Projeto Jatobá, conduzido pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Tupã e coordenado pela geógrafa Izabel Castanha Gil, tem como principal meta organizar e valorizar a cadeia produtiva do fruto. “Mapeamos os pontos de coleta em cerca de 30 municípios paulistas e trabalhamos com grupos indígenas do Mato Grosso, que já utilizam o jatobá tradicionalmente. Também articulamos ações de reflorestamento com a espécie”, explica Izabel.

    A iniciativa reúne parcerias com universidades e instituições como o Sebrae, Fatec Marília, Embrapii e Cati-SP. O objetivo é unir pesquisa, inovação e capacitação para transformar o jatobá em fonte de renda e conservação ambiental.

    Entre os produtos desenvolvidos estão farinha de jatobá (já usada na merenda escolar), vinagres feitos da casca, creme com cacau e amendoim, mistura para bolo instantâneo, licor e xarope. Segundo Izabel, o próximo desafio é encontrar parceiros que garantam escala de produção.

    Na área de panificação, a Fatec Marília criou um fermento natural à base da seiva do jatobá, rico em cálcio, ferro, magnésio e fibras, e totalmente livre de glúten. No Oeste paulista, o município de Adamantina foi reconhecido em 2025 como Cadeia Produtiva Local (CPL) do jatobá, o que possibilita novos incentivos para produtores e empreendedores.

    Até queijo

    A inovação também chega aos laticínios. Uma queijaria local desenvolveu queijo trufado com creme de jatobá, cacau e amendoim. Além de queijo curado em licor de jatobá, resultado de parcerias com o projeto.

    Pesquisadores de Porto Alegre colaboram com o desenvolvimento de um larvicida natural contra o Aedes aegypti, feito a partir da resina do jatobá, atualmente em fase de testes de campo. A mesma resina é base para uma pomada cicatrizante que passa por estudos bioquímicos avançados. “A produção ainda é experimental, mas a demanda crescente já mobiliza comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul”, destaca Izabel.

    Ele também integra programas de reflorestamento e compensação ambiental, com potencial para gerar créditos de carbono. Mais de 20 mil mudas já foram plantadas em propriedades privadas e áreas públicas da região.

    Árvore de jatobá. Foto: Wilson Fortunato/Flickr

    A árvore leva de 10 a 12 anos para frutificar. Mas depois disso, pode produzir até 200 quilos de frutos a cada dois anos, mantendo a produtividade por mais de um século. Com tanto potencial, o jatobá se firma como símbolo de sustentabilidade, inovação e valorização da biodiversidade brasileira.