A cientista brasileira Mariângela Hungria entrou, em 2026, para a lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time, na categoria Pioneiros, consolidando uma trajetória que já vinha sendo reconhecida internacionalmente.
Esse destaque chega pouco tempo depois de um marco histórico. Em 2025, ela se tornou a primeira brasileira a receber o Prêmio Mundial da Alimentação, conhecido como o “Nobel da Agricultura”, uma das mais importantes honrarias globais na área.
Ao longo de mais de quatro décadas de carreira na Embrapa, a pesquisadora saiu do ambiente acadêmico para se tornar uma referência mundial em agricultura sustentável, com impacto direto na forma como alimentos são produzidos no Brasil e no mundo.
Mariângela é engenheira agrônoma e microbiologista, com atuação consolidada na área de microbiologia do solo e insumos biológicos. Ao longo da carreira, ela concentrou seus estudos em soluções capazes de reduzir a dependência de fertilizantes químicos.
Seu principal legado está na comprovação de que microrganismos do solo, especialmente bactérias fixadoras de nitrogênio, podem substituir parte dos fertilizantes sintéticos sem comprometer a produtividade. Como resultado, essas tecnologias permitiram aumentar a eficiência agrícola ao mesmo tempo em que reduziram custos e impactos ambientais.
Além disso, suas soluções já são aplicadas em larga escala. Estima-se que estejam presentes em mais de 40 milhões de hectares no Brasil, gerando economia anual de até US$ 25 bilhões e evitando a emissão de mais de 230 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.
Esse avanço ajudou a transformar o país em uma potência agrícola mais sustentável. Na cultura da soja, por exemplo, o uso de inoculantes se tornou prática consolidada, mostrando como a ciência pode ser incorporada diretamente ao campo.
O Prêmio Mundial da Alimentação de 2025 reforçou essa trajetória. A premiação reconheceu suas contribuições para a fixação biológica de nitrogênio e para o desenvolvimento de insumos biológicos que aumentam a produtividade de forma acessível e sustentável em milhões de hectares.
O impacto do reconhecimento internacional no agronegócio
A entrada na lista Time100 em 2026 vai além de um título simbólico e representa um movimento mais amplo de valorização da ciência aplicada ao agro.
Por um lado, o reconhecimento amplia o debate sobre agricultura de baixo carbono e eficiência no uso de insumos. Por outro, reforça a importância de soluções que conciliam produtividade com redução de impactos ambientais.
Práticas como o uso de inoculantes, a rotação de culturas e o manejo biológico do solo tendem a ganhar ainda mais espaço. Além disso, investidores, empresas e formuladores de políticas públicas passam a olhar com mais atenção para modelos produtivos baseados em biologia e eficiência.
A própria trajetória da pesquisadora mostra que é possível produzir mais com menos dependência química. Ou seja, trata-se de uma mudança de lógica produtiva, que sai da intensificação baseada em insumos e avança para sistemas mais inteligentes e equilibrados.
O que o produtor pode tirar disso na prática?
Para quem está no campo, a mensagem é clara, mas também estratégica: o que hoje ainda é diferencial competitivo tende a se tornar padrão nos próximos anos.
Produtores que já utilizam inoculantes, adotam rotação de culturas e investem na saúde do solo estão, na prática, antecipando uma tendência global. Ao mesmo tempo, essas práticas deixam de ser apenas uma escolha técnica e passam a ter peso econômico e institucional.
Com o aumento da visibilidade internacional, cresce a chance de que cooperativas, programas de crédito e políticas públicas priorizem esse tipo de manejo. Assim, critérios ligados à sustentabilidade e eficiência produtiva devem ganhar espaço nas decisões do setor.
Além disso, o reconhecimento de Mariângela Hungria reforça uma ideia importante: o Brasil não precisa escolher entre produtividade e responsabilidade ambiental.
Pelo contrário, a ciência desenvolvida no país mostra que é possível unir os dois caminhos. Nesse cenário, o produtor brasileiro não apenas acompanha a transformação, mas tem potencial para liderar esse movimento em escala global.
Desde a safra 2015/2016, a Embrapa Soja e o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) acompanham em campo o uso da fixação biológica do nitrogênio (FBN) em lavouras comerciais de soja no estado. Em dez anos de validação, os pesquisadores registraram aumento médio de 8,33% na produtividade com a coinoculação de sementes, que combina dois ou mais microrganismos benéficos para potencializar a FBN.
Os resultados constam da publicação “Coinoculação da soja com Bradyrhizobium e Azospirillum na safra 2024/2025 no Paraná”, que reúne dados de Unidades de Referência Tecnológica (URTs) distribuídas em lavouras comerciais. O trabalho é assinado por André Mateus Prando, Arnold Barbosa de Oliveira, Divania de Lima, Edison Ulisses Ramos Júnior, Edivan José Possamai, Eliana Aparecida Reis, Marco Antonio Nogueira e Mariangela Hungria.
Segundo André Prando (Embrapa Soja) e Edivan Possamai (IDR-Paraná), as URTs permitiram testar a tecnologia em condições reais de produção e comprovaram que a inoculação e a coinoculação aumentam a produtividade e eliminam a necessidade de adubação nitrogenada mineral na cultura. Na avaliação dos pesquisadores, o pacote tecnológico garante mais rentabilidade ao produtor e benefícios ambientais para toda a sociedade.
A rede de URTs estruturada pelo IDR-Paraná com apoio da Embrapa levou a inoculação com bactérias do gênero Bradyrhizobium ao protocolo de validação de tecnologias na safra 2015/2016. A partir da safra 2017/2018, o grupo passou a validar também a coinoculação com Azospirillum, bactéria promotora de crescimento de plantas que atua em sinergia com o Bradyrhizobium para elevar o rendimento da soja.
Na safra 2024/2025, a equipe coletou dados em 22 URTs instaladas em lavouras comerciais de 17 municípios paranaenses, em diferentes regiões do estado. Essas áreas representam diversos tipos de solo, clima, sistemas de cultivo, culturas antecessoras (como milho segunda safra, trigo, aveia e azevém), épocas de semeadura e níveis tecnológicos, o que torna os resultados um retrato fiel da realidade produtiva.
O levantamento de Embrapa Soja e IDR-Paraná mostra que as áreas coinoculadas produziram, em média, 3.916 kg/ha de grãos, contra 3.615 kg/ha nas áreas sem inoculação. Nas URTs com coinoculação, a produtividade superou a média do Paraná (3.663 kg/ha) e a média nacional (3.561 kg/ha) da safra 2024/2025, segundo dados da Conab.
Adoção cresce entre produtores paranaenses
Na média estadual, 64% dos produtores consultados declararam utilizar algum tipo de inoculante na soja na safra 2024/2025. A coinoculação com Bradyrhizobium e Azospirillum alcançou 28% das áreas de soja no estado, conforme pesquisa de mercado da ANPII Bio em parceria com a Kynetec.
Adoção de inoculantes em soja no PR promove aumento médio de 8,33% na produtividade. Foto: Antonio Neto/Embrapa
Pesquisas da Embrapa Soja conduzidas por Mariangela Hungria e Marco Antonio Nogueira mostram que a inoculação anual com Bradyrhizobium garante altos tetos produtivos, mesmo em áreas tradicionais, sem necessidade de fertilizante nitrogenado. A partir da safra 2013/2014, a Embrapa passou a recomendar a coinoculação, que associa duas estirpes de Azospirillum brasilense (Ab-V5 e Ab-V6) às bactérias Bradyrhizobium.
Segundo Hungria, plantas coinoculadas apresentam nodulação mais precoce e abundante, o que amplia os ganhos obtidos em relação à inoculação apenas com Bradyrhizobium. O desempenho observado nas URTs confirma o potencial da tecnologia para aumentar a eficiência do uso de bioinsumos na soja paranaense.
Impacto nacional: economia bilionária e menor emissão de CO2
No Brasil, cerca de 85% dos 47 milhões de hectares de soja já utilizam inoculação anual com bactérias fixadoras de nitrogênio. A coinoculação cresce de forma acelerada e já alcança aproximadamente 35% das áreas cultivadas, de acordo com ANPII Bio/Kynetec.
Em 2024, a inoculação e a coinoculação, que dispensam o uso de fertilizantes nitrogenados, geraram economia estimada em US$ 25 bilhões para os sojicultores. No mesmo ano, o uso dessas bactérias evitou a emissão de mais de 260 milhões de toneladas de CO2 equivalente, reforçando o papel dos bioinsumos na descarbonização da agricultura brasileira.
FBN sustenta competitividade da soja brasileira
A fixação biológica do nitrogênio é um dos pilares de sustentabilidade do sistema produtivo da soja no país, já que a cultura demanda cerca de 80 kg de N por tonelada de grãos colhida. Ao suprir esse nutriente via bactérias, o produtor reduz despesas com adubo nitrogenado e aumenta a competitividade da soja no mercado internacional.
A inoculação e a coinoculação da soja no Brasil promovem uma economia estimada em 25 bilhões de dólares. Foto: Antonio Neto/Embrapa
De acordo com André Prando, a FBN ocorre a partir da simbiose entre bactérias do gênero Bradyrhizobium e as plantas de soja, que formam nódulos nas raízes. As plantas hospedam e nutrem as bactérias, que em troca capturam o nitrogênio atmosférico, convertem o N2 em amônia pela ação da enzima nitrogenase e entregam compostos nitrogenados para o desenvolvimento da cultura.
A Embrapa ressalta que a inoculação é indispensável em áreas de primeiro ano de soja ou em regiões que ficaram muito tempo sem a cultura, onde as populações naturais de bactérias fixadoras são baixas ou inexistentes. Mesmo em áreas consolidadas, a recomendação é inocular a cada safra, via sementes ou no sulco de semeadura, porque a prática incrementa a nodulação e o rendimento da lavoura, como demonstram diversos estudos de campo.
O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, entregou nesta quarta-feira (5) a Medalha de Mérito Apolônio Salles à pesquisadora da Embrapa Soja Mariangela Hungria. A cerimônia aconteceu no auditório Olacyr de Moraes, no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em Brasília, e reconheceu mais de 40 anos de dedicação da cientista à agricultura sustentável.
A honraria destaca a relevância científica e o impacto social da trajetória de Hungria, que revolucionou o uso de insumos biológicos na agricultura brasileira. Suas pesquisas consolidaram o Brasil como referência mundial em tecnologias sustentáveis de produção de alimentos.
Durante a solenidade, Fávaro enfatizou que a homenagem simboliza um reconhecimento à própria Embrapa e à excelência da ciência pública brasileira. “A Embrapa é orgulho do Brasil e referência mundial. Em todas as agendas internacionais, todos querem parceria com a Embrapa. Esta medalha entregue à Mariangela representa também 52 anos de história da instituição”, afirmou o ministro.
Fávaro anunciou ainda que esta será a única entrega da medalha durante seu mandato. “É uma homenagem verdadeira, de grandeza equivalente à grandeza da homenageada. O Brasil lidera hoje o avanço dos bioinsumos no mundo, e isso tem o dedo da Mariangela”, declarou.
Reconhecimento tem valor especial para cientista
Ao agradecer a homenagem, Hungria destacou o significado especial de receber o reconhecimento da própria instituição. “Eu sempre digo que considero a Embrapa o braço de ciência e tecnologia do Mapa, então sempre me senti muito à vontade aqui. Ser reconhecida dentro da nossa própria casa tem um valor imenso”, afirmou.
Foto: Percio Campos/Mapa
A pesquisadora dedicou o prêmio aos colegas, estudantes e pesquisadores que acreditaram no potencial dos biológicos para transformar a agricultura. “Esse prêmio não é meu, é de todos que trabalharam comigo. Dedico esta medalha às mulheres da ciência e da agricultura, muitas vezes invisíveis, mas essenciais para a segurança alimentar do país”, disse.
Primeira brasileira a vencer o “Nobel da Agricultura”
O Mapa entregou a medalha poucos dias após Hungria receber, em Des Moines, nos Estados Unidos, o World Food Prize 2025, considerado o “Nobel da Agricultura”. A cientista brasileira tornou-se a primeira mulher do país e a décima mulher no mundo a conquistar o prêmio desde sua criação. A premiação reconhece personalidades que contribuem de forma decisiva para a segurança alimentar global.
Formada em Engenharia Agronômica pela Esalq/USP, com mestrado em Solos e Nutrição de Plantas e doutorado em Ciência do Solo pela UFRRJ, Mariangela Hungria ingressou na Embrapa em 1982. Desde então, dedicou sua carreira à pesquisa em microbiologia do solo.
Descobertas geram impacto econômico e ambiental
As descobertas de Hungria impulsionaram o uso de microrganismos capazes de fixar nitrogênio e substituir fertilizantes químicos. As tecnologias desenvolvidas pela pesquisadora estão presentes em aproximadamente 85% da área de soja cultivada no Brasil, além de lavouras de feijão, milho, trigo e pastagens.
Os resultados geram ganhos econômicos, ambientais e tecnológicos significativos. Somente em 2024, a economia estimada ao dispensar o uso de fertilizantes nitrogenados chegou a US$ 25 bilhões. O uso dessas bactérias também mitigou a emissão de mais de 230 milhões de toneladas de CO₂ equivalentes para a atmosfera no mesmo ano.
Ciência pública transforma milhões de hectares
A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, destacou o simbolismo da conquista para a ciência brasileira. “Esta medalha repousa sobre os ombros da Mariangela, mas suas raízes estão fincadas em quatro décadas de pesquisa e milhões de hectares transformados. Ela mostrou ao Brasil e ao mundo que o solo não é só chão, é vida”, afirmou.
Massruhá, primeira mulher a presidir a Embrapa, celebrou o feito da primeira pesquisadora brasileira a integrar a lista do “Nobel da Agricultura”. “Com ciência pública e compromisso social, a Embrapa seguirá formando muitas outras Mariangelas”, declarou.
Há mais de 40 anos, Mariangela Hungria desenvolve inovações na área de microbiologia do solo, o que resultou no lançamento de mais de 30 tecnologias. Suas pesquisas focam no aumento da produção e na qualidade de alimentos por meio da substituição, total ou parcial, de fertilizantes químicos por microrganismos.
A inoculação anual da soja com Bradyrhizobium aumenta, em média, 8% a produção de grãos, mesmo em áreas que já receberam inoculantes antes. Altos rendimentos são alcançados sem nenhuma aplicação de fertilizante nitrogenado. Os produtores adotam a tecnologia em 85% da área cultivada com soja no Brasil.
Coinoculação expande benefícios
Outra tecnologia lançada pela pesquisadora, a coinoculação da soja, agrega bactérias fixadoras de nitrogênio (Bradyrhizobium) e bactérias promotoras de crescimento de plantas (Azospirillum brasilense). Em pouco mais de 10 anos, os agricultores já adotam a coinoculação em aproximadamente 35% da área total cultivada de soja.
A pesquisadora também coordena trabalhos que culminaram com o lançamento de outras tecnologias: autorização e recomendação de bactérias (rizóbios) e coinoculação para a cultura do feijoeiro, Azospirillum brasilense para as culturas do milho, trigo e pastagens com braquiárias.
Foto: Percio Campos/Mapa
Em 2021, sua equipe lançou uma tecnologia que permite a redução de 25% na fertilização nitrogenada de cobertura em milho por meio da inoculação com Azospirillum brasilense, gerando benefícios econômicos significativos para os agricultores e impactos ambientais positivos para o país.
Trajetória marcada por coerência e persistência
Nascida em 1958, em São Paulo, e criada em Itapetininga (SP), Mariangela desenvolveu desde a infância curiosidade pelos aspectos relacionados à terra, à água e ao ar. Sua busca por conhecimento a levou a cursar Engenharia Agronômica (Esalq/USP), mestrado em Solos e Nutrição de Plantas (Esalq/USP) e doutorado em Ciência do Solo (UFRRJ).
A pesquisadora cursou o doutorado na UFRRJ a convite de Johanna Döbereiner, cientista que revolucionou a agricultura tropical ao descobrir e aplicar a fixação biológica de nitrogênio em culturas agrícolas. Mariangela realizou a tese na Embrapa durante o período.
Em 1982, tornou-se pesquisadora da Embrapa Agrobiologia (Seropédica, RJ) e, desde 1991, atua na Embrapa Soja (Londrina, PR). A cientista acumula três pós-doutorados em universidades nos Estados Unidos e Espanha (Cornell University, University of California-Davis e Universidade de Sevilla).
Mariangela possui mais de 500 publicações científicas, documentos técnicos, livros e capítulos de livros. A pesquisadora já orientou mais de 200 alunos de graduação e pós-graduação.
“Sempre acreditei na vida no solo, nos microrganismos restaurando a fertilidade, em uma agricultura altamente produtiva que não prejudica o meio ambiente. Nunca me desviei nem um milímetro do que eu acreditava. Essa coerência — tanto na pesquisa quanto na minha postura — trouxe credibilidade científica e fortes conexões com o setor agrícola”, ressalta a pesquisadora.
Acúmulo de premiações e reconhecimentos
Mariangela integra a Ordem Nacional do Mérito Científico como comendadora e atua como membro titular da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e da Academia Mundial de Ciências. A cientista leciona e orienta na pós-graduação em Microbiologia e em Biotecnologia na Universidade Estadual de Londrina. Também participa da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo e da Sociedade Brasileira de Microbiologia.
Desde 2020, Mariangela figura entre os 100 mil cientistas mais influentes no mundo, de acordo com estudo da Universidade de Stanford (EUA). Em 2022, a pesquisadora ocupou a primeira posição brasileira, confirmada em 2025, em Fitotecnia e Agronomia e em Microbiologia, segundo lista publicada pelo Research.com.
A cientista já recebeu várias premiações pela sustentabilidade em agricultura, como os prêmios Frederico Menezes, Lenovo-Academia Mundial de Ciências, da Frente Parlamentar Agropecuária e da Fundação Bunge. Em 2025, recebeu o Prêmio Mulheres e Ciência, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Ministério das Mulheres, o British Council e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe.
Presença na lista TIME100 Climate 2025
Mariangela Hungria integra a lista TIME100 Climate 2025, que reconhece as 100 personalidades inovadoras e mais influentes do mundo na agenda climática. A cientista figura na categoria Defenders (Defensores – Impulsionando ações em prol das comunidades). A revista TIME publicou a lista completa na edição de 10 de novembro de 2025.
“Trabalhar com a produção de alimentos almejando a segurança alimentar usando práticas sustentáveis que permitem ‘defender’ o planeta é um privilégio. Passei a vida pesquisando sobre a substituição de químicos por biológicos na agricultura, sempre que possível. Esse reconhecimento tem um valor enorme, pois valoriza a adoção de práticas sustentáveis na agricultura”, comemora a cientista.
Participação na COP30
Mariangela participará das ações da Embrapa na Agrizone, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 – COP30, que será realizada em Belém (PA), em novembro. “Espero transmitir a mensagem sobre a viabilidade do uso de produtos biológicos para substituir agroquímicos. Com isso, mitigamos a emissão de gases de efeito estufa e também aumentamos o acesso a alimentos de qualidade”, declara.
O governo instituiu a Medalha de Mérito Apolônio Salles em 1987 para destacar cidadãos que prestam serviços relevantes à agricultura brasileira. A solenidade contou com a presença do secretário-executivo adjunto do Mapa, Cleber Soares, e de representantes do setor produtivo, da academia e de instituições públicas.
A pesquisadora Mariangela Hungria, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), conquistou o Prêmio Mundial da Alimentação 2025 (World Food Prize) durante o Diálogo Internacional Norman E. Borlaug, realizado nesta semana em Des Moines, Iowa, Estados Unidos. A cientista brasileira torna-se a primeira mulher do país e a décima do mundo a receber a distinção conhecida como o “Nobel da Agricultura”.
Foto: MAPA
O prêmio reconhece mais de 40 anos de trabalho da pesquisadora no desenvolvimento de insumos biológicos que aumentam a produtividade agrícola e diminuem a dependência de fertilizantes químicos. As descobertas de Hungria transformam a agricultura tropical e colocam a ciência brasileira em posição de destaque no cenário internacional.
A Fundação World Food Prize organizou o evento, considerado um dos mais importantes fóruns globais sobre segurança alimentar e inovação agrícola. Representantes de 41 países participaram da cerimônia, incluindo líderes governamentais, cientistas, agricultores, executivos de instituições financeiras e organizações internacionais.
Ministério da Agricultura celebra conquista brasileira
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) enviou ao evento o secretário-executivo adjunto Cleber Oliveira Soares, que enfatizou a importância da ciência e da inovação para fortalecer a agricultura sustentável.
“Mariangela representa o compromisso do Brasil com uma agricultura sustentável, baseada em ciência e inovação. Sua trajetória destaca o importante papel das instituições públicas de pesquisa e o investimento contínuo em tecnologias que unem produtividade, inclusão e preservação ambiental”, afirmou Soares.
Legado de Norman Borlaug inspira reconhecimento
Mashal Husain, presidente da Fundação World Food Prize, destacou que o trabalho da pesquisadora brasileira segue o legado de Norman Borlaug, fundador do prêmio e vencedor do Nobel da Paz de 1970.
Foto: MAPA
“Mariangela é exatamente o tipo de cientista que Dr. Borlaug buscava: alguém que transforma conhecimento em resultados práticos para o agricultor. Sua atuação reflete o espírito do prêmio e o compromisso global com a segurança alimentar”, declarou Husain.
Brasil lidera produção de alimentos de baixo carbono
A premiação reforça a posição do Brasil como referência mundial em pesquisa agropecuária, uso de tecnologias sustentáveis e produção de alimentos de baixo carbono. O país demonstra como instituições públicas de pesquisa contribuem para a segurança alimentar global através da inovação científica.
O World Food Prize existe desde 1986. E homenageia pessoas que contribuem significativamente para o combate à fome e para a promoção de sistemas alimentares sustentáveis. A premiação mantém vivo o legado da “Revolução Verde”. E inspira novas gerações de cientistas e gestores públicos a enfrentar os desafios da segurança alimentar mundial.
A cientista brasileira Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, foi laureada com o Prêmio Mundial da Alimentação (World Food Prize), considerado o “Nobel” da agricultura. Nesta semana, a sede da Fundação World Food Prize, nos Estados Unidos, sediou o anúncio que reconhece seu trabalho pioneiro, responsável por ajudar o Brasil a se tornar uma potência agrícola global.
Com mais de 40 anos dedicados à pesquisa em microbiologia do solo, Mariangela desenvolveu tecnologias inovadoras que substituem fertilizantes químicos por tratamentos biológicos, promovendo a fixação biológica de nitrogênio – um processo natural em que bactérias do solo fornecem nutrientes essenciais para as plantas. “Substituir o uso de produtos químicos por produtos biológicos na agricultura tem sido a luta da minha vida. Tenho muito orgulho de contribuir para a produção de alimentos e, ao mesmo tempo, diminuir o impacto ambiental”, afirmou a cientista em comunicado oficial.
A Embrapa destaca que as tecnologias desenvolvidas por Hungria foram aplicadas em mais de 40 milhões de hectares no Brasil. Gerando uma economia estimada de até US$ 40 bilhões anuais para os agricultores. Além de evitar mais de 180 milhões de toneladas de emissões equivalentes de CO2 por ano. Seu trabalho revolucionou o cultivo de soja, principal produto agrícola brasileiro, além de beneficiar culturas como trigo, milho, arroz e feijão.
Reconhecimento do papel das mulheres na agricultura
Mariangela Hungria também ressaltou o significado do prêmio para a ciência brasileira. E também para o reconhecimento do papel das mulheres na agricultura e na pesquisa científica. “Não consigo acreditar que agora estou recebendo o Prêmio Mundial da Alimentação. Muitas pessoas questionaram minha capacidade ao longo da minha carreira, mas eu acreditei no que estava fazendo e perseverei. Espero que minha conquista inspire outras pessoas a perseguirem suas paixões na ciência”, declarou.
Graduada em engenharia agronômica pela Esalq/USP, com mestrado em solos e nutrição de plantas e doutorado em ciência do solo, Hungria realizou pós-doutorados em universidades internacionais como Cornell, University of California-Davis e Universidade de Sevilla. Desde 1982, atua na Embrapa, onde contribuiu decisivamente para o crescimento da produção agrícola brasileira, que saltou de 15 milhões de toneladas de soja em 1979 para uma previsão de 173 milhões de toneladas na próxima safra.
O World Food Prize foi criado em 1987 pelo laureado com o Nobel da Paz Norman Borlaug, reconhecido por sua contribuição no aumento da produtividade agrícola mundial e combate à fome. A premiação, que inclui um valor de US$ 500 mil, é entregue anualmente a personalidades que promovem avanços significativos na segurança alimentar global. Mariangela Hungria receberá o prêmio oficialmente em cerimônia prevista para outubro.
Sua trajetória e descobertas científicas reforçam o papel do Brasil como líder mundial na produção agrícola sustentável. Ao mesmo tempo em que promovem a redução do impacto ambiental da agricultura por meio da inovação biotecnológica.
A Universidade de Stanford, em parceria com a editora Elsevier, incluiu 20 pesquisadores da Embrapa no ranking dos cientistas mais citados do mundo em 2023. O levantamento, divulgado em 16 de setembro de 2024, avaliou o impacto científico ao longo da carreira e no último ano.
Os pesquisadores são de 13 unidades da Embrapa, e embora o número total tenha caído de 22 para 20 em relação ao ranking anterior, o número de profissionais presentes em ambas as listas (impacto de carreira e em 2023) aumentou de 11 para 14.
O estudo utiliza a base de dados Scopus para medir a relevância científica, considerando citações acumuladas desde 1996 até o fim de 2023. Além do índice h, são analisadas métricas como citações ajustadas por coautoria e posições de autoria. Os cientistas são classificados em 22 campos e 174 subcampos, com destaque para os 100 mil mais influentes globalmente.
Pioneira na fixação biológica de nitrogênio (FBN), Döbereiner revolucionou a agricultura brasileira ao reduzir a dependência de fertilizantes químicos e impulsionar o cultivo da soja. Sua pesquisa foi fundamental para o avanço do programa Pró-Álcool e ajudou o Brasil a se tornar o segundo maior produtor mundial de soja.
Pesquisadora de filmes e revestimentos biodegradáveis, Azeredo foca no desenvolvimento de embalagens ativas e comestíveis para conservar alimentos. Seus trabalhos utilizam compostos renováveis, ampliando a sustentabilidade no setor agroindustrial.
Especialista em processamento de imagens e aprendizado de máquina, Barbedo desenvolve tecnologias como identificação automática de doenças em plantas e contagem de bovinos por drones, destacando-se na integração de tecnologia com agricultura.
Reconhecido internacionalmente, Brown estuda minhocas como bioindicadores da qualidade do solo e trabalha na relação entre fauna edáfica e produtividade agrícola. Sua pesquisa também aborda o impacto de contaminantes ambientais.
Sequenciou o genoma do eucalipto, liderando pesquisas em genética e genômica aplicadas ao melhoramento de espécies florestais e frutíferas. Seu trabalho também inclui a conservação de recursos genéticos.
Especialista em bioprocessos, Farinas trabalha com bioenergia, biorrefinarias, enzimas e nanocelulose. Seu trabalho na Rede AgroNano tem elevado a aplicação de nanotecnologia no agronegócio brasileiro.
Pesquisadora de referência na fixação biológica de nitrogênio, Hungria desenvolveu tecnologias que impactam o cultivo de soja, feijão e pastagens, promovendo soluções sustentáveis para a agricultura.
Pioneiro em nanotecnologia, Mattoso atua no desenvolvimento de bionanocompósitos, sensores e biopolímeros. Ele coordenou a criação do Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA).
Há quase cinco décadas na Embrapa, Panizzi investiga a bioecologia de pragas agrícolas, contribuindo para práticas sustentáveis de manejo integrado. Ele é autor de mais de 620 publicações científicas.
Engenheiro de materiais, Ribeiro lidera pesquisas em nanomateriais e sistemas de liberação controlada de insumos agrícolas. Sua coordenação da Rede AgroNano destaca o impacto da nanotecnologia na agricultura.
Focado em sanidade de peixes amazônicos, Dias desenvolve tratamentos contra parasitas e avalia o uso de fitoterápicos no cultivo de espécies nativas, contribuindo para a aquicultura sustentável no Amapá.
Químico agrícola, Boddey se destacou por estudos sobre fixação biológica de nitrogênio em gramíneas e leguminosas, além de pesquisas sobre gases de efeito estufa e sequestro de carbono em pastagens.
Com foco na análise sensorial, Deliza investiga a reformulação de alimentos para redução de sódio e açúcar, além da percepção do consumidor sobre novas tecnologias alimentares.
Especialista em fertilidade do solo e adubação, Fageria contribuiu para avanços no cultivo de arroz e feijão, com mais de 320 publicações científicas, incluindo 14 livros.
Estuda a interação entre microrganismos do solo e plantas, buscando soluções sustentáveis para a produção de alimentos, como o controle biológico de patógenos.
Especialista em fisiologia vegetal, atua no desenvolvimento de tecnologias pós-colheita e no uso sustentável de recursos no agronegócio.
Reconhecimento internacional
O ranking reforça o impacto global das pesquisas da Embrapa, destacando sua contribuição para áreas como biotecnologia, sustentabilidade e inovação no agronegócio.
O reconhecimento também evidencia o papel da ciência brasileira no enfrentamento de desafios globais, como segurança alimentar e mudanças climáticas.
A importância da Embrapa para o agronegócio brasileiro
A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) desempenha um papel fundamental no fortalecimento do agronegócio no Brasil, atuando como um motor de inovação e desenvolvimento sustentável. Desde sua criação em 1973, a instituição tem se dedicado à pesquisa e à disseminação de tecnologias que impulsionam a produtividade agrícola e melhoram a qualidade dos produtos.
Os pesquisadores da Embrapa atuam em diversas áreas, desde a fixação biológica do nitrogênio até o desenvolvimento de tecnologias em nanotecnologia e bioprocessos.
Um dos grandes legados da Embrapa é a pesquisa sobre a fixação biológica do nitrogênio, liderada por Johanna Döbereiner,que está na lista dos pesquisadores citados. Isso ajudou o Brasil a se tornar o segundo maior produtor mundial de soja. Essa inovação permitiu a substituição de adubos químicos, trazendo benefícios econômicos e ambientais significativos.
O agro é tech
A Embrapa também se destaca na aplicação de tecnologias digitais no agronegócio. Essa abordagem inovadora não apenas melhora a eficiência das culturas, mas também contribui para a sustentabilidade do setor.
Os desafios enfrentados pelos pesquisadores da Embrapa incluem a escassez de recursos e a burocracia que muitas vezes atrapalha o progresso das pesquisas. No entanto, as contribuições da instituição são inegáveis e impactam diretamente a competitividade do agronegócio brasileiro no mercado global.
Além de suas pesquisas, a Embrapa atua na formação de novos profissionais e na promoção de parcerias com universidades e empresas do setor privado. Essa colaboração é essencial para garantir que as inovações cheguem ao campo e beneficiem os produtores rurais.
Em resumo, a Embrapa é uma peça-chave para o agronegócio brasileiro, promovendo avanços científicos que garantem não apenas a produtividade agrícola, mas também a sustentabilidade e a segurança alimentar no país. O reconhecimento internacional dos seus pesquisadores reforça sua posição como uma das principais instituições de pesquisa agropecuária do mundo, contribuindo significativamente para o desenvolvimento do setor no Brasil e além.